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São Patrício, St. Patrick, Paddy...

Da vida do santo às celebrações mundiais do Dia de St. Patrick, esta seção é dedicada a entender quem é São Patrício, padroeiro da Irlanda - história e mito, milagres e magia, cristianismo e druidismo que se mesclam para encarnar a alma dos irlandeses...

Para entender St. Patrick

No Brasil, o ano só começa depois do Carnaval”. A frase é surrada - e um pouco exagerada - mas é perfeita para ilustrar a importância do Carnaval para a cultura local. No âmbito espiritual, a data mais importante para o brasileiro católico é o dia 12 de outubro - Dia de Nossa Senhora Aparecida, Padroeira do Brasil. E em termos de civismo, o dia mais importante é o Sete de Setembro, em que os brasileiros comemoram a Proclamação da Independência, o nascimento da nacionalidade.

Imagine, então, juntar essas três datas numa só: o sentimento pátrio de Sete de Setembro, a devoção religiosa do Dia da Padroeira e a alegria contagiante do Carnaval. Foi o que os irlandeses fizeram: o resultado? ST. PATRICK’S DAY!


O Dia de São Patrício, carinhosamente chamado pelos irlandeses de Paddy’s Day, é a data nacional da Irlanda. Celebrado a 17 de março, marca a data em que, reza a lenda, o santo responsável pela cristianização da Irlanda faleceu. Mas quem foi São Patrício?

MAWEYN SUCCAT

Nascido na Grã-Bretanha no final do séc. IV em uma família de nobres de ascendência romana, Maweyn Succat foi, ainda muito jovem, capturado por piratas irlandeses. Levado como escravo para a Irlanda, Maweyn Succat viveu seis anos no cativeiro, até que a conversão ao cristianismo lhe devolveu a liberdade. Num sonho milagroso, Maweyn Succat ouviu uma voz divina que lhe orientou a fugir até um porto, onde um barco o esperava para levá-lo à liberdade. De volta à Grã-Bretanha, o jovem iniciou seus estudos para tornar-se um sacerdote cristão, estudos esses que culminaram com sua ordenação pelas mãos de São Germano, bispo de Auxerre (França).

Segundo os relatos católicos, após ser ordenado bispo, Maweyn adotou o nome latino de Patricius, que pode ser traduzido como “de origem nobre”. Certa feita, Patrício sonha que os irlandeses lhe chamavam para “uma vez mais caminhar” entre eles. Tomado de grande fervor religioso, retorna à terra de seu cativeiro, desembarcando na baía de Slane a 25 de março de 433.

Patrício valeu-se do conhecimento dos usos e costumes da Irlanda celta, adquiridos durante seu cativeiro, para comunicar-se com a população. Sua estratégia de converter a nobreza em primeiro lugar, segundo consta, facilitou o processo de evangelização dos irlandeses.

Numa dessas oportunidades, Patrício teria apanhado do chão um trevo, com o qual conseguiu explicar aos irlandeses o conceito católico da Trindade. Desde então, o trevo (em irlandês, seamróg) passou a ser um dos símbolos nacionais da Irlanda.


À figura histórica de Patrício, como costuma acontecer nesses casos, foram agregados diversos elementos míticos, muitos de evidente origem pré-cristã. Os próprios feitos atribuídos a Patrício parecem mais adequados nos relatos dos gloriosos deuses e heróis da mitologia celta pré-cristã: levitação, metamorfose, curas milagrosas, duelos de magia...

 

Patrício e os Druidas

Ao contrário do que acontecera em outras terras celtas, à época da chegada de Patrício (oficialmente, em 432) a Irlanda permanecera livre da influência do Império Romano – e, portanto, ainda não havia sido cristianizada. O desejo de Patrício de para lá levar a Nova Religião obviamente encontraria resistência por parte da população local – especialmente se ele tivesse recorrido às então comuns práticas da perseguição às tradições pagãs - como ocorrera em outros locais. Não é o que registram as lendas de Patrício.

