A Sociedade Celta


Pode-se até tentar, mas é praticamente impossível compreender a fundo uma espiritualidade e sua filosofia sem conhecer a sociedade na qual ela floresce. Uma compreensão profunda do cristianismo, por exemplo, só é possível quando são conhecidas as atribulações pelas quais passava a sociedade da Galiléia sob o jugo romano de dois mil anos atrás e quando entendemos os processos por que atravessou o cristianismo ao longo dos séculos subseqüentes. Analogamente, só se pode entender de fato o hinduismo quando somos apresentados às suas origens e aos eventos que se sucederam; e o mesmo se aplica ao druidismo e à espiritualidade celta.

Assim, da mesma forma como incluí um texto sobre a história do druidismo na seção correspondente (link), também aqui apresento alguns elementos históricos da cultura celta que dão suporte ao estudo e à vivência do da espiritualidade celta em nossos dias. Aos que, por força do divórcio imposto pelas religiões modernas entre espiritualidade e sociedade deixam-se iludir pela percepção de que a Alma Celta pode ser estudada e compreendida apenas por si mesma, fica o lembrete do estudioso francês Jean Markale: A instituição druídica era simultaneamente estruturada no seio da tribo e do povo, na própria estrutura da Gália e de toda a comunidade celta original. Isto confirma nossa convicção de que o druidismo era a religião de todos os celtas, e também ajuda a esclarecer que o druidismo, com suas estruturas e hierarquia com tendências federais, era absolutamente inseparável da sociedade celta, com a qual formava um organismo único, do qual era o esqueleto espiritual.

Não há como entender a Alma Celta sem compreender sua manifestação física – a sociedade em que se desenvolveu. Nesta seção, faremos uma jornada por diversos aspectos da sociedade celta, usando como baliza os elementos comuns a todas as culturas oriundas do tronco cultural indo-europeu. A proposta é que, desta forma, tenhamos uma visão clara, fundamentada e livre de estereótipos acerca das origens de determinados elementos culturais dos celtas e também das transformações ocorridas com o passar das eras.

Obviamente que estas páginas oferecem uma mera introdução ao tema, por si só demasiadamente vasto para ser esgotado em poucos parágrafos. Mesmo assim, creio que seja de suma importância oferecer informação confiável sobre alguns aspectos da cultura celta que costumam ser erroneamente retratados em muitos sites e publicações.

 

A Sociedade Tripartida

Como ocorre em diversas culturas de origem indo-européia, a sociedade celta era basicamente dividida em três ‘extratos’:

• uma nobreza governante, formada pelos guerreiros e de onde se originavam os líderes;
• um clero, composto pelos druidas;
• um conjunto de homens livres, artesãos e mestres em diversos ofícios.

Em comum com outras culturas da época, completava a sociedade a 'categoria' dos escravos e servos - geralmente indivíduos de outras tribos ou mesmo de outros povos que, derrotados em batalha, passavam a servir seus conquistadores.

As eleições de alguns reis eram eventos anuais, mas outros mantinham-se no poder por períodos mais longos. Abaixo do rei estava a classe dos guerreiros, dentre os quais o rei era selecionado.
Os clãs guerreiros possuívam grandes propriedades, o que lhes permitia a posse das custosas armas e cavalos necessários para o combate. Com status igual aos guerreiros estavam os indivíduos de saber - druidas, bardos e artesãos altamente qualificados. Abaixo desses grupos nobres, as famílias de agricultores, que compunham o grosso da população. Os agricultores eram livres, mas deviam pagar taxas e prestar serviço militar em guerras aos seus reis e nobres. Na base da ordem social esdtavam os escravos.
Ainda que em menor número do que no mundo greco-romano - onde escravos formavam um terço da população de algumas cidades - escravos existiam na sociedade gaulesa.

- Philip Freeman

A predominância da figura do guerreiro é facilmente explicada por estarmos falando de uma época conhecida como “Idade do Ferro”: o mundo de então era pautado em valores como a honra, a conquista e a glória – o melhor guerreiro, o mais valoroso e bem sucedido, teria seus feitos cantados em verso e prosa pelos poetas e bardos, ganhando, assim, a eternidade.

Ademais, é através da glória gerada pelos feitos heróicos e grandiosos que se obtém poder, atraindo e mantendo fiéis os aliados e conseguindo a obediência dos súditos. Como todas as culturas de origem indo-européia na Idade do Ferro, os celtas eram, antes de tudo, uma sociedade guerreira, de forma que eram os melhores guerreiros a governar essa sociedade. E os melhores guerreiros eram aqueles que, por sua valentia em batalha, seus feitos e sua generosidade na vitória, recebiam dos demais a admiração e a glória.


Um chefe tribal desfila pela comunidade atraindo a admiração dos habitantes.
(Ilustração: Angus McBride)

Não se trata aqui de uma ‘glória’ fugaz e superficial, mas sim da verdadeira virtude, do verdadeiro talento, da verdadeira justiça e valor. Até porque, ao contrário do individualismo que caracteriza nossa sociedade moderna, a sociedade celta tinha como foco principal a tribo, a comunidade. Um líder guerreiro busca a glória pessoal que lhe torne apto a governar a tribo, mas em nenhum momento deve busca essa glória pessoal em detrimento do bem comum da comunidade.


Comunidade Tribal

'Tuath', 'Cinel' e 'Clann' eram os termos usados indiscriminadamente para designar aquilo a que hoje chamamos de tribo ou clã. Assemelhava-se ao conceito romano de Gens, pois todos os membros dela afirmavam descender de um fine remoto, e um ancestral comum tido como cabeça do fine - sendo todos, portanto, aparentados, gozando de diferentes direitos (de acordo com o grau de parentesco e outros fatores), formando, coletivamente, um estado político e em termos de propriedade, com uma vida e uma individualidade municipal independentes, uma legislatura própria e um exército in gremio; nesses dois aspectos, contudo, estavam sujeitos a - e eram membros de - um estado superior consistindo de uma federação de comunidades semelhantes.
Laurence Ginnell - The Brehon Laws

As preciosas informações de Laurence Ginnell acima referem-se à sociedade da Irlanda medieval como retratada pelas Leis Brehon. Apesar de muito mais recentes do que os celtas 'clássicos' da Idade do Ferro, os irlandeses da Idade Média ainda preservavam muitos traços da sociedade celta pré-cristã, e os estudos de outros autores - como Barry Cunliffe, por exemplo - sobre a sociedade dos gauleses de praticamente mil anos antes dos irlandeses descritos por Ginnell reforça a impressão de que esses elementos sociais se aplicassem também às culturas celtas que se desenvolveram antes.

Com base nos textos de Julio Cesar, Cunliffe cita, por exemplo, as relações de clientelagem que regiam a sociedade gaulesa - observada in loco pelo próprio Cesar - como o modelo de relação social entre indivíduos (nobre-vassalo) e também entre tribos (vencedores-vencidos). Essa clientelagem, sempre segundo Julio Cesar, era benéfica para ambos os lados: "os governantes não permitem que seus clientes sejam oprimidos ou prejudicados, pois isso minaria a sua influência sobre os clientes".

Eis porque os textos legais da Irlanda indicam que um rei tribal deve ser nobre, destemido e, acima de tudo, generoso.

O orgulho tribal era precioso entre os celtas: compartilhar de uma mesma origem unia reis, druidas e camponeses, e a união era fortalecida pela partilha de uma ancestralidade comum geralmente descrita como divina. A escolha de um rei tribal era assunto para todos, pois da retidão e da integridade física, mental e espiritual do rei dependia o bem estar de toda a comunidade.

 


Rei: Governante Sagrado

Os primeiros escribas descrevem o 'Rí' como a encarnação da fortuna e da prosperidade do povo. Sua inauguração exigia um ritual profundo e misterioso que assinalava uma intimidade espiritual e física com a Soberania. O rei era sagrado porque a ele eram permitidas funções negadas a outros mortais.
- James MacKillop


Os reis celtas não eram necessariamente hereditários, tampouco eram indivíduos tirânicos: entre os celtas, os reis eram eleitos entre os representantes da elite de guerreiros para conduzir os destinos da tribo. Para tanto, de acordo com o texto conhecido como Cóic Conairi Fuigill (“Os Cinco caminhos do julgamento”), um candidato a rei tribal deveria ser fisicamente imaculado, um homem de posses, em boa situação legal e inocente de roubo. Nas palavras de Philip Freeman, "Um rei celta governava a tribo, mas seu poder provinha de sua habilidade e influência, e não de sua ancestralidade." Escolhidos por suas virtudes, nalgumas vezes os reis exerciam o poder por tempo determinado - como os modernos mandatos de presidentes e primeiros-ministros.

