Corvo: Alma

The Raven: A Quintessência da Poesia

O CORVO por Fernando Pessoa

Esopo e o Corvo

Augúrios da morte e da providência divina: O corvo na Bíblia e em outros textos mitológicos - Suzetta Tucker

O Corvo na Mitologia Celta - Claudio Quintino Crow (Novo)

 

The Raven: A Quintessência da Poesia

Edgar Allan Poe, poeta americano do séc. XIX, nutria um gosto muito especial pelo oculto, pelo místico e mágico. Um de seus mais conhecidos poemas é The Raven (O Corvo), escrito em 1845, onde o autor demonstra toda a sua habilidade em compor versos que mesclam perfeita aliteração com rimas impecáveis e uma métrica que, de tão precisa, soa natural como um discurso em prosa - isso tudo aliado a uma descrição quase tridimencional em sua riqueza de nuances do tema - a inesperada visita de um corvo majestoso que com ele trava um diálogo de uma única palavra, que a cada vez traz um significado diferente... genialidade pura, poesia perfeita.

Tão perfeita que "The Raven" é sinônimo de Poe, a ponto de sua lápide ostentar um belo entalhe de um corvo como que sobre ela pousado...

 

 

THE RAVEN

Once upon a midnight dreary, while I pondered, weak and weary,
Over many a quaint and curious volume of forgotten lore,
While I nodded, nearly napping, suddenly there came a tapping,
As of some one gently rapping, rapping at my chamber door.
"'Tis some visitor," I muttered, "tapping at my chamber door-
Only this, and nothing more."

Ah, distinctly I remember it was in the bleak December,
And each separate dying ember wrought its ghost upon the floor.
Eagerly I wished the morrow;- vainly I had sought to borrow
From my books surcease of sorrow- sorrow for the lost Lenore-
For the rare and radiant maiden whom the angels name Lenore-
Nameless here for evermore.

And the silken sad uncertain rustling of each purple curtain
Thrilled me- filled me with fantastic terrors never felt before;
So that now, to still the beating of my heart, I stood repeating,
"'Tis some visitor entreating entrance at my chamber door-
Some late visitor entreating entrance at my chamber door;-
This it is, and nothing more."

Presently my soul grew stronger; hesitating then no longer,
"Sir," said I, "or Madam, truly your forgiveness I implore;
But the fact is I was napping, and so gently you came rapping,
And so faintly you came tapping, tapping at my chamber door,
That I scarce was sure I heard you"- here I opened wide the door;-
Darkness there, and nothing more.

Deep into that darkness peering, long I stood there wondering, fearing,
Doubting, dreaming dreams no mortals ever dared to dream before;
But the silence was unbroken, and the stillness gave no token,
And the only word there spoken was the whispered word, "Lenore!"
This I whispered, and an echo murmured back the word, "Lenore!"-
Merely this, and nothing more.

Back into the chamber turning, all my soul within me burning,
Soon again I heard a tapping somewhat louder than before.
"Surely," said I, "surely that is something at my window lattice:
Let me see, then, what thereat is, and this mystery explore-
Let my heart be still a moment and this mystery explore;-
'Tis the wind and nothing more."

Open here I flung the shutter, when, with many a flirt and flutter,
In there stepped a stately raven of the saintly days of yore;
Not the least obeisance made he; not a minute stopped or stayed he;
But, with mien of lord or lady, perched above my chamber door-
Perched upon a bust of Pallas just above my chamber door-
Perched, and sat, and nothing more.

Then this ebony bird beguiling my sad fancy into smiling,
By the grave and stern decorum of the countenance it wore.
"Though thy crest be shorn and shaven, thou," I said, "art sure no craven,
Ghastly grim and ancient raven wandering from the Nightly shore-
Tell me what thy lordly name is on the Night's Plutonian shore!"
Quoth the Raven, "Nevermore."

Much I marvelled this ungainly fowl to hear discourse so plainly,
Though its answer little meaning- little relevancy bore;
For we cannot help agreeing that no living human being
Ever yet was blest with seeing bird above his chamber door-
Bird or beast upon the sculptured bust above his chamber door,
With such name as "Nevermore."

But the raven, sitting lonely on the placid bust, spoke only
That one word, as if his soul in that one word he did outpour.
Nothing further then he uttered- not a feather then he fluttered-
Till I scarcely more than muttered, "other friends have flown before-
On the morrow he will leave me, as my hopes have flown before."
Then the bird said, "Nevermore."

Startled at the stillness broken by reply so aptly spoken,
"Doubtless," said I, "what it utters is its only stock and store,
Caught from some unhappy master whom unmerciful Disaster
Followed fast and followed faster till his songs one burden bore-
Till the dirges of his Hope that melancholy burden bore
Of 'Never- nevermore'."

But the Raven still beguiling all my fancy into smiling,
Straight I wheeled a cushioned seat in front of bird, and bust and door;
Then upon the velvet sinking, I betook myself to linking
Fancy unto fancy, thinking what this ominous bird of yore-
What this grim, ungainly, ghastly, gaunt and ominous bird of yore
Meant in croaking "Nevermore."

This I sat engaged in guessing, but no syllable expressing
To the fowl whose fiery eyes now burned into my bosom's core;
This and more I sat divining, with my head at ease reclining
On the cushion's velvet lining that the lamplight gloated o'er,
But whose velvet violet lining with the lamplight gloating o'er,
She shall press, ah, nevermore!

