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Opressão Britânica

O domínio normando da Irlanda se caracterizou por uma interminável luta por poder – irlandeses que tentavam recuperá-lo, normandos que tentavam ampliar o que já possuíam. A influência normanda era sentida sobretudo no ambiente urbano, onde conseguiam impor suas leis e suas ordens – mas as áreas rurais permaneciam predominantemente celtas. (acima, Dublin no período normando). Costumes ancestrais, como a criação de filhos por pais adotivos e mesmo o casamento de sacerdotes, ainda eram prática corrente, apesar das proibições dos governantes normandos. Até mesmo os tipicamente celtas banquetes ao ar livre, em que nobres e servos sentavam-se lado a lado, sem barreiras de classe – algo que chocava os normandos - e eram entretidos por poesia e música tocada à harpa, o instrumento arquetípico da Irlanda.


Banquete tradicional irlandês, um ancestral costume celta que perdura até tempos modernos
(note as figuras do bardo e do harpista)

De tempos em tempos, eclodiam conflitos entre irlandeses e a ascendência normanda; a cada nova revolta, medidas mais drásticas para subjugar os irlandeses eram tomadas. O ponto alto da opressão normanda vem com os Estatutos de Kilkenny, que baniram a legislação irlandesa (Leis Brehon), a posse de terras pelos irlandeses, o direito ao comércio, o direito ao apelo às leis inglesas e até mesmo o uso do idioma irlandês. Para os ingleses, a Irlanda era agora uma ampla pastagem com ‘algumas’ pessoas indesejáveis a serem retiradas o quanto antes. Como visto ao longo da História, uma minoria de invasores desproporcionalmente fortes a princípio submete os invadidos, e depois, lentamente, tenta tirar-lhes a identidade.

E, também como visto ao longo da História, quase nunca isso dá certo. Nem mesmo os senhores normandos das terras irlandesas resistem à tendência natural do ser humano em se mesclar: em breve período, a maioria dos senhores feudais normandos da Irlanda já vivia como irlandeses, mantendo poetas irlandeses em suas cortes, falando o idioma irlandês e até mesmo usando seus cabelos longos à moda irlandesa. E quando a Peste Negra chegou à Irlanda, ela praticamente só causou vítimas nos centros urbanos – predominantemente anglo-normandos – sem causar grandes danos à população de irlandeses.

Mesmo assim, o poder crescente da Inglaterra não daria à Irlanda muita chance de se recuperar política e culturalmente; ao contrário: com a instalação da Dinastia Tudor no trono inglês, as coisas tenderiam a se complicar. Henry VIII, Edward VI, Elizabeth I – seus reinados ampliaram os grilhões da Inglaterra sobre a Irlanda, incluindo-se, ainda, o componente religioso: com a adoção do Protestantismo por Henry VIII e seus sucessores, os irlandeses sequer tinham o direito de manter-se católicos.

Shane O'Neill, conde de Tyrone, visita a Rainha Elizabeth I.

 

Aliás, a partir das primeiras levas de “plantações” - o assentamento de protestantes ingleses e escoceses em terras irlandesas – no reino de Edward VI, foi tirado dos irlandeses até o direito de trabalhar as próprias terras: com o banimento dos direitos dos católicos, suas terras eram sumariamente confiscadas e transferidas aos imigrantes protestantes.

E a coisa pioraria ainda mais com a chegada de um severo e puritano general inglês que entraria para a História, entre outras coisas, por ter extinto (temporariamente, é claro) a secular monarquia britânica - e cujo nome ainda hoje soa como um demônio para os irlandeses: Oliver Cromwell.

A esta altura, os ingleses tinham os irlandeses como uma espécie de erva-daninha a ser extirpada de “seu” verdejante jardim irlandês – até mesmo o poeta inglês Edmund Spenser sugeria abertamente uma “solução final” que pusesse fim à “raça” irlandesa. Foi com essa lamentável mentalidade que Oliver Cromwell (esq.) desembarcou na Irlanda com seus mais de 8.000 soldados e 4.000 cavaleiros – os Ironsides, amparados por baterias de canhões, usadas sem cerimônia contra a população civil de Drogheda – em sua maioria, ironicamente, descendentes dos primeiros colonos ingleses. A partir daí, o terror causado pelas notícias da violência de Cromwell em Drogheda se espalharam e facilitaram a tomada de outros centros urbanos. A imposição de diversas tarifas exclusivistas sufocou a já dilapidada economia irlandesa, que não podia exportar sua produção para o crescente mercado da América se não fosse por navios ingleses. Começava a tomar forma o Império Britânico – que seria conhecido como “o Império onde o sol nunca se põe” – mas que impedia que esse mesmo sol brilhasse sobre a ilha vizinha, de fato sua primeira “colônia”.