Evidenemente, um bom rei amealharia para si uma fortuna que lhe permitiria preservar seu poder por mais tempo e até mesmo dar origem a dinastias familiares, mas a possibilidade de essa concentração de poder gerar maus governantes era seriamente minimizada por dois fatores controladores: a presença dos druidas como conselheiros e reguladores do poder; e a necessidade de manter a comunidade em condições de prosperidade, fartura e felicidade.

"É através da verdade do rei que a doença e os raios são afastados do povo.
É através da verdade do rei que ele julga as grandes tribos e os tesouros.
É através da verdade do rei que as belas crianças nascem."

- Audacht Morainn ("O Testamento de Morann", manuscrito irlandês - séc. VII)

Ser um rei tribal implicava em promover o fortalecimento da tribo – e para isso a união de todos era fundamental. Como forma de promover essa união, todo rei deveria ser generoso para com sua tribo – e uma prática comum para esse fim era a celebração de banquetes.

 


O Banquete Celta: comunhão tribal

Os banquetes podiam ser eventos selvagens, embriagantes e até mesmo mortais - acima de tudo, porém, eram importantes encontros sociais, por vezes com toques cerimoniais e religiosos.
- Simon James

Ao escavar o sítio arqueológico de Dún Ailinne no Condado de Kildare, a equipe de arqueólogos liderada por Bernard Wailes deparou-se com vestígios de grandes banquetes coletivos realizados periodicamente no topo daquela colina sagrada. A datação dos vestígios apontou para um largo período que tem início no Neolítico e, segundo algumas estimativas, avança até o século XIX. Mas é durante a Idade do Ferro, durante a ocupação celta daquela região, que a colina de Dún Ailinne recebeu maior atividade.

Dún Ailinne é também conhecida como Knockaulin (knock = colina). Assim como na Colina Sagrada de Tara, de seu cume é possível avistar uma vasta área - algo estrategicamente importante no estabelecimento de comunidades durante a Idade do Ferro. Contudo, os resultados das escavações no topo da colina revelam que, a despeito da presença constante de humanos, Dún Ailinne jamais serviu de moradia fixa: não há vestígios de habitações, apenas de atividades grupais envolvendo muitas fogueiras que, a julgar pelos muitos restos de ossos de animais, eram preparados como churrasco para um grande número de convidados. Ou seja: a presença humana ali era frequente mas não contínua, o que nos permite dizer que Dún Ailinne não era um local de ocupação mundana. No alto de seu cume, as pessoas da região se reuniam a intervalos regulares para desfrutar de uma refeição coletiva: um banquete sagrado.

O folclore da região associa Dún Ailinne ao rei Find File - um rei histórico que compartilha diversos elementos com o herói Fionn MacCumhaill. Além de semelhante ao do grande guerreiro-poeta, o nome Find File indica uma íntima ligação com a Poesia Sagrada, pois significa literalmente 'Poeta/vidente Branco".

As informações acima compõem um quadro bastante claro: num local privilegiado, um rei nobre por sua sabedoria oferece regularmente banquetes à sua população. Talvez a mais importante instituição da sociedade celta, o banquete é, ironicamente, quase que ignorado pela grande parte dos que procuram resgatar a Alma Celta.

A prática dos banquetes era uma constante entre os celtas: muito mais do que uma refeição, na Irlanda o banquete era uma forma de comunhão entre a nobreza e a população, reforçando a identidade tribal de todos e servindo de oportunidade para que todos travassem contato com as lendas e mitos tribais através do trabalho dos Fíli - os poetas do sagrado, responsáveis pela preservação e transmissão das histórias sagradas: assim como o alimento preparado no banquete nutria seus participantes fisicamente, as lendas e mitos os nutriam espiritualmente.

Tamanha é a importância dos banquetes que nem a cristianização e nem mesmo a ocupação normanda da Irlanda foi capaz de eliminar esse costume tão celta na sociedade irlandesa, como demonstra a imagem medieval abaixo: nela, vemos claramente a imagem dos nobres sentados à mesa enquanto diversos homens preparam a carne a ser preparada em grandes fogueiras e servida aos convivas. De pé atrás da figura principal sentada à mesa, um homem parece servir de conselheiro - vestígios da função druídica? - e diante deles, um bardo entoando versos mitológicos ao som da harpa, tradicional instrumento dos Fíli e poetas irlandeses.

 

A cena, retratada num manuscrito medieval, poderia muito bem referir-se aos banquetes dos celtas da Idade do Ferro irlandesa, ou mesmo da Gália - também as fontes clássicas atestam a importância das refeições comunais entre os gauleses. Ao relatar seu convívio entre os celtas da Gália, o filósofo grego Posidônio escreve sobre os banquetes de que participa. Por ser estrangeiro, Possidônio recebe a proverbial hospitalidade celta e é sempre muito bem tratado e alimentado nos banquetes. Além de comida e bebida abundante, os banquetes celtas também envolvem música e a narrativa de poemas e lendas.

Num banquete celta, nada é meramente entretenimento: tanto o alimento consumido quanto a arte (música, poesia, lendas) servem a um propósito sagrado. O próprio Posidônio menciona juramentos e pactos realizados durante esses banquetes.

Para os celtas, a tribo reflete a condição do universo: numa relação de micro x macro, a ordem social assegura que o universo também mantém-se em ordem - por isso, a elaborada ordem social dos celtas também tem lugar nos banquetes: a importância social de cada indivíduo é refletida no local em que cada um toma assento.

Sempre que os celtas celebram um banquete, sentam-se em círculo com o homem mais poderoso no centro. Seu poder pode emanar de sua coragem em batalha, sua origem nobre, ou simplesmente sua riqueza. A seu lado senta o anfitrião, seguido em ambos os lados em ordem de importância.
Atrás de cada convidado fica seu escudeiro, enquanto que os guerreiros menos importantes sentam-se separados, em seu próprio círculo.

- Posidônio

Numa cultura espiritualizada como a celta, nada é aleatório: o conhecido apreço dos celtas pelo círculo e seus múltiplos simbolismos mais uma vez surge na organização do banquete - e torna evidente a origem dos míticos "Cavaleiros da Távola Redonda" das lendas arthurianas que se desenvolveriam muito mais tarde a partir desses elementos culturais celtas.

Se os mitos refletem os costumes sociais, o reverso também é verdade: em diversas lendas celtas, banquetes assinalam eventos importantes - e os relatos desses eventos mitológicos são uma preciosa fonte de informação tanto para o estudo dos costumes celtas quanto para o resgate de sua espiritualidade.

Talvez o mais famoso banquete dos mitos celtas seja o irlandês "Fled Bricrenn" ("O Banquete de Briccriu"). Esta narrativa pertence ao Ciclo Ultoniano da mitologia irlandesa, mas seguramente referindo-se a eventos anteriores - a mais antiga versão conhecida data do século VIII. Nela, o anfitrião é Briccriu Nemhthenga, Briccriu da "língua maligna". Como seu próprio nome faz intuir, trata-se de uma personagem ardilosa e pouco confiável, que desperta a vaidade dos três grandes guerreiros do Ulster - Cuchulainn, Conall Cernach e Lóegarie Búadach a ponto de levá-los ao conflito. A disputa gira em torno da "porção do campeão" - a melhor peça de carne do banquete, servida ao mais nobre e valoroso dos guerreiros.

Recuando ao Ciclo Mitológico, outro banquete importante é oferecido por Goibhniu, o deus ferreiro dos Tuatha de Danann, que oferece um festim regado a cerveja do tipo 'ale' (de fermentação alta) que garantia vida longa aos que a consumiam. A cerveja 'ale' surge noutras instâncias em banquetes lendários, como no fantástico encontro do rei Conn Céthcathach com Lugh e a Donzela da Soberania relatado na lenda "Baile an Scáil": após ser atraído junto a seus druidas e poetas a uma casa dourada no Outro Mundo, o rei Conn depara-se com a figura divina de Lugh sentado num trono, ao lado do qual está uma belíssima donzela coroada que oferece-lhe uma taça com a cerveja vermelha da Soberania. Após dela beber, Conn vê tudo desaparecer - Lugh, a donzela, a casa - restando-lhe nas mãos somente a taça em que lhe fora servida a cerveja. Mais uma relação com o mito arthuriano e a imagem do graal associado à Soberania de um grande rei.

