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Tara, Colina dos Reis:
O Centro do Universo

A um visitante desavisado, aquela pequena colina na região do Rio Boyne, condado de Meath, pode passar desapercebida. Elevando-se pouco mais de 150 metros acima do nível do mar, a Colina de Tara não possui nada que, à primeira vista, a diferencie das muitas outras colinas irlandesas. Pesquisas arqueológicas, porém, revelaram vestígios de ocupação humana que recuam quase seis mil anos no tempo (dir.). Como as mega-estruturas de Newgrange, Knowth e Douth, a primeira intervenção humana é anterior à construção das priâmides do Egito. Desde então, o local foi seguidamente ocupado e transformado por levas de habitantes que ali ergueram estruturas predominantemente voltadas para fins espirituais – tumbas e cemitérios, templos, locais de reunião tribal. Nas palavras do Prof. Barry Raftery, “sua função primária era, pelo que tudo indica, ritual.” Edel Bhreathnach e Conor Newman completam: "Tara simbolizava, autenticava e sustentava o tecido da sociedade irlandesa ".

A presença de nascentes sagradas na área da Colina da Tara tornam-na ainda mais importante; desde os tempos mais remotos, as nascentes são tidas pelos irlandeses como portais pra o mundo espiritual - parece lógico: afinal, a água é o elemento fundamental capaz de gerar, nutrir e restaurar a vida. Até por isso, nas mais variadas culturas as fontes e nascentes são sempre vistas como sagradas. Essa percepção da sacralidade da água perdura durante o período celta da Irlanda, e se preserva após a chegada do cristianismo.

O mesmo se aplica à Colina de Tara: ocupada pelos humanos desde tempos imemoriais, ela foi sendo adotada e adaptada por cada nova leva cultural que ali chegava, sempre mantendo sua importância como local de grande importância espiritual - como se vê, a vocação sagrada da paisagem mantém-se presente e viva através das eras e independentemente da cultura que ali se instala.

A sacralidade da paisagem é uma das mais marcantes características da espiritualidade celta – e encontra paralelos em outras culturas também. Em seu livro “The Druids”, o celtista francês Jean Markale afirma que, assim como o Oráculo de Delfos, coração do Mundo Helênico, a Colina de Tara era o centro do universo da Irlanda celta.

A colina pré-histórica de Tara se tornou o centro mítico da ilha – o omphallos (“umbigo do mundo”)
ao redor do qual os grandes encontros políticos e culturais eram realizados
.
- Jean Markale

Essa vocação para ser o “centro do universo” da Colina de Tara é atestada em tempos celtas pelo fato de ali realizarem-se anualmente assembléias presididas pelo Rí Ruirech, o “Rei dos Grandes Reis” da Irlanda. (Apesar de muito usado em tempos recentes, o termo Ard Rí, "Grande Rei", foi cunhado mais recentemente e não figura nos textos legais da Irlanda). A principal dessas assembléias era a Féis Temro, “A Festa de Tara”, um costume tão vigoroso e arraigado na cultura irlandesa que somente seu banimento pelo cristianismo interrompeu sua realização, no séc. VI. Os registros históricos falam do fogo sagrado aceso no alto de Tara por ocasião de Beltaine - festival celta da fertilidade e da vitalidade. Segundo “O Livro das Invasões da Irlanda”, quem inaugurou esse costume foi um druida chamado Míde, que empresta seu nome à província irlandesa onde fica a Colina de Tara – nome esse que sobrevive ainda hoje no condado de Meath.

CENTRO SAGRADO

Esses nomes – Míde, Meath – são traduzidos literalmente como “meio”, “centro”. Tara, portanto, é o centro da Irlanda – como já vimos, o omphallos, o umbigo do mundo. Desde os tempos celtas, a ilha irlandesa é dividida em quatro Províncias – Ulster no Norte, Leinster no Leste, Munster no Sul e Connacht no Oeste. Míde era a quinta Província, o centro sagrado unindo todas a partir do meio – o axis mundi, eixo entre os mundos, ponto focal da espiritualidade das terras irlandesas e reconhecida e eternizada pelos celtas. A própria palavra irlandesa para “província”, cúige, significa literalmente “um quinto” (em irlandês antigo, a palavra “céiced” é usada com o mesmo significado).

