Sociedade Ecozóica:
Você está preparado?

O que você precisa saber

Thomas BerryNos textos abaixo, uma introdução às preciosas idéias de THOMAS BERRY - geólogo, pensador, visionário.

Com rara habilidade de mergulhar fundo nas QUESTÕES fundamentais de nossos dias a uma igualmente incomum capacidade de oferecer SOLUÇÕES viáveis, o saudoso Professor Thomas Berry nos deixou um legado precioso para, com base em seu conhecimento profundo da história de nosso planeta e das sociedades nativas que estudou e vivenciou, propor um 'novo' modelo de interação entre o ser humano e o mundo em que vivemos.

Não se trata dos delirantes exercícios de imaginação de um 'esotérico' ou um 'místico': a obra de Thomas Berry é o resultado das observações precisas e profundas de um cientista que, em íntimo contato com a energia vital da terra, entendeu seu ritmo, seus anseios e sua essência.

 

A partir dos estudos e teorias de Berry, publicados na forma dos livros The Great Work, The Universe History e The Dream of the Earth, surgiu a "Sociedade Ecozóica" - a segunda geração de pensadores, estudiosos e filósofos que levam adiante o trabalho iniciado pelo Professor Berry. Os textos abaixo, retirados das primeiras publicações da Ecozoic Society nos anos 1990, foram por mim traduzidos e sua publicação autorizada pela própria organziação Ecozoic Studies.

 

SEJA QUAL FOR A SUA BUSCA, QUALQUER QUE SEJA SUA ESPIRITUALIDADE,
LEMBRE-SE: O FUTURO ESTÁ EM NOSSAS MÃOS.

 

Para o Prof. Berry, cada grande cultura na História da Humanidade deixa uma contribuição que o tempo não apaga e que beneficia as civilizações que surgem depois. A essa contribuição Berry dá o nome de "A Grande Obra" de cada cultura. Como exemplos, ele cita que os egípcios nos legaram a arquitetura, os romanos a organização social, os gregos a filosofia e assim por diante.

Ao contrário dos "profetas do apocalipse" que povoam o mundo do ambientalismo e das espiritualidades alternativas modernas, o discurso de Thomas Berry não retrata nossa civilização moderna como um mal, um retrocesso ou um 'plano inferior' na história da civilização humana: ao contrário, por seu conhecimento profundo da história, ele identifica justamente nas características mais atacadas de nossos tempos - a urbanização e a tecnologia - a chave para a grande revolução que nos possibilite reverter o quadro de destruição e exploração desenfreada do planeta em que nos encontramos.

A criação de uma nova sociedade, mais integrada ao meio ambiente, mais consciente de seu papel no planeta e, ironicamente, mais 'humana', é a grande proposta de Thomas Berry: essa é a "Grande Obra' que nos desafia a todos.

Traduzir e divulgar estes textos é uma de minhas contribuições para nossa Grande Obra - qual é a sua?
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Claudio Quintino Crow

 

Sociedade Ecozóica: Artigos

Um Chamado para a Era Ecozóica* - Herman Greene e colaboradores

Resposta Xamânica* - K. Lauren de Bôer

Descobrindo o divino no Universo* - Irmã Gail Worcelo

História da Ciência e do Espírito* - Jody Bourgeois

* © 2006 - Tradução: Claudio Quintino Crow

Uma Espiritualidade para Salvar a Terra - Claudio Quintino Crow

O quão "Verde" é sua Espiritualidade Verde? - Claudio Quintino Crow

 

 

Um Chamado para a Era Ecozóica

Por Herman Greene e colaboradores - 1997-8

 

Todos nós temos nosso trabalho particular. Temos uma variedade de ocupações. Mas além do trabalho que desempenhamos e da vida que levamos, temos uma Grande Obra na qual todos estamos envolvidos e ninguém está isento: é a obra de deixar uma era cenozóica terminal e ingressar na nova Era Ecozóica na história do Planeta Terra. Esta é a Grande Obra.
- Thomas Berry

Thomas BerryO Desafio: precisamos gerar uma Sociedade Ecozóica!

O futuro da comunidade da Terra depende de forma vital da decisão a ser tomada pelos humanos, que se inseriram até mesmo nos códigos genéticos dos processos da Terra. O futuro será decidido pela tensão entre aqueles que se comprometeram com a Era Tecnozóica um futuro com mais e mais exploração do planeta como uma fonte de recursos voltados para o benefício dos seres humanos e os comprometidos com a Era Ecozóica: um novo modelo de relação entre humanos e a Terra, no qual o bem estar de toda a comunidade da Terra é a preocupação fundamental.

Este é o ponto de partida: o fio da navalha, o grande abismo, o chamado à ação e ao comprometimento. Será que pertencemos à Tecnozóica ou à Ecozóica? Nossa resposta ecoará por todas as épocas futuras.

Ainda assim, vemo-nos numa situação onde aparentemente não há modo eficaz de nos livrarmos da empreitada tecnológica que nos rodeia. Este ensaio foi redigido num computador que tomou forma graças a milhares de processos industriais; ele é alimentado por grandes redes elétricas que correm através de campos e florestas. Quando saímos para o trabalho, unimo-nos a homens e mulheres ao redor do globo na aventura contemporânea chamada "Tecnozóica". O que podemos fazer, então?

 

Os Três Pilares

Ainda que existam diversas respostas para essa questão, bem como diversas associações atualmente engajadas na criação da Era Ecozóica, gostaríamos de apresentar os três focos organizacionais que podem lançar luz nas atividades desta área, ao redor dos quais alguns de nós podem até optar por criar novas associações. São essas áreas: a Nova História, o Bioregionalismo e a Espiritualidade Ecológica.

 

1. A Nova História

A narrativa do desenvolvimento criativo do universo desde seu surgimento primordial até o surgimento da Era Ecozóica é ao mesmo tempo um relato científico e um épico mito de criação. Essa história relata como as coisas surgiram e qual o significado e o papel dos humanos no drama contínuo do cosmos. A natureza dupla da história, sua mescla de ciência e mitologia, é o que a torna uma "Nova História". Uma fonte primária para conhecer essa história é o livro The Universe Story, de Brian Swimme e Thomas Berry.

