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A Grande Fome

Ainda é difícil crer que, em pleno século XIX – num mundo pacificado pelo incontestável poderio do Império Britânico, que levava aos quatro cantos do mundo as grandes revoluções teconlógicas como ferrovias, navios a vapor e produção em massa – é difícil crer que em meio a tudo isso, em plena Europa, uma nação viesse a perder praticamente um terço de sua população de forma tão trágica. Uma praga voraz (um fungo chamado Phytophthora infestans) atacou seguidamente as plantações de batatas dos camponeses irlandeses, deixando-os literalmente sem alimento por anos a fio. O resultado foi aterrador: terras abandonadas, cidades inteiras desertas, relatos de canibalismo, imigração em massa, doença, morte. Eram os tempos da Grande Fome.

Calcula-se que cerca de um milhão de irlandeses morreu de fome ou doença, e outro milhão e meio atravessou o mar (rumo a Liverpool ou América) nos chamados ‘Coffin Ships’ – os “navios-caixões” (abaixo). Esse mórbido apelido é uma clara referência ao estado deplorável em que os irlandeses desembarcavam na América: enfraquecidos pela "Grande Fome" (An Gorta Mór) e ainda mais debilitados pela longa viagem em navios abarrotados e praticamente sem condições de higiene, a maioria não sobrevivia à travessia.

Enquanto isso, as terras férteis dos ingleses na Irlanda continuavam a produzir grãos e carne. Seria de esperar alguma atitude das autoridades britânicas para aliviar a catástrofe que se impunha aos irlandeses - mas aos britânicos só interessava a exploração da Irlanda: os produtos da terra eram destinados ao comércio exterior.

Mas por que os irlandeses dependiam tanto assim da batata? Porque seu fácil cultivo e produção eram “ideais” para as pequenas propriedades dos irlandeses e suas técnicas rudimentares de agricultura.

Nas palavras do jornalista Brian Bell, “a recusa da Inglaterra em fornecer ajuda é atualmente vista como uma horrenda falta de percepção”. Essa é uma forma suave de descrever a Grande Fome: sufocada por séculos de opressão, repressão, recessão e intolerância britânica, agora a Irlanda via aproximar-se o ‘sonho’ de Edmund Spenser, Oliver Cromwell e outros tiranos birtânicos: o desaparecimento da raça irlandesa.

Muitos irlandeses ainda consideram a negligência britânica como uma forma velada de "genocídio" que gerou uma "diáspora" dos irlandeses pelo mundo - uma tragédia de proporções literalmente bíblicas.


Camponeses esfomeados tentam encontrar algumas batatas não afetadas pela praga.



Às margens do Liffey, em Dublin, um tocante memorial relembra os irlandeses que, famintos,
viam-se obrigados a abandonar sua amada 'Ilha Esmeralda' atrás de sua sobrevivência em outras terras -
a "diáspora irlandesa". (Escultor: Rowan Gillespie)

É aqui que entra a grande ironia: o tão poderoso Império Britânico, “sobre o qual o sol nunca se põe”, foi criado com o sangue e o suor de seus oficiais, funcionários, soldados e adminstradores – e muitos destes não eram ingleses, mas galeses, escoceses – e irlandeses. Pode-se dizer com certeza que foi a força dos homens da chamada “periferia celta” (Irlanda, Gales e Escócia) que deram forma e vida ao Império Britânico.

Fossem essas nações seres humanos, as ligações entre a Irlanda e a Inglaterra alimentariam teses e teses psicológicas. Interdependência, admiração, desprezo, carinho, inveja, amor, ódio, atração, repulsa: os sentimentos se misturam ao longo dos séculos e desafiam a compreensão daqueles que não estão diretamente envolvidos. Nem mesmo a tragédia da Grande Fome seria capaz de diminuir os elos entre ingleses e irlandeses - elos de amor e de ódio.

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