Then methought the air grew denser, perfumed from an unseen censer
Swung by Seraphim whose footfalls tinkled on the tufted floor.
"Wretch," I cried, "thy God hath lent thee- by these angels he hath sent thee
Respite- respite and nepenthe, from thy memories of Lenore!
Quaff, oh quaff this kind nepenthe and forget this lost Lenore!"
Quoth the Raven, "Nevermore."

"Prophet!" said I, "thing of evil!- prophet still, if bird or devil!-
Whether Tempter sent, or whether tempest tossed thee here ashore,
Desolate yet all undaunted, on this desert land enchanted-
On this home by horror haunted- tell me truly, I implore-
Is there- is there balm in Gilead?- tell me- tell me, I implore!"
Quoth the Raven, "Nevermore."

"Prophet!" said I, "thing of evil- prophet still, if bird or devil!
By that Heaven that bends above us- by that God we both adore-
Tell this soul with sorrow laden if, within the distant Aidenn,
It shall clasp a sainted maiden whom the angels name Lenore-
Clasp a rare and radiant maiden whom the angels name Lenore."
Quoth the Raven, "Nevermore."

"Be that word our sign in parting, bird or fiend," I shrieked, upstarting-
"Get thee back into the tempest and the Night's Plutonian shore!
Leave no black plume as a token of that lie thy soul hath spoken!
Leave my loneliness unbroken!- quit the bust above my door!
Take thy beak from out my heart, and take thy form from off my door!"
Quoth the Raven, "Nevermore."

And the Raven, never flitting, still is sitting, still is sitting
On the pallid bust of Pallas just above my chamber door;
And his eyes have all the seeming of a demon's that is dreaming,
And the lamplight o'er him streaming throws his shadow on the
floor;

And my soul from out that shadow that lies floating on the floor
Shall be lifted - nevermore!

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O CORVO por Fernando Pessoa

Fernando Pessoa, o grande poeta e escritor português, era também um capacitado ocultista. Seus conhecimentos de magia e astrologia renderam-lhe contato com um nome importante do ocultismo de então, o inglês Aleister Crowley. Reza a lenda que foi o próprio Fernando Pessoa quem transmitiu os mais profundos conhecimentos astrológicos à "Besta 666", como Crowley gostava de se apresentar.

Somente alguém com tamanho domínio do símbolo e da palavra seria capaz de transpor a rima e a aliteração de um poema praticamente perfeito e ainda assim manter conteúdo e a magia de The Raven na língua portuguesa.

O CORVO

Numa meia-noite agreste, quando eu lia, lento e triste,
Vagos, curiosos tomos de ciências ancestrais,
E já quase adormecia, ouvi o que parecia
O som de alguém que batia levemente a meus umbrais.
"Uma visita", eu me disse, "está batendo a meus umbrais.
É só isto, e nada mais."

Ah, que bem disso me lembro! Era no frio dezembro,
E o fogo, morrendo negro, urdia sombras desiguais.
Como eu qu'ria a madrugada, toda a noite aos livros dada
P'ra esquecer (em vão!) a amada, hoje entre hostes celestiais -
Essa cujo nome sabem as hostes celestiais,
Mas sem nome aqui jamais!

Como, a tremer frio e frouxo, cada reposteiro roxo
Me incutia, urdia estranhos terrores nunca antes tais!
Mas, a mim mesmo infundido força, eu ia repetindo,
"É uma visita pedindo entrada aqui em meus umbrais;
Uma visita tardia pede entrada em meus umbrais.
É só isto, e nada mais".

E, mais forte num instante, já nem tardo ou hesitante,
"Senhor", eu disse, "ou senhora, decerto me desculpais;
Mas eu ia adormecendo, quando viestes batendo,
Tão levemente batendo, batendo por meus umbrais,
Que mal ouvi..." E abri largos, franqueando-os, meus umbrais.
Noite, noite e nada mais.

A treva enorme fitando, fiquei perdido receando,
Dúbio e tais sonhos sonhando que os ninguém sonhou iguais.
Mas a noite era infinita, a paz profunda e maldita,
E a única palavra dita foi um nome cheio de ais -
Eu o disse, o nome dela, e o eco disse aos meus ais.
Isso só e nada mais.

Para dentro então volvendo, toda a alma em mim ardendo,
Não tardou que ouvisse novo som batendo mais e mais.
"Por certo", disse eu, "aquela bulha é na minha janela.
Vamos ver o que está nela, e o que são estes sinais."
Meu coração se distraía pesquisando estes sinais.
"É o vento, e nada mais."

Abri então a vidraça, e eis que, com muita negaça,
Entrou grave e nobre um corvo dos bons tempos ancestrais.
Não fez nenhum cumprimento, não parou nem um momento,
Mas com ar solene e lento pousou sobre os meus umbrais,
Num alvo busto de Atena que há por sobre meus umbrais,
Foi, pousou, e nada mais.

E esta ave estranha e escura fez sorrir minha amargura
Com o solene decoro de seus ares rituais.
"Tens o aspecto tosquiado", disse eu, "mas de nobre e ousado,
Ó velho corvo emigrado lá das trevas infernais!
Dize-me qual o teu nome lá nas trevas infernais."
Disse o corvo, "Nunca mais".