A cerveja era derramada numa grande taça e passada ao redor do círculo. Esperava-se que um convidado desse goles pequenos, mas frequentes, a cada volta da taça. A taça era sempre passada para a direita - passá-la para a esquerda era uma ofensa aos deuses.
- Philip Freeman

Por falar em taças mágicas servidas em banquetes, ainda nas lendas irlandesas temos a Taça do Rei Cormac MacArt. Feita de ouro, essa taça é entregue a Cormac durante um banquete pelo anfitrião, que lhe explica que a taça possui características mágicas: ela se parte quando três mentiras são ditas diante dela, e só é restaurada quando três verdades são ditas em sua presença. De acordo com os textos legais da Irlanda celta, para ser legítimo um rei deve possuir a fir flathemon ("a verdade do governante") - aqui diretamente associada à imagem da taça de Cormac - e, obviamente de novo o tema do graal arthuriano vem à tona, não só através da taça mas também do nome do pai de Cormac: Art mac Cuinn, Art, "filho de Conn".

Por vezes, compreendemos o verdadeiro significado e importância de um tema pelo seu oposto: Em seu livro "The Brehon Laws", o pesquisador irlandês Laurence Ginnell descreve uma prática irlandesa conhecida como Troscead:

Troscead, ou jejuar sobre alguém, consistia em ir à casa do devedor e passar um determinado tempo sem alimento. O texto diz, "Aquele que se recusar a ceder o que é devido pelo jejum, a decisão que lhe recai de acordo com os Feini é que ele pague o dobro da quantia pela qual o credor jejua." "Se o reclamante jejuar sem receber o que pede, ele receberá o dobro da dívida e o dobro do alimento." "Aquele que jejua e recusa a oferta do que lhe é devido perde os direitos legais de acordo com a decisão dos Feini".

Se por um lado o banquete - a partilha do alimento - é uma instituição sagrada para a tribo por manter o equilíbrio e a ordem da sociedade e do universo, por outro a renúncia voluntária ao alimento demonstra que algo está fora da ordem e necessita de reparação. É uma medida drástica, que punha em risco a integridade do indivíduo que se entregava à prática - e, por consequência, arriscava toda a comunidade. Curioso lembrar que, no auge dos conflitos político-religiosos na Irlanda do Norte, nos anos 1970, a greve de fome foi uma das medidas adotadas pelos nacionalistas irlandeses presos pelos britânicos - de tão arraigados na alma de um povo, alguns costumes preservam-se, ainda que inconscientemente.

Outra evidência pelo oposto vem de um costume relatado por Julio Cesar durante suas campanhas na Gália. Segundo ele, "Se um determinado indivíduo ou grupo de pessoas não aceita as decisões de um druida, a eles é vedada a participação nos ritos públicos - entre eles, esta é a mais severa punição." Mais temível que a morte? Seguramente. A exclusão dos 'ritos públicos' era a exclusão dos banquetes sagrados tribais - não se trata aqui meramente de uma privação de alimento: alguém impedido de participar dos banquetes rituais tinha sua posição social negada, era excluído, tornava-se um morto em vida. Também o grande mitólogo Joseph Campbell escreveu sobre os banquetes celtas e seu signficado: "Banquetes mágicos são característica comum nas lendas tradicionais celtas - tanto na era pagã quanto na cristã."


Reconstrução no Musèe de la Civilización Celtique: Bibracte, França
O caldeirão era peça central no banquete celta.

Quando banqueteiam, os celtas se sentam no chão, usando como almofadas peles de lobo ou cão.
A refeição é servida por crianças de ambos os sexos; nas proximidades, estão as fogueiras, sobre os quais pendem caldeirões e espetos com grandes nacos de carne. Eles convidam estranhos para a refeição, sem lhes questionar a identidade ou o que desejam até que a refeição esteja terminada.

-Diodoro da Sicília

Num banquete celta, o rei costuma sentar-se num assento mais elevado - a primeira vista, a imagem remete ao tradicional trono dos monarcas ocidentais. Para os estudiosos das tradições celtas, porém, o significado é ainda maior: afinal, o termo utilizado por muitas ordens druídicas modernas para designar um grupo druídico é "Gorsedd", palavra galesa que significa, literalmente, assento elevado - podendo significar também elevação no terreno, colina". Assim, mais do que o trono, Gorsedd é a reunião tribal ao redor de uma refeição sagrada. Essa reunião tribal costuma acontecer no topo de uma colina - como em Tara e sua famosa Feis Temro (" Festa de Tara"); como na colina de Dún Ailinne mencionada no início desta seção.

Entre os celtas, os banquetes eram muito mais do que mera alimentação: era um cerimonial da corte, exibicionismo social e briga de baile, tudo numa coisa só. Para entendermos os banquetes celtas, temos de nos lembrar que os nobres de uma tribo mantinham-se aliados, acima de tudo, pela força de votos de honra e status. Os líderes tribais mantinham seu poder em grande parte através da influência pessoal e o patronato, homenageando os guerreiros que lutavam bravamente em batalhas com regalias e, mais importante ainda, com reconhecimento social.
Era nos banquetes que esse reconhecimento era tornado público pelo rei e pelos outros nobres.
A definição de quem receberia o melhor assento numa refeição e honrado com a melhor porção da carne era de tal importância entre os celtas que é difícil para nós conceber.
- Philip Freeman

 

Os celtas em guerra

Em nome da honra, um homem de virtudes se manteria de pé e praticaria atos de bravura. Mas alguém sem nenhum medo – nem mesmo de terremotos ou ondas, como dizem os celtas – ultrapassa os limites da bravura e chegam a uma qualidade indesejada sem definição própria... mais conhecida como insanidade.
- Aristóteles

O conceito de guerra de nossos dias é muito diferente da visão dos povos da Antigüidade. Se hoje a guerra é vista como algo abominável, nas culturas da Idade do Ferro ela era uma forma de sobrevivência e ascensão social, uma parte corriqueira do dia-a-dia de toda uma sociedade.


Entre os celtas, poder-se-ia até mesmo dizer que a guerra era como um esporte - digamos, o futebol moderno. Os melhores guerreiros - os mais fortes, habilidosos e nobres - eram respeitados e admirados, e passavam a ser chamados de os "campeões" tribais. Seu status elevado lhes trazia riquezas e regalias - como costuma acontecer com os maiores futebolistas de nossos dias.

 

Os celtas possuíam incontáveis tocadores de trompas e cornetas, criando um ruído ensurdecedor ao mesmo tempo que os guerreiros celtas soltavam seus horrendos gritos de guerra a plenos pulmões. Para os legionários romanos aterrorizados, era como se as próprias colinas ao redor estivessem vivas e urrando.
- Políbio


Carnyx - reprodução no Hallein-Keltenmuseum
(Salzburgo, Áustria)

Até mesmo as batalhas em si tinham muito a ver com o futebol moderno: existia uma 'temporada' de guerras - normalmente na primavera - em que as tribos rivais se enfrentavam em busca de poder, riqueza e ascendência. Nas guerras inter-tribais - uma constante na idade do Ferro celta, como nos mostram os relatos clássicos e as lendas - as hostes se encaminhavam para o local de batalha com seus estandartes, ruidosas cornetas chamadas carnyx (acima) e gritos de guerra e, após grandes provocações, partiam para o enfrentamento. Os vencedores voltavam para casa com seus troféus - as armas dos vencidos, seus tesouros e, nalguns casos, as cabeças dos melhores inimigos derrotados. Tudo isso pode soar barbárico a princípio, mas os grandes tumultos nos modernos estádios em dias de jogos importantes por todo mundo mostram que, exceção feita às cabeças cortadas, pouco ou nada mudou.

 

Ou melhor, mudou, sim: para os celtas a guerra era sagrada. Diversas deidades importantíssimas estão associadas ao ofício do guerreiro: Morríghan, a "Grande Rainha"; Scathach, a sensual instrutora nas artes da guerra; Nuada e sua espada; Lugh e sua lança 'inescapável' - todos esses mitos comprovam a sacralidade da guerra para os celtas.
E, ao contrário do que se pode imaginar, a guerra celta não tinha a função da guerra moderna de aniquilar o inimigo: existia todo um código de honra a ser respeitado em combate - em alguns casos, detectamos até mesmo semelhanças com a nobreza do código de guerra dos admirados e respeitados samurais do Japão feudal.

