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'Um Império Irlandês':
O papel da Irlanda no Império Britânico

Irlanda e Inglaterra: as ligações entre esses povos vizinhos são mais profundas do que os séculos de intermináveis conflitos militares, religiosos, políticos e culturais podem fazer supor - a começar pelas origens celtas comuns.
(para mais sobre os celtas, ver seção correspondente aqui)

Ao norte da Inglaterra situa-se a Escócia, cujo produto mais famoso é o whisky. Poucos sabem que essa bebida, na verdade, é originalmente uma criação irlandesa: a palavra 'whisky' vem do gaélico irlandês uisge, que significa "água". Como, então, um irlandês diferencia a água 'comum' do whisky em seu idioma? Chamando o whiskey de "uisge beatha" - a "água da vida"!

O próprio nome Escócia, na verdade, significa "Terra dos Irlandeses" - a raiz latina "scotum" significa literalmente "irlandês". Isso porque o reino da Escócia surge a partir de colônias de irlandeses do Reino de Dal Ríada que, séculos antes, atravessaram o estreito braço de mar que separa as duas ilhas ao norte da Irlanda e lá se estabeleceram, influenciando as tribos locais com sua cultura superior.

É inegável que a Inglaterra deve muito à Irlanda, sobretudo no período medieval, como já vimos - e especialmente no campo da religião e da filosofia - muitas igrejas e mosteiros na Inglaterra foram fundados por monges irlandeses - para não mencionar a literatura: alguns dos maiores nomes do que hoje chamamos de Literatura Inglesa são, na verdade, filhos da Irlanda.

Mas o passar dos séculos e as constantes transformações na população das duas ilhas criaram diferenças irreconciliáveis entre ambos - o que não impediu associações importantes, mesmo nos momentos de maior crise - e até mesmo nos momentos em que as relações entre essas duas culturas atingiram seus mais altos níveis de desiguladade, como durante o Império Britânico. Para entender a complexa relação entre Irlanda e Inglaterra, é necessário entender o desenvolvimento dessas duas culturas durante o surgimento, a expansão e o declínio do Império Britânico. Comecemos, conservadoramente, do começo.

Nascimento e expansão do Império Britânico

O nascimento de uma superpotência não é um evento fortuito: depende da combinação de uma série de fatores sociais, políticos, econômicos e internacionais. Em termos simplistas, o Império Britânico começa a nascer com a derrocada das potências atlântica - Portugal e Espanha - e o subsequente controle das rotas marítimas pela nova potência naval: a Inglaterra. Começando com os piratas ingleses que minaram o tráfico de produtos extraídos das Américas por espanhóis e portugueses e extendendo-se até a 2a. Guerra Mundial, a poderosa Marinha Britânica era a chave para o controle político, econômico e militar sobre outras nações - situação que só mudou em meados do século XX, com o surgimento das aeronaves.

Desde seus ancestrais normandos, os ingleses já interferiam nos destinos da Irlanda havia alguns séculos, portanto uma releitura mais cuidadosa da História revela que a primeira "colônia" britânica foi, na verdade, a Irlanda - ainda que os britãnicos jamais tenham usado essa palavra para definir seus vizinhos.

Nos séculos de dominação britânica, a pobreza trazida à Irlanda pelo jugo britânico levaria muitos irlandeses a buscarem emprego em empresas inglesas - sobretudo nas minas, moinhos e tecelagens da Inglaterra durante a Revolução Industrial. Décadas antes, porém, outra importante áre de atividade britãnica atrairia os irlandeses em busca de emprego: a indústria naval.

Nos grandes estaleiros de Liverpool e Belfast, os operários irlandeses construíam os poderosos navios que fariam da Marinha Britânica a formidável força dominante no cenário internacional. A tripulação desses navios também era, em grande parte, composta por filhos da Irlanda - tanto na marinha mercante quanto nas poderosas naus militares que garantiam a união e a expansão do Império Britânico.


Ilustração de 1824 retrata o lançamento do vapor Aurora em Belfast.

