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Símbolos da Irlanda

Todo país, toda cultura, todo povo possui seus símbolos, que dão identidade e muitas vezes comunicam valores e expressam ideais dessa cultura. A linguagem dos símbolos é sutil e subjetiva, portanto costuma escapar à mente racional - muito atenta ao concreto mas nem sempre capaz de perceber as mensagens "nas entrelinhas" transmitidas pelos símbolos. Isso vale tanto para a interpretação de brasões heráldicos como do simbolismo em mitos, lendas e textos religiosos - e também na poesia e literatura, nas artes plásticas e nos símbolos de uma nação.

Na apresentação dos símbolos da Irlanda abaixo, veremos como as "idéias" e conceitos de um povo podem sobreviver, ainda que inconscientemente, através de incontáveis gerações e a despeito de inúmeras transformações sócio-culturais.

A Bandeira da Irlanda

Conhecida como "The Irish Tricolour", a bandeira da República da Irlanda foi criada para uma nação única, sem divisões entre norte ou sul nem entre católicos e protestantes, como comprova seu simbolismo. Conforme nos informa o Departamento do Taoiseach (Primeiro Ministro) em documento oficial entitulado An Bhratach Náisiúnta ("A Bandeira Nacional"), a "Tricolor Irlandesa" foi criada em 1848, tendo por base o design da bandeira da República Francesa - à época, um exemplo de luta contra a opressão de estados imperialistas, como a que a Irlanda já por séculos sofria sob o jugo do Império Britânico. Sua primeira apresentação pública ocorreu no dia 7 de março daquele mesmo ano, quando Thomas Francis Meagher, líder do movimento nacionalista Young Irelanders, apresentou-a numa sacada de um edifício em Dublin. Para entender seu simbolismo, contudo, precisamos recuar no tempo, a um período em que a Irlanda era representada por outra bandeira.

Harpa Sobre Campo Verde: A primeira Bandeira da Irlanda

Desde o século XVII, uma bandeira verde com uma harpa dourada ao centro (acima) era usada como bandeira nacional da Irlanda. Já naquela altura, os irlandeses lutavam para se livrar do controle imposto pelos ingleses. A cor verde sempre esteve associada à Irlanda - não é acaso que a Irlanda seja conhecida como "Ilha Esmeralda", por suas verdejantes pastagens e colinas.

Por ser o instrumento tradicional dos bardos e poetas da Irlanda, a harpa sempre esteve intimamente ligada ao passado celta - heróico e independente - da Irlanda (ver mais sobre a harpa abaixo). Nada mais natural, portanto, do que escolhê-la para simbolizar a luta de um povo pela preservação de sua liberdade e identidade cultural. Essa bandeira obviamente era mal vista pelos britânicos, que baniram-na. Na verdade, a harpa em si foi banida durante a dominação britânica, num período em que era comum harpas serem queimadas e harpistas, sumariamente executados. Por tudo isso, a bandeira verde com a harpa dourada era a representação perfeita da luta dos irlandeses (majoritariamente católicos) contra os ingleses (protestantes). A cor verde, portanto, passou a representar o movimento nacionalista dos irlandeses católicos pela sua independência.

Involuntariamente envolvida na disputa pelo trono inglês entre o católico James II e o protestante William de Orange, no final do século XVII, a Irlanda foi o palco da decisiva Batalha do Rio Boyne, de que sai vencedor o segundo. Desde então, os protestantes da Irlanda (em sua maioria, ingleses e escoceses "plantados" pela monarquia inglesa para "anglicizar" a Irlanda) adotaram a cor laranja como símbolo do protestantismo e da ligação à Coroa Britânica, uma forma de homenagear seu grande herói, William de Orange (a cor-de-laranja é a cor oficial da Casa de Orange, a família real nederlandesa).