Era considerado extremamente desonroso, por exemplo, atacar um inimigo que já estivesse envolvido em combate com outro guerreiro. Atacar um inimigo pelas costas era um tabu, e como prova de que para os celtas a guerra não era um surto destrutivo e aniquilador, muitos combates entre tribos rivais sequer chegavam a ocorrer: por acordo entre as tribos, por vezes a luta se restringia a um combate individual entre os dois melhores guerreiros - os campeões tribais: a tribo do vencedor do combate era declarada a vencedora da guerra como um todo, poupando assim dezenas, centenas de vidas, sem deixar de satisfazer a função social da guerra. Essas nobres regras, contudo, não reduziam a capacidade bélica dos guerreiros celtas.

Quando os romanos e suas bem treinadas legiões invadiram a Gália, depararam-se com uma resistência formidável. Por diversas vezes, a disciplina romana não foi páreo para o poderio bélico dos celtas, que infligiram às legiões pesadas - e por vezes humilhantes - derrotas. Foi necessário que Roma aprendesse muito com essas derrotas até desenvolver uma estratégia diferenciada, totalmente adequada ao estilo de guerrear dos celtas, para que Julio Cesar finalmente pudesse derrotá-los na Batalha de Alésia. Obviamente, a proverbial desunião das tribos celtas contribuiu para esse fim.

Antes disso, porém, como já mencionado antes, os guerreiros celtas eram admirados por suas habilidades e costumavam ser empregues por outros povos em suas guerras, como mercenários - é o caso dos gaesatae, lanceiros celtas que lutaram ao lado das hostes de outros povos - egípcios, gregos e outros.

Estrabão define os celtas como 'loucos por guerra', mas que são de bom caráter. Já Julio Cesar registra que os celtas em guerra se mostravam absolutamente destemidos, e atribui sua força e coragem aos ensinamentos druídicos sobre a eternidade da alma: sem temer a morte, os guerreiros celtas eram dados a feitos formidáveis - que, sem dúvida, lhes rendiam a eternidade através das lendas, poemas e canções que os bardos entoariam pelas gerações seguintes conferindo-lhes, assim, a imortalidade pela virtude, tão desejada pelos povos indo-europeus.

 

A coragem pessoal era algo essencial, e o sucesso nas batalhas era uma fonte vital de prestígio,
de poder e de seguidores - e também da riqueza material necessária para mantê-los.

- Simon James

Essa característica pode soar, aos nossos ouvidos modernos, um tanto egoísta, mas suas conseqüências eram interessantes: para preservar seu status e sua posição, os líderes celtas eram dados a grandes demonstrações de generosidade para com seus súditos. Assim, em troca do apoio que recebia da tribo, um chefe tribal ofereceria à população de seus domínios proteção e banquetes – estes, um dos pontos focais da sociedade celta.

Como visto acima, muitas lendas celtas da Irlanda ecoam os relatos dos escritores clássicos acerca da importância dos banquetes oferecidos pelos chefes celtas da Gália. O poder de um líder era facilmente medido pela riqueza e qualidade do alimento que ele oferecia, e as peças usadas para servir os alimentos - verdadeiras obras de arte - nos dão testemunho da importância dos banquetes como forma de manutenção do prestígio dos nobres e de se fomentar a união da tribo como um todo.

Mas o líder celta – pouco importa se ‘grande rei’ ou chefe tribal – não governava só: a aconselhá-lo na paz e na guerra estava sempre a figura do druida.

 

Sacrifícios

Os gauleses criam que quando criminosos condenados eram sacrificados, a terra prosperaria.
- Possidônio

Um dos mais controversos temas acerca do estudo dos celtas é o que trata da prática ou não de sacrifícios nos rituais celtas - mesmo entre os pesquisadores acadêmicos, não parece haver consenso.

Evidentemente, a maioria dos relatos que narram a prática de sacrifícios - de humanos ou de outros animais - vem de fontes clássicas: Julio Cesar, por exemplo, vale-se do argumento para justificar perante o Senado de Roma os gastos de sua campanha militar contra os 'celtas selvagens' da Gália. É Julio Cesar quem menciona o notório "Homem de Palha" - uma enorme estrutura feita de madeira e plaha, no interior da qual eram colocados animais e pessoas a serem queimados. A impraticabilidade desse procedimento - ao atear fogo à base, logo toda a estrutura desabaria libertando os que estivessem mais ao alto - lança enormes dúvidas sobre a seriedade do relato de Julio Cesar.

 

Ademais, é no mínimo irônico que um general romano que alavancava suas pretenções políticas com a guerra se mostrasse indignado com as supostas práticas dos gauleses, sobretudo sendo ele próprio um distinto membro de uma cultura que criou, entre outras coisas, o Coliseu e seus sanguinários espetáculos. Da mesma forma, durante a campanha romana na Grã-Bretanha, Tácito descreve os "altares embebidos em sangue humano" para justificar as atrocidades cometidas pelas legiões romanas contra os druidas no massacre de Anglesey.

Já Plínio, o Velho, menciona ritos em que touros eram sacrificados aos deuses - uma prática bastante comum entre os povos da Antiguidade - enquanto que os relatos dos observadores romanos sobre os costumes dos bretões apontam para diversas formas de sacrifícios animais com vistas a obter informações sobre eventos vindouros - predições. Consta que a Rainha Boudicca era capaz de prever o futuro através da observação de uma lebre a correr pela grama.

Os Uates formam uma classe altamente respeitada de profetas. Através de augúrios e sacrifícios animais, eles predizem o futuro - e ninguém ousa rir deles.
- Possidônio

 

De fato, vestígios arqueológicos em diversos sítios por toda a Gália e na Grã-Bretanha parecem confirmar a prática de sacrifícios animais e, ao menos nalguns casos, também de humanos - o famoso "Homem de Lindow" é comumente citado como prova disso. Com efeito, o Homem de Lindow parece ter sido submetido a uma execução ritual: primeiro, ele recebeu três golpes de machadinha no crânio; em seguida, foi enforcado com uma corda ao redor do pescoço, com tamanha brutalidade que partiu-lhe as vértebras, para em seguida ter a garganta cortada com uma faca. Por fim, seu corpo foi atirado num pântano.

Este fato foi o responsável por sabermos toda essa história: ao cair nas águas pouco oxigenadas de um pântano, seu corpo foi preservado por milênios até ser resgatado em 1984 em tão bom estado de conservação que, a princípio, pensou-se que era uma vítima de crime recente. As análises de um esquadrão de peritos revelaram toda a sua história: o corpo pertenceu a um jovem perto de seus 25 anos, bem nutrido, saudável e com as unhas bem tratadas - provavelmente um nobre.

Reconstituição da apareência do "Homem de Lindow"

 

A natureza sagrada da prática pode ser atestada pela presença de sementes de visco encontradas no estômago do Homem de Lindow - segundo Plínio, o visco era sagrado entre os druidas bretões - e também pela sua "morte tripla": num curtíssimo espaço de tempo, ele é golpeado na cabeça, estrangulado e esfaqueado. O conceito da "morte tríplice" aparece séculos mais tarde na literatura irlandesa e pode referir-se à percepção de que tudo no universo é composto de três naturezas: a física, a mental e a espiritual.

Os motivos que o levaram à morte, porém, permanecem irrespondidos. Poderia ser um criminoso, executado para apaziguar a fúria dos deuses? Ou era ele um heróico mensageiro voluntário para, em nome da comunidade, conversar com esses mesmos deuses?


Ao longo da história temos diversas ocasiões nas quais um membro de um grupo religioso voluntariamente sacrificava sua vida como parte do culto. Entre os celtas do norte da Europa, há evidências arqueológicas que sugerem que ao menos algumas das vítimas de sacrifício humano entregavam-se voluntariamente à morte para servir aos deuses.
- Philip Freeman

Qualquer que seja o motivo, o fato é que o Homem de Lindow pertence a um grupo muito pequeno de indivíduos cujos vestígios possam indicar sacrifícios humanos como uma prática comum entre os celtas. E mesmo esses que eram mortos em circunstâncias rituais não sofriam dor e tortura prolongada: nas palavras de Philip Freeman, "não era uma matança corriqueira em nome de algum deus sanguinário, mas um esforço excepcional para restabelecer o equilíbrio com a natureza pelo bem da tribo."