Se as naus britânicas construídas e triopuladas por irlandeses interligavam os territórios do Império em todos os continentes, a administração desses territórios também estava, em grande parte, nas mãos de irlandeses - tanto nos escritórios de burocratas (uma minoria) ou, na esmagadora maioria dos casos, nos canteiros de obras de ferrovias, edifícios, estradas e feitorias que o Império levava às suas colônias. Mas era nos campos de batalha - na defesa e expansão do Império Britânico - que a contribuição dos irlandeses era mais perceptível.

 

Irlandeses lutando pelo Império Britânico

 

"É uma curiosa contradição - não muito lembrada na Inglaterra - que durante várias gerações os soldados do exército britânico eram, em sua maioria, irlandeses".
- Cecil Woodham-Smith, historiadora britânica

Costumo dizer que o sangue celta jamais deixará de correr nos irlandeses: a tendência tipicamente celta de lutar em guerras de outros povos é recorrente na história da Irlanda - nas Guerras Napoleônicas, rebeldes irlandeses formaram o "Regimént Irlandaise" e lutaram a favor do imperador francês - contra os ingleses, vistos como inimigos comuns.

Mas há diversos exemplos de irlandeses guerreando a favor do poderoso Império vizinho - por lealdade ou opressão, os irlandeses sempre se mostraram valorosos combatentes e são de fato responsáveis pela construção do Império Britânico, seja em situação de paz, quando milhares de operários irlandeses ajudaram a construir ferrovias e a administrar colônias britânicas nos quatro cantos do mundo ou nos campos de batalha nas fronteiras do Império, como veremos abaixo.

 

Irlandeses dos Connaught Rangers - regimento conhecido como "The Devil's Own", ou seja, "(O Regimento) do próprio Demônio".
Os combatentes irlandeses foram fundamentais na vitória britânica sobre o Império Napoleônico.
Na imagem acima, durante a sangrenta tomada de Badajoz, Espanha.

 

Soldados do Royal Irish Regiment pausam ao lado das pirâmides,
em campanha das forças imperiais britânicas no egito e Sudão.

 


Os irlandeses dos Royal Irish Fusiliers e Royal Dublin Fusiliers mostram sua força no cerco a Pieters Hill, 1900,
nas Guerras Boer (África do Sul).

 

Estes são pequenos exemplos de quão importantes foram os soldados irlandeses para a formação e expansão do chamado Império Britânico. A seguir, uma lista de alguns de seus mais notórios comandantes - todos filhos da Irlanda:




Marechal de Campo Sir Hough Gough (1779-1869)
Um verdadeiro mito do Império Britânico, lutou contra os holandeses na conquista da Cidade do Cabo e contra as Forças Napoleônicas na Espanha antes de entrar para a história com suas campanhas na China e na Índia Britânica. Adorado por seus comandados, Gough costumava trajar um casaco branco em batalha - para ser facilmente visto ao atacar o inimigo.

 

 

Visconde Sir Garnet Woseley (1833-1913)
Nascido nas cercanias de Dublin numa família de passado militar, Woseley alistou-se cedo e logo tomou parte nas constantes guerras de sua época na distante Birmânia, onde de imediato mostrou sua coragem, ao comandar, na tenra idade de 20 anos, um pelotão no assalto de Myat Toon. Posteriormente, seu espírito de comando o levaria a vitórias na Criméia, na China e na Índia. Sempre um profissional da arte da guerra, Wolseley saiu em licença para, em 1862, poder "assistir" à Guerra Civil norte-americana! Voltaria à América do Norte para suprimir revoltas no Canadá, e ainda participaria de muitas batalhas na África, no Egito e no Sudão. Sua brilhante carreira foi coroada com a indicação pela Rainha Vitória para o posto mais alto do exército britânico - o de comandante-em-chefe. Deixou como legado uma importante literatura militar que revolucionou as táticas da época.

 

 


Conde Herbert Kitchener
(1850-1916)
Talvez o último general do período "romântico" e seguramente o último grande militar do Império Britânico, Horatio Herbert Kitchener, nascido no Condado de Kerry de um pai militar, frequentou a escola militar de Snadhurst e era um exímio estrategista e cartógrafo. Serviu nos conflitos no Egito, Sudão, na África do Sul e na Índia, e foi um dos principais nomes das forças birtânicas no início da Primeira Guerra Mundial. Era conhecido por sua ferocidade em combate, e seu carisma e retidão de caráter fizeram dele um verdadeiro ícone na campanha pelo alistamento das tropas britânicas para a Grande Guerra.