A Nova História precisa ser contada de diversas formas. Ela precisa ser ensinada. Precisa ser lida nas histórias infantis e contada ao pé da lareira e ao lado das fogueiras nos acampamentos. Precisa ser cantada, dançada e expressa na liturgia e na arte. Precisa ser batida nos tambores. Peças orquestrais, óperas e oratórios devem ecoá-la em celebração da aventura evolucionária que acontece por todo o universo.

Contudo, podemos perguntar, por mais fascinante que essa Nova História seja, por que ela é tão importante? Por três razões:

1. a Nova História desperta um sentimento de maravilhamento e mistério na existência e em nossa participação na ordem cosmológica do universo;
2. a Nova História reconecta o indivíduo (e assim o restaura) àquilo que é primordial na família, tribo, clã ou nação o mundo natural de onde o indivíduo vem e do qual ele faz parte;
3. a Nova História fornece uma mitologia unificadora para todas as culturas humanas, bem como uma base para a ação comum para a criação da Era Ecozóica.

Se levarmos tudo isso em consideração ao mesmo tempo, podemos dizer que a Nova Histõria é a dimensão do "SABER" da Sociedade Ecozóica.

 

2. Biorregionalismo

O segundo pilar da Sociedade ecozóica é o Biorregionalismo. Uma "biorregião" é uma divisão geográfica natural da Terra que funciona como uma unidade geo-biológica distinta e relativamente auto-suficiente.

Pensar em termos biorregionais significa perceber os humanos como integralmente relacionados à ordem mundial de suas comunidades locais, e não dominantes sobre elas. O papel dos humanos numa biorregião é apreciar e celebrar a sua diversidade e promover e preservar sua vitalidade.

O biorregionalismo oferece uma nova visão na organização social. Num sentido biorregional, "sociedade" significa toda a comunidade animada e inanimada, toda ela vista como necessária para o funcionamento correto do todo. A ordem social atual, dominada pela ascensão dos estados-nações e das corporações multinacionais, foi conduzida pelo objetivo de dar identidade, liberdade e bem estar econômico aos vários povos da Terra. O nacionalismo, aliado ao progresso, à democracia, aos direitos humanos, à economia de mercado, aos direitos à propriedade privada e aos direitos ilimitados ao ganho material cativaram e orientaram a imaginação humana na era moderna.

Os benefícios desses movimentos, focados na necessidade dos humanos, vem exercendo sobre nós um efeito hipnótico. Só agora começamos a perceber que, quando afastados do contexto de uma visão global da comunidade da Terra, os benefícios oferecidos são frágeis e temporários.

O Bioregionalismo não se opõe à busca por mais bem-estar à comunidade humana. Pelo contrário, ele oferece uma base viável para essa busca, tendo como base a compreensão de que a saúde dos seres vivos em suas muitas formas depende da saúde da Terra. Ao reconhecer que a Terra é uma unidade funcional que o ar, a água, os outros elementos, as múltiplas formas de vida e a energia fluem incessantemente e se interrelacionam por toda a Terra o Biorregionalismo é global em sua orientação. Ao reconhecer que a Terra é uma entidade individual e precisa ser sustentada através da integridade de seus muitos modelos biorregionais, o Biorregionalismo é local em sua orientação.

Intuitivamente, sentimos que a constituição da política biorregional preservaria não somente os direitos dos humanos, mas também os direitos de toda a comunidade geo-biológica. Em termos econômicos, a lei fundamental deve rezar que a economia humana deve ser sustentável e deve preservar o funcionamento da economia da Terra. A riqueza das nações seria aferida pelo esplendor e pela integridade de suas diversas biorregiões vitais e pelas culturas humanas existentes dentro dessas biorregiões.

Motivados pela nova sensibilidade do biorregionalismo, os humanos voltariam a habitar os seus próprios hábitats. Eles voltariam para casa, como se a ela chegassem pela primeira vez. Seus olhos poderiam ver com clareza a grandiosidade e a beleza intricada de suas paisagens naturais, bem como os alarmantes danos causados. Eles passariam a conhecer seus locais tanto pelas ruas, construções e outras características humanas quanto pelas árvores, plantas, animais, rochas e veios d'água. Seus hábitos alimentares e suas vidas observariam a suave ordem dos ciclos sazonais. Eles vivenciariam a comunhão com uma família mais vasta. E também compreenderiam e observariam os princípios básicos da ordem natural - como dependemos uns dos outros, como sustentamos uns aos outros, e como podemos trocar e reciclar as energias e os detritos dos outros.

O biorregionalismo fornece o contexto para um progresso humano verdadeiro, podendo assim ser visto como a dimensão do "FAZER" da Sociedade Ecozóica. O trabalho de apoio à biorregião pode incluir o plantio de hortas comunais na vizinhança; o aprendizado e a divulgação de técnicas de compostagem; o conhecimento das plantas, animais e da geologia locais; a organização de grupos de caminhadas na natureza; o aprendizado e a transmissão de permacultura e conservação ambiental; a mudança dos padrões pessoais e familiares de consumo; o trabalho com empreiteiras, câmaras municipais e sociedades de amigos de bairros no desnevolvimento de comunidades que preservem os hábitats naturais; o aprendizado e divulgação do biorregionalismo e de sua importância para o governo e a economia; e o compartilhar de idéias sobre esforços biorregionais que dão certo.

 

3. Espiritualidade Ecológica

O terceiro e último pilar de uma Sociedade Ecozóica é a Espiritualidade Ecológica. Em nossa grande maioria, nós perdemos o sentido da espiritualidade da Terra e, assim, perdemos também nossa ligação máxima com seus processos naturais. A visão dominante do senso de realidade e de valor nas civilizações clássicas baseava-se na miséria da condição humana e na natureza transiente e trágica da ordem temporal. Como observado por Swimme e Berry em The Universe History, o mundo dos fenômenos foi visto por essa compreensão como opressivo aos aspectos mais exaltados do ser humano. O mundo espiritual e o mundo natural eram vistos como duas ordens diferentes de existência. A convicção que vê o mundo natural como uma realidade inferior, temporal, afastada da realidade superior, eterna, combinou-se aos benefícios aparentes da tecnologia de nossos tempos e juntas tornaram aceitável a crença de que a exploração dos recursos da Terra sem dar importância aos efeitos sobre o ecossistema é positiva.