Com a morte do rei Charles I, sucede-o seu irmão católico, James II – e a notícia de um rei católico novamente sentado no trono britânico soou como um alento para os irlandeses. Mal sabiam eles que as terras da Irlanda seriam o cenário de uma batalha entre dois povos alheios aos anseios dos irlandeses, que lutavam somente pelo poder da coroa britânica: de um lado, os partidários católicos de James II, expulso do trono por uma conspiração dos nobres ingleses protestantes: de outro, seu afilhado holandês William de Orange que, por ser protestante, foi convidado pelos próprios ingleses a invadir a Inglaterra e tomar para si a coroa.

No dia 1º. de julho de 1690, às margens do rio Boyne - sagrado aos irlandeses celtas de outrora como encarnação da deusa Bóann, a Senhora do Gado -, as tropas protestantes do holandês William de Orange (dir.) se engalfinham com os soldados do católico inglês James II. Ainda tomam parte da Batalha do Boyne tropas de dinamarqueses (ao lado de William) e franceses (pró James II), num conflito de proporções continentais que terminou com a vitória dos protestantes e o triste evento conhecido como “o Vôo dos Gansos Selvagens” – as valentes aves migratórias representando os valorosos mas derrotados soldados irlandeses que, num movimento que demoraria a cessar, deixavam a Irlanda às levas para lutar guerras de outras nações. Mesmo na tragédia, a poesia dos bardos celtas jamais deixa de se fazer ouvir na Irlanda.

A Batalha do Boyne é um marco na história da Irlanda: a partir dela, os vitoriosos ingleses protestantes impuseram mais uma série de medidas restritivas aos direitos dos católicos irlandeses, gerando um rancor que ainda hoje pode ser detectado. Todos os aspectos da vida da Irlanda – administração, religião, cultura, comércio – eram controlados pelos britânicos, e os irlandeses gradativamente perdiam sua identidade. As Leis Penais do início do século XVIII restringem os direitos dos irlandeses católicos de educarem seus filhos de acordo com sua religião, de portarem armas, de possuir terras, comercializar – culminando, em 1728, com o veto ao direito a voto dos católicos. Em meados do século XVIII, somente sete por cento das terras cultiváveis da Irlanda estava nas mãos de católicos.

Levaria mais de meio século até que os irlandeses, inspirados pela Revolução Francesa, tentassem reverter essa problemática situação. Os “Irlandeses Unidos” (United Irishmen), idealizados por Theobald Wolfe Tone (esq.), propunham a união de irlandeses “católicos, protestantes e dissidentes” contra o inimigo comum: o controle inglês sobre os destinos da Irlanda.
Esse movimento culminou com a desastrosa – mas heróica - “Rebelião de 1798", cantada em verso em inúmeras baladas que assinalam o nascimento de uma nova identidade irlandesa em sua busca pela liberdade que tão gloriosamente caracteriza seu passado.

 


Cartoon ironiza as lutas dos "United Irishmen" - armados com lanças -
contra os canhões e mosquetes das tropas britânicas.

Por força de seu isolamento e da opressão britânica, de guerras e violência, as grandes revoluções que transformaram o mundo entre os séculos XVI e XVIII não se fizeram sentir na Irlanda – nem Iluminismo, nem Mercantilismo, nem Revolução Industrial. Se no passado a Irlanda havia sido a salvação da cultura ocidental, agora, para todos os efeitos, a Irlanda, a despeito de sua proximidade aos centros de vanguarda dessas revoluções, continuava firmemente plantada na Idade Média, com a terra dividida em pequenas propriedades e uma economia de subsistência com base no cultivo da recém introduzida batata, vinda da América. Ainda assim, as melhores terras, nas mãos dos protestantes, produziam riqueza suficiente para aliviar a economia da Irlanda e minimizar a miséria. Mas ainda estava por vir a grande tragédia, a página mais negra da História da Irlanda e dos irlandeses.

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