Assim, Tara é o centro de Míde; Míde é o meio, o eixo que une as quatro províncias da Irlanda – Norte, Leste, Sul e Oeste – Ulster, Leinster, Munster e Connacht. A unir as Quatro Províncias ao Centro, colossais estradas de madeira foram construídas - nas palavras do Professor James McKillop, foi “uma onda de construções muito além de qualquer obra anterior – e que permaneceram sem paralelo até o início da era moderna”. Segundo uma lenda, essas cinco estradas – Slige Midlúachra, Slige Asail, Slige Chualann, Slige Dála e Slige Mór – surgiram magicamente no nascimento do rei Conn Cétchathach, de quem falaremos mais abaixo.

À esquerda, vemos a escavação de uma dessas estradas feitas com tábuas de madeira tratada. Abaixo, uma reconstrução dá idéia da majestade dessas estradas - verdadeiros decks imensos a ligar as quatro províncias da Irlanda a Tara, seu centro mítico.

(Aos familiarizados com a cultura inca, é simplesmente irresistível o paralelo de Macchu Picchu – o centro do universo – e suas estradas interligando o império inca.)

 

Toda essa disposição da Irlanda - quatro províncias nas quatro direções, unidas por uma província central - é por si só um arranjo mágico, envolvendo as quatro direções e o centro – ou seja, orientando, norteando (no sentido literal dessas palavras) a percepção da terra como entidade sagrada para, assim, compreender seus fluxos, sua energia e sua força. Conforme explicam Alwyn e Brinley Rees, “o quatro representa os quatro cantos mais afastados; e o cinco, o centro do todo.” E citando novamente o Prof. McKillop, “O cinco implica em certeza e força, talvez um vestígio do antigo sistema quinário da Irlanda”. Caitlín Matthews complementa, dizendo que “no texto conhecido como The Settling of the Manor of Tara, o ancestral sábio Fintan nos fala das cinco províncias da Irlanda e suas respectivas qualidades:

"Sabedoria no Oeste; Batalha no Norte;
Prosperidade no Leste; Música no Sul;
Soberania no Centro”.

Não por acaso, essas ‘qualidades’ podem ser facilmente identificadas ao longo da História em cada uma das Províncias (quintos) da Irlanda, e estão preservadas até hoje - ainda que as pessoas não se dêem conta. Como se vê, basta conhecer um pouco o conceito de Espaço Sagrado para perceber que os celtas irlandeses compreendiam de forma magistral como trabalhar essa questão.

Já por ser o centro espiritual da Irlanda, Tara é sagrada. Por ser o centro do poder, assento do Rei Supremo, Tara é ainda mais divina – pois é um conceito tipicamente celta que reza que o rei deve ser sempre um indivíduo “íntegro física, mental e espiritualmente” – ou seja, o soberano celta deveria ser perfeito - caso contrário, não seria digno de desposar a Soberania - o Espírito da Terra Viva. Algumas lendas nos mostram essa ligação sagrada entre a Terra e o Rei, como a importante e simbolicamente riquíssima Baile in Scáil, "O Êxtase do Espectro":

Conn Cétchathach ("das Cem Batalhas") é o primeiro rei de Tara e dali governa toda a Irlanda. Numa tarde, enquanto inspeciona as muralhas de Tara junto a seus druidas, baixa sobre eles um denso nevoeiro que encobre sua visão. Do meio das brumas, surge um cavaleiro que os convida a segui-lo até uma enorme casa com uma coluna central de ouro branco. Conn e os druidas aceitam o convite. Lá chegando, vêem que o interior da casa é totalmente decorado com ouro, e Conn avista uma linda Donzela sentada num assento de cristal, sua cabeça ornada por uma riquíssima coroa de ouro. A seu lado, um trono, sobre o qual se senta um Espectro magnífico - ninguém menos do que Lugh Lámfhota, que lhes explica ser a Donzela a sua esposa: a encarnação da Soberania da Irlanda. Eles banqueteiam e então, quando a Donzela pergunta a quem deve ofertar o cálice com a cerveja vermelha, Lug responde na forma de uma lista de todos aqueles que sucederão a Conn como legítimos Reis de Tara. Em seguida, Lugh, a Donzela e a casa desaparecem - ficando Conn com o Cálice da Soberania.

É evidente que esta antiga lenda irlandesa serviu de inspiração aos trovadores medievais que compuseram as Lendas Arthurianas. O cálice/graal, a pergunta "a quem deve o cálice ser ofertado?" a legitimidade do Rei de toda a Terra (Conn na Irlanda e Arthur na Grã-Bretanha) e, inclusive, o fato de que o filho de Conn se chama... Art MacCuinn - Art, filho de Conn.