A Espiritualidade Ecológica tem por base a consciência de que, desde o início, o universo possui uma dimensão psíquica-espiritual e que essa dimensão se manifesta em todos os elementos do universo e no universo como um todo. Como afirma Thomas Berry em seu artigo "The Spirituality of the Earth," quando falamos da Espiritualidade da Terra não estamos nos referindo à Terra como possuidora de uma qualidade objetivamente espiritual como quando observamos a beleza da Terra -, mas sim da espiritualidade da Terra como subjetiva a realidade numinosa interior que dá forma à Terra e da qual compartilhamos. A Espiritualidade ecológica pode ser vista como a dimensão do " SER" da Sociedade Ecozóica.

Em seu sentido mais simples, a prática da espiritualdiade ecológica envolve a reconexão com o mundo natural e sua qualidade numinosa. Isto pode envolver a atenção ao canto das aves, à presença dos ventos e dos mares, e também a absorção de uma noite estrelada ou a proximidade à terra e às sementes.

Para alguns, a espiritualidade ecológica envolve uma dimensão comunal enquanto que, para outros, ela é a prática de uma religião estabelecida. No contexto comunal, a espiritualidade ecológica envolve a renovação das tradições ou o surgimento de novas tradições que despertem nossa sensibilidade ao mundo natural e à contínua criatividade do cosmos. A referência primária dessas espiritualidades ecológicas em suas múltiplas formas não será encontrada nos textos escritos de nenhuma religião, mas sim na compreensão não-verbal primária da revelação do divino na natureza. A espiritualidade ecológica não substituirá os ensinamentos tradicionais da espiritualidade e da ética, mas ampliará o contexto desses ensinamentos e expandirá a consciência do encontro entre humanos e divinos.

Este é o artigo base para os grupos de apoio à Sociedade Ecozóica, desenvolvido por Herman Greene com consultoria de Thomas e Jim Berry, Brian Swimme e outros. Herman Greene é advogado e um ministro Batista vivendo em Chapel Hill, Carolina do Norte.

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A Resposta Xamânica

Editorial por K. Lauren de Bôer
(Revista EarthLight No. 46, Verão de 2002)

Poucas coisas estimulam mais a imaginação humana do que o sentimento do Mistério. O Mistério inspira reverência, mas também terror, despertando em nós a vitalidade e a vida através da sensação de completo maravilhamento diante das forças da Terra e do universo. A mente humana - especialmente a mente ocidental - possui um desejo insaciável de "saber", de transformar o misterioso em partes manipuláveis e previsíveis. Mas o Mistério nos obriga a retornar a um estado de não-saber, diminuindo nossa arrogância, lembrando-nos de que somos humildes passageiros nesta Terra. Para isso, precisamos restaurar nossa capacidade atrofiada de confiar nas forças que estão além do que nossa mente pode compreender.

Isto vale para nossas vidas pessoais, bem como na área das mudanças culturais. Aqueles dentre nós que gostariam que nosso mundo fosse um lugar melhor gostam de falar em 'quebrar paradigmas'. Mas nenhum paradigma possui o monopólio da verdade. Como escreveu a saudosa Donella Meadows em Places to Intervene in a System: (precisamos perceber que) "nenhum paradigma é a 'verdade'; mesmo aquele que suavemente molda a confortável visão de mundo de um indivíduo não passa de uma visão tremendamente limitada de um universo imenso e supreendente."

Existe um meio pelo qual o Xamã transcende o conceito do paradigma e encara a incerteza e o caos, aceitando-os, ao mesmo tempo em que dá ao mistério uma forma utilizável para promover cura e orientação. Não sou uma especialista em xamanismo, nem disponho da experiência prática de que alguns dispõem. Mas tenho para mim que, atualmente, a Personalidade Xamânica é uma resposta criativa à necessidade de mudança de um paradigma que ama a morte, para outro que valorize a vida. A emergência contemporânea dessa personalidade religiosa é uma reação da imaginação humana que atua na construção de uma resposta coletiva aos paradoxos de nossos dias. Um destes paradoxos, do ponto de vista do cosmólogo Brian Swimme, é que a espécie humana atingiu uma força "macrofásica, mas ainda se comporta com uma sabedoria microfásica".

Existe uma série de motivos para que a figura do Xamã seja aplicada à nossa situação e o por quê de a reação xamânica ser particularmente íntima a esta revista, EarthLight. Assim como o xamã lida com as forças terrenas primitivas e cósmicas para promover a cura da comunidade e aumenta o sentimento religioso em épocas de transição, EarthLight representa uma crença em e um retorno ao Espírito e às forças primais da Terra como nossa fonte fundamental de cura. O Espírito é, no fim das contas, o único caminho com um coração, o único meio de se aprofundar nossa sabedoria e promover a paz para todos os seres. É também o Espírito que nos leva a uma ação compassiva.


Como uma figura marginal excluída da sociedade secular, o Xamã está em condição de questionar a autoridade moral dominante. Isto é algo necessário, num momento em que existe um vácuo moral na Casa Branca e em que a ganância política e comercial predominam. Como atesta nosso consultor editorial John Grim - que neste outono ministra um curso de Xamanismo na Universidade Bucknell -, dar atenção à visão global xamânica é uma chance de se reavaliar a relação entre os valores xamânicos e os valores das modernas sociedades globais.

 

De certa forma, nesta edição estamos defendendo a figura do Xamã como sendo a imagem religiosa para nossos dias. A maioria de nossas principais tradições religiosas tornou-se tão afastada dos mistérios da Terra e do universo que não mais cumprem sua missão de nos unir ao sagrado. A Personalidade Xamânica não representa somente um praticante do sagrado, pois sua função principal é a de promover a cura através do contato com as forças do mundo natural. A necessidade de cura é algo comum a todos nós hoje, seja um indivíduo pertencente a um grupo nativo ou um industrial ocidental, homem ou mulher, criança ou adulto com quatro patas, com asas, com folhas ou com nadadeiras.