Pasmei de ouvir este raro pássaro falar tão claro,
Inda que pouco sentido tivessem palavras tais.
Mas deve ser concedido que ninguém terá havido
Que uma ave tenha tido pousada nos meus umbrais,
Ave ou bicho sobre o busto que há por sobre seus umbrais,
Com o nome "Nunca mais".

Mas o corvo, sobre o busto, nada mais dissera, augusto,
Que essa frase, qual se nela a alma lhe ficasse em ais.
Nem mais voz nem movimento fez, e eu, em meu pensamento
Perdido, murmurei lento, "Amigo, sonhos - mortais
Todos - todos já se foram. Amanhã também te vais".
Disse o corvo, "Nunca mais".

A alma súbito movida por frase tão bem cabida,
"Por certo", disse eu, "são estas vozes usuais,
Aprendeu-as de algum dono, que a desgraça e o abandono
Seguiram até que o entono da alma se quebrou em ais,
E o bordão de desesp'rança de seu canto cheio de ais
Era este "Nunca mais".

Mas, fazendo inda a ave escura sorrir a minha amargura,
Sentei-me defronte dela, do alvo busto e meus umbrais;
E, enterrado na cadeira, pensei de muita maneira
Que qu'ria esta ave agoureia dos maus tempos ancestrais,
Esta ave negra e agoureira dos maus tempos ancestrais,
Com aquele "Nunca mais".

Comigo isto discorrendo, mas nem sílaba dizendo
À ave que na minha alma cravava os olhos fatais,
Isto e mais ia cismando, a cabeça reclinando
No veludo onde a luz punha vagas sobras desiguais,
Naquele veludo onde ela, entre as sobras desiguais,
Reclinar-se-á nunca mais!

Fez-se então o ar mais denso, como cheio dum incenso
Que anjos dessem, cujos leves passos soam musicais.
"Maldito!", a mim disse, "deu-te Deus, por anjos concedeu-te
O esquecimento; valeu-te. Toma-o, esquece, com teus ais,
O nome da que não esqueces, e que faz esses teus ais!"
Disse o corvo, "Nunca mais".

"Profeta", disse eu, "profeta - ou demônio ou ave preta!
Fosse diabo ou tempestade quem te trouxe a meus umbrais,
A este luto e este degredo, a esta noite e este segredo,
A esta casa de ância e medo, dize a esta alma a quem atrais
Se há um bálsamo longínquo para esta alma a quem atrais!
Disse o corvo, "Nunca mais".

"Profeta", disse eu, "profeta - ou demônio ou ave preta!
Pelo Deus ante quem ambos somos fracos e mortais.
Dize a esta alma entristecida se no Éden de outra vida
Verá essa hoje perdida entre hostes celestiais,
Essa cujo nome sabem as hostes celestiais!"
Disse o corvo, "Nunca mais".

"Que esse grito nos aparte, ave ou diabo!", eu disse. "Parte!
Torna á noite e à tempestade! Torna às trevas infernais!
Não deixes pena que ateste a mentira que disseste!
Minha solidão me reste! Tira-te de meus umbrais!
Tira o vulto de meu peito e a sombra de meus umbrais!"
Disse o corvo, "Nunca mais".

E o corvo, na noite infinda, está ainda, está ainda
No alvo busto de Atena que há por sobre os meus umbrais.
Seu olhar tem a medonha cor de um demônio que sonha,
E a luz lança-lhe a tristonha sombra no chão há mais e mais,
Libertar-se-á... nunca mais!

Fernando Pessoa

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Esopo e o Corvo

As fábulas de Esopo sempre foram uma fonte de inspiração para lições de vida. Valendo-se das figuras de animais, o sábio grego retratou como poucos as virtudes e desvios do comportamento humano.
Abaixo, algumas de suas fábulas em que figuram corvos.

 

O Corvo e o Jarro

Um corvo, quase morto de sede, foi a um jarro, onde pensou encontrar água. Quando meteu o bico pela borda do jarro, verificou que só havia um restinho no fundo. Era difícil alcançá-la com o bico, pois o jarro era muito alto. Depois de várias tentativas, teve que desistir, desesperado. Surgiu, então, uma idéia em seu cérebro.

Apanhou um seixo e jogou-o no fundo do jarro. Jogou mais um e muitos outros. Com alegria verificou que a água vinha, aos poucos, se aproximando da borda. Jogou mais alguns seixos e conseguiu matar a sede, salvando a sua vida.

 

 

A Raposa e o Corvo

Um dia um corvo estava pousado no galho de uma árvore com um pedaço de queijo no bico quando passou uma raposa. Vendo o corvo com o queijo, a raposa logo começou a matutar um jeito de se apoderar do queijo. Com esta idéia na cabeça, foi para debaixo da árvore, olhou para cima e disse:

- Que pássaro magnífico avisto nessa árvore! Que beleza estonteante! Que cores maravilhosas! Será que ele tem uma voz suave para combinar com tanta beleza! Se tiver, não há dúvida de que deve ser proclamado rei dos pássaros.