Apesar de alguns relatos de confrontos entre Patrício e os druidas - representantes da espiritualidade original dos irlandeses -, o processo de conversão da Irlanda é um dos mais pacíficos de toda a Europa, quase inexistindo “mártires de sangue” (indivíduos que morrem em nome do cristianismo). O zelo dos primeiros monges cristãos irlandeses em preservar, nos famosos manuscritos irlandeses, as crenças e os costumes da Irlanda pré-cristã confirmam uma transição relativamente pacífica do druidismo para o cristianismo.

 

 

Diferentemente dos missionários desalmados de séculos posteriores, os primeiros evangelizadores da Irlanda não visavam a supressão dos mitos e sagas pré-cristãos, pois eles os registraram por escrito - ainda que com ressalvas adequadas a um monge quando o conteúdo se mostrava excessivamente libertino ou violento.
Frei Richard Woods (OP),

Mesmo assim, algumas passagens interessantes dos feitos de Patrício dão conta de verdadeiros duelos mágicos entre o evangelizador cristão e os sacerdotes e filósofos da Irlanda celta. Num desses confrontos, Patrício desafia a autoridade espiritual dos druidas ao acender uma fogueira Pascal no alto da Colina de Slane. Ao avistarem a fogueira a partir da vizinha Colina Sagrada de Tara, os druidas irlandeses partiram ao seu encontro e o que se seguiu foi um confronto de magia do qual o santo, obviamente para os redatores das suas histórias – saiu vencedor. O fato de a Colina de Slane ter sido um local de devoção na Irlanda pré-cristã torna todo o evento bem interessante de um ponto de vista mitológico - o suposto duelo de magia pode ser uma alegoria para explicar a vitória do cristianismo sobre a espiritualidade celta nativa da Irlanda.

Serpentes

A tradição folclórica atribui diversos milagres a Patrício, sendo o mais famoso deles a expulsão de todas as serpentes da Irlanda
(imagem ao lado). Muitos interpretam que esta é uma metáfora para a expulsão dos druidas, representados pela serpente - animal que, na tradição judaico-cristã, está associada ao mal (ainda que em outras culturas a serpente simbolize sabedoria, regeneração e renascimento).

De fato, jamais existiram espécies nativas de serpentes irlandesas - nem depois, nem antes de Patrício (como já observara séculos antes o geógrafo romano Solinus).

 

Noutra passagem, ele entra em confronto direto com um grande druida de nome Lochru. Em seu embate, o Santo ergue Lochru no ar a grande altura, fazendo-o cair em seguida sobre rochas pontiagudas e tirando-lhe, assim, a vida - uma passagem que seguramente ecoa outro confronto da mitologia cristã, entre o apóstolo Pedro e Simão Mago.

Gamo

Mas segurmente o mais interessante feito atribuído a Patrício é a sua capacidade de assumir a forma de um gamo. Por sua pregação cristã, Patrício costumava atrair a ira de druidas que, nalguns momentos, dirigiam-lhe ataques. Numa ocasião, Patrício seguia para Tara, capital da Irlanda celta, na companhia de Bénen, seu seguidor. Para escapar de uma emboscada, ele transforma a si e a Bénen em dois gamos, que passam desapercebidos pelos seus perseguidores. Vemos aqui o eco de uma conhecida técnica xamânica dos druidas da Irlanda, conhecida como féth fiada – “a maestria da névoa” – em que o usuário se torna invisível, amiúde assumindo a forma de um animal. Na passagem em questão, Patrício e Bénen são transformados através de uma oração de evidente cunho xamânico proferida pelo Santo: a famosa prece “O Peitoral de São Patrício.”


O Peitoral de São Patrício

Esta prece, muito conhecida pelos irlandeses, é atribuída a São Patrício, mas é seguramente anterior à sua chegada. Alternativamente conhecida como “O Grito do Gamo”, “O Peitoral de São Patrício” é um poderoso encantamento de proteção, daí o nome “Peitoral” (em latim, “lorica”, a pequena armadura peitoral usada pelos legionários). Esse encantamento segue as fórmulas poéticas dos druidas e bardos da Irlanda celta. Atualmente, existem várias versões levemente diferentes – a que se segue é uma das mais completas.

I
Ergo-me hoje
Por uma força poderosa, a invocação da Trindade
Através da crença na Triplicidade
Através do reconhecimento da unidade
Do Criador e da Criação.