Outro motivo pelo qual a Personalidade Xamânica é necessária hoje é o fato de que, nos momentos mais negros, nós precisamos de força. Estamos diante de crises monumentais - a ganância política e empresarial, a extinção em massa de espécies, um ataque brutal ao meio-ambiente, o aquecimento global, terrorismo e guerras, a epidemia da AIDS. Num nível mais pessoal, Martín Prechtel em seu artigo relata o terrível trauma por ele vivido na vila guatemalteca de Santiago Atitlán. Os descendentes dos maias daquela comunidade foram assassinados às centenas por esquadrões de executores, e sua vila foi destruída. Foi sua iniciação xamânica, diz ele, que lhe permitiu suportar essa experiência sem causar danos à sua espiritualidade, sem ressentimentos, permitindo que ele vivesse em meio à mesma cultura que, de muitas formas, foi a responsável pelo massacre e ainda por cima oferecendo cura a essa cultura. Existe um Espírito nativo, diz ele, mais antigo e mais resistente do que qualquer coisa que ocorra atualmente - não importa o quão negativo seja o momento.

O enfoque xamânico em nossa revista não é o de encorajar a exploração das crenças nativas, nem de sugerir que corramos todos para as saunas xamânicas, confeccionando cachimbos sagrados ou embarcando em jornadas. Cada um de nós possui seu próprio caminho espiritual nesta vida. Essas práticas nativas merecem nosso respeito. Elas exigem anos, por vezes toda uma vida, de preparação. Nossa intenção é a de compreender a essência daquilo que os xamãs podem nos ensinar sobre nós mesmos. Por que será que estamos tão afastados da compreensão de que a Terra é fundamental? Que perda espiritual estamos vivendo? Como podemos reencontrar o caminho que nos leve de volta aos poderes restauradores da Terra e do Espírito? Não existem respostas prontas: cada um de nós deve descobrir seu caminho, refletindo sobre o que isso representa para nós mesmos, para nossas famílias, nossas comunidades, nossa cultura.

Agindo assim, precisamos nos lembrar de que todos nós somos nativos da Terra; até mesmo aqueles dentre nós que caíram num profundo esquecimento dessa verdade. O xamanismo é uma prática global, e todos nós descendemos de povos que na Antigüidade praticavam alguma forma de xamanismo. O impulso por trás do xamanismo é universal e, no fim das contas, somos todos um único povo, incluindo-se os não humanos, e a cura e o desenvolvimento que vêm de um caminho espiritual é um direito de nascença de todos nós. O Xamã é a presença arquetípica em nosso código cultural e em nosso DNA. Podemos até dizer que, sempre que se fala do bem estar do planeta e das gerações futuras, é nossa responsabilidade encontrar nosso retorno a esse caminho e vivenciá-lo, e não somente falar sobre o tema. A compreensão do significado histórico do Xamã e da Personalidade Xamânica emergente é de grande valia para entendermos o que é preciso fazer numa época em que a própria sobrevivência do planeta está em risco.

Tudo tem por base a consciência e a confiança de que vivemos num profundo mistério, experimentando o universo, com fé em que o desdobrar contínuo desse universo é um processo benigno e que temos um papel único e belíssimo nesse processo. Essa é a base para uma fé profunda em nós mesmos e nos poderes que não podemos compreender com a mente racional. E uma crença de que nossa reação, embasada no verdadeiro Espírito Xamânico, trará cura, beleza e sabedoria.

Em parentesco espiritual,

K. Lauren de Boer

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Descobrindo o divino no universo

Por Irmã Gail Worcelo, 2000

O sino toca às 5 da manhã, a chamada matinal para a oração. É o início de nosso dia monástico em Vermont; é hora da Vigília Matinal. Neste momento, tudo está escuro, com exceção da vela solitária que ilumina nosso local de oração. Assumo minha posição e me junto às demais, reunidas para uma hora de preces contemplativas.

A hora das Vigílias é a da observação noturna - uma hora em que tocamos a presença misteriosa de Deus no coração do Universo. Descobrimos, como nos diz o Evangelho de João, que "a luz brilha na escuridão".

Nesta manhã, pude vivenciar isso literalmente. O céu noturno se estende por sobre nossas cabeças e, nestas horas escuras que antecedem a aurora, posso ver as estrelas cintilantes da Via Láctea. Vêm à mente as palavras da salmista: "Louvado seja o Senhor, sol e lua; louvado o Senhor, estrelas cintilantes!"

Reflito sobre o fato de que eu sou feita da mesma matéria. O fogo luminoso que brilha naquelas estrelas vem brilhando há 15 bilhões de anos no desenrolar do universo e arde em mim esta manhã. Arde em meu desejo pelo Sagrado. Arde em cada folha, animal, pedra e ave. É o Fogo por trás do fogo de todas as coisas.

Trata-se do mesmo fogo que consumiu a touceira flamejante que chocou Moisés e fez com que ele descalçasse seus sapatos e exclamasse: "este local é Solo Sagrado!" Tento absorver as palavras do Velho Testamento: "este local é Solo Sagrado!"

Desejo imbuir-me na plenitude dessa compreensão e levo minha contemplação para além das velhas e limitadoras noções que põem Deus nalgum Paraíso abstrato. O Livro da Sabedoria declara: "O Espírito de Deus preenche todo o Mundo!" Quero conhecer esse mundo pleno com o Espírito de Deus e me situar em seu contexto mais amplo.

Já no fim de sua vida, Teilhard de Chardin escreveu: "cada vez menos vejo diferença entre a pesquisa e a adoração." Para Teilhard, bem como para outros poetas e místicos, a prece era uma meditação sobre o universo, composta pelo conhecimento aberto ao Mistério.

Reflito sobre como a tecnologia nos deu a capacidade de ampliar nossos sentidos, tornando-os capazes de ver e ouvir o que sempre esteve ali, mas que não éramos capazes de perceber sem auxílio a nossos sentidos. Subitamente, foi-nos permitido vislumbrar as pegadas de Deus mescladas ao cosmos, à medida que começamos a compreender como funciona o universo.

Nós somos o resultado de 15 bilhões de anos de desenvolvimento. Somos poeira vital, uma evolução da bola de fogo original. Em nossa oração desta manhã, tento me localizar em nossa vizinhança galáctica. A galáxia na qual eu oro possui 100.000 anos-luz de largura. Um único ano-luz equivale a oito mil e quatrocentos trilhões de quilômetros. Nossa vizinha mais próxima, a Galáxia de Andrômeda, está a 2,3 milhões de anos luz de distância.