Ouvindo aquilo o corvo ficou que era pura vaidade. Para mostrar à raposa que sabia cantar, abriu o bico e soltou um sonoro "Cróóó!" . O queijo veio abaixo, claro, e a raposa abocanhou ligeiro aquela delícia, dizendo:

-Olhe, meu senhor, estou vendo que voz o senhor tem. O que não tem é inteligência!

Moral: cuidado com quem muito elogia.

 

A Águia, o Corvo e o Pastor

Lançando-se do ar, uma águia arrebatou um cordeirinho. O corvo, vendo aquilo, tratou de imitá-la, e se jogou sobre um carneiro mas, de forma tão desengonçada que acabou por se enredar na lã e, debatendo-se em vão com suas asas, não conseguiu se soltar. O pastor, vendo aquilo, recolheu o corvo e, cortando as pontas de suas asas, o levou a seus filhos.

Perguntaram seus filhos sobre que ave era aquela, e eles lhes disse:

- Para mim, apenas um corvo, mas ele acha que é uma águia.

Moral: Põe teu esforço e dedicação no que realmente estás preparado, não no que não te corresponde.

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Augúrios da morte e da providência divina:

O corvo na Bíblia e em outros textos mitológicos

Em diversas regiões, o corvo é considerado um profeta e um augúrio negativo. Os árabes chamam-no de Abu Zajir, ou seja, “Pai das Profecias.” Na Irlanda antiga era domesticado para uso em práticas divinatórias – o termo “Sabedoria do Corvo” era usado para descrever o dom humano da Previsão. Corvos que abandonavam seus ninhos eram vistos como péssimos presságios e a superstição popular afirma que se os corvos abandonarem a Torre de Londres um dia, a monarquia chegará ao seu fim. Em muitas regiões do Mundo Antigo, ver um corvo voando para a direita era um sinal positivo, enquanto que se visto voando para a esquerda, era interpretado como mau sinal.

Por se alimentarem de carniça, os corvos eram vistos como mensageiros da morte, de doenças e de batalhas. Acreditava-se que essas aves ávidas por carne podiam sentir o aroma da morte sobre uma pessoa antes mesmo que ela morresse – até mesmo através das paredes de uma casa. Em pinturas, o corvo pode ser visto voando sobre campos de batalha, ansioso por banquetear-se nos mortos. Após a batalha do Armagedon, corvos descerão sobre as terras dos perversos. [Isa 34:11]

Acreditava-se que os corvos tinham um apreço especial pela carne dos criminosos enforcados e que gostavam de arrancar os olhos dos pecadores. [Prov 30:17] Os cristãos criam que eles levavam consigo as almas dos malditos e associaram esa ave com a Queda do Homem e com Satã, que cega os pecadores, inibe seu senso moral e banqueteia em sua corrupção.

Os corvos simbolizavam o pecado, especialmente os pecados da gula, do roubo e dos falsos ensinamentos. Eram apelidados de “aves surrupiadoras” e as crianças islandesas aprendiam que beber com canudos feitos de penas de corvo faria com que se tornassem ladrões. Acreditava-se que padres pervertidos se transformavam em corvos ao morrer. Para os cristãos europeus, o corvo é a antítese da inocente pomba branca. Contudo, em algumas tradições africanas e nativas americanas, o corvo é um guia benevolente cuja visão aguçada lhe permite enviar alertas aos viventes e que também orienta os mortos em sua jornada final.

A ambigüidade da igreja cristã diante da figura do corvo é bastante conhecida. Acima à esquerda, Santo Expedito pisoteia a criatura divina só porque seu canto se assemelha à palavra latina para 'amanhã' – uma suposta referência ao fato de que o corvo tentaria procrastinar a conversão do legionário romano Expedito. Já na figura da direita vemos outro santo, desta vez São Bento, que é salvo por um corvo.

O grito do corvo, "Cras! Cras!" foi interpretado pelos falantes do latim como significando “Amanhã! Amanhã!”. Tornou-se, portanto, um símbolo do pecador tolo que procrastina a conversão. Outros contudo, viam nesse mesmo canto a esperança de um futuro melhor. Para os esquimós, o canto do corvo soa como "Kak, kak, kak!" que significa “um cobertor de pele de rena”. De acordo com suas lendas, os gritos do corvo alertaram as pessoas para que não se esquecessem de seus cobertores quando deixavam suas casas.

Antes de Noé enviar a pomba a partir de sua Arca, ele enviou um corvo branco para testar as águas. Ao invés de retornar à Arca, esta ave “prosseguiu daqui para ali até que as águas secassem [Gen 8:7]. De acordo com Matthew Henry, a atitude desse corvo era como o “coração carnal” que, ao invés de buscar repouso e refúgio no Salvador, “pousa sobre o mundo e se alimenta da carniça que nele encontra”. Lendas judaicas dizem que o corvo de Noé foi punido por não voltar à Arca ao ser tingido de negro e condenado a comer carniça.

Os gregos acreditavam que Apolo tornara o corvo negro quando a ave informou-o sobre a infidelidade de sua amante, Coronis. Este episódio deu ao corvo a reputação de espião e divulgador de segredos. No Noroeste do Pacífico, as penas de corvos foram escurecidas quando seu cunhado passou-o através do fogo para puni-lo por seus truques. De acordo com as lendas ucranianas, os corvos antes possuíam belas penas multi-coloridas e uma voz agradável mas, após a Queda, começaram a comer carniça. Este hábito destruiu suas vozes e escureceu sua plumagem. Sua beleza anterior reaparecerá quando o Paraíso for restaurado.