Parece seguro, portanto, que se realmente os celtas da Gália e da Grã-Breatanha praticavam sacrifícios humanos, esse não era um costume frequente. De fato, em seus relatos após viver entre os celtas da Gália, Possidônio afirma que "Os gauleses mantinham um criminoso aprisionado por cinco anos, após o que ele era empalado em honra aos deuses. Eles então queimavam seu corpo numa enrome pira, com os primeiros frutos da colheita."

E quanto à Irlanda? Salvo pela menção aos sacrifícios exigidos pela obscura deidade Crom Dubh, não há relatos nas lendas irlandesas de sacrifícios humanos aos deuses. E mesmo esse relato deve ser avaliado com cautela, visto que ele surge nos textos referentes aos feitos de São Patrício - mais uma vez, podemos estar diante de propaganda panfletária para justificar a conversão dos irlandeses ao cristianismo.

Se são assim tão poucos os vestígios concretos acerca do sacrifício humano entre os celtas, por que o tema é tão controverso? Porque a maioria dos relatos sobre sacrifícios surge da literatura deixada pelos primeiros estudiosos recentes sobre os celtas, no século XIX. Trata-se de um período em que tanto a ficção quanto os estudos acadêmicos estavam totalmente contagiados pela imagem do "nobre selvagem" - as populações nativas que viviam em nobre harmonia com a natureza. As pesquisas conduzidas entre populações nativas da Oceania, Ásia e Américas olhavam para esses povos com um olhar quase invejoso, pois para esses autores o "nobre selvagem" vivia ainda no estado paradisíaco - entre eles, não havia a "queda", ainda estavam no Éden. Ao mesmo tempo, outra corrente ainda via essas culturas como negativamente primitivas, pouco mais que animais, sem ética nem moral. E essas visões conflitantes se uniram também quando os pesquisadores olharam para o passado e viram nos celtas os "nobres selvagens" da Europa.

Foi somente o rigor acadêmico dos estudos conduzidos no século XX que apagou essa imagem idílica e/ou brutal dos celtas (e de outros povos da Europa primitiva). No imaginário popular, contudo, ainda pairava a figura sombria do sacrifício sanguinário.

Seja como for, o mais importante é que fique bem claro que em momento nenhum este texto advoga a prática de sacrifícios - humanos ou de qualquer outra criatura - por um motivo muito simples: ainda que tenham sido praticados no passado, hoje nossos valores são outros; nossos costumes são outros e nossas necessidades, idem. Em que pese o fato de que muitas correntes espirituais modernas - sobretudo as de matriz africana - preservarem as práticas de sacrifícios animais, as leis, a moral e a ética de nossos dias tornam tal prática absolutamente obsoleta - para não dizer ilegal e imoral.

Se celtas, romanos, gregos, yorubás, astecas e xavantes praticaram sacrifícios de sangue no passado, seus descendentes deveriam entender que a vida, hoje, tem outro valor e outro significado, e que hoje há formas - até mais poderosas - de se honrar os deuses, aplacar a fúria dos elementos ou antever o futuro.


Os Druidas na sociedade celta

Há entre os celtas três grupos tidos na mais alta estima: os bardos, os ovates e os druidas. Os bardos são poetas e cantores, enquanto que os vates supervisionam os sacrifícios e estudam a natureza. Os druidas também estudam a natureza, mas dedicam-se também à moralidade. Os gauleses consideram os druidas os mais justos dentre os homens, conferindo-lhes, portanto, o papel de juízes em todas as disputas públicas e privadas. No passado, eles eram até capazes de interromper batalhas e por fim a guerras.
- Posidônio


O modelo de sociedade tripartida indo-européia identificado por Georges Dumézil apresenta evidentes variações culturais de uma sociedade para outra, mas é possível perceber os pontos em comum entre os druidas celtas, os brâmanes indianos e os flâmens romanos, por exemplo.

Mas ao contrário da função desempenhada pelos brâmanes na Índia e pelos flâmens em Roma, os druidas não eram apenas sacerdotes: o trecho acima, de autoria do filósofo grego Posidônio após seu contato com os celtas da Gália no século I a.C., descreve suas áreas de atuação dentro da sociedade celta, bem como a íntima relação com outros dois grupos: bardos e vates.

 

Druidas, Vates e Bardos

Uma característica interessante nos relatos de Julio César acerca da instrução oral é sua referência aos versos, como se os druidas possuíssem um papel semelhante ao dos bardos mencionados por outros autores. Na verdade, César é o único autor a não fazer menção tanto os poetas (bardos) quanto os druidas. Estrabão diz “...há três categorias de homens tidos em alta estima: os Bardos, os Vates e os Druidas.
Os bardos são cantores e poetas”. E Diodoro registra: “Os celtas possuem poetas que cantam e que são chamados de bardos; tocam um instrumento muito semelhante a uma lira grega.
Esses bardos entoam tanto canções de louvor quanto sátiras.”
Mais adiante, na mesma passagem, Diodoro cita a íntima ligação entre druidas e bardos.

- Miranda J. Green

Ao compilar as diversas referências clássicas aos druidas, bardos e vates, a professora britânica Miranda J. Green nos auxilia a perceber que, desde sempre, há uma proximidade senão de função, ao menos de formação entre essas três categorias - foi somente no século XVIII, com o início dos estudos acadêmicos sobre os celtas e sua cultura, que surgiu a equivocada noção de que bardos, vates e druidas formam uma "hierarquia". Na verdade, cada uma dessas funções possuía sua própria área de ação e influência social, sendo impossível - e fútil - tentar estabelecer uma ordem de importância.

Vates - olhar no Futuro

O primeiro registro conhecido da palavra "vates" é encontrado na obra do historiador grego Estrabão (século I a.e.a.), mas a palavra é de origem celta. Segundo Philip Freeman, o termo tem origem nas línguas celtas do norte da Itália, sendo então absorvido por gregos e romanos, desaguando no moderno verbo 'vaticinar' - fazer uma previsão. Com efeito, os vates eram profetas e mestres das artes divinatórias, gozando por isso de alta estima entre os celtas. Posidônio informa que "Eles formam uma classe altamente respeitada de profetas. Através de augúrios e sacrifícios animais, eles predizem o futuro - e ninguém ousa rir deles".

Duas outras fontes clássicas atestam a importãncia dos vates: ao falar dos celtas, Diodoro da Sicília afirma que "eles se valem de videntes a quem conferem grande autoridade", assim como em sua "História dos Guleses" o grego Timágenes diz que "os videntes, através de seus estudos, alcançaram a mais elevada compreensão das ocorrências da Natureza e seus segredos". Em tempos como os nossos, em que o racionalismo impede que se aceite a possibilidade de antever o futuro, falar de videntes e artes divinatórias pode soar esotérico, duvidoso. Mas é da frase de Timágenes que nos vem a chave para entender a questão: segundo ele, os vates se dedicavam ao estudo das "ocorrências da Natureza e seus segredos."

Ora, é evidente que todos os processos da natureza obedecem a ciclos estruturados e não aleatórios - a passagem das estações do ano, o desenvolvimento de um feto, a trajetória do sol e dos outros astros. Ao compreender esses processos é perfeitamente possível antever, ao se identificar uma condição presente, a que estágio essa condição leva. Isso é previsão, tanto quanto as previsões feitas pelos analistas da bolsa de valores sobre o mercado de ações futuras, tanto quanto os cálculos executados por engenheiros quando projetam uma nova peça para turbinas de aviões, um edifício ou um processador eletrônico. O conhecimento das propriedades e reações das substâncias da natureza torna possível antever resultados, da mesma forma que aos vates era perfeitamente possível vislumbrar o futuro através de seus conhecimentos da natureza. Eis porque, para Trogus Pompeius, "Na prática de augúrios, os gauleses superam todas as demais culturas".

Nos mitos irlandeses, a presença de adivinhos e oráculos é constante: a profetiza Fedelm que alerta a rainha Maedbh antes do combate, o druida Cathbad que antevê o destino de tristezas da bela Deridre, o dom profético de Fionn MacCumhail, o 'alfabeto' ogham dos druidas e muitos outros exemplos atestam para o uso frequente de técnicas oraculares também entre os celtas irlandeses. A palavra irlandesa 'fáith' corresponde ao vocábulo latinizado vates - seu feminino é ban-fáith.

