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Pax Hibernica: A Irlanda hoje

Longe dos Conflitos do norte, as primeiras décadas após a formação do Estado Livre Irlandês não foram fáceis. A bem dizer, a Irlanda era uma jovem nação, nascida numa Europa conturbada pelos constantes conflitos e, após tantos séculos de dominação, era preciso que a Irlanda aprendesse a caminhar sozinha.

Com a independência, toda a estrutura de uma sociedade - polícia, forças armadas, administração, judiciário, política tarifária, diplomacia, saúde, transportes, habitação - tudo isso teria de ser desenvolvido a partir do nada. Em 1922, William Cosgrave, presidente do Estado Livre Irlandês após o fim da guerra civil, optou por um caminho cauteloso, mantendo basicamente toda a estrutura de governo e administração pública deixada pelos britânicos.

 

A Irlanda era um país paupérrimo, rural e sem indústrias - e por muitos anos assim perduraria, cunhando a expressão de que a Irlanda era uma amostra do "Terceiro Mundo" às portas do Primeiro. Se há um lado positivo nisso, é o fato de que essa condição "atrasada" da Irlanda permitiu que sua cultura popular e sua paisagem natural se mantivessem saudáveis enquanto o resto do mundo assistia à destruição de recursos naturais para alimentar o capitalismo materialista e a perda das identidades culturais graças à urbanização e globalização.

Num exagero poético, contudo, pode-se dizer que da pobreza e do atraso da Irlanda no século XX nasceu seu mais rico e precioso bem: a poesia da paisagem natural intocada, da cultura tradicional pulsante, da sociedade que, sem urbanização, preserva os valores fundamentais da humanidade pré-industrial.


Agricultor irlandês usa arado tracionado por cavalo em 1961.

 

Esse cenário perduraria até a chegada à presidência, em 1932, de nosso velho conhecido Éamon de Valera. Sua política isolacionista trouxe como conseqüência guerras tarifárias contra os ainda política e economicamente fortes vizinhos britânicos. De Valera dá os primeiros passos rumo à industrialização da Irlanda e a eclosão da II Grande Guerra, aliada às condições de pobreza imperantes, quase fizeram a Irlanda novamente se aliar aos alemães. Mas de Valera adotou uma postura de neutralidade durante todo o conflito.


Nos anos 1950, as terríveis condições econômicas da Irlanda trouxeram de volta o fantasma da depopulação, com a imigração em massa de homens e mulheres para o Reino Unido, a América do Norte e a Oceania - uma reedição em menor escala dos tempos da Grande Fome, que deixou a Irlanda praticamente sem população economicamente ativa. Mesmo assim, a Irlanda permanecia fechada em si mesma, aparentemente lambendo as suas enormes feridas históricas. O radicalismo da Igreja Católica irlandesa contribuiu para esse isolamento - tudo que vinha de fora era visto com suspeição.

Uma postura siolacionista dessas jamais poderá ser positiva - basta ver o destino de outras nações modernas que seguiram este mesmo caminho, como Cuba, Albânia e outros.

Por outro lado, esse isolamento cultural da Irlanda concedeu à sua cultura nativa uma sobrevida que nenbhuma outra nação européia conheceu. Os programas culturais do governo de Dublin, visando o resgate e o fortalecimento da identidade cultural irlandesa após tanto tempo sob a influência de Londres preservaram o idioma gaélico irlandês, fomentaram sua produção literária e musical e trouxeram as velhas canções e tradições do passado de volta à vida.

Foi só com a chegada dos anos 1960 que o cenário começou a mudar, com uma abertura econômica que sepultava os improváveis delírios socialistas de auto-suficiência e trazia a Irlanda definitivamente para o livre comércio, o que gerou um crescimento lento mas gradual da economia e da qualidade de vida dos irlandeses. Culturalmente, a censura imposta por governo e igreja perdia a força, as mulheres ganhavam mais direitos; administrativamente, não havia mais espaço para retóricas nacionalistas, e surgia uma administração nacional mais técnica.