A sagrada ligação entre o Rei e a Terra ocorre no centro - Tara - na província do meio - Mídhe. Uma metáfora perfeita da busca pelo equilíbrio, por ser "centrado", que caracteriza a espiritualidade celta.

TARA - O NOME

A grafia Tara é uma 'anglicização' do irlandês Temair. Como bons poetas, os irlandeses sempre brincam com os sentidos e sonoridades das palavras - sejam elas nomes de objetos, lugares, deuses ou pesoas. Para mentes lineares, isso pode até soar estranho - afinal, o mundo moderno ocidental tem uma percepção limitada que diz que "uma coisa é uma coisa", jamais podendo ser outra (essa visão limitada vem sendo destroçada pelos avanços da física quântica). Pois para a Alma Celta, uma coisa pode ser várias; uma palavra pode ter - e tem - diversos significados, um significado pode ter incontáveis interpretações - esta é uma das chaves do pensamento druídico.

Assim sendo, o nome Tara/Temair possui diversas interpretações e origens possíveis - todas elas perfeitamente aceites. A mais comum dá conta de que Temair deriva de tea-múr, a muralha de Téa, esposa de Érémon, rei dos Milesianos. Segundo consta, Téa pede a seu esposo e rei que seu nome seja eternizado por uma muralha erguida ao redor de seu túmulo, que foi criado sobre a colina de Druim Cáin ("o belo topo") - nome dado pelos Fír Bolg à colina que viria a ser eternizada como Temair (Tara).
Outra possível origem para o nome diz que Temair significa "uma elevação com uma bela vista". Pode-se até questionar a origem filológica desta interpretação, mas quem visita Tara jamais duvidaria dela - como atesta a foto abaixo.

TARA APÓS OS CELTAS

Com a chegada do cristianismo, diversos centros culturais, políticos e espírituais da Irlanda celta foram cristianizados ou mesmo banidos e abandonados. Este foi o caso de Tara: depois da cristianização da Irlanda e a proscrição dos druidas e de seus ensinamentos, a ocupação de Tara entra em declínio. Mas o espírito de Tara permanece vivo e mantém sua importância mesmo em tempos cristãos, visto que ao menos três santos irlandeses têm sua vida ligada de alguma forma à Colina de Tara. O primeiro, claro, é São Patrício que, desafiando as antigas tradições druídicas, na Páscoa acendeu uma fogueira no alto da colina sagrada. O que se seguiu, segundo a lenda, foi uma batalha de magia, da qual São Patrício saiu vencedor - o primeiro grande passo para a conversão da Irlanda à nova religião. Tara teria sido também o ponto de encontro entre São Patrício e outro importante santo irlandês: São Brendan, ou São Brandão - o Navegador. Por fim, temos também São Rúadán de Lórrha, que teria convertido ao cristianismo Diarmait macCerbaill, último Rei de Tara a celebrar a Feis Temro. Em todos os casos, o que se vê é a sobreposição da fé cristã ao local sagrado celta.

Mas os espíritos dos locais são poderosos, e mantêm-se vigorosos mesmo que as pessoas não percebam. Tara continuou sendo um local de grande apelo popular, freqüentemente citado nas lendas e no folclore e enaltecido por Geoffrey Keating, o pioneiro historiador irlandês do século XVII. A obra de Keating seguramente inspirou o nacionalista Daniel O'Connell a escolher Tara como local para um dos mais impressionantes eventos da luta irlandesa pela independência: o "Encontro Monstro" de 1843 (esq.), ao qual teriam comparecido mais de um milhão de irlandeses exigindo a retirada do poder britânico.

Atualmente, há no sopé da Colina uma igreja (dir.) – dedicada, previsivelmente, a São Patrício. Essa igreja é recente, mas foi erigida sobre as fundações de outra mais antiga, criada pelos Cavaleiros Hospitalários de São João – uma ordem monástica semelhante aos seus contemporâneos mais famosos, os Templários. Dessa primeira igreja, sobrevive uma coluna de pedra com uma imagem da misteriosa Sheela-na-Gig – a conhecida figura feminina com olhos esbugalhados que grotescamente abre sua enorme vagina, e que paradoxalmente orna diversas igrejas medievais na Irlanda e na Inglaterra.