James McKillop afirma que entre os celtas "a adivinhação assumia diversas formas: sinais da natureza, presságios e sonhos. A Astrologia pode ter sido usada - a palavra em irlandês antigo para astrólogo é néladóir, adivinho das nuvens".

Decisões importantes, como a escolha de um novo rei, a definição de uma carreira e opções importantes tanto para indivíduos quanto para a coletividade geralmente eram tomadas após alguém treinado e inspirado nas artes divinatórias - os vates - se pronunciassem.

Bardos - poetas do Sagrado

Os Bardos eram muito mais do que a visão popular atual costuma lhes descrever, pois eram historiadores, genealogistas, instrutores e homens letrados da nação, alguns dos quais eram também druidas e juízes.
- Laurence Ginnell

A percepção moderna de que poesia é uma arte literária que desperta as emoções é válida, mas absolutamente insuficiente para descrever a poesia do ponto de vista celta. A palavra moderna 'poesia' vem do grego poiesis, que significa literalmente poder criativo. Pela poesia, cria-se o mundo. Eis a função do bardo na sociedade celta.

Assim como 'vates', o termo bardo é de origem celta e posteriormente é incorporado por outras línguas, sempre para designar um grande poeta. Mas seu significado varia muito entre as diferentes regiões celtas: se no País de Gales o Bardd é o grande poeta que desempenha funções de conselheiro dos reis galeses, na Irlanda o termo baird designa a mais simples graduação dentre os grandes poetas do sagrado: os Filidh.

O termo Fili (singular - plural Filidh) designa os grandes sábios da Irlanda que, através de seus versos e palavras, desempenhavam as funções de historiadores, cronistas e conselheiros, além de adivinhos. A arte dos Filidh é a FIlidecht - palavra que em irlandês antigo designa tanto a poesia quanto as artes divinatórias - como se vê, as funções se mesclam e formam um todo coerente.

Numa cultura como a celta, em que não existem contratos escritos e o conhecimento deve ser transmitido oralmente, através da memorização da informação, é natural que a Palavra Falada tenha conotações sagradas. Isto é perceptível em outra característica marcante dos poetas irlandeses: a Sátira. Uma sátira é uma composição poética que tem por função destruir a reputação e a integridade de alguém que tenha cometido algum delito ou injustiça. Diz-se que o poder da palavra dos poetas irlandeses era tamanho que a vítima de uma sátira poderia desenvolver reações físicas - como pústulas no rosto - e até mesmo morrer.

Acreditava-se que os bardos irlandeses possuíam poderes sobrenaturais, de forma que uma sátira particularmente poderosa poderia matar sua vítima. Antes que julguemos isso como exagero, devemos pensar no poder da vergonha numa sociedade em que imagem era tudo - suportar a plena fúria pública de um bardo e as provocações dos que repetiam sua canção poderia levar qualquer um ao desespero, à doença ou mesmo ao suicídio.
- Philip Freeman

Mas por mais que seja formidável, a sátira não era a única força dos bardos, poetas e Filidh: também para o louvor seu conhecimento da Palavra era utilizado, em sagas, linhagens sagradas, narrativas míticas e relatos fantásticos que preservavam os feitos dos grandes heróis, as linhagesn dos reis, os segredos dos deuses. Mais uma vez citando Philip Freeman, "o louvor de um bardo era a forma de se obter respeito num mundo onde a honra era tudo. Sem as canções de um bardo, não havia como atingir o que os heróis gregos dos épicos de Homero mais ambicionavam: glória eterna". Já vimos acima que a glória - o reconhecimento social de valor, coragem e honra - era o mais importante bem que um celta poderia receber, e aos bardos era solicitado que compusessem odes louvando os feitos para que mais e mais pessoas soubessem do valor de um determinado indivíduo.

A equação é simples: quanto mais honrosa a conduta de um guerreiro, nobre ou rei, mais louvado ele seria pelos poetas; quanto mais louvado ele fosse, mais conhecido seria da população; e quanto mais conhecido, mais respeitado por seus feitos. Imenso é o contraste com nossos dias e a ânsia moderna pela fama a qualquer custo, pelo poder a qualquer custo.

Pelo quanto exposto acima, parece seguro afimrar que bardos (Filidh na Irlanda), vates e druidas são subdivisões de uma mesma categoria, como as especializações modernas nas áreas do direito ou da medicina, por exemplo. O fato é que todas essas categorias eram tidas na mais alta estima e respeito na sociedade celta, pois deles dependia a preservação dessa sociedade.

Graças a autores clássicos como Posidônio, Julio César e muitos outros, é possível afirmar que os druidas, além de oficiar as cerimônias públicas e privadas, também atuavam como legisladores, poetas, professores, adivinhos, historiadores e conselheiros dos governantes. Uma sobrevivência bastante conhecida dessa multiplicidade de funções dos druidas pode ser identificada na figura do Merlin da literatura arthuriana medieval: Arthur é o grande rei mas, no fundo, deve tudo – educação, coroação e até mesmo sua concepção – ao ‘velho mago’. Eram os druidas a aconselhar os reis celtas sobre a melhor forma de se governar o reino e a tribo – sempre com justiça e visando a prosperidade de todos.

Uma geis proíbe que um plebeu fale antes do rei, e que o rei fale antes do druida.
-James McKillop

A geis, essa extraordinária instituição da sociedade celta da Irlanda, é uma proibição ou dom recebido por um indivíduo de forma profética, normalmente através de um druida ou uma mulher sábia. As geasa eram temidas e respeitadas por todos, pois era a manifestação de uma verdade divina que cada pessoa poderia receber. Quando James MacKillop usa o termo geis para definir as proibições e convenções sociais que regem os direitos à palavra de plebeus, reis e druidas na sociedade celta, fica evidente que o druida encontra-se numa posição hierárquica superior.

Como sempre, os textos que nos chegam da Irlanda Medieval constituem uma preciosa fonte a lançar mais luz sobre o papel da ‘classe’ druídica dentro da sociedade celta. Mesmo após a chegada do cristianismo, se não todas a maior parte das funções druídicas acima descritas continuaram a ser desempenhadas por seus herdeiros diretos: os Fíli (‘poetas’ do sagrado), os Brehon (juristas), e os Seanchaí (historiadores).

Em todas as funções e ao longo das eras, a ‘matéria-prima’ de um druida, Fílidh, Brehon ou Seanchie é uma só: a Palavra. Todo o conhecimento druídico – lendas e mitos, linhagens, legislação, história, canções, poemas – tudo isso era transmitido oralmente, sem o uso da palavra escrita - o que exigia um longo período de treinamento e instrução por parte da classe druídica. Esse processo de instrução e aprendizado, descrito por fontes contemporâneas dos celtas como durando até vinte anos, dava aos druidas e poetas – tanto na Idade do Bronze quanto na Irlanda Medieval – um elevado status.

Dessa proverbial sabedoria druídica dependia o bem estar da comunidade como um todo. E chegamos então ao terceiro elemento da sociedade celta: os artesãos, ou “homens das artes”.


Os Homens das Artes

Ferreiros, oleiros, agricultores, criadores de animais, tecelões, caçadores – a maior parte da população celta, como costuma acontecer nas sociedades indo-européias, era composta pelos cidadãos livres, mestres de algum ofício. O termo irlandês para esse grupo é Aes Dana, os homens das artes – literalmente, artesãos.


Cerâmica celta - Europa Central

A produção em massa trazida pela industrialização no século XIX tirou a importância do artesão, mas em tempos anteriores esses indivíduos eram respeitados e enaltecidos - e algumas funções eram, até mesmo, divinizadas. Entre os celtas, especial apreço era dedicado aos ferreiros, cuja magia em transformar pedaços de minério em utensílios como arados, tigelas e espadas era visto como sagrado. A decantada beleza plástica dos artefatos celtas prova que, de fato, seus artesãos eram divinamente inspirados. (Mais informações sobre arte celta aqui)


Agricultura e Pecuária

Todas as terras produzem grãos em quantidade, e trigo e castanhas, e todos os tipos de gado. E nenhuma área do território deixa de ser cultivada, a não ser onde isto seja impossível graças a brejos e bosques.
- Estrabão


Os celtas eram grandes agricultores - prova disso era a sua auto-suficiência na produção de grãos e gado. Essa produção, aliás, é comprovada por achados históricos, como grãos de trigo emmer (espécie cultivada na Grã-Bretanha celta) encontrados em túmulos egípcios. Não nos esqueçamos que o comércio - e não a guerra - foi o primeiro contato estabelecido entre tribos celtas e as civilizações mediterrâneas. E isto por si só também ajuda a desmistificar a falsa imagem dos celtas como 'bárbaros sanguinários'.