Na mitologia nórdica, o onisciente deus Odin (Wotan) possui um par de corvos chamados Hugin (Pensamento) e Munin (Memória) que vivem sobre seus ombros ou em seu trono. Todas as manhãs eles voam ao redor da Terra observando tudo e questionando a todos, até mesmo os mortos. À noite, eles retornam a seu mestre e sussurram-lhe tudo o que viram e ouviram. Por vezes, o próprio Odin assume a forma de um corvo.

Os corvos são tidos ao redor do globo como metamorfos e humanos costumam ser transformados em corvos por seus inimigos. São profetas, lançadores de sortilégios e mensageiros dos deuses. Deuses e deusas da guerra e do trovão como a celta Badb possuem corvos como seus atributos. São emblemas dos dinamarqueses e dos vikings.

A despeito de sua aparência obscura, o corvo costuma ser um símbolo solar. Na Grécia, era sagrado a Apolo, deus da luz. Na China, um corvo de três pernas vive no sol. Suas pernas simbolizam a aurora, o meio-dia e o crepúsculo. Antes existiam dez corvos solares, mas eles emitiam uma luz e um calor tão intensos que um arqueiro teve de abater nove deles para preservar a vida na terra. Um corvo vermelho é o emblema da Dinastia Chow na China.

Entre as tribos de nativos norte-americanos da Costa do Pacífico, Corvo é um herói, um mensageiro, criador do mundo, ladrão e pregador de peças. Ele ensinou aos primeiros humanos a sobreviverem e as artes de produzir roupas, canoas e moradias. Sua posição no folclore nativo americano é semelhante à do astuto coiote. Alguns dizem que o corvo nasceu da escuridão primordial; outros que ele nasceu do caixão de sua mãe morta, onde se alimentou de suas entranhas. Ele é um criador providente que gerou a luz do dia, a vegetação, os animais e os ciclos do mundo para o bem da humanidade. Ele levou os animais aos casais sobre uma balsa, assim como o Noé hebraico, para salvá-los de uma grande inundação. Depois de todas as benesses que ele trouxe à Humanidade, Corvo desejou desposar uma humana, mas os homens se recusaram a permitir tal união. Como vingança, Corvo criou os mosquitos a partir de folhas amassadas para atormentá-los para sempre. Quando Corvo trouxe luz à humanidade, os humanos se assustaram tanto que se espalharam por todos os cantos do mundo.

O corvo é o símbolo da solidão e um atributo de diversos santos que são alimentados por corvos em meio à natureza, entre eles Santo Antonio Abade, São Paulo o Heremita e São Bento. Apesar de o corvo ser considerado ímpio, Deus enviou corvos para alimentar Elias no regato durante uma seca prolongada. [1 Ki 17:6; Lev 11:15; Deu 14:14] Há muito tempo o corvo é um símbolo da providência divina. [Psa 147:9; Job 38:41] Muitos se recordam de quando Jesus disse para olhar para a andorinha e os lírios do campo, mas poucos parecem se lembrar das palavras “Olhai para os corvos, pois eles não semeiam nem colhem, e portanto não têm nem depósitos nem celeiros; e Deus os alimenta” [Lk 12:24] No Cântico de Salomão, as madeixas da Amada são “negras como o corvo” [Song 5:11]

O corvo simboliza a gratidão e o afeto filiais, a sabedoria, a esperança, a longevidade, a morte e a fertilidade. Na alquimia, ele representa a transformação e a alma evoluída que morre para este mundo. É um símbolo ainda usado com freqüência na magia moderna, na bruxaria e nos mistérios.

Corvos brancos ou albinos eram tão valorizados que os comerciantes de aves tentavam tingir as penas de filhotes mergulhando-os em diversas fórumlas letais. Entre os celtas, o corvo branco é o símbolo da heroína Branwen. Seu irmão Bran era retratado como um corvo. Na América do Norte, os Kiowas acreditam que o corvo branco se torna negro ao ingerir olhos de serpente. A deusa guerreira irlandesa Badb costuma assumir a forma de um corvo. Na mitologia clássica, o corvo é um atributo de Cronos ou Saturno e também de Atena, deusa da sabedoria, da vitória e das artes.

O corvo está associado ao amor materno e à fortaleza espiritual. Acreditava-se que as fadas se transformavam em corvos para criar problemas. Na heráldica, um corvo era usado para indicar uma pessoa escura, como um mouro ou sarraceno. No Egito, dois corvos serviam como emblema da monogamia.

Alguns cristãos vêem no corvo um emblema da Virgem Maria. As palavras “sou escura, mas formosa... pois o sol escureceu minha pele” são tidas como significando que a luz do amor de Deus brilhou com tamanha intensidade sobre ela que ela se queimou e foi purificada como que por um poderoso sol ou fogo. [Song 1:5-6]

Esses versos também fazem do corvo um símbolo da igreja que diz, “Não me olhes (com desprezo) por eu ser escura, pois foi o sol que me escureceu a pele. Os filhos de minha mãe ficaram bravos comigo; fizeram de mim a guardiã dos vinhedos, mas de meu próprio vinhedo eu não cuidei." [Song 1:6 parênteses acrescentados]. Esses versos são interpretados pela igreja como um apelo para que os potenciais convertidos não se sintam desencorajados diante de uma igreja pecadora, em sofrimento, ameaçada ou perseguida, mas ao invés disso que percebam que o fogo e a misericórdia do Senhor tornou sua escuridão mais bla do que a pureza virginal implicada na brancura de uma pomba.