A imagem da Sheela de Tara (esq.) está bem desgastada, pois reza a lenda ela traz fertilidade a quem passar a mão sobre ela. A julgar pelo desgaste, muitas mãos já a esfregaram. A julgar pela quantidade de crianças nas ruas de qualquer cidade irlandesa, o costume funciona. Em minha primeira visita, por via das dúvidas, fiz questão de acariciar essa poderosa entidade - minha filha Brigitte talvez seja mais uma prova da força da Sheela-na-Gig.

 

O COMPLEXO ARQUEOLÓGICO DE TARA:
Mais de cinco mil anos de ocupação

A sacralidade daquela região é atestada pela grande quantidade de estruturas ali existentes – mais de trinta num pequeno raio de dois quilômetros.

Na própria Colina de Tara, temos as estruturas circulares do Forrad e Téch Cormaic. Ao lado destas, o Monte dos Reféns – todos estes dentro de uma estrutura elíptica maior, conhecida como Ráth na Ríg. Alguns metros ao norte, o Ráth dos Sínodos – parcialmente destruído para a construção de uma igreja – e seguindo em linha reta ainda para o norte, a estrutura retangular conhecida como Téch Midchúarta. A oeste desta, Ráith Gráinne e os círculos gêmeos de Clóenfherta.

 

 

O Forrad

Este pequeno monte de cume plano foi construído em pelo menos três fases distintas: na primeira, foram erguidos três pequenos montes sepulcrais – do tipo em que são depositados os restos mortais de cremações (cinzas), alguns deles ainda utilizados mesmo após a cristianização da Irlanda. Esses três montes sepulcrais foram unidos num círculo delimitado por um fosso e uma paliçada – Téa Múr, o "Muro de Téa".

Ao que tudo indica, o nome Forrad pode significar 'monte, plataforma". É no topo dele que se encontra a Lia Fáil (dir.), a "Pedra do Destino", que canta diante do verdadeiro Rí Temro, "Rei de Tara", rei da Irlanda.

 

Téch Cormaic

Literalmente, "a Casa de Cormac" – uma referência ao grande rei mítico Cormac MacArt, neto do Conn acima mencionado. Esta pequena colina artificial também é circundada por fossos. Vestígios de uma casa circular tipicamente celta são encontrados numa pequena elevação circular um pouco fora do centro da colina – vestígios da morada do rei de Tara?

 

Monte dos Reféns

Este estranho nome é a tradução literal do irlandês Duma na nGiall e é explicado pelo fato de que, de acordo com o costume celta, reinos em aliança mantinham reféns um do outro para assegurar a paz – um costume que sobrevive durante a Idade Média e que é facilmente compreendido se pensarmos que esses "reféns" são como os modernos cônsules e embaixadores. A estrutura, porém, é muito mais antiga: trata-se de um "túmulo de passagem" que remonta a 3.000 a.e.a. e que, como costuma acontecer nessas estruturas, tem sua entrada e sua câmera interna alinhada ao eixo leste-oeste. Em seu interior, os vestígios de cremações de séculos e séculos de uso como sepultura de entes queridos mais uma vez atesta a importância espiritual do local.

 

Ráth na Ríg

"O Forte dos Reis" é o nome dado ao grande círculo (na realidade, uma elipse) que contém o Forrad, Téch Cormaic e Duma na nGiall. A estrutura de fosso e monte é semelhante à dos fortes da Idade do Ferro encontrados por toda a Irlanda e em outros pontos da Europa, a não ser pelo fato de que está invertida. Com efeito, sua disposição em nada impediria a penetração de inimigos – descartando, portanto, qualquer função defensiva. Isso leva muitos especialistas a – mais uma vez – confirmar a função sacra da estrutura. A posterior construção de uma paliçada nos limites do Ráth na Ríg, datando do período cristão, pode ser indicativa de uma mudança no status do local – nas palavras de Edel Bhreathnach e Conor Newman, essas mudanças "refletem o declínio da ancestral estrutura pagã e o surgimento de uma nova ordem cristã, na qual o pragmatismo político sobrepujou os conceitos da santidade pagã".