 

Como se vê, é perfeitamente possível - e correto - afirmar que o Império Britânico, na verdade, foi construído por mãos irlandesas.

Ambiguidade

Mas depois de tantos séculos de opressão e conflito, como isso seria possível? Justamente por conta da opressão e da dominação britânica sobre a Irlanda. Depois de tantos séculos sob o jugo britânico, os irlandeses ou eram descendentes diretos dos colonos e administradores ingleses, ou acabavam por perder sua identidade cultural. Nascidos na condição de serem "britânicos nascidos na Irlanda", os jovens irlandeses sentiam-se divididos entre a lealdade ao governo que administrava a Irlanda (Londres) e as tradições de sua terra natal (Irlanda). A dicotomia é evidente e os traumas de uma identidade assim dividida são inevitáveis: talvez por isso que Sigmund Freud teria dito que, "dentre todos os povos do mundo, os irlandeses são os únicos que não podem se beneficiar da psicanálise".

À já mencionada motivação econômica - busca de emprego - soma-se esta falta de identidade cultural dos irlandeses. Não era, assim, tão difícil lutar pelo Império - o mesmo Império que oprimia e controlava a Irlanda. Difícil é para alguém de fora entender. E a dificuldade vem da eterna ambiguidade que caracteriza a mente irlandesa desde os tempos celtas: este mundo também é o outro mundo; o cristianismo incorpora o paganismo celta; o normando se torna irlandês; o irlandês luta pelo império britânico; e por aí vai.

Um dos casos mais dramáticos dessa ambígua relação entre a Irlanda e o Império Britânico é a fantástica história de Roger Casement, mais um "britânico nascido na Irlanda": num curto espaço de tempo, Casemente deixa a condição de herói do Império para a de desprezível traidor condenado à morte.

 

Roger Casement: Herói Irlandês, Vilão Britânico

Diplomata e hábil negociador do Império; cavalheiro de virtudes e homem de fé; pioneiro na defesa dos direitos dos povos nativos da África e da América do Sul: parece difícil atacar a biografia de Roger Casement. Com o passar do tempo, todas as susas virtudes seriam negativadas e sua reputação manchada para além do túmulo.

Nascido em 1864 nas cercanias de Dublin, Roger Casement logo viu-se órfão de ambos os genitores, sendo então criado por parentes no Ulster e recebendo educação no seio protestante da Irlanda.

Como diplomata, Casement atuou como Cônsul Britânico no Congo, e ganhou notoriedade ao relatar as terríveis atrocidades promovidas pela administração do Rei Leopoldo II da Bélgica no vizinho "Estado Livre do Congo" - uma imensa colônia de exploração de borracha e cobre que atendia aos interesses pessoais do criminoso monarca belga.

O que Casement viu e relatou no Congo era estarrecedor: em pleno século XIX, as tribos nativas eram forçadas a trabalhar na extração dos produtos que alimentavam a riqueza pessoal do Rei Leopoldo II e subjugadas através de torturas, mutilações e amputações - um regime desumano até mesmo para os padrões da época. O relatório de Casement foi fundamental para que outras nações intercedessem e tomassem de Leopoldo II o controle sobre o Congo, que passou a ser administrado pelo Parlamento Belga como uma colônia, e não como a propriedade particular de um rei tirânico.

 

Não há de ser por coincidência que, após atuar como diplomata no Congo, então uma das maiores fontes de borracha do mundo, Casement tenha sido transferido pelo governo britânico para o Brasil durante o conhecido "ciclo da borracha". Durante sua permanência no Brasil, Casement é um dos primeiros intelectuais a mencionar a real origem do nome Brasil: em seus escritos, Casement registrou que, "o Brasil deve seu nome não à abundância de uma certa árvore, mas à Irlanda. O privilégio de dar nome à grande nação sulamericana, creio eu, pertence tanto à Irlanda quanto à ancestral crença celta, tão ancestral quanto a própria mente celta." (veja mais sobre esta teoria aqui)

 