O belo canto do melro torna-o um símbolo das tentações, especialmente de ordem sexual. O diabo certa feita assumiu a forma de um melro e voou sobre o rosto de São Bento, fazendo com que o Santo sentisse um desejo intenso por uma bela donzela que conhecera. Para salvar a si mesmo, São Bento arrancou suas vestes e lançou-se sobre um espinheiro. Os cristãos crêem que este doloroso ato livrou o santo das tentações carnais para o resto de sua vida.

Assim como o corvo, o melro é visto como um mau presságio. Contudo, avistar dois melros pousados juntos é um símbolo de paz e de bom augúrio.

© 1998 Suzetta Tucker

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O Corvo na Mitologia Celta

Poucos animais gozam de um papel tão importante nos mitos de um ovo quanto o Corvo entre os celtas. Presente nos nomes de deidades, animais guardiões de heróis ou espíritos do outro mundo, os corvos surgem nas lendas celtas da Irlanda, da Grã-Bretanha e do continente. Abaixo, alguns elementos interessantes sobre os corvos celtas.

Batalhas e Morte

A associação dos corvos com deidades guerreiras não é casual: grandes observadores da natureza, os celtas perceberam que essas aves sempre surgiam após as batalhas para se banquetearem nos cadáveres dos que tombaram em combate.

Na Gália, uma inscrição na moderna região de Haute Savoie traz o nome de uma deusa chamada Cathubodua: as partículas formadoras desse nome são facilmente identificadas: Cath é ‘batalha’, e bodua/Bodva é 'corvo', de onde seu nome significar, literalmente, Corvo de Batalha. Estas mesmas raízes são encontradas na Irlanda no nome da deusa Badbh Catha, uma figura sinistra que incita os guerreiros à batalha. Ao lado de Morríghan (também amplamente identificada com o Corvo) e Macha, Badbh forma a tríade de deusas guerreiras conhecidas como as Mórrígna.


Badbh pela ótica do artista Howard David Johnson

Com o passar do tempo e após a chegada do cristianismo à Irlanda, muitos deuses celtas foram absorvidos pela nova religião ou reduzidos em estatura. Com Badbh ocorreu este último caso: a imagem da Badhbh chaointe, ou “corvo lamentador”, ecoa a outrora grandiosa deidade Badbh como anunciadora da morte. Essa fascinante personagem surge em alguns relatos irlandeses como uma mulher que, através de seu pranto, anuncia morte ou tragédia a uma família, de forma semelhante à mais conhecida bean-sídhe (banshee). A pequena vila de Lisbabe no Condado de Kerry deriva seu nome do gaélico para “fortaleza de Badbh” – uma referência às ruínas de uma fortaleza tida como morada da deusa Badbh.

Nas lendas irlandesas do Ciclo do Ulster, a deusa Morríghan (‘Grande Rainha’) surge diversas vezes na forma de corvo – a mais conhecida quando pousa no ombro do herói Cuchulainn mortalmente ferido para anunciar sua morte. Antes disso, Cuchulainn já havia tido outros contatos com corvos: num deles, ele destrói uma revoada de corvos malignos e banha suas mãos em seu sangue – vestígios de um antigo ritual?

O famoso “Elmo de Ciumesti” (Romênia) é um de muitos objetos de batalha de origem celta que retratam o Corvo. Podemos imaginar o efeito psicológico sobre os inimigos que a visão de um guerreiro celta furioso vindo em sua direção encimado por um elmo com um corvo metálico a bater as asas!

As deidades celtas costumam ser descritas como ambíguas e de caráter volátil – nada mais natural, numa cultura em que não existem os utópicos conceitos de “Bem Absoluto” ou seu contraponto negativo. Talvez isso explique o fato de que, numa batalha travada entre as legiões romanas comandadas por Valerius e guerreiros celtas um corvo ter atacado o comandante celta vazando-lhe os olhos e permitindo a vitória do general romano que, dali por diante, passou a ser conhecido como Valerius Corvus.

Já na lenda galesa “O Sonho de Rhonabwy”, os corvos surgem em batalha na forma de aves mágicas que, não importa quão gravemente feridas, voltam à vida e continuam atacando os guerreiros liderados por Arthur. Ainda na literatura galesa, no Segundo Ramo do Mabinogi a figura central é Bendigeidvran, ou “Brân o Abençoado” – o nome Brân significa literalmente ‘corvo’. O nome de sua irmã, Branwen, significa “Corvo Branco” ou “Corvo Sagrado”: com efeito, a lenda de Branwen faz dela um símbolo da Soberania que deve ser respeitada por quem a desposa – na lenda, o Rei da Irlanda – e que traz a ruína aos que a desrespeitam.