II
Ergo-me hoje
Pela força do nascimento de Cristo em seu batismo,
Pela força de sua crucificação e seu sepultamento,
Pela força de sua ressurreição e sua assunção,
Pela força de seu retorno para o julgamento final.


III
Ergo-me hoje
Pela força do amor do Querubim,
Em obediência aos anjos,
A serviço dos arcanjos,
Na esperança da ressurreição que traga recompensa,
Nas preces dos patriarcas,
Nas predições dos profetas,
Nas pregações dos apóstolos,
Na fé dos confessores,
Na inocência das santas virgens,
Nos feitos dos homens de bem.


IV
Ergo-me hoje
Pela força do paraíso:
Luz do Sol,
Radiância da Lua,
Esplendor do Fogo,
Rapidez do Relâmpago,
Agilidade do Vento,
Profundidade do Mar,
Estabilidade da Terra,
Firmeza da Rocha.


V
Ergo-me hoje
Pela força de Deus em me guiar:
Pelo poder de Deus em me sustentar,
Pela sabedoria de Deus em me orientar,
Pelo olho de Deus por mim a zelar,
Pelo ouvido de Deus a me escutar,
Pela palavra de Deus para por mim falar,
Pela mão de Deus a me guardar,
Pelo caminho de Deus a diante de mim se estender,
Pelo escudo de Deus a me proteger,
Pela hoste de Deus a me salvar,
Das artimanhas de demônios,
Das tentações dos vícios,
De quem quer que me deseje mal,
Longe e perto,
Em conjunto ou na solidão.

VI
Convoco hoje todos esses poderes entre eu e todos esses males,
Contra toda força cruel e implacável que se oponha a meu corpo e minha alma,
Contra os encantamentos de falsos profetas,
Contra as leis negras dos infiéis,
Contra as leis falsas dos hereges,
Contra as artes da idolatria,
Contra os encantamentos de bruxas e ferreiros e feiticeiros,
Contra todos os saberes que corrompam o corpo e a alma humanos.

VII
Cristo a me servir de escudo hoje,
Contra venenos, contra queimaduras,
Contra afogamentos, contra ferimentos,
Para que me seja dada abundância de recompensas.


VIII
Cristo comigo, Cristo diante de mim, Cristo atrás de mim,
Cristo em mim, Cristo sob mim, Cristo acima de mim,
Cristo a minha direita, Cristo à minha esquerda,
Cristo quando me deito, Cristo quando me sento, Cristo quando me ergo,
Cristo no coração de cada um que pense em mim,
Cristo na boca de cada um que fale de mim,
Cristo em cada olho que me vê,
Cristo em cada ouvido que me escuta.

IX
Ergo-me hoje
Por uma força poderosa, a invocação da Trindade
Através da crença na Triplicidade
Através do reconhecimento da unidade
Do Criador e da Criação.

A despeito das muitas referências cristãs, diversos elementos desta belíssima prece são inequivocamente pagãos em seu conteúdo – especialmente a evocação aos Elementos e forças da Natureza nos versos em IV e as tradicionais fórmulas protetivas em V e VII.

Como se pode perceber, diversos feitos descritos como “milagres” do santo são, na verdade, “magia” dos druidas – inquestionável indício da sobrevivência de elementos do druidismo incorporados pelo cristianismo na Irlanda.

Sincretismo

O resultado de uma transição religiosa como essa não poderia ser outro: muitos elementos da espiritualidade da Irlanda pagã são acolhidos pelo cristianismo (um processo que em muito se assemelha ao sincretismo afro-cristão que caracteriza a espiritualidade do brasileiro). Se, como visto acima, mitos pagãos são atrelados à imagem de Patrício, por outro o próprio Patrício é o veículo para a sobrevivência das crenças e lendas druídicas.