Após períodos em Belém e em Santos, Casement (acima, no Guarujá) assumiu o posto de Cônsul-Geral na então capital, Rio de Janeiro. Ao integrar uma comissão para estudar denúncias de escravidão e violência no cultivo e extração da borracha na Amazônia peruana, Casement viu-se novamente diante do mesmo cenário tétrico e desumano que relatara no Congo. E mais uma vez, sua ação como defensor dos direitos das populações nativas rendeu-lhe o reconhecimento da sociedade que via no cavalheiresco e altruísta Casement um exemplo de conduta - que culminou com sua condecoração como "Companheiro da Ordem de São Miguel e São Jorge" e "Cavaleiro Celibatário" do Império Britânico. Por todo o Império Britânico, Casement, o pioneiro na defesa dos direitos humanos, era um herói nacional.

 

Duas Faces do Império

Suas experiências no Congo e na Amazônia mostram-lhe outro aspecto do imperialismo: para além do 'progresso' e da administração, o imperialismo dos belgas no Congo, e britânico na Amazônia (a Peruvian Amazon Company era britânica) revelaram-lhe as atrocidades e a violência sofrida pelos povos nativos nas colônias. Como irlandês, Casement percebeu que a condição da Irlanda sob o jugo do Império Britânico não diferia muito: se por um lado a Irlanda não testemunhava mais tortura e atrocidades, por outro o descaso com que o drama da população irlandesa foi tratado pelos britânicos durante a "Grande Fome" décadas antes não devia nada em crueldade ao que Casement testemunhara no Congo e na Amazônia.

Pouco a pouco, sua lealdade para com o Império que representava e que lhe adorava foi sendo por ele mesmo testada e questionada. De volta à Irlanda em 1913, ele deparou-se com um crescente movimento nacionalista que buscava o fim da dominação britânica sobre a Irlanda. Ao lado de outras figuras notáveis irlandesas, Casement ajudou a fundar o movimento conhecido como "Irish Volunteers", sendo co-autor de seu manifesto.

Sob o pseudônimo Shan van Vocht, Casement escreve textos para o periódico nacionalista "Irish Freedom" - Shan van Vocht é uma grafia alternativa para Sean-bhean Bhoct, "velha mulher pobre" - a encarnação da Soberania da Irlanda na forma de uma Anciã, tão comum nos mitos celtas da irlanda na forma da Cailleach Bhéirre. Por seu elevado senso poético, Casement deseja que seus textos sirvgam de porta voz para que os novos guerreiros irlandeses sejam mais uma vez capazes de ouvir a voz da terra, como o faziam os nobres guerreiros de outrora, como o Fionn macCumhaill dos mitos celtas.

Em busca de apoio para a causa nacionalista irlandesa, Casement emprestou seu prestígio internacional numa arriscada viagem à América, onde procurou atrair fundos e simpatia entre os irlandeses e descendentes que haviam imigrado para os Estados Unidos. Arriscada porque expôs seu envolvimento com a causa irlandesa: dali por diante, o Império que ele por tantos anos defendera passaria a vê-lo como um traidor.

Suas ações seguintes fortaleceriam essa condição: primeiro em 1914, quando ele patrocina o contrabando de armas de fogo para alimentar os regimentos nacionalistas irlandeses; e pouco depois quando, às vésperas da 1a Grande Guerra, propõe uma aliança entre Irlanda e o inimigo da Grã-Bretanha: a Alemanha kaiserista.

Num encontro secreto em Nova York, Caement propõe ao diplomata alemão Conde Von Bernstorff que, se os alemães fornecessem armas e treinamentos aos revolucionários irlandeses, estes se rebelariam contra o governo britânico, dividindo a atenção das tropas do Império que já se preparavam para o confronto em solo europeu. As negociações se estenderam, e o gesto mais significativo foi a viagem do próprio Casement para a Alemanha. O antigo cônsul britânico agora viajava como "embaixador do povo irlandês", traindo sua nacionalidade legal britânica em nome de um país que, para todos os efeitos, ainda não existia.

Traidor

A existência da Irlanda como nação soberana, o amor por sua terra e seu horror pelo imperialismo levaram Casement a arriscar tudo: sua reputação, sua condição de herói, sua carreira, sua vida.