Evidentemente, a instabilidade econômica global dos anos 1970 pôs em risco todas as conquistas da Irlanda, e a década de 1980 viu uma participação mais profunda da sociedade irlandesa em questões polêmicas como a legalização do divórcio e do aborto, em referendos que mobilizaram a opinião pública.


E chegamos aos anos 1990. No mundo globalizado, não havia mais espaço para conservadorismo e intolerância - nem mesmo na Irlanda. A igreja católica perde sua força, a juventude passa a ter mais voz, o crescimento populacional é recorde e a política de incentivos econômicos trazida pelo ingresso na União Européia gera uma onda de prosperidade que faz a Irlanda ser conhecida mundialmente como "Celtic Tiger", o Tigre Celta (uma alusão às potentes economias emergentes dos "Tigres Asiáticos" no mesmo período).

 

Hoje a Irlanda é um país perfeitamente integrado ao mundo do qual faz parte. As relações com seus vizinhos britânicos melhoram cada vez mais, e sua economia foi fortalecida pelo ingresso na União Européia. O dinheiro investido pelo Banco Central Europeu na Irlanda foi canalizado para a recuperação da infra-estrutura - portos, aeroportos e rodovias, e os protocolos acordados para que a Irlanda ingressasse na UE garantiam que o parque industrial irlandês restringisse a instalação de atividades industriais que agridam o meio-ambiente, priorizando a chamada "indústria limpa" - softwares e teconologia da informação.

O progresso acentuado da Irlanda no final dos 1990 trouxe grandes transformações: a pujança da economia irlandesa valheu-lhe o apelido de "Celtic Tiger" - o "Tigre Celta", em alusão aos países do sudeste asiático que, anos antes, apresentaram formidável crescimento.

 

Ironicamente, o maior desafio dessa nova Irlanda passou a ser o de lidar com o movimento inverso: se por séculos os irlandeses deixaram sua ilha em busca de sobrevivência e uma vida melhor em outras terras, agora eram os imigrantes vindos do Leste Europeu e da Ásia que invadiam a Irlanda, atraídos pela estabilidade econômica e social. Passou a existir entre os irlandeses um temor de que a imigração maciça possa trazer problemas sociais no futuro - de ordem prática, como desemprego e criminalidade, mas também de ordem cultural, com a possível perda da identidade irlandesa. Esse é o preço pago pela globalização.

Esses temores passaram a ser ainda maiores após as crises econômicas internacionais dos anos de 2008 e 2009, pois da mesma forma que a especulação imobiliária derrubou bolsas e o mercado bancário nos EUA, na Irlanda o mesmo ocorreu pouco tempo depois.

Entre minhas duas visitas à Irlanda, em 1996 e em 1998, notei diferenças gritantes nalguns pontos - especialmente no aumento do consumismo e do materialismo entre os irlandeses - especialmente em centros urbanos como Dublin e Cork. Comparado com o resto do mundo, contudo, a Irlanda ainda é um oásis.


Evidentemente, aquele estereótipo do irlandês beberrão, piadista e briguento não existe mais - a Irlanda é um país jovem e dinâmico, um centro de referência na exportação de tecnologia de ponta na área da informática, e ainda possui paisagens lindíssimas - a despeito dos avanços do "progresso" rumo ao interior. Atualmente, uma grande polêmica agita a Irlanda e os hibernófilos ao redor do planeta acerca da construção de uma auto-estrada que passa muito próxima da sagrada Colina de Tara, o coração da Irlanda Celta.

