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O Estado Livre Irlandês

 

Se há um nome que permeia todas as páginas do renascimento da Irlanda como nação independente do Reino Unido, esse é o de Éamon de Valera. Nascido nos EUA de mãe irlandesa e pai cubano, sua carreira política é tanto brilhante quanto controversa. Um dos líderes do Levante da Páscoa, De Valera é um dos poucos que escapou da onda de execuções – possivelmente por intervenção do embaixador norte-americano. Sua pena foi comutada para serviços sociais em regime fechado, o que lhe permitiu candidatar-se – e vencer – uma eleição local em Clare. Era o início de uma carreira fantástica.

É importante lembrar que estamos em 1917, e a Coroa Britânica ainda está às voltas com os esforços da I Grande Guerra. O "Levante da Páscoa" do ano anterior pode ter fracassado militarmente, mas despertou nos irlandeses a sede por independência. A ameaça de uma Irlanda rebelada que pudesse servir de apoio para os inimigos alemães não deixa aos ingleses outra alternativa senão impor a lei marcial sobre os irlandeses, proibindo-os de formarem associações e organizarem comícios e outras manifestações públicas. Qualquer gesto que desafiasse o domínio britânico – o simples ato de assobiar uma música nacionalista ou de fornecer o nome a um policial britânico no idioma irlandês – era motivo para prisão.

É nesse cenário que a estrela de de Valera começa a brilhar. Ao lado de outros parlamentares eleitos para representar os cidadãos irlandeses na Câmara dos Comuns em Londres, de Valera lidera a criação do primeiro parlamento totalmente irlandês – em desafio ao Império, e diante da imprensa local e britânica. A princípio, os britânicos não reagiram – ainda criam tratar-se de mais uma na interminável lista de estranhos e mal-fadados movimentos patrióticos que pontuavam a história da Irlanda. Mas a coisa tomou vulto, e a criação do Dáil Éireann (o parlamento irlandês) é de fato o primeiro passo rumo à independência.


Membros do Primeiro Dáil Éireann (Parlamento irlandês) - de Valera ao centro.


Como nada na Irlanda é simples, essa independência seria extremamente problemática, especialmente por conta das províncias do norte, predominantemente protestantes e que permaneciam cultural e politicamente fiéis ao Império Britânico. Os membros da Dáil, em Dublin, não admitiam a separação das províncias leais à Coroa; os protestantes não queriam saber de um governo irlandês baseado em Dublin; e os britânicos não tinham mais como controlar seus súditos fiéis no norte. O resultado era inevitável: a guerra civil.

Surge um grupo de guerrilheiros, chamados de Irish Volunteers (acima) e que, logo, passariam a formar o Exército Republicano Irlandês - Irish Republican Army ou, simplesmente, IRA. Suas ações contra os britânicos não são de confronto direto, mas de táticas de guerrilha e sabotagem. Com a população irlandesa, suas ações eram a intimidação e o terror.

A resposta britânica foi à altura: o envio de soldados veteranos que trajavam (por falta de recursos) uma mistura de uniformes militares diferentes – alguns cáqui, outros pretos – e que, por isso, ficaram conhecidos como os “Black and Tans” (ao lado). Além do uniforme, suas principais características eram o rigor e a violência – o cenário estava criado para mais derramamento de sangue.

 

 

É aqui que entra em cena o outro personagem que, ao lado de de Valera, tem papel fundamental na consolidação da República da Irlanda: Michael Collins (abaixo). Comandante do IRA, Collins cria que independência sem violência era algo impossível, e sob seu comando o IRA prossegue em ações violentas contra os britânicos, que retaliavam através dos Black and Tans. Quem pagava, mais uma vez, era a pobre população irlandesa.

Em paralelo, de Valera era eleito o primeiro líder do Dáil, ocupando um posto que equivalia ao de primeiro-ministro de uma Irlanda rebelde, mas ainda vinculada ao Império Britânico. De Valera é o principal nome na consolidação da constituição do Estado Livre Irlandês, e logo o Dáil aprova uma emenda que transforma o posto de Príomh Aire – primeiro-ministro – em presidente de fato. Eamonn de Valera, torna-se, então, o primeiro governante da Irlanda rumo à sua independência.

Como já visto, contudo, as coisas na Irlanda nunca são assim tão simples. Em 1921, quando de Valera designa uma comissão de políticos irlandeses para negociar o Tratado Anglo-Irlandês” (abaixo) dando-lhes plenos poderes, as fissuras que dividiam a política irlandesa surgem de forma dramática – os nacionalistas se dividem entre os radicais, que querem de pronto total independência, e os moderados, que aceitam um status intermediário que cria o Domínio da Irlanda, submisso a Londres, mas com a autonomia que caracterizava, à época, nações integrantes do Império Britânico como o Canadá, por exemplo.

Para piorar, o “Tratado” ratificava a Partição: com a fidelidade britânica das províncias do norte – que formariam a Irlanda do Norte, ainda hoje parte do Reino Unido -, o sonho de uma Irlanda unida em sua independência era sepultado. Essas divergências, claro, acentuaram os conflitos: mais uma vez, a Irlanda se transformava num vasto campo de batalha.

De um lado, cerca de 3.000 mal equipados soldados republicanos irlandeses e suas táticas de guerrilha e intimidação; do outro, 50.000 soldados britânicos – mais 8.000 Black and Tans. No meio, a população. Muitos inocentes foram arrancados de suas camas e executados pelos Black and Tans, como forma de intimidar o IRA; a resposta de Collins foi equivalente: a noite de 21 de novembro de 1920 entrou para a história como o primeiro “Bloody Sunday” (infelizmente houve outro décadas mais tarde - ver adiante).

Naquela noite, soldados do IRA invadiram as casas e hotéis onde viviam os britânicos e promoveram uma verdadeira chacina – alguns comandantes foram assassinados diante dos olhos aterrorizados de suas esposas.

A resposta britânica foi mais violenta ainda – no dia seguinte, um carro blindado britânico invadiu o estádio de Croke Park, cheio de espectadores para uma partida de futebol gaélico entre Tipperary e Dublin (abaixo) e abriu fogo indiscriminadamente. Isso fugia a todas as noções correntes de guerra: era uma violência de gangues, de foras-da-lei (que, diga-se de passagem, marcaria os conflitos do século XX). Como costuma acontecer, alguma coisa sempre muda nesses casos extremos.

Esgotados após tanta violência, tanto os britânicos quanto os irlandeses aceitam mais uma rodada de negociações políticas, instigadas pelo próprio Rei George V. Após longas e exaustivas negociações e incontáveis viagens entre Londres e Dublin, a delegação irlandesa (de Valera permanecera na Irlanda, para escárnio de seus detratores) e o governo britânico, nas primeiras horas do dia seis de dezembro de 1921, puseram fim a sete séculos de domínio britânico na Irlanda.

 

Nascia o “Estado Livre Irlandês” (Irish Free State) - separado do norte, predominantemente protestante e que permanecia ligado ao Império Britânico. Essa divisão histórica – à época chamada de “Partição”, perdura até hoje e ainda geraria muita dor e derramamento de sangue e lágrimas sobre o solo irlandês.

Ao assinar o Tratado, Michael Collins afirmou, "Acabo de assinar minha sentença de morte". Com efeito, não tardaria até ele ser assassinado por radicais republicanos. A paz ainda estava longe.

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