A sobrevivência do mito de Brân no inconsciente coletivo dos britânicos pode ser atestada no folclore associado à Torre de Londres: segundo a lenda, é ali que Brân instrui seus companheiros a enterrar sua cabeça, para que seu espírito continue a proteger a ilha britânica. Atualmente, é costume dizer que enquanto corvos habitarem a Torre de Londres, a Grã-Bretanha estará protegida de invasores.


Um "Beefeater", membor da Guarda Especial da Torre de Londres,
exibe um dos belos corvos que ali vivem. Brân permanece vivo.


Soberania e Riqueza

Assim como suas “irmãs” Badbh e Morríghan, a deusa Macha está intimamente associada à soberania da terra. Nada mais natural, numa sociedade guerreira como a celta irlandesa, que a Soberania – a personificação feminina do poder sobre o reino e os súditos – esteja diretamente associada à guerra e à vitória. Apesar de mais intimamente associada ao cavalo (representação simbólica da Soberania), Macha também assume, nalgumas lendas, a forma de Corvo.

As lendas de Macha, aliás, são indispensáveis para quem deseja compreender mais a fundo o real simbolismo do corvo nas lendas celtas. Originalmente uma mulher sedutora que traz prosperidade a seu amante, Macha rebela-se quando ele lhe falta com o respeito, abandonando-o com seus filhos e deixando-o à míngua. É, obviamente, uma deusa associada à fartura e à soberania da terra, que deve ser desposada, amada e honrada para que traga riqueza.

A correlação entre as três Mórrígna e a Soberania é um bom lembrete para aqueles que propõem leituras superficiais dos mitos celtas: para além da evidente correlação das Mórrigna com batalhas esconde-se seu dom mais importante, que é a fartura e a prosperidade do reino. Prova inequívoca disso é a existência de outro trio divino de deusas: Banba, Fótla e Ériu são três irmãs, todas as três encarnações da Soberania das terras irlandesas. Essas três irmãs são filhas de Ernmas, uma deusa da qual sabemos pouco. Não há de ser acaso que Ernmas é mãe, de acordo com as lendas, também de Badbh, Macha e Morríghan.

Para a Alma Celta, tudo no universo pode ser explicado em termos de micro- e macrocosmos, ou seja: o que vale para um indivíduo vale também para o todo, o que explica o pequeno também explica o grande. Se o Corvo está associado ao bem estar e à prosperidade do reino através das deusas da Soberania, o mesmo vale para o bem estar e a psosperidade do lar – o “pequeno reino” individual de cada um de nós. Na Gália, esses são os atributos da deusa Nantosuelta, cuja iconografia costuma apresentar a imagem de uma mulher (a própria deusa) dentro de uma casa e na companhia de um Corvo. A mesma associação do corvo com a fartura pode ser encontrada na estátua do deus anônimo de Moux, França, na qual essa deidade aparece acompanhada de um cão e traz em uma das mãos frutos – a riqueza da terra - e tem em cada ombro um Corvo. Autores modernos especulam que trata-se de um deus da colheita, caso em que os corvos podem se referir aos poderes ctônicos da fertilidade da terra – mensageiros do outro mundo que nos trazem a fartura.


Baixo-relevo: Nantosuelta e Sucellus, Gália.
No detalhe, o corvo na base da peça

Assim como diversas outras culturas contemporâneas, a sociedade celta da Idade do Ferro era caracterizada pela guerra. A própria estrutura social embasava-se na escolha do mais valoroso guerreiro como o líder da tribo e muitos dos combates intertribais tinham como função definir essa liderança e aumentar a riqueza da comunidade.

Nas lendas irlandesas, Lugh, o comandante dos deuses Tuatha de Danann na mítica Batalha de Moytura, assume sua posição de líder praticamente ‘usurpando’ a liderança. A ligação entre o Lugh irlandês e o Lugus gaulês é óbvia – e as habilidades de Lugh nos mitos irlandeses em usurpar a posição de comando pode explicar por que os romanos associaram o Lugus gaulês ao seu deus Mercúrio, ‘padroeiro’ do comércio e também do furto – em última análise, por mais que injusta e indesejável, apenas outra forma de comércio.

Os Corvos são conhecidos por seu fascínio por objetos brilhantes – vidro, metais, moedas – que ‘furtam’ para decorar seus ninhos. Sabendo que as moedas são a forma mais conhecida de comércio, não causa estranheza, então, que o corvo surja em moedas celtas que trazem em uma de suas faces a imagem de um enorme corvo montado a cavalo e com um pão ou bolo no bico.

Como tudo no universo celta, os simbolismos se entrelaçam e se complementam: o tamanho descomunal do corvo em relação ao cavalo indica tratar-se de um ser divino, que traz em seu bico a fartura – o pão ou bolo, fruto da terra. O cavalo e suas implicações militares e de Soberania retoma o tema de que é através da guerra que a sociedade celta se mantinha próspera. Lugh/Lugus, portanto, é um deus associado primordialmente à luz – como prova seu nome – e também à riqueza da terra, ao comando militar e ao comércio - seja este o comércio propriamente dito, pautado na troca de valores – moedas e bens – seja através da pilhagem, tão comum na sociedade celta da Antiguidade. Não por acaso, na lenda irlandesa “O Gavião de Achill”, Lugh é mencionado ao lado de corvos.