Eis porque, quando desvelada em Dublin em 1848, a "Tricolor Irlandesa" foi assim explicada por Thomas Francis Meagher (esq.) :

"O branco no centro simboliza a paz duradoura entre os "Laranjas" (protestantes, unionistas) e os "Verdes" (católicos, nacionalistas), e confio que sob suas dobras as mãos dos protestantes e dos católicos da Irlanda possam se apertar em heróica e generosa fraternidade."

Infelizmente, a história mostraria que a esperança de Meagher por uma paz entre católicos e protestantes ainda demoraria a se tornar verdade.

Apesar de utilizada pelos Rebeldes do Levante da Páscoa de 1916, a Irish Tricolour era então um símbolo secundário: a ancestral bandeira verde com a harpa ao centro ainda era a preferida dos nacionalistas republicanos irlandeses, que acrescentaram os dizeres "ÉRIN GO BRAGH" (Irlanda para Sempre) sob a harpa.

Foi somente em 1921, com o surgimento do Estado Livre Irlandês, que a "Tricolor Irlandesa" foi adotada como bandeira nacional, oficializada pelo Artigo VII da constituição irlandesa em 1937, segundo o qual "A bandeira nacional é a tricolor em verde, branco e laranja". Desde então, é usada nos prédios governamentais e pelos irlandeses em geral, nos eventos esportivos, musicais e até mesmo em trajes de banho: a Tricolor Irlandesa é hoje motivo de orgulho.


Bono com a bandeira - Padraig Harrigton, golfista - Torcedores de futebol e rugby - Irlandesas até debaixo d'água

Especificações Cromáticas da Bandeira Irlandesa:
Sistema de cores RGB:
Verde: 0-154-99
Branco: 255-255-255
Laranja: 255-130-61
Sistema Hex:
Verde: #009A63
Branco: #FFFFFF
Laranja: #FF823D
Sistema CMYK:
Verde: 100-0-86-3
Branco: 0-0-0-0
Laranja: 0-48-95-0
     

O Shamrock

A palavra inglesa 'shamrock' é a anglicização do termo irlandês 'seamróg': literalmente "pequeno trevo" ou "trevinho". Entrou para o imaginário irlandês há muito tempo: segundo a lenda, o shamrock (Trifolium repens) teria sido usado por São Patricio para explicar aos irlandeses recém convertidos ao cristianismo o conceito da Santíssima Trindade. Atualmente, crê-se que a verdade seja outra: dada a percepção celta da triplicidade do universo, muitos estudiosos crêem que, na realidade, o processo tenha sido o contrário: os monges irlandeses medievais é que teriam introduzido ao cristianismo o conceito tipicamente celta da triplicidade.

Outro indicador da ancestralidade do Shamrock pode ser percebido nas paredes de uma magnífica estrutura da Irlanda neolítica, ainda mais antiga que os celtas: Brugh na Bóinne, também conhecida como Newgrange. Tanto na enorme pedra que decora a entrada à câmera interior quanto nas paredes dessa câmera, podemos encontrar um símbolo hoje conhecido como 'triskle', muito semelhante ao trevo irlandês.

À esquerda, o triskle na pedra que orna a entrada da estrutura megalítica de Newgrange; à direita, outro triskle, no interior da câmera.

 

 

Em seu excelente artigo Chaos Theory is Irish ("A Teoria do Caos é Irlandesa"), o professor hiberno-americano Edward Hagan afirma que as espirais tríplices de Newgrange e o shamrock "são semelhantes, mas não idênticos. As espirais representam uma marca humana na rocha fria e dura, enquanto que São Patrício aparentemente usou o shamrock recolhido da natureza para explicar a Trindade." Para o Prof. Hagan, ainda que em épocas e culturas tão distintas quanto o Neolítico e a Idade Média, o conceito da triplicidade se fez interpretar pelas mãos e palavras do ser humano.
Ainda segundo o Prof. Hagan, "tanto as rochas entalhadas em Newgrange quanto a pequena planta, ainda que de formas diferentes, expressam uma unidade fundamental entre o um e os muitos", entre a parte e o todo. Pouco importa se a linguagem é o entalhe neolítico, a arte e a mitolgia celta ou a hagiografia do santo cristão: o que importa é a mensagem decodificada nas terras da Irlanda. E, ainda que muitos séculos separem essas diversas manifstações de uma mesma idéia, elas possuem uma continuidade que não é direta, mas sutil; não é transmitida pela mente humana, mas sentida pela alma das pessoas que se dispõem a ouvi-la.