Além do trigo, os celtas cultivavam outros grãos - cevada, centeio - e criavam animais - bovinos, caprinos, suínos e eqüinos. Também plantavam linho, com o qual confeccionavam suas vestes - em conjunto com couro, lã e peles.

Que o tempo fosse rigorosamente organizado pelos celtas não deve causar surpresa numa sociedade cuja base econômica era agrícola e pastoril. A capacidade de compreender a passagem do tempo e saber quando iniciar os processos essenciais – como a semeadura e a mudança dos rebanhos para pastos mais elevados – estão na própria base da existência.
- Barry Cunliffe

A importância da terra e da agricultura para os celtas pode ser perfeitamente compreendida através de sua mitologia - mais uma vez, é a Irlanda que nos oferece a mais clara e abundante lista de exemplos. A começar pela deusa Ériu, a própria ilha da Irlanda. Quando uma cultura vê a terra como viva e generosa, é porque reconhece a importãncia dos frutos da terra - povos que não dependam da agricultura para sua subsistência - nômades, caçadores-coletores e salteadores, por exemplo - não costumam possuir deidades associadas aos ofícios da terra. Outra deidade ctônica irlandesa é Tailtiu, mãe adotiva de Lugh e senhora da fertilidade da terra. Brhighid, com sua ligação profunda com o gado, aponta para a importância da atividade pastoril dentro da sociedade celta - assim como as diversas deusas equinas - Epona (Gália), Rhianonn (País de Gales) e Macha (Irlanda). A gaulesa Rosmerta também é uma benéfica deusa da prosperidade e da fartura - a lista é extensa. O parágrafo em destaque acima, de autoria do Prof. Barry Cunliffe, resume dois pontos: a compreensão da ciclicidade da natureza, tão importante numa sociedade como a celta, faz com que eles desenvolvam, além de sua evidente eficiência na lida da terra, uma profunda mitologia que deságua nas celebrações dos festivais sazonais celtas a que hoje damos o nome de "a Roda do Ano".


Aparência e Vestes

Eles ostentam ouro em grandes quantidades, usados como ornamentos não apenas pelas mulheres como também pelos homens. Ao redor de seus pulsos e braços eles usam braceletes, ao redor do pescoço pesados colares de ouro maciço e enormes aneis também, e até mesmo peitorais de ouro.
- Diodoro da Sicília

Os celtas eram vaidosos. Suas roupas eram vistosas, até demais para os austeros padrões de gregos e romanos. Fios de cores vívidas - obtidos com os mais diferentes pigmentos vegetais e minerais - eram tecidos em padrões de listras ou xadrez, e a proverbial vaidade dos celtas era satisfeita com belíssimos adereços feitos com ouro, prata, contas, âmbar e esmalte. Mas mais do que adereços, as jóias celtas determinavam seu status social. Um adereço tipicamente celta é o torque (abaixo) - um grosso colar de ouro usado ao redor do pescoço. Quanto mais grosso o torque, maior o status de seu portador.

No período clássico, os homens celtas do continente davam preferência ao uso de longos bigodes, que usavam - segundo os observadores mediterrâneos - para 'filtrar' a cerveja enquanto a bebiam. Esse costume é retratado com clareza nas estátuas de celtas esculpidas por gregos e romanos - como a dramática imagem do "Gaulês à beira da morte" (abaixo) - e também na própria arte celta.

Ao contrário das culturas clássicas do Mediterrâneo e suas togas, os celtas eram dados ao uso de uma 'barbárica' vestimenta: as calças. Mantos e capas eram comuns, sempre em tons coloridos, e as mulheres usavam vestidos acinturados que realçavam suas formas graças a cintos de couro e, no caso das nobres, ouro e pedras presos aos quadris. Cabelos longos eram costume em ambos os sexos, e muitos vestígios arqueológicos - bem como relatos textuais - indicam o constante uso de tranças e rabos-de-cavalo.


Casal celta em vestes típicas
(ilustração Peter Connolly)

É peculiar aos celtas que se esforcem para não engordar ou desenvolver barrigas protuberantes, e qualquer jovem que ultrapasse as medidas da cinta padrão é por eles punido.
- Estrabão

Zelosos de sua boa aparência, os celtas costumavam decorar o corpo com tatuagens e maquiagem e, até pela importância de se manterem em forma para eventuais batalhas, cultivavam a boa fora e desprezavam a obesidade. A frase acima, do grego Estrabão, menciona uma curiosa “cinta” – um arco pelo qual o guerreiro deveria atravessar sem problemas; caso não conseguisse, indicando obesidade, o ‘gorduchinho’ seria alvo de chacota e submetido a punições e um regime para atingir a forma.


Como já dito, os celtas jamais formaram uma federação ou império - em grande parte porque a base de sua organização social era a pequena tribo. A esses grupos sub-tribais os romanos deram o nome de pagi. Uma tribo – como a dos Parisi, por exemplo – era composta por diversos pagi agrupados, e raramente tribos diferentes se uniam em confederações, salvo nalguns momentos de crise – como as célebres alianças lideradas na Gália por Vercingetorix e na Grã-Bretanha pela rainha Boudicca na resistência aos romanos.

As tribos eram geralmente governadas por reis ou chefes (normalmente em pares) com poderes limitados, e as decisões importantes eram tomadas por assembléias populares com todos os homens livres da tribo. Também havia um conselho com centenas de nobres proeminentes (chamado por César de ‘senado’), de onde eram escolhidos os líderes e do qual emanava o real poder.
- Simon James

Até o contato com os romanos, as tribos celtas da Gália não costumavam se estabelecer em aglomerados urbanos – pelo contrário, a população de uma tribo se espalhava por uma determinada área em pequenas propriedades rurais ou, quando muito, aldeotas. A forma de construção das casas celtas costuma ser redonda nas ilhas britânicas e retangular na Gália (à dir.), e especula-se que cada uma delas costumava abrigar uma ou duas famílias aparentadas e seus dependentes. Numa colina dominante da paisagem em questão, ergueria-se o forte que servia como abrigo coletivo em momentos de crise e também residência real. A influência da cultura romana na Gália trouxe o conceito da urbe, a cidade, e muitas cidades das modernas França (Lyon) e Itália (Milão) começaram como vilas celtas.


A Mulher Celta


As mulheres celtas não eram almas frágeis que se desfaziam em lágrimas quando as coisas ficavam difíceis. Repetidas vezes, as fontes gregas e romanas citam mulheres da Gália, da Galácia e de outras partes do mundo celta que gozavam de igualdade - e por vezes, até superioridade - em relação aos homens,
tanto em períodos de paz quanto na guerra.
Mas devemos ser cautelosos: por mais fortes e capazes que as mulheres fossem, não há evidências de que os tempos dos celtas tenham sido uma 'era de ouro' de harmonia e igualdade entre os sexos.
Em muitos lugares, a cultura dos celtas primitivos era indubitavelmente um universo masculino, por vezes até mesmo cruel. Mas se comparadas às mulheres gregas e romanas, as mães, esposas e filhas dos celtas gozavam de uma posição invejável de honra e responsabilidade.

- Philip Freeman

Desde os anos 1970, a mulher celta foi elevada em importância para atender aos interesses de pesquisadores - acadêmicos ou não - que carregavam suas pesquisas com a tinta do feminismo. Não é de estranhar: o mundo de então vivia uma revolução de costumes com o movimento feminista e a luta pelos direitos da mulher na sociedade - e os relatos históricos e mitológicos que retratavam as mulheres celtas como independentes e poderosas vinha de encontro aos anseios desses pesquisadores.

Como se sabe, a isenção deveria ser característica de toda pesquisa, especialmente na Academia. Mas nem sempre é possível dissociar os interesses pessoais do pesquisador do fruto de sua pesquisa. não se trata de distorção, apenas de maior ênfase numa ou noutra característica do objeto do estudo - no caso, a cultura celta.