Diplomaticamente, sua viagem à Alemanha foi um sucesso: Casement conseguiu do governo alemão garantias de que a Irlanda não seria invadida pelas forças imeriais alemãs "em nenhuma circunstância". Um aspecto de sua viagem, porém, não foi tão bem sucedido. À esta altura a 1a. Grande Guerra já se havia iniciado: os combates deflagrados faziam muitas vítimas e vários prisioneiros de ambos os lados. Dada a grande quantidade de prisioneiros de guerra nas prisões alemãs serem "britânicos nascidos na Irlanda", Casement tentou recrutar entre esse contingente desertores que lutassem pela Irlanda contra o Império Britânico - sem grande sucesso. Afinal, os irlandeses que lutavam pelo Império Britânico o faziam voluntariamente, e a ideia de se rebelar contra seus ex-companheiros não lhes pareceu atraente.

E o apoio diplomático que recebera dos alemães não se materializou no apoio logístico que Casement ambicionara. Em 1916, somente uma parte das armas que os alemães haviam prometido embarcou num navio alemão. Ao contrário do combinado, sem nenhum comandante militar alemão que conduzisse as forças irlandesas. O fracasso seria ainda mais dramático quando esse cargueiro alemão (convenientemente disfarçado de nau norueguesa) foi interceptado e confiscado pela Marinha Britânica.

Nas palavras do historiador Angus Mitchell, sem dúvida uma das maiores autoridades na vida de Casement, "o retorno de Casement à Irlanda não poderia ser mais rico em simbolismo": antes um herói nacional, Casement retorna a sua terra natal um traidor do Império; a viagem de volta num submarino alemão é a metáfora perfeita para suas ações "sob a superfície" - e seu desembarque solitário em solo irlandês ecoava a solidão desamparada a que tinha se atirado em seu fervor nacionalista.


A tripulação do submarino alemão U20 observa o pequeno bote que levou Casement de volta à Irlanda.
Atualmente, esse bote é uma verdadeira relíquia histórica. (Arte: Gerry Embleton)

Casement foi preso pelos britânicos logo após desembarcar, encaminhado para a temível prisão na Torre de Londres sob a acusação de "traidor do Império". A princípio, a população não aceitava que aquele nobre e heróico cavalheiro defensor dos direitos humanos fosse condenado à morte - até mesmo alguns setores da sociedade civil inglesa de certa forma apoiavam Casement. Mas quando o governo britânico publicou o conteúdo de diários supostamente escritos por Casement durante sua permanência na América do Sul, a conservadora e moralista sociedade britânica de então viu-se incapaz de defendê-lo: aos olhos do povo, mais grave do que a traição política era a revelação de que Casement seria homossexual.

O conteúdo dos "Diários Negros" de Roger Casement revela suas relações homossexuais com jovens sul-americanos. Poucos anos antes, Oscar Wilde, outro gênio irlandês, fora condenado à prisão pela Justiça Britânica por revelar-se homossexual. Wilde saiu vivo da prisão, apenas para morrer meses depois com o corpo castigado por uma meningite cerebral e a alma torturada pela humilhação, pela miséria e pelo encarceramento.

Casement sabia que este seria seu destino inevitável. Em momento nenhum Casement pediu clemência ou admitiu as acusações: ao ser julgado como traidor do Império Britânico, Casement alegou não reconhecer nem a acusação, nem o tribunal: a seu ver, ele era um cidadão irlandês e não britânico.

O resultado inevitável foi sua condenação à forca. Aos 51 anos, no dia 3 de agosto de 1916, Roger Casement foi executado na "Prisão de Sua Majestade" em Pentonville, Londres.

 

Um julgamento, vários subtemas

Obviamente, o julgamento de uma figura notória como Roger Casement atraiu a atenção de todo o público - na Grã-Bretanha e fora dela. Não só pela fama do réu, mas também pelas posições contrárias que ele gerou. Muitos protestavam contra o julgamento e pediam clemência - entre estes, intelectuais de peso como WB Yeats, Bernard Shaw e Conan Doyle (todos irlandeses). Mas pouco a pouco, a opinião pública ficou contra Casement.