Ráth dos Sínodos

No século VIII, o abade do mosteiro de Iona, Adomnán, supostamente realizou uma série de sínodos eclesiásticos neste local – daí seu nome. Como nos outros casos, contudo, seu uso é muito anterior ao cristianismo. Esta complexa estrutura de círculos concêntricos foi severamente danificada no início do século XX, quando judeus britânicos se puseram a escavar a área sem o menor critério, crendo que ali encontrariam a 'Arca da Aliança' (!). Em suas várias fases de ocupação, o "Ráth dos Sínodos" foi diversas vezes utilizado como cemitério. O tipo de estrutura – quatro círculos concêntricos – é bastante raro, e só se repete em outros dois sítios: Rathra, no Condado de Roscommon, e Tláchtga, um pouco a oeste de Tara. Além dessa estrutura de múltiplos fossos, todos esses três círculos têm em comum também o fato de terem sido erguidos ao redor de colinas sepulcrais – o que leva a intuir uma rede de monumentos cerimoniais diferenciados. Neste local foram encontrados alguns artefatos romanos, o que levou alguns estudiosos a apressadamente afirmar que a Irlanda fora nalgum momento invadida pelas legiões de Roma. A escassez de artefatos, contudo, parece indicar muito mais o comércio ou mesmo os bens importados - privilégio de algum nobre abastado que tivesse morado na região (sobre a "presença" romana na Irlanda, ver artigo do Dr. Simon James aqui).

 

Téch Midchúarta

O "Salão dos Banquetes" é o criativo nome atribuído pelos escritores medievais à estrutura retangular ao norte do Ráth dos Sínodos. Segundo eles, essa estrutura teria sido um grande salão onde o Rei Cormac MacArt se reunia com sua corte, e foi comparada em esplendor à corte de Salomão, o rei bíblico. Os estudos arqueológicos não suportam essa tese, pois não há indícios de que houvessem paredes e menos ainda um telhado. O mais provável é que Téch Midchúarta tenha sido, na verdade, um cursus, ou 'avenida cerimonial', típicos do Neolítico britânico mas extremamente raros na Irlanda.

A reforçar essa tese, o fato de que, segundo o Dinshenchas, a extremidade sul do monumento terminava num charco, Sescend Temrach ('o charco de Tara'). É sabido que charcos e pântanos – bem como outras massas de água – eram sagrados aos celtas como portais para o Outro Mundo, como atestam as muitas oferendas encontradas em banhados, pântanos, lagos e rios.

Ráth Gráinne

O nome comemora a bela jovem Gráinne que se nega a casar com o grande herói Fionn MacCumhaill e foge com seu amado Diarmuid em Tóraigheacht Dhiarmada agus Ghráinne, "a perseguição a Diarmuid e Gráinne", uma das mais belas – e influentes - lendas de amor da Irlanda celta.

Clóenfherta

"Os Fossos Desmoronados", assim chamados por estarem em terreno bastante íngreme - um fato pouco comum nos montes circulares pré-históricos – foram escavados com grande dificuldade dada a inclinação da área. Esse esforço indica que a localização exata da estrutura deveria ser respeitada – possivelmente por sua importância cerimonial. Uma lenda diz que ali ficava o palácio de Lugaid MacCon, Rei de Tara – e que a estrutura desabou porque ele havia sido injusto numa de suas decisões – os reis celtas precisam ser perfeitos...

Todas essas estruturas compõem o chamado núcleo de Tara – mas ao redor da Colina de Tara encontram-se diversas outras preciosas estruturas arqueológicas com nomes muito evocativos: Ráth Maeve ao Sul, Ringlestown Rath a sudoeste, Riverstown Enclosure a oeste, Rathmiles ao norte e Rath Lugh a nordeste – tudo num curto raio de menos de dois quilômetros da Colina.

Não restam dúvidas de que Tara sempre foi um importante centro de atividade humana: estruturas de uso religioso, cemitérios, sepulturas, sede de grandes reis, local de encontro de druidas, cenário para duelos de magia, monumentais manifestações políticas, batalhas. Quando um lugar assiste a tantas e tão variadas manifestações humanas, é sinal de que ele emana força e atrai as pessoas – mesmo que elas nem se dêem conta disso. No século XIX, o historiador William Wilde – pai do grande escritor Oscar Wilde – assim descreveu a Colina de Tara:

"Ao nos postarmos no topo ou na extremidade sul desta relíquia, e tendo em conta os muitos relatos e lendas bárdicas dos escritores irlandeses, é impossível não recuarmos a antigos e heróicos tempos e novamente, em nossa imaginação, povoar esta área com seus primeiros habitantes. Aqui se sentaram em tempos remotos os reis com suas reluzentes coroas douradas sobre suas cabeças; guerreiros portavam espadas reluzentes; bardos e menestréis com suas harpas; ollamhs com suas barbas cinzentas; druidas com suas coroas de folhas de carvalho..."