Outro Mundo

As escavações no sítio arqueológico de Jordan Hill, na Inglaterra, revelam que aquele local abrigara um santuário em tempos celto-romanos. Em seu interior, foram encontrados diversos ossos de corvos, sepultados cada um com uma moeda e separados por lajes. É curioso que este sítio date do século V, quando aquela região da Grã-Bretanha já se havia cristianizado – mais uma prova da sobrevivência dos costumes celtas. O simbolismo da moeda remete à imagem do “Balseiro”, aquele que, nas tradições pagãs de diversas culturas, é responsável pela travessia das almas para o Outro Mundo. Nada mais adequado do que ter essa travessia assistida por Corvo.

Até mesmo nas lendas cristãs da Irlanda o Corvo está ligado ao Outro Mundo – claro, de forma não tão positiva. A negativação da imagem do Corvo pelo cristianismo pode ser atestada através da lenda de Cornú, uma grande ave negra que vive no Purgatório de São Patrício. Segundo a lenda, Cornú era originalmente um demônio que foi enviado por Patrício ao Purgatório – um aspecto do Outro Mundo - na forma de um corvo.

Essa ligação entre Corvos e o Outro Mundo é fortalecida pelo fato de que ossos dessa ave são comumente encontrados junto aos aliecerces de estruturas comunais por toda a Gália e Grã-Bretanha. Talvez sejam ali depositados como forma de honrar os espíritos da terra – nas palavras da escritora Miranda J. Green, “os corvos podem estar associados a fossos por um simbolismo ctônico: os postes ritualísticos penetram no subsolo formando uma linha de comunicação entre os vivos e os mortos, a terra e os poderes do mundo inferior. Os corvos, com sua plumagem negra e seu hábito de se alimentar de corpos mortos, eram claramente percebidos como mensageiros do Outro Mundo”, o que torna óbvio outro tema comumente associado ao Corvo nas lendas celtas:


A Profecia

Por sua íntima ligação com o Outro Mundo – domínio dos espíritos e dos mortos – era de se esperar que os Corvos tivessem associações com as artes proféticas e oraculares.

Em ao menos dois eventos, a profecia trazida pelo Corvo fala de amores – ainda que trágicos: nas lendas irlandesas, a bela Deidre dos Infortúnios tem a visão do homem por quem se apaixonará ao observar um corvo que se alimenta do sangue que corre de um bezerro morto sobre a neve. A cena é por ela interpretada como um portento sobre seu amor ideal: “de cabelos negros como o corvo, com as faces alvas como a neve e os lábios vermelhos como o sangue”. Essa mesma tríade de cores (preto-branco-vermelho) surge também no mito galês de Peredur, que ao vê-las na imagem de um corvo a devorar um pato sobre a neve identifica as características de sua amada: cabelos negros, pele branca e bochechas avermelhadas.

Na Irlanda, o nobre guerreiro irlandês Lugh Lamfotha já mencionado acima é avisado por corvos de que seus inimigos estão se aproximando, o que lhe permite preparar-se melhor para resistir ao ataque dos temíveis Fomoire. Já na narrativa “A Destruição da Pousada de Da Derga”, Badbh aparece na forma de um corvo e também de uma anciã trajando negro que profetiza a morte do rei Conaire.

Ao relatar o ataque das legiões romanas ao centro druídico de Mona (Anglesey), na Grã-Bretanha, o escritor romano Tácito descreve druidesas trajando vestes negras e lançando maldições sobre os legionários romanos – as vestes negras podem ser uma alusão ao corvo como criatura ligada tanto à batalha quanto à magia.

A associação entre Corvo e profecia é duradoura: mesmo em tempos recentes, no século XVII, o folclore inglês mencionava um corvo profético que poderia ser visitado por seus ‘clientes’.

Noutro relato ancestral, é a deusa Morríghan – tão intimamente associada ao Corvo – que comunica ao Dagda, na véspera da grande batalha, o desfecho do conflito. E ao final da Grande Batalha, Morríghan volta a desfilar seus dons proféticos através de seus famosos versos:

Após a vitória em batalha e depois que a matança foi limpa, a Morríghan, filha de Ernmas, passou a anunciar a batalha e a grande vitória ali ocorrida aos grandes montes reais da Irlanda e às hostes divinas, aos seus rios principais e aos estuários. E eis porque Badbh relata ainda grandes feitos. “Trazes notícias?”, todos lha perguntavam.


“Paz até o Paraíso,
Paraíso na Terra,
Terra sob o Paraíso,
Força em cada um
Uma taça bem cheia
Cheia de mel,
Abundância de hidromel.
Verão em inverno...
Paz até o Paraíso...”


Ela também profetizou sobre o fim do mundo, antevendo cada maldade que então ocorreria, e cada pestilência e cada vingança, e entoou o seguinte poema:

“Não verei um mundo
Que me agrade:
Verão sem frutos,
Gado sem leite,
Mulheres sem modéstia,
Homens sem valor.
Conquistas sem realeza...
Bosques sem mastros,
Mar sem vida…
Julgamentos falsos de homens velhos,
Precedentes falsos de juristas,
Cada homem um traidor.
Cada filho um saqueador,
O filho irá à cama de seu pai,
O pai irá à cama de seu filho.
Cada um o cunhado de seu irmão.
Ninguém procurará esposa fora de casa...
Um tempo maligno,
Filho a enganar o pai,
Filha a enganar…”

 

 

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