São números que levam algum tempo até serem absorvidos. Nós estamos na vastidão, no vasto coração de Deus. Apesar de me sentar imóvel e firme durante este período de meditação, reflito sobre o fato de que a Terra está girando a 1.260 km/h. Ela orbita o Sol a 26,6 quilômetros por segundo. Movemo-nos num sistema solar a 56.000 km/h ao redor do centro de nossa galáxia, e nossa galáxia se expande a 17 milhões de quilômetros por minuto.

É neste contexto em que me encontro enquanto me sento para orar. As coisas podem estar tudo, menos imóveis. Imagino Deus dançando em total entrega nos recônditos mais remotos do universo. Na leitura de hoje do Evangelho de João, as palavras "Residam em mim como eu resido em vocês" ganham novo significado. O local onde o Divino habita é muito mais vasto do que podemos imaginar. Habitar em mim significa "habite minha vastidão, habite meu universo".

Forma-se em mim uma percepção, enquanto meus olhos contemplam a vastidão dos céus: a percepção de que quanto mais mergulho na oração, mais distante eu vou no universo. O interno e o externo são um só. É isto que os místicos de nossa tradição cristã compreenderam ao mergulhar mais fundo em sua experiência de Deus. Eles experimentaram uma harmonização de suas vidas com os ritmos mais elevados da existência. Eles descobriram através da fé o que a ciência sabe empiricamente: que o universo está carregado com a presença e a realidade do Divino.

Estes místicos permitiram que o fogo da contemplação os transformasse em união amorosa com toda a criação. Eles compreenderam que a Radiância Divina jorra pelo universo, tornando todas as coisas sagradas.

Sei disso de forma também intuitiva. Creio que é assim com todos nós. O céu noturno começa a dar espaço à aurora e a Via Láctea se torna uma memória nebulosa desta manhã. Antes que o sino toque anunciando o final de nossa hora de preces, lembro-me das palavras de Annie Dillard: "que no mundo existem dois tipos de freiras: as que estão dentro e as que estão fora dos conventos. A vocação delas, independentemente de a qual tipo pertençam, é a contemplação do que é real."

O sino toca quando o primeiro brilho da manhã surge no céu matinal. A hora de preces chega ao seu fim. Apago a vela da oração, extinguindo a chama. Sei, contudo, que o Fogo no interior do fogo de todas as coisas ainda arde em cada criatura, galáxia e estrela, bem como em cada pessoa que anseia pelo Sagrado.

Gail Worcelo é membro da Comunidade de Freiras Passionistas e criadora de um Mosteiro Ecozóico nas Montanhas Verdes de Vermont. Junto a Bernadette Bostwick, e com o apoio do geólogo Thomas Berry, Gail espera fundar o a primeira comunidade de freiras católicas dedicadas à cura da Terra.

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A História da Ciência e do Espírito

Jody Bourgeois, 1997

Como um geocientista e historiador da Terra, gosto de me ver como um "geologista" - uma expressão criada por Thomas Berry. Graças à minha disciplina acadêmica e à minha vocação de professor, desenvolvi a capacidade de narrar o mito da criação cósmica do ponto de vista científico: uma história poderosa, de proporções míticas e que nos une a todos: todos os humanos, todas as criaturas, todas as rochas, todos os planetas, todas as estrelas como pertencentes a uma só tribo. E como geólogo, debruço-me sobre aspectos da formação da Terra que me levam a conhecer nosso planeta na intimidade. Este é um ato de amor, um ato de culto, um meio de se conhecer Deus. Contudo, por força de minha posição acadêmica, quase nunca exteriorizo esses aspectos de minha profissão.

Há alguns anos, num retiro, fiz uma apresentação um tanto pungente sobre as dimensões sagradas da história científica do universo. Também apresentei relatos mais íntimos das histórias que algumas rochas podem nos contar. Naquele fim de semana, uma mulher me disse que estava muito estimulada por conhecer um cientista capaz de falar sobre as dimensões sagradas da ciência, com isso querendo dizer que são poucos os cientistas capazes disso. Ela compartilhou comigo sua visão inspiradora de que o laboratório de biologia era como "ir à igreja". Ficou evidente que ela jamais ousara compartilhar essa imagem com seu professor de biologia. Com efeito, nenhum de meus alunos jamais disse o mesmo sobre minhas aulas de geologia. Como permitir que os alunos façam tal comparação?

Durante o retiro mencionado, inspirado pelos textos e ensinamentos de Thomas Berry e Brian Swimme, bem como por minha busca pessoal em integrar minhas facetas científicas e espirituais, comecei a explorar as dimensões sagradas da ciência. A literatura sobre o tema é farta e incontáveis teólogos, filósofos e cientistas já abordaram essa área. Contudo, atualmente a maioria de nós, cientistas, e especialmente nas escolas públicas, sente-se compelido a limitar tal debate, a afastá-lo da sala de aula, de nosso local de trabalho. Na verdade, a justiça americana decretou que a ciência e a religião sejam mantidas afastadas nas salas de aula.

Diante disso, como e onde podemos, em nossos dias, discutir ciência E religião? Em poucos lugares. Cerca de dois anos atrás, senti-me aliviado ao ser descoberto pelo SciSpi, ou Grupo de Ciência e Espiritualidade (em inglês, Science and Spirituality group, n. do T.), um grupo formidável de pessoas em sua maioria cientistas que buscavam um local para discutir as dimensões espirituais da ciência. Em nosso encontro de dezembro de 1996, estimulados pelo livro The Universe is a Green Dragon, de Brian Swimme, levantamos a seguinte questão: é possível, é aconselhável, e como podemos transmitir um senso da sacralidade e do "significado" numa aula de ciência? O que se seguiu foi um agitado intercâmbio, com muitas opiniões diferentes. Inspirado por tal discussão, no semestre seguinte ofereci aos meus alunos de "Evolução da Terra" cinco temas a serem abordados em seus trabalhos, dentre eles este:

"Como podemos 'fazer ciência' ao mesmo tempo em que respeitamos crenças religiosas diferentes?" Praticamente metade da classe optou por essa questão. Diversos alunos vieram falar comigo, visivelmente gratos pela oportunidade. Muitos dos trabalhos eram profundamente tocantes. Um aluno escreveu que não ensinar a "história da criação" numa aula científica era o mesmo que delcarar-se um ateu uma declaração que até hoje me assombra.