Uma visão romântica, é verdade, mas que não deixa de atestar a magia que a Colina de Tara exerce sobre quem a visita.

Tara: onde Druidas e Guerreiros Modernos se Encontram

Tara está sob ataque. Um grande número de homens se aproxima da Colina Sagrada. Portam objetos metálicos de destruição e são amparados por poderosas máquinas. O cerco é total, não parece haver saída – a Colina está sitiada!

A cena, que parece descrever uma das muitas batalhas da Idade do Ferro, na verdade retrata as hostes de operários com pás e picaretas e conduzindo potentes tratores para a abertura da rodovia M3, a poucos metros da Colina de Tara. "Tempo é dinheiro", reza o adágio moderno – e colinas são apenas amontoados de terra e pedras que tomam o tempo e atrasam o mais cultuado 'deus' de nossos dias: o automóvel.

A febre "progressiva" e a busca por enriquecimento que assola a Irlanda desde a injeção de verbas trazida pelo ingresso na União Européia cegou os mandatários daquele país para uma das maiores – se não a maior – riqueza da Irlanda: sua história. O roteiro é conhecido: para "atender às necessidades e demandas" do mundo moderno, para encurtar distâncias e permitir o maior fluxo do tráfego de automóveis, projetos são aprovados, empreiteiras são contratadas, obras são iniciadas... e quem sofre é a paisagem.

 

Toda paisagem é sagrada – e na Irlanda isso fica perfeitamente evidenciado pelas lendas e pelo folclore que enxerga o divino em tudo que há. Dentre todas as características do relevo irlandês, Tara se destaca como uma das mais sagradas. Mas nem ela escapa da ganância de nossos tempos. As obras de construção da rodovia M3 levaram as escavadeiras a cravar suas garras metálicas em importantes sítios arqueológicos, desfigurando para sempre Ráith Lugh (dir.) e outros monumentos menores. Isso gerou uma enorme onda de protestos – a princípio na própria Irlanda, e logo ao redor do mundo.

 

Gente comum se mobilizou em passeatas – em Dublin e no próprio sítio; alguns mais ousados invadiram o canteiro de obras e enfrentaram a polícia (esq.); druidas modernos celebram rituais com freqüência sobre a Colina; atores de Hollywood engrossam o coro; abaixo-assinados e petições online exigem o fim da destruição deste importante sítio. Se não pelo valor histórico, que as autoridades entendam que ali reside o espírito da própria Irlanda. Talvez isso seja pedir demais a gente que, assim como os governantes de outras nações, pouco se importam com cultura, e menos ainda com espírito.

Mas o espírito de Tara se faz ouvir – os guerreiros se mobilizam, os druidas despertam os ancestrais, a luta continua. Cada voz erguida hoje contra a M3 ecoa as vozes heróicas dos ancestrais, num apelo - muitas vezes inconsciente - para que resgatemos a honra e a dignidade da terra em que vivemos.

Seja na Irlanda, na China, na Austrália ou no Brasil, o exemplo de Tara deve ser seguido sempre que a ganância e a ignorância venham a ameaçar a paisagem sagrada, os espíritos do local. Tara era sagrada para os povos neolíticos, continuou sagrada para os reis e druidas celtas, teve sua importância reconhecida pelos cristãos e seu carisma aproveitado pelos nacionalistas irlandeses. Não será uma mera auto-estrada que tirará a glória e o poder do Espírito de Tara.

Uma multidão toma as ruas de Dublin para protestar contra a rodovia M3.
Na Colina, um dos organizadores orienta os participantes para formar uma imagem humana.
O resultado final é belíssimo: corpos humanos formam os dizeres "Salvem o Vale de Tara" e a Harpa, símbolo da Irlanda. (veja o video no Youtube)

Jonathan Rhys Meyers (esq.) e Stewart Townsend (dir.), atores de Hollywood, emprestam seu prestígio à causa.
(entrevista de Rhys Meyers no YOUTUBE)

Em Dublin, três mulheres vestidas como guerreiras celtas representam Bánba, Fótla e Ériu - as três deusas da Soberania da Irlanda - e caminham até o Parlamento Irlandês, exigindo providências para interromper as obras da rodovia M3.

Abaixo, links para os websites de campanhas para preservar a Colina de Tara.

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