"High Treason" Na pintura de Sir John Lavery, a desproporcionalidade do apelo de Casement,
um traidor irlandês, diante das figuras agigantadas dos magistrados britânicos à direita.

Em meio à turbulência da 1a Grande Guerra, o Império Britânico não poderia se dar ao luxo de permitir que um traidor fosse condenado a qualquer coisa menos que a morte. Ao mesmo tempo, esse mesmo Império Britânico não podia simplesmente condenar um de seus mais ilustres representantes. O cenário político e as pressões sociais da época foram determinantes para que o julgamento de Casement tivesse cores fortes: não era somente um cidadão sendo julgado porque cometera um crime: no fundo, era todo um Império que tentava manter-se vivo em meio às atribulações de um mundo convulsionado pela guerra.

Ao condenar Casement por traição, a justiça britânica tentava demonstrar que a Coroa ainda era poderosa; ao revelar sua suposta homossexualidade, os britânicos tentavam reafirmar as "virtudes" do Império; e ao enforcar um rebelde irlandês, o Império tentava demonstrar que ainda sabia "lidar" com as colônias. Para alcançar seus intentos, o Império não mediria esforços.

 

Como bem ressalta o historiador Angus Mitchell, uma das maiores autoridades sobre a vida de Roger Casement, o mesmo ano de 1916 assistiria a outra execução "exemplar": a da elefante circense Mary, condenada à morte pela justiça norte-americana e enforcada num guindaste de trem por matar seu tratador durante uma parada. Seria cômico se não fosse tão trágico: em ambos os julgamentos, não é dada a Casement ou à pobre elefante a menor possibilidade de defesa: na tentativa de justificar seus desequilíbrios, a cretinice humana parece de fato não conhecer limites.

 

Forja

A autenticidade dos "Diários Negros" de Roger Casement - base para demolir sua imagem pela acusação de homossexualismo - permanece em discussão. De fato, a investigação legal realizada em 2002 que concluiu pela "autenticidade" dos Diários Negros beira o ridículo: conduzida pelo professor W.J. MacCormack - declaradamente um anti-irlandês - e com exames grafológicos superficiais sem levar em consideração o conteúdo dos textos, o resultado é posto a perder pela postura tendenciosa dos envolvidos e por ignorar elementos fundamentais da biografia de Casement e da comparação do conteúdo dos "Diários Negros" com os seus diários oficiais.

Enterrado em cal numa vala comum como traidor da Coroa, o corpo de Casement só seria trasladado para ser novamente sepultado em solo irlandês em 1965, onde recebeu tratamento de herói nacional. Até em morte, Casement encarnou a Ambiguidade das relações anglo-irlandesas.

Por ocasião do 5o Simpósio de Estudos Irlandeses na América do Sul (Curitiba, 2010), numa conversa informal o historiador Angus Mitchell relatou a história do prato usado por Casement em sua última refeição na prisão. Desprezado pelos ingleses, esse prato teria permanecido no porão do pub londrino que preparou a refeição até ser descoberto por irlandeses que, após insistirem junto ao proprietário, adquiriram o objeto. Levado para a Irlanda, o "Prato de Casement' é hoje uma relíquia quase sacra para os irlandeses; para o proprietário do pub inglês, era só um prato velho usado por um traidor célebre.

Em seu artigo "Secular Relics: Casement's Boat, Casement's dish", a autora norte-americana Lucy McDiarmaid advoga que o status elevado dos objetos relacionados a Roger Casement são como uma catarse dos irlandeses para livrarem-se da culpa por permitirem que Casement fosse aprisionado, condenado e morto pelos britânicos. Seja como for, Por seus feitos, sua importância e sua vida, Roger Casement encarna como ninguém a natureza ambígua e complexa que caracterizou as relações entre a Inglaterra e a Irlanda durante o Império Britânico.

Por estar aprisionado em Londres, Casement não teve chance de participar do evento que um grupo de compatriotas irlandeses deflagaria no dia 24 de abril de 1916 - apenas três dias depois de seu fatídico desembarque no retorno à Irlanda: o evento que, independentemente do resultado, muda para sempre a história irlandesa e marca o início do processo que faz da Irlanda, hoje, uma nação livre e soberana.

Segue para 1916 - O Levante da Páscoa

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