Em minha palestra de fim de curso, como sempre, abordei a atual crise ambiental gerada no breve período de tempo dos humanos na história geológica. Após agradecer meus alunos por seus trabalhos, mergulhei no tema da ciência e do significado, e de como eles se relacionam com nossa doença atual: a separação da ciência e do espírito. Levantei os seguintes tópicos:

> Nós esquecemos quem somos. Precisamos de um mito de criação, e a história da criação científica é de proporções míticas, unindo todas as demais: budista, cristã, nativa americana... ave, rocha, estrela, bactéria...

> Nós perdemos nossa noção da sacralidade (não necessariamente como indivíduos, mas seguramente no coletivo). Todas as religiões incluem um sentimento de sacralidade da natureza. A ciência não nega a sacralidade, se bem que atualmente raramente a ciência a reconheça abertamente.

> Nós nos afastamos da Terra. Tanto a ciência quanto a religião nos ensinam que estamos todos interligados, mas vivemos 'ocupados demais' para nos lembrarmos disso.

A Terra não é frágil: ela é preciosa!

Dom Bede Griffiths, em seu livro Universal Wisdom, atentou para a patologia que é separar a ciência do espírito:

"A mente ocidental concentra sua atenção no mundo material, tentando compreender seu funcionamento através da ciência... Mas tudo foi feito às custas da ... exploração dos recursos de que a vida humana depende. A ciência ocidental se desenvolveu com a ilusão de que existe um mundo material 'fora' da mente. Somente agora, e lentamente, começa a aprender o que a filosofia eterna sempre soube: que o mundo, que parece estar fora de nós, não pode ser concebido fora da mente que o observa."

Assim como não discutimos as dimensões sagradas da ciência nas salas de aula, raramente ouvimos falar da ciência nas igrejas e templos. Sonho com a possibilidade de que, ao reconhecermos que a ciência não é a "verdade" e que as crenças religiosas são diferentes, possamos integrar esses dois aspectos fundamentais de nossas vidas: a ciência e a espiritualidade.

Jody Bourgeois, Professor de Geologia na Universidade de Washington, leciona Geologia e História da Geologia.

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Uma Espiritualidade para salvar a Terra

Claudio Quintino Crow, 2002

Nos últimos anos, mais e mais pessoas parecem perceber que o atual modelo de exploração do meio ambiente não pode mais persistir. Já são séculos de desmatamentos, poluição de águas e ar e extinção de incontáveis animais e plantas.

A Natureza está gritando ‘basta!’ e temos de dar ouvidos – até porque nós fazemos parte dessa Natureza e dela dependemos, queiramos ou não.

Em tempos recentes, houve grandes avanços filosófico-científicos, como a aceitação nos anos 1970 da conhecida Hipótese Gaia, através da qual o pesquisador James Lovelock propõe que o planeta Terra é um organismo vivo, auto-regulável, com todas as reações de qualquer outro ser vivente. Por conta disso, a Terra não pode mais ser explorada como nos moldes atuais, mas deve ser compreendida e respeitada como uma criatura orgânica, sistêmica, consciente, viva.

O crescimento dos movimentos de ecologistas e ambientalistas ao redor do planeta também demonstra uma nova consciência. Mais e mais pessoas colaboram, ainda que à distância, com as inúmeras ONGs voltadas para a defesa do meio ambiente – seja em escala global, seja num âmbito local. Diversas cidades ao redor do globo já trabalham na despoluição de seus rios e na restauração de áreas verdes, e mesmo onde não exista um programa oficial de coleta seletiva, a iniciativa privada e os próprios cidadãos lutam para diminuir o desperdício. Até mesmo órgãos governamentais, geralmente insensíveis a causas ecológicas, começam a propor e sancionar leis que contemplam as necessidades dessa área.

São mudanças importantes, mudanças que se manifestam em novos conceitos, novas idéias e novas atitudes. Mas talvez isto não baste. Os danos ainda são muitos, e o organismo da Terra começa a dar claros sinais de esgotamento e colapso – notadamente no que diz respeito à água potável. O problema é muito mais grave do que se imagina: para se ter uma idéia clara, basta ver as somas incalculáveis de dinheiro destinadas à pesquisa espacial em busca de água em outros planetas do Sistema Solar.

Mas se a situação é assim tão premente, por que então as pessoas demoram tanto a reagir? Por que todos sabem o que deve ser feito, mas tão poucos se mobilizam? Talvez a resposta esteja numa palavra: espiritualidade.

Precisamos de uma ESPIRITUALIDADE VERDE

O mundo atual é totalmente desespiritualizado. Os valores sociais, a vida diária das pessoas, salvo raríssimas exceções, possuem poucos elementos de espiritualidade. Não falamos aqui de uma espiritualidade declarada em sensos ou em questionários, mas sim um desenvolvimento autêntico de conceitos fundamentais para os seres humanos, como os que definem a alma e as relações desta com o todo que nos rodeia – as outras pessoas, as paisagens, o alimento ingerido – em suma, a relação que estabelecemos com tudo aquilo que faz da nossa vida o que ela é.

E chega-se a conclusão que essa desespiritualização da humanidade trouxe uma das piores conseqüências possíveis: a ausência de honra nas relações. Não se honram mais os alimentos que nos trazem sustento, não se honram mais as preciosas horas de sono que nos restauram a energia; não se honra mais o trabalho, não se honram mais as árvores e os animais, não se honram as pessoas: não se honra mais a vida, em nenhuma de suas formas.

A BUSCA PELA HONRA PERDIDA

A vida como um todo foi dessacralizada. Hoje morre-se por um par de tênis. Morre-se por um time de futebol, por uma batida num cruzamento, por um partido político, pelo fim de uma relação. Muitas pessoas vêem nisso um reflexo da desintegração do tecido social, o que é verdade – mas não toda a verdade.

Em sociedades onde os valores espirituais estão arraigados no dia-a-dia das pessoas, em culturas onde os crimes estão associados não só a códigos penais, mas também a valores éticos e morais mais profundos, é raro ver um gesto de delinqüência. Alguns países islâmicos possuem leis tão severas contra crimes que ninguém nem ousa cometê-los... não se questiona aqui a correção ou não de se executar alguém que tenha cometido um roubo.

