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Os Vikings na Irlanda

Pela primeira vez desde a chegada dos mitológicos milesianos - ou, em termos históricos, dos celtas goidélicos -, as terras de Irlanda eram novamente invadidas em grande escala por forasteiros. No ano de 795, Vikings noruegueses que já costumavam pilhar o norte da Grã-Bretanha fizeram sua primeira incursão na Irlanda, atacando os ricos mosteiros insulares de Inishmurray e Inishboffin, no litoral ocidental. Novos ataques se seguiriam, cada vez com mais freqüência, a ponto de os vikings estabelecerem colônias em solo irlandês. As modernas cidades de Wexford, Waterford, Cork e Limerick, além da atual capital, Dublin (abaixo), foram todas fundadas por esses 'estrangeiros claros' (fingaill, que é como os irlandeses identificavam os vikings).


Dublin viking


A partir dessas bases em solo irlandês, os vikings se lançavam contra seus alvos principais, os mosteiros cristãos - ricos não só em tesouros, mas também, por desempenharem a função de centros comunitários, em alimentos armazenados. Diversos objetos de procedência irlandesa foram encontrados em sítios arqueológicos vikings na Noruega e na Dinamarca, comprovando não só os ataques vikings como também - e principalmente - a rica cultura que se desenvolvia nos mosteiros irlandeses. Para protegerem a si a ao seu patrimônio, os monges irlandeses ergueram enormes torres circulares, que serviam tanto como torre do sino da congregação como para abrigar pessoas e bens dos ataques vikings. Um dos mais belos exemplos fica em Glendalough (esquerda), um mosteiro instalado num maravilhoso vale com lagos que é, sem dúvida, um dos mais belos cartões postais da Irlanda.

O sucesso das incursões vikings foi potencializado pela ausência de um sentimento nacional entre os irlandeses - a Irlanda era fragmentada em pequenos reinos, assim como os mosteiros cristãos eram independentes uns dos outros. Refletindo a tradição celta de independência e autonomia tribal registrada pelos romanos séculos antes, na Gália, esses pequenos reinos da Irlanda viviam em constantes conflitos entre si - e o mesmo vale para os mosteiros! Num procedimento que hoje soa bizarro - mas que é perfeitamente compreensível dentro de um enfoque histórico céltico -, eram travadas verdadeiras guerras entre monges de mosteiros rivais - numa delas, por exemplo, ocorrida em 760, as comunidades cristãs de Clonmacnois e Durrow travaram uma sangrenta batalha que resultou em centenas de mortos de ambos os lados - só entre os monges de Durrow, mais de duas centenas perderam a vida ou foram gravemente feridos... Monges irlandeses eram cristãos, mas, antes de mais nada, eram... irlandeses! Por conta dessa desunião territorial e política, não havia na Irlanda um exército nacional, nem mesmo um líder único, que unificasse as defesas da Irlanda contra os invasores vikings.

Uma vez estabelecidos em suas colônias em terra firme, os vikings se tornam também eles alvo de ataques - tanto dos irlandeses que se lhes opõem - os vikings de Dublin chegam a ser expulsos entre 902 e 914 - quanto de outros vikings rivais. Mas a presença dos saqueadores nórdicos na Irlanda não se limita à pilhagem e à guerra: em algumas áreas, irlandeses e vikings desenvolvem uma certa afinidade, mesclando suas culturas e, no caso de alguns irlandeses, até mesmo abandonando o cristianismo e adotando o paganismo nórdico. Durante os conflitos, a população resultante dessa missigenação, conhecida na Irlanda como gall-gaedhil ("irlandeses estrangeiros"), mostrou-se pouco confiável tanto por um lado quanto pelo outro, pois lutavam ora contra, ora a favor de um dos grupos.

A influência viking na Irlanda jamais tomou a ilha como um todo, limitando-se apenas às áreas mais próximas do litoral e avançando ilha adentro somente ao redor de Dublin. Ainda assim, é preciso atribuir aos vikings a criação das primeiras cidades irlandesas, a evolução da navegação e a introdução das primeiras moedas. A esta altura, graças a sua posição privilegiada, Dublin era um dos mais prósperos portos da Europa ocidental.

Outra contribuição viking à História da Irlanda, ainda que indireta, foi o enfraquecimento da dinastia Eóghanachta no Munster, possibilitando a acensão do clã rival dos Dál Cais. Em duas gerações, esse clã produziria se não o maior, um dos maiores reis históricos da Irlanda: Brian Boru (ao lado).

Unificando todos os reinos rivais sob seu comando, Brian Boru foi o primeiro Ard-Rí ('Grande-Rei'*) de toda a Irlanda que não pertencia ao outrora poderoso clã Uí Neill. Por volta do ano 1005, sob Brian Boru, a Irlanda estava unificada - um fato histórico que encontra eco imediato na literatura medieval britânica que fala da ascensão ao trono de um rei que unifica todos os reinos da Grã-Bretanha: Arthur.
*(Apesar de muito usado em tempos recentes, o termo Ard Rí foi cunhado mais recentemente e não figura nos textos legais da Irlanda)

 

 


"Mito e história", nas sábias palavras do Professor Tolkien, "costumam se parecer porque, no fundo, são feitos da mesma substância". Assim como o mais conhecido Rei Arthur, Brian Boru é um rei histórico, cuja vida está mergulhada em mitos. Num desses, ele possui uma harpa mágica - e a harpa, atributo de poderosos deuses celtas pré-cristãos, é ainda hoje um dos símbolos nacionais da Irlanda. Reza a lenda que uma antiga harpa (esq.), atualmente em Trinity College, Dublin, é a harpa original deste importante herói irlandês.

 

O ano de 1014 assistiu a um levante da população viking de Dublin, que se opunha ao poder de Brian Boru, auto-entitulado "Imperador da Irlanda". Na batalha de Cluainn Tarbh ("campos do Touro", ou Clontarf - à direita) contra os vikings de Dublin, Brian Boru impôs sua soberania, mas a um altíssimo preço - sua própria vida. Os 'forasteiros claros', ainda que assimilados, tomaram da Irlanda seu último grande rei. Outros forasteiros ainda estavam por vir, transformando para sempre a vida da Irlanda: alguns vindos do continente europeu, mas a maioria da vizinha ilha britânica; alguns trazendo reforma espiritual, outros trazendo destruição material.

O brilho da Irlanda dos Sábios começava a esmaecer: a turbulência das últimas décadas faz com que os mosteiros deixem de ser centros de sabedoria e até mesmo o monaquismo contemplativo da Igreja Celta logo seria opressivamente substituído pela organização hierárquica e rígida da Igreja de Roma.

 


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