A noção de que um conceito, uma idéia, possa ser 'transmitida' (na verdade, sentida) por pessoas separadas por abismos cronológicos pode soar absurda para a mente moderna. Mas voltando ao Prof. Hagan, ele diz que atualmente "somos oprimidos pela fragmentação e duvidamos que seja possível encontrar continuidade. Mas a continuidade existente entre 3.000 a.e.a. (Newgrange) e a chegada de São Patrício em 432 e.a. me oferecem um certo conforto." Como devem saber os druidas e poetas de todas as eras, os símbolos estão aí, para quem quiser entendê-los - mas não esqueçamos que a compreensão dos símbolos não se dá pela mente racional, e sim pela alma.

Tão precioso é o shamrock para os irlandeses que ele é usado nos logotipos de órgãos governamentais (1), companhias aéreas (2), clubes de futebol (3 e 4) e de basquetebol (5).

(1) (2) (3)* (4) (5)

* o símbolo do Glasgow Celtic - time da colônia católica irlandesa na Escócia - possui um trevo com quatro folhas porque durante muito tempo o shamrock foi banido naquele país.

A Cruz Celta

Encontrada por toda a Irlanda e também na Grã-Bretanha, a cruz celta é um símbolo da riqueza cultural da Irlanda medieval. Seus entalhes ricos e precisos são herança direta da arte celta pré-cristã, e apesar de obviamente associada ao cristianismo, seu simbolismo possui raízes bem mais antigas.

Tradicionalmente, a cruz celta possui quatro 'braços' unidos por um círculo. À primeira vista, elas parecem possuir um braço mais longo na base, mas mesmo as "high crosses" da Irlanda revelam que, originalmente, a cruz celta possui braços de tamanhos iguais, como se percebe na imagem à direita.

Quando assim representada, a cruz celta perde a identificação com a cruz cristã tradicional, quase sempre com o braço inferior mais longo, como no crucifixo - e nunca é demais lembrar que, apesar de prontamente identificada com o cristianismo, a cruz é um símbolo presente em incontáveis outras culturas ao redor do planeta.

Qual, então, é o simbolismo pré-cristão da cruz celta? Um recuo no tempo, ao período pré-cristão da Irlanda, nos porá em contato com a espiritualidade celta e a sabedoria dos druidas, que pautavam seus rituais pela sacralidade dos ciclos da natureza, num processo conhecido atualmente como "A Roda do Ano". Para os druidas, o tempo não é linear mas cíclico, circular - daí a expressão 'roda'. A assinalar as alterações nesse ciclo, quatro festivais, cada um correspondendo a uma das quatro estações, as quais, por sua vez, representam as quatro fases da existência (saiba mais aqui). Da sobreposição da roda aos quatro festivais, o círculo e a cruz.

Atualmente, uma cruz celta de braços iguais é também o símbolo da seleção de futebol da Irlanda do Norte.

A Harpa

De todos os símbolos da Irlanda, talvez o mais rico em significados seja a harpa. As associações entre a harpa e a Irlanda se perdem na noite dos tempos, e ninguém é capaz de precisar quando ou por quem ela teria sido introduzida à Irlanda: alguns estudiosos afirmam que ela foi levada para a Europa ocidental pelos mercadores fenícios, outros recuam ainda mais no tempo e sustentam que a harpa sempre esteve presente, desde a chegada das primeiras levas de povos indo-europeus. Seja como for, é inegável a importância atribuída à harpa nas lendas e mitos da Irlanda, desde os celtas até nossos dias.