O que se ressalta é o fato de que, por respeito àquilo em que se acredita, essas pessoas não se entregam a desejos “criminosos”. Quem impõe essa proibição? Elas mesmas – não por temerem a punição por um órgão estatal, mas por obediência àquilo que as pessoas, em seu íntimo, acreditam ser correto. Em São Paulo, uma das mais agitadas metrópoles de nossos tempos, até poucas décadas atrás os açougues, leiteiros e padeiros deixavam as encomendas de carne, leite e pão de seus clientes à soleira da porta, na calçada – e ninguém as tocava. É uma questão de moral. De valores. De honra.

A honra numa relação é algo esquecido, raro de se encontrar. Toda relação deve possuir honra: entre um casal, entre pais e filhos, entre amigos; entre uma pessoa e seu trabalho, seu alimento, sua casa, seu meio ambiente. Assim ocorre atualmente entre os povos indígenas das Américas e entre os aborígenes da Austrália. Assim ocorria entre diversas culturas ditas ‘primitivas’. Honra-se a vida. Vive-se com honra. Morre-se com honra.

A pergunta que fica então é: por que não há honra no mundo moderno? Por que as pessoas reclamam tanto de seus empregos e seus relacionamentos? Por que não honram sua refeição?

Porque o mundo dos humanos foi, por eles mesmos, desonrado e dessacralizado. Mas não é só: a Natureza também deixou de ser sagrada – e o que não é sagrado pode ser profanado. Assim, do mesmo modo que roubo o pão deixado na porta de meu vizinho (pois somos todos vizinhos!), derrubo uma árvore. Do mesmo modo que derrubo uma árvore, matando todas as criaturas que nela vivem e dela dependem, posso matar um ser humano. Afinal, nada mais tem honra, nada mais é sagrado, nada mais tem valor. Ainda que se questione a proporção de todos os delitos acima listados, o princípio, a raiz de todos eles, é o mesmo.

É uma crise que parece sem fim – uma crise de valores, de ética. Rouba-se idéias, rouba-se a água dos rios, rouba-se a vida das florestas, rouba-se a alma das pessoas.

Até quando? Como alertamos no início deste artigo, o problema não está só no nosso mundo humano, mas envolve todo o planeta, toda a biosfera, envolve tudo. A natureza não tem mais valor. Mas desrespeitar a natureza é desrespeitar, no sentido original da palavra “natura”, tudo aquilo que nasce. Inclusive nós.
Não há dúvidas de que, do ponto de vista ambiental, a ‘nova’ consciência ecológica e a ação de grupos, indivíduos e organizações lutam para mudar o cenário atual, e isso é um avanço. Essa consciência cria uma ética, que influencia nossos gestos e ações. Mas ainda estamos longe da solução, pois existem leis contra os homicídios, contra a derrubada de árvores, contra a caça predatória, contra furtos e roubos. No entanto, a despeito dessas leis, esses crimes continuam a acontecer. Por que? Porque leis, por melhores que sejam, não bastam.

LEIS NÃO BASTAM

As leis são feitas pelos humanos e talvez sejam belas num livro, mas não fazem parte dos conceitos éticos e morais mais profundos desses mesmos humanos de nossos dias. As leis, que são a única forma de se tentar controlar o cidadão em nossos tempos, são uma ética externa, imposta pela legislação, pela polícia, pela justiça, pelas convenções sociais. E, por ser externa, não está presente no coração dos homens.

A ética interna, os valores mais íntimos de uma pessoa, são determinados somente por essa pessoa: pelas coisas em que ela acredita, em que ela crê e confia. E é aqui que entra a espiritualidade. Uma espiritualidade que dessacralize a natureza, que negue a existência de divindade na matéria (e matéria vem de ‘mater’, Mãe em latim) é uma espiritualidade que pouco a pouco leva à dessacralização de nós mesmos. Isto fica claro em conceitos atuais como a busca por uma vida melhor no pós-morte, visão essa que faz de nossa existência atual nada mais do que uma ‘provação’. Se este é um mundo de provação, então ele é tão bom e prazeroso quanto uma câmara de torturas, certo?

Errado! Conceitos como este atuam nos níveis mais profundos de nosso subconsciente, afetando o modo como nos relacionamos com esse mundo. “Se ele é assim negativo, por que razão deveríamos respeitá-lo?” Ao pensar dessa forma, eu dessacralizo a natureza – não só ao meu redor, mas a minha própria. Eu me vejo como rival deste mundo, que só me serve de provação. E aprendo a odiar as flores, as árvores, os rios, lagos e mares, os animais – os outros seres humanos. É simples assim. Ao depreciar o mundo, deprecio a mim mesmo, pois dele eu faço parte – querendo ou não. E tudo o que ele traz de belo e inspirador é por mim rejeitado.

Não pode ser assim. Nem sempre foi assim. Para alguns povos, ainda hoje não é assim. Muitas culturas ainda vivem em perfeita harmonia com o meio em que vivem, honrando as diversas relações estabelecidas com a natureza, com o trabalho e com outras criaturas. São povos que preservam a visão de que os seres humanos são parte da natureza, e não uma criatura eleita por um deus para "dominar, submeter e subjugar". São povos que vivem a vida em harmonia, em paz, em compreensão – não por força de leis, mas por integrarem-se perfeitamente ao mundo em que vivem. E isto parte de suas crenças, de seus valores mais íntimos – de suas almas.

Talvez essa visão seja a solução de que tanto precisamos para frear o processo destrutivo em que a humanidade hoje se encontra. Resgatar os valores desses povos primitivos, restaurar sua visão de que o mundo é um paraíso, que a terra é sagrada e viva, que os animais e florestas são sagrados, que o trabalho é sagrado, que a vida é sagrada. Ninguém desrespeita o que lhe é verdadeiramente sagrado. Assim, ninguém desrespeitaria a terra, nem aos que nos rodeiam.

Onde, então, encontrar uma espiritualidade que resgate essa comunhão plena com a Natureza, que lhe devolva a sacralidade e, por extensão, torne também sagrada a sua vida?