 

As constantes manifestações parecem ter sensibilizado o governo, que reduziu o ritmo das obras, aguardando um posicionamento definitivo da sociedade e do poder público. A população irlandesa se renova rapidamente - poucos lugares do mundo apresentam tantos carrinhos de bebê quanto um subúrbio de Dublin! - e mesmo a continuidade de jovens que ainda deixam a Irlanda em busca de uma vida no exterior - e não são poucos! - não chega a causar danos sociais à Irlanda de hoje. E os que ficam, trabalham para si mesmos, mas sem deixar de ter enorme orgulho de sua terra. A Irlanda pode ser um país jovem, mas é também uma nação antiquíssima - e seu povo conhece e se orgulha de seu passado, de sua origem, de sua história.

 

A essa ancestralidade soma-se uma vigorosa jovialidade, uma efervecência cultural e uma economia um pouco mais próspera que, juntas, fazem da Irlanda um destino especial para quem queira conhecer uma terra que ainda é mágica, habitada por gente alegre e hospitaleira, numa rara fusão do que de melhor há nos dois mundos.

Se hoje a Irlanda deixou a bolha de prosperidade e enfrenta novamente incertezas econômoicas inquietantes, é por culpa única e exclusiva das decisões tomadas por seus governantes.

Mas os poetas vêem o mundo de outra forma - e são eles que geralmente propõem as verdadeiras revoluções, como bem atesta a história da Irlanda. em conversa pessoal com o grande poeta irlandês Macdara Woods, ele me disse quase num sussurro, em tom de confidência:

"A longo prazo, talvez seja algo positivo que a Irlanda esteja novamente empobrecida. Deslumbrados com a ilusão do progresso e a ambição dos políticos, nossos jovens acabaram por perder a referência de nosso passado, de nossa história. Talvez o empobrecimento da Irlanda recupere a força de nossa identidade."

Ao escrever sobre a Irlanda, já no século XII o galês Giraldus Cambrensis assim a descreveu:

"Irlanda... separada do resto do mundo conhecido, e devendo de alguma forma ser vista como um outro mundo."

A Irlanda é um dos poucos lugares com essa qualidade divina, em que passado, presente e futuro se fundem harmoniosamente; em que a tradição e o novo convivem lado a lado, sem grandes conflitos.

Como dito no início, ao me dispor a percorrer estes milênios de história da Irlanda, não tive a pretensão de redigir uma história oficial daquelas terras e gentes - minha abordagem não é científica, nem tem a frieza incontestável da fotografia.

Ao contrário: espero que, ao chegar a este ponto, o amigo internauta tenha a percepção de ter visto uma pintura - mais subjetiva e apaixonada do que a frieza de fatos, nomes e datas; uma pintura que retrata a Irlanda não apenas por suas idéias intelectuais ou por suas imagens físicas: o que eu espero ter transmitido nessa pintura de linhas mal traçadas e cores borradas é o retrato de um espírito: a biografia de uma Terra que já nasceu e renasceu diversas vezes, sem com isso perder sua identidade e sua magia.

Mitos e Ciclicidade

Como bem nos ensinam os druidas da Antigüidade celta da Irlanda, tudo é cíclico - e a grande magia da vida está justamente nessa eterna alternância entre crescimento, apogeu, declínio e fim - sempre seguido do reinício.

Os mitos e lendas celtas da Irlanda nos contam como as terras irlandesas assistiram à chegada de uma sucessão de povos míticos e divinos. Esses textos maravilhosos são conhecidos como "O Livro das Invasões da Irlanda" - e esse processo não parou com o último capítulo daquele livro - continuou depois, com a chegada dos gaélicos, do cristianismo, das invasões vikings e de normandos, das lutas e conflitos com os ingleses, as vitórias e derrotas, os períodos de paz e prosperidade - num eterno pulsar que começa com a chegada dos primeiros humanos à Irlanda (ou mesmo antes!) e deságua nas novas invasões: de imigrantes, estudantes, turistas e apaixonados por uma terra que continua viva, independentemente da filosofia, religião ou espiritualidade vigente.

