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Idade Média: A Irlanda salva a civilização

Na Irlanda, a sociedade celta já se havia cristianizado e se preservara justamente porque os padres, monges, abades e bispos desempenhavam a mesma função social outrora a cargo dos druidas. Graças à natureza peculiar do cristianismo irlandês, a estrutura social celta sobreviveu na Irlanda até o século XII.
- Jean Markale

A expansão do Império Romano pelo continente europeu praticamente faz nascer a Europa moderna - ao impor a "Pax Romana" aos povos conquistados, os romanos influenciaram a formação de muitas culturas e nações modernas, moldando idiomas, sistemas de governo e de organização social, valores sócio-culturais e até mesmo os aspectos mais mundanos do dia-a-dia, como a administração pública e a organização urbana. Por todo o continente europeu - e também fora dele - a presença romana se fazia notar através de instituições como o Forum, os aquedutos, os circos, as estradas, as legiões, questores, tribunos e administradores, o latim, a urbanização. Mas não na Irlanda.

Quando o Império Romano entra em colapso, deixa por toda a Europa romanizada um vácuo de poder; a fragmentação territorial e a já instalada desurbanização por conta do colapso econômico e administrativo das últimas décadas do Império são a primeira manifestação visível do que viria a ser a estrutura político-social da Europa feudal medieva. Mas não na Irlanda.

Do cadáver administrativo do Império Romano brotaria por toda a Europa sua herdeira em termos de estrutura, influência e extensão - e, por que não dizer, até mesmo nome: a igreja católica apostólica... Romana.

Beneficiando-se da 'conversão' do Império e das suas estruturas administrativas e físicas (as estradas que outrora serviam para o rápido deslocamento das legiões agora transportavam os missionários cristãos), após a queda de Roma a igreja logo se estabeleceria como uma importante potência político-espiritual que, tal como o Império fizera antes, ditará as normas políticas, religiosas, culturais e até econômicas da nova e fragmentada Europa Medieval. Mas não na Irlanda.

Por que a Irlanda manteve-se de fora deste processo continental? em primeiro lugar, como já visto, por seu literal isolamento geográfico; em segundo, porque a máquina administrativa do Império Romano jamais influenciou a sociedade irlandesa, que permanecia basicamente celta - apesar da conversão gradual ao cristianismo. Os diversos reinos e dinastias da Irlanda o século V - como os Clãs Uí Neill, Uí Briúin e Uí Dúnlainge e os reinos de Laigin, Ulaid e Airgialla, por exemplo - ainda preservavam um modo de vida e de política basicamente celta, inclusive colonizando e influenciando diversas regiões da Grã-Bretanha - notadamente, o sul do País de Gales e a Escócia. A própria palavra Escócia significa "terra dos irlandeses" (a partir do latim 'scotum', irlandês).

Livre das mazelas que assolaram a Europa após a queda de Roma, a Irlanda se desenvolve sem tantos conflitos - e até mesmo a terrível 'Peste Negra' que dizimou a população do continente chega à Irlanda muito enfraquecida. O cristianismo contemplativo dos monges irlandeses e seus influentes mosteiros, onde toda sorte de manuscritos era diligentemente copiada e preservada, teria o papel de devolver à Europa clássicos da literatura grega e romana que, no continente, haviam sido destruídos pela intolerância da igreja de Roma e pela negligência gerada poir séculos de guerra, doença e fome.

A partir do séc. VI, missionários irlandeses como Columbano, Colm Cille (Columba), Aidan e Fursa viajam par a Grã-Bretanha e a Gália, fundando uma rede de mosteiros que gradualmente reintroduz a literatura a uma Europa então praticamente iletrada. Os centros monásticos dos irlandeses no continente logo se tornam ilhas de excelência em termos de cultura, treinando e formando sábios que teriam enorme influência nas cortes francas de Carlos Magno. Após deixar a França, São Columbano segue até a Lombardia (moderna Itália), onde funda outro mosteiro em Bobbio. Por tudo isso, São Columbando é considerado, ao lado de São Bento, o fundador do monaquismo europeu.

 

 

 

Vitral com figura de São Columbano

Abadia de São Columbano em Bobbio, Itália

 

Todos esses pensadores irlandeses preservaram de forma inequívoca a tradição tipicamente celta de compreender a natureza como sagrada, identificando em cada característica da paisagem a presença divina. Se antes os druidas reconheciam a natureza como sendo um conjunto de deuses e deusas, agora os cristãos irlandeses viam a presença do seu Deus em tudo: algo que, na Idade Média, poderia perigosamente ser descrito como herético. Desde o místico poema de Amergin, passando pelos ensinamentos druídicos e desaguando nos pensamentos de Johannes Scotus Eriugena, séculos depois, podemos identificar uma continuidade e coerência no pensamento irlandês, que se inicia com os druidas pré-cristãos, e que ainda hoje pode ser sentido no folclore e nas híbridas - ou mesmo sincréticas - manifestações do catolicismo irlandês.

Pois é no século IX, durante o reinado franco de Carlos, o Calvo, que brilha a luz de talvez a mais radiante mente irlandesa da Idade Média: Johannes Scotus Eriugena, "João Irlandês, filho da Irlanda" - um homem tão culto e poderoso que desafiava abertamente os poderes constituídos tanto das coroas da França e do Sacrossanto Império do Ocidente quanto do próprio papado: "toda autoridade que não se curve à razão verdadeira é fraca, e a razão verdadeira não precisa de autoridade alguma a lhe sustentar". Criador de um sistema filosófico que pela primeira vez em séculos remetia aos ensinamentos dos grandes filósofos gregos de outrora, Johannes Scotus Eriugena (dir.)é chamado de "o primeiro filósofo da Idade Média". Em seus sistema filosófico, por ele apresentado em sua obra De Divisione Naturae ("Sobre as Divisões da Natureza), Eriugena resgata a tradição filosófica platônica - com um toque visivelmente céltico-druídico: a exaltação da natureza como sagrada - "a realidade é um contínuo, todas as criaturas de Deus são teofanias do próprio Deus, pois Deus nos fala por elas e através delas", uma visão assim descrita pelo historiador Thomas Cahill:

"Para leitores de um período posterior, mais intolerante, isto soaria perigosamente a panteísmo - a heresia segundo a qual Deus não apenas está em todas as coisas como é todas as coisas - ou seja, não há distinção entre Deus e a criação".

 

 

Em plena Idade Média, nas terras romanizadas e plenamente cristianizadas da França, um irlandês ousava manter vivos os princípios espirituais druídicos da Sacralidade da Natureza: a sorte de Eriugena é que a manifestação mais violenta da intolerância da Igreja de Roma - a Inquisição - demoraria ainda alguns séculos para surgir. E quando surgiu, mesmo mais de três séculos depois de Eriugena, não tardou a determinar que todos os exemplares de De Divisione Naturae fossem destruídos pelas chamas do Santo Ofício.

Cédula de 5 libras irlandesas
comemora Eriugena (anos 1990)

 

A partir dos mosteiros da Irlanda e dos centros de ensino fundados por monges irlandeses no continente europeu, um pouco de cultura e de filosofia voltava a refrescar os viciados ares da cultura da Europa continental. Mas a paz e a prosperidade (material, espiritual e intelectual) dos mosteiros irlandeses logo seriam postas em cheque pela ameaça que vinha do mar, em grupos de hábeis navegadores e ferozes guerreiros: os vikings.

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