A Harpa de Dagda

Seguramente um dos mais marcantes deuses da mitologia celta irlandesa, Dagda é conhecido por possuir um caldeirão mágico que oferece nutrição inesgotável a seus aliados e é capaz de restaurar a vida aos guerreiros mortos que nele são mergulhados. Menos conhecida, porém, é a harpa de Dagda, que somente ele poderia tocar mas que, no mais das vezes, tocava sozinha. Em sua harpa, Dagda inseriu todas as melodias do mundo, inclusive as melodias que regem a passagem das estações do ano.

Um dos nomes da harpa de Dagda, Coircethairchuir, significa “Música - ou Verdade - de Quatro Pontas” e reflete de forma precisa essa ligação com as quatro estações -ou seja, com a Roda do Ano, os quatro festivais celtas que celebram a harmonia e o ritmo (Música) incontestáveis (Verdade) dos mistérios do tempo, como já mencionamos acima.

 

Na imagem, à direita, Dagda e sua harpa Coircethairchuir.

Outra característica da harpa de Dagda é sua capacidade de entoar músicas com finalidades específicas, que induzem os que a escutam ao sono, ao riso ou às lágrimas: música que acalma, que entretém e que emociona. Eis uma ligação direta com os fílidh - bardos e poetas da Irlanda celta e precursores dos menestréis e trovadores medievais, responsáveis por preservar e transmitir a identidade das tribos irlandesas ao recitar suas sagas, sua história e seus mitos - quase sempre acompanhados da melodia de uma harpa.

A Harpa de Brian Boru, o "Arthur Irlandês"

Um rei histórico que no século XI unificou os reinos da Irlanda contra os invasores vikings, Brian Boru, a exemplo de seu contraponto britânico Arthur, possui diversos atributos mágicos e míticos - entre eles, sua harpa. Historicamente, é pouco provável que essa harpa - hoje em exibição no Trinity College, em Dublin - tenha de fato pertencido a Brian Boru: a datação de sua produção recua ao século XV, mais de quatrocentos anos depois da morte de Brian Boru. Seja como for, é provavelmente a mais antiga harpa desse tipo em condições de ser tocada: após mais de duzentos anos de silêncio, coube à harpista Mary Rowland dar novamente voz à "Harpa de Brian Boru".

É o design desta harpa que é usado como Selo Nacional da Irlanda, ornando passaportes (1), documentos e websites governamentais (2) e os logotipos das cervejas Harp Lager (3) e Guinness (4).

(1) (2) (3) (4)

A harpa Irlandesa também é encontrada no logotipo de jornais (5), companhias aéreas (6) e clubes de futebol da Irlanda (7), além, claro, das primeiras bandeiras idealizadas pelos nacionalistas irlandeses, como visto acima.
(5) (6) (7)

Para enfatizar o caráter puramente irlandês e não sectário - nem católico, nem protestante; nem republicano nem unionista - da harpa, basta notar que os regimentos irlandeses do exército britânico sempre a adotaram como insígnia, como nos casos dos Connaught Rangers (1) , Royal Irish Rangers (2) e Royal Dublin Fusiliers (3).

(1) (2) (3)

Na República da Irlanda, a harpa adorna também as moedas como brasão nacional:

Em termos musicais, é impossível falar da harpa irlandesa sem mencionar Turlough O'Carolan, o harpista cego que, nos séculos XVII e XVIII, compôs e registrou muitas das mais belas e conhecidas melodias tradicionais da Irlanda, como Eleanor Plunckett, Planxty Bourke, Ramble to Cashel, The Fairy Queen e Ode to Whiskey.

Mas é evidente que a mais importante associação da harpa na cultura irlandesa é a que liga nossos dias ao glorioso passado celta, em que os druidas, bardos, poetas e ollamh eram os responsáveis pela preservação e transmissão da cultura, dos valores, da justiça, das tradições e da identidade das tribos celtas da Irlanda.

 

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