O professor hiberno-americano (norte-americano de origem irlandesa) Edward Hagan afirma que "Na Irlanda, os objetos físicos incorporam o espiritual, independentemente da religião. Shamrocks e pedras são objetos sagrados que incorporam o espiritual. Eles não representam o mundo espiritual: eles são o próprio mundo espiritual."

Barbara Flaherty, poetisa hiberno-americana completa: "O conceito místico da paisagem como portal para o mundo sutil é uma poderosa força que atua através dos artistas e escritores irlandeses". Se não por qualquer outra coisa, no mínimo por manter viva a pecepção de que o Divino não está distante e inatingível, mas sim no "aqui e no agora", o Espírito da Irlanda merece esta homenagem.

Por tudo o que eu tenho recebido do Espírito da Irlanda, através das palavras de seus escritores e dos versos de seus poetas; através dos acrodes de seus músicos e dos sorrisos de suas gentes; através da inspiração de seu Passado e do exemplo para nosso futuro; por tudo isso e muito mais, só me resta concluir este tributo com um sincero, honesto e franco "muito obrigado":

Go raibh math agat!

Bibliografia:
Bell, Brian - Ireland - 1994, Apa Publications (HK) Ltd
Bhreathnach, Edel, Newman, Conor - Tara - 1995, The Government of Ireland
Cahill, Thomas - How the Irish Saved Civilization - 1995, Anchor Books
Duffy, Seán (Ed.) - MacMillan Atlas of Irish History, The - 1997, Macmillan USA
Ferguson, Niall - War of the World, The - 2007, Penguin Books
Harbison, Peter - Pre-Christian Ireland - 1994, Thames & Hudson
MacKillop, James - Oxford Dictionary of Celtic Mythology, The - 1998, OUP
MacKillop, James - Myths and Legends of the Celts - 2005, Penguin
Markale, Jean - The Druids, Celtic Priests of Nature - 1999, ITI
Mitchell, Angus - Roger Casement in Brazil - 2010, Humanitas

Monaghan, Patricia (Ed.) - Irish Spirit - 2001, Wolfhound
Moorhouse, Geoffrey - Sun Dancing - 1997, Harcourt Brace
O'Donohue, John - Anam Chara, A Book of Celtic Wisdom - 1997, Harper Perennial
Pakenham, Thomas - The Year of Liberty - 1997, Weidenfield & Nicholson
Raftery, Barry - Pagan Celtic Ireland - 1994, Thames & Hudson
Somerset Fry, Peter and Fiona - History of Ireland, A - 1993, Routledge

Dedico estas páginas acima de tudo ao espírito de Ériu, Éire, Irlanda; mas também a meus eternos amigos da Família Cox (June, Pete, Brian e Michelle - e a nova geração que vai aumentando!), a Patricia Monaghan e seu inspirado e inspirador trabalho com o Espírito da Irlanda, às queridas Professoras Munira Mutran, Laura Izarra e Beatriz Bastos pelo maravilhoso trabalho à frente da ABEI (Associação Brasileira de Estudos Irlandeses); Ali e todo mundo no O'Malley's; meus amigos Philip Carthy, Robbie Heuston, Maeve McDonnell, Liam Gallagher e os demais integrantes da comunidade irlandesa em SP; a Mike Breslin pelas preciosas horas de filosofia na teachers' room da Cultura Inglesa; a Brendan McAuliffe; a Maria Alice Ancona Lopez e Peter O'Neill (com a gratidão por realizarem o sonho do Irish Institute); a Lorraine Brady e família no Condado de Cavan; aos amigos das bandas Dundalk, Merrow e Leannan Shee - e a todos os hibernófilos que, pelos mitos, pela música, pela história ou por qualquer outro motivo, também ouvem as vozes que atravessam o Atlântico e nos chamam "para casa".
Obviamente, não posso deixar de agradecer à minha filhinha Brigitte, por não se irritar tanto por eu abrir mão de horas e horas em que poderíamos estar brincando juntos para ficar em frente ao computador elaborando estas páginas.

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