Vimos acima que a divisão tripartida da sociedade celta estratificava-se em nobreza, clero e homens livres. Por tudo que podemos depreender das lendas, dos registros históricos e de sobrevivências de usos e costumes das terras celtas, a mulher estava inserida em todos esses três ramos da sociedade celta. Se por um lado grandes rainhas históricas - como Boudicca e Cartimandua - ou mitológicas - como Maedbh e Rhiannon - atestam o poder político-social da mulher entre os celtas, por outro mulheres como Fedelm, Niamh e tantas outras mostram seu papel como druidesas, sacerdotisas e xamãs.

Tanto homens quanto mulheres desempenhavam a função de druidas segundo as fontes irlandesas, mas as evidências de druidesas entre os celtas continentais são mais ambíguas.
Diversos estudiosos modernos argumentam de forma convincente que, ainda que os autores clássicos não mencionem nominalmente druidesas, a existência de mulheres atuando como magistas, guerreiras e comandantes de batalha implicam na probabilidade de mulheres druidas em tempos antigos.

- James MacKillop

 

O predomínio de mulheres como instrutoras militares nas lendas – como Scáthach, responsável pelo aprendizado de Cuchulainn (o maior dos guerreiros da Irlanda) bem como os mitos de Erc, que integrava os Fianna Éireann, ou Aife, “a mulher mais forte do mundo”, mostram que entre os celtas era normal que mulheres desempenhassem as funções de guerreiras – e este segmento social era o celeiro dos líderes tribais. A inferência é óbvia: se há mulheres guerreiras, não haveria por que não haver mulheres na posição de comando: rainhas célebres como Chiomara, Cartimandua, Maedbh e Boudicca são prova disso.

Os direitos das mulheres celtas são atestados por diversas fontes: as Leis Brehon irlandesas, as lendas do País de Gales, os registros históricos de gregos e romanos. A união de um casal poderia ocorrer de diversas formas, com diferentes níveis de independência da mulher que iam de figura dominante do casal a concubina, 'primeira-amante' e até mesmo serva.

As mulheres claramente ocupavam uma posição mais importante
na sociedade celta do que no mundo greco-romano.

- Barry Cunliffe

Ainda assim, é muito importante deixar de lado afirmações equivocadas como “os celtas eram matrifocais” – isso é uma uma fantasia moderna. Se descontarmos os costumeiros exageros de César – que afirma que os maridos tinham direito de vida e morte sobre suas esposas e filhos - veremos que em muitos casos a sociedade celta se mostrava bastante machista.


A divisão fundamental – como em qualquer sociedade – é a que existe entre homens e mulheres. As mulheres celtas, especialmente as nobres, possuíam um papel mais destacado do que suas equivalentes gregas ou romanas, mas todos os domínios celtas eram aparentemente centrados na figura masculina.
- Simon James

Temos de ter essa visão clara em mente, até para podermos apreciar ainda mais uma sociedade que, em plena agitação militar da Idade do Ferro, onde valores masculinos como coragem e força eram vitais, mesmo assim fomentou a igualdade entre os sexos de forma bastante acentuada. Ainda que a sociedade celta jamais tenha sido 'matrifocal' como querem alguns, a mulher celta era muito mais respeitada do que as mulheres de culturas ditas "civilizadas" como a grega e a romana.

A beleza das mulheres celtas foi decantada pelos autores clássicos. Seu ar imponente, suas vestes e adereços deveriam fazer delas uma visão sem dúvida formidável aos olhos de gregos e romanos. Orgulhosas, elas usavam jóias em ouro, contas e pedras preciosas, e a igualdade de direitos lhes dava ainda mais força. A sexualidade não era algo de que os celtas se envergonhassem, pelo contrário: nas palavras de Diodorus Siculus, "elas geralmente cedem sua virgindade a outros e isto não é visto como uma desgraça: pelo contrário, elas se sentem ofendidas quando seus favores são recusados". Esse costume social retratado por um historiador grego observando os gauleses encontra eco nas lendas irlandesas da Rainha Maedbh, que afirmava "jamais ter se deitado com um homem sem que houvesse outro a esperá-la na sombra".


Estátua da Rainha Maedbh em Dublin, Irlanda
(Patrick O'Reilly, escultor)

E quando uma nobre romana, não acostumada com a liberdade e a força do caráter das mulheres celtas questionou a integridade moral de uma delas, ouviu a acachapante resposta: "nós mulheres celtas atendemos as exigências da natureza com muito mais dignidade do que vocês, romanas: pois enquanto nós copulamos abertamente com nossos melhores homens, vocês secretamente se sujeitam aos mais vis." Se a função biológica do sexo é a procriação com o fortalecimento da espécie pelo acasalamento com o mais hábil, então a mentalidade celta está em total e absoluta vantagem se comparada à nossa visão corrente.

Mas é evidente que o sexo também é praticado para outros fins, entre eles, claro, a pura e simples obtenção de prazer. Quando o tema é a sexualidade, os tabus e moralismos que regem nossa cultura judaico-cristã inexistem na sociedade celta. Assim, não é raro vermos que tanto homens quanto mulheres têm relações extra-conjugais - nalguns casos repreendidas, noutros não. Como já dito, as Leis Brehon da Irlanda Medieval prevêm o concubinato e também as punições para homens e mulheres que cometessem adultério. E quando o assunto é tabu, não podemos deixar de fora o homossexualismo.

 

Tendo em mente que entre gregos e romanos o homossexualismo era algo comum e nem um pouco condenável, fica claro que sua condenação vem de tempos mais recentes - mais especificamente, após a chegada do cristianismo à Europa. Antes disso, segundo o grego Ateneu, "apesar de possuírem belas mulheres, os celtas também apreciam rapazes, de modo que alguns deles compartilham seus leitos de peles de animais com outros rapazes." Sobre isso, o autor norte-americano Philip Freeman escreve com maestria, ao afirmar que "o homossexualismo era comum no mundo grego, mas os gregos sempre se mostravam surpresos ao descobri-lo em outros povos. Alguns estudiosos britânicos do séc. XIX desprezaram os comentários de Aristóteles sobre a homossexualidade dos celtas como difamação, mas essa negação convenientemente ignora escritores clássicos posteriores – como o próprio Posidônio – que descreve a homossexualidade entre os gauleses com detalhes".

Se hoje pouco a pouco vamos nos livrando de preconceitos medonhos contra a mulher e contra homnossexuais, talvez um olhar para o passado celta nos ajude a lidar melhor com essas e outras questões - como a administração social, a importância da comunidade, a sacralidade da alimentação, a nobreza e a honra nas relações com nossas realidades cotidiana e sagrada.

 

A história da Alma Celta é vasta, complexa e multifacetada, variando de período para período e de lugar para lugar. Estes são apenas alguns dos elementos da riquíssima cultura celta que, por diversos motivos, saltam aos nossos olhos hoje: tratam de relações sociais e valores culturais que, no mínimo, podem inspirar respostas para algumas das mais prementes questões de nossos dias.

Não se trata de um falso saudosismo ou de romântica nostalgia: quem se abre para aprender com o Passado age no Presente para criar um Futuro melhor.

Contemplar a experiência celta nos força a olhar para o passado e o futuro simultaneamente, e uma imagem apropriada desta experiência parece ser uma das antigas cabeças celtas entalhadas em pedra, olhando simultaneamente em diferentes direções.
- Robert O'Driscoll


Escultura em pedra conhecida como "Janus" de Boa Island, Irlanda.
Dois rostos a olhar simultaneamente em direções opostas.


Para um saudável contraste com o que foi lido acima, passemos aos artigos do Dr. Simon James, lente de Arqueologia na School of Archaeological Studies da Universidade de Leicester e ex curador de Pré-História tardia do British Museum em Londres.

 

Segue para Dr. Simon James: Visões da Cultura Celta

 

Para saber mais:
- Cunliffe, Barry, The Ancient Celts, Penguin, 1997
- Freeman, Philip, The Philosopher and the Druids, Simon & Schuster, 2006
- Ginnell, Laurence,
The Brehon Laws, Fisher Unwin, 1894
- Haudry, Jean, Os Indo-europeus, Rés Editora, -
- James, Simon, Exploring the World of the Celts, Thames&Hudson
, 1993
- Le Roux, Françoise, Guionvarc’h, Christian, A Sociedade Celta, Europa-América, 1991
- MacKillop, James, The Oxford Dictionary of Celtic Mythology, OUP, 1998

- MacKillop, James