Um belo exemplo disso é um diálogo mantido entre Patrício e o nobre Oisin, guerreiro-poeta e filho de Fionn MacCumhaill. Disposto a converter Oisin ao cirstianismo, Patrício tem de lidar com a força e o orgulho do velho guerreiro, que despreza a nova religião. Durante toda a discussão, Oisin lamenta o estado deplorável em que se encontra a Irlanda desde a morte de Fionn e o fim dos gloriosos fianna, dizendo que os homens não são mais valorosos e que a terra é mal administrada. Ao ouvir de Patrício que a alma de Fionn está no inferno, ele anseia por sua morte – “pois então quero ir também eu ao inferno, para ajudar a libertar meu líder!” Diante do orgulho do velho herói, Patrício é obrigado a desistir de convertê-lo. Com a autoridade de sua nobreza, Oisin despede-se de Patricio: "minha história é triste – e o som de sua voz não me agrada. Não será por Deus que verterei meu pranto, mas porque Fionn e os fianna não vivem mais entre nós”.

O “primeiro” Patrício

O sucesso na cristianização da Irlanda é atribuído a Patrício, mas é sabido que ele não foi o único – nem mesmo o primeiro – evangelizador dos irlandeses: no ano de 431, o papa Celestino enviou o bispo Palladius à Irlanda com a missão de cristianizar seus habitantes. Não há registros de seus sucessos, o que torna sua passagem pela Irlanda mais obscura do que a do próprio Patrício. Dependendo das fontes, muitos feitos de um são atribuídos ao outro e vice-versa, mesclando suas vidas e confundindo os estudos.

Seja como for, e sempre de acordo com os registros católicos (muitos deles embasados em suas próprias memórias), Patrício viveu até idade avançada, falecendo de causas naturais no dia 17 de março de 460. Seu túmulo em Downpatrick (abaixo) é hoje local de peregrinação para os católicos irlandeses.

A despeito da escassez de dados que atestem sua canonização, sabemos que uma das forças por trás da popularização do Dia de São Patrício foi o influente clérigo irlandês Luke Wadding (Séc. XVII) que, como membro do comitê que revisou o Breviário católico, fez dele constar o dia 17 de março como dia do santo irlandês. Nascia oficialmente o Dia de São Patrício.

Celebrando o Dia de São Patrício

“Todo mundo é irlandês no dia de São Patrício!”

No dia 17 de março, essa frase ecoa por todo o mundo: da Irlanda à Austrália, dos Estados Unidos à Argentina e até mesmo em países sem grandes colônias irlandesas – como a Coréia e recentemente o Brasil – mais e mais pessoas vestem verde (a cor nacional da Irlanda) para celebrar o orgulho de ser irlandês – nem que seja somente por um dia!

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Este é um dia festivo em que, sob as bênçãos do santo católico, diversos aspectos da cultura irlandesa são enaltecidos – especialmente a música tradicional, a alegria de viver e, claro, a cerveja Guinness - sinônimo líquido da alma irlandesa...

Globalização

A divulgação do Dia de São Patrício aumentou nos anos 1990, quando o governo da Irlanda viu na data uma chance de divulgar a cultura e os produtos irlandeses ao redor do mundo.

Em toda parte, as celebrações do Dia de São Patrício ganham cada vez mais entusiastas: nos Estados Unidos, as paradas de Boston e Nova York são um sucesso: no dia 17 de março, os pubs e bares costumam servir cerveja tingida de verde, e até o Rio Chicago é tingido de verde!

Em Londres, os muitos pubs irlandeses ficam lotados, e até mesmo as praças e parques são ponto de comemorações e celebrações (abaixo, Paddy's Day em Trafalgar Square).


No Brasil, especialmente em São Paulo e Rio de Janeiro, os pubs irlandeses apresentam shows de bandas de música tradicional irlandesa – já é uma tradição o show dos irlandeses do Murphy’s Law no O’Malley’s, o mais irlandês dos pubs irlandeses de Sampa.

Assim, se você deseja curtir o dia de Saint Patrick, vista orgulhosamente uma camisa verde, vá ao pub irlandês mais próximo, peça uma Guinness (ou uma cerveja verde, ou um whiskey, ou...), erga seu copo bem alto e grite, com toda força:SLÁINTE! (saúde, em irlandês...)

Eis um tradicional brinde em verso, para comemorar Saint Patrick’s Day:

São Patricio era um nobre,
Que, por artimanhas e truques,
Expulsou da Irlanda as cobras
Um brinde à sua saúde.

Mas não brindemos muitas
Para não turvarmos a mente,
Esquecendo do bom Patricio
E vendo de novo as serpentes!

FELIZ DIA DE ST. PATRICK!

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