Muitas pessoas atualmente se voltam para espiritualidades que restaurem esses valores. Tradições como o xamanismo e o druidismo, por exemplo, atendem prontamente a essas necessidades. Ao apresentar uma mudança de consciência, ao fazer com que as pessoas vejam-se novamente como partes de um todo amplamente integrado, de uma natureza cujo segredo é a inter-relação de espécies e indivíduos, o xamanismo e o druidismo operam a grande transformação de que o mundo precisa: alterando os valores internos das pessoas, esses caminhos espirituais mudam seu modo de ver o mundo, de agir, de interagir, de ser.

Filosoficamente, o mundo está mudando. Já se sabe que não é possível prosseguir a exploração dos recursos naturais neste ritmo devastador. Isto é um começo. Mas a grande transformação só virá quando as pessoas desenvolverem a noção de que cortar uma árvore é errado não porque fere a lei, mas porque fere a Vida – a da árvore, a das criaturas que nela vivem e a da própria pessoa que a corta. Mas, mais do que isso, é preciso perceber que ao derrubar uma árvore, ou maltratar um animal, ou poluir um rio, o que estamos fazendo na verdade é dar um passo a mais rumo à destruição de nossos valores pessoais internos. O que separa alguém que polui um rio de um homicida?

Pense nisso. Mas, mais do que pensar, aja. O tempo é escasso.

© 2002, Claudio Quintino Crow – Proibida a reprodução total ou parcial da obra sem a prévia e expressa autorização por escrito do autor. Registrado na Biblioteca Nacional - Lei Federal 9.610/98.
Originalmente publicado no site www.heramagica.com.br

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O quão “Verde” é a sua “Espiritualidade Verde”?

Claudio Quintino Crow, 2008

O Druidismo é uma “Espiritualidade Verde”. O que isso quer dizer? Quer dizer que o druidismo, ao lado das diversas correntes xamânicas modernas e tradicionais, da bruxaria moderna, do hinduísmo e de tantas outras sendas espirituais, tem por base e por princípio o fato que a natureza é viva porque tudo tem energia. Energia é alma. E as almas da Natureza são divinas, são deidades.

Esse discurso é um ponto comum a praticamente todos os caminhos pagãos da atualidade – e não poderia ser diferente, dada a origem do próprio termo “pagão”: aquele que vem do pagus, do campo, da Natureza. Mas esse mesmo discurso é uma armadilha para os mais incautos – não é raro encontrar pagãos das mais diferentes vertentes vociferando contras a espécie humana e seus desmandos e irresponsabilidades – eu próprio já fiz parte desse coro sedutor, que nos arrebata e empolga pelos argumentos aparentemente irrefutáveis de que, de fato, “o ser humano é uma criatura vil, destrutiva, suja e maligna” – e aqui reside a armadilha.

 

NUNCA NEGUE SUA NATUREZA

Um mínimo de reflexão nos mostra facilmente que a insistência nesse discurso tende a puxar o gatilho de um processo de auto-negação que, a princípio, pode se aplicar à espécie humana apenas de forma retórica, abstrata - mas que acaba por minar, nos mais profundos níveis do subconsciente, a própria natureza humana de quem adota esse discurso. E, em última análise, atinge em cheio a auto-estima, o senso coletivo, o respeito ao ser humano em geral – respeito esse que se deve não por ser o ser humano ‘superior’, ‘mais evoluído’, ‘eleito’ ou o que for, mas simplesmente porque o ser humano é MAIS UMA das tantas espécies que compõem a grande comunidade da Terra.

TRIBO

Uma das características mais marcantes do druidismo é seu senso de coletividade. Até em função do papel histórico dos druidas como conselheiros, juristas, poetas, historiadores, curandeiros e “até mesmo” sacerdotes da sociedade celta, é possível afirmar – como o faz o escritor Jean Markale - que “não existe druida sem a comunidade”. Não por acaso, druidas tendem a formar grupos, ordens, clãs, groves, Gorseddau ou qualquer outro termo que se use para designar um grupo de pessoas que vivenciam o druidismo.

Diante disso tudo, temos as seguintes reflexões:

- por prezar e honrar a comunidade, o druidismo é uma espiritualidade ‘tribal’;
- por prezar e honrar a Natureza, o druidismo é uma espiritualidade ‘verde’;
- o druidismo vê toda a Natureza como uma Comunidade Sagrada, da qual faz parte o ser humano;
- a Natureza é a fonte da sacralidade do druidismo;

Parece claro, então, que o druidismo só é de fato uma “Espiritualidade Verde” quando se mostra capaz de RE-INSERIR o ser humano na Natureza num contexto coletivo, comunitário e divino – e isso só acontece quando o ser humano resgata o divino de sua PRÓPRIA existência.

Em outras palavras: o ‘discurso verde’, por si só, de nada serve. A ‘ação verde’, quando exclui o ser humano, serve pouco. O que precisamos, então, é de uma mentalidade que perceba e resgate o Divino Natural no seio do próprio Universo Humano - o conjunto de conceitos e idéias que envolvem as artes, as cidades, a agricultura, as leis, as relações dos humanos com o ambiente e com as outras espécies…

MAIS EVOLUÇÃO

Há bem pouco tempo, a maioria das pessoas não se sensibilizava com as agressões humanas a rios, mares, florestas, animais em extinção e outras questões ambientais. Os últimos anos assistiram a uma evolução: muitos dos que hoje se revoltam com esses crimes adotam uma postura de denúncia, protesto e boicote numa militância útil e válida, mas que perde sua força ao atacar o ser humano e excluí-lo da Comunidade Natural – por ironia, exatamente como o fazem os que não se sensibilizam com as questões ambientais.

Percebe-se, então, que essa evolução já cumpriu seu papel – é necessário uma nova evolução, que desperte mais pessoas para essas questões não apenas com críticas às mazelas da urbanização, da sociedade de consumo e da exploração desenfreada dos recursos naturais mas que também ofereça alternativas práticas, aplicáveis não a longo prazo pelos governos ou grandes corporações – mas aqui, agora; por mim, por você, por todos nós.

Esse é o nosso desafio atual: achar o Verde muito além da floresta e dos mares – achar o Verde em cada um de nós.

© 2008, Claudio Quintino Crow – Proibida a reprodução total ou parcial da obra sem a prévia e expressa autorização por escrito do autor. Registrado na Biblioteca Nacional - Lei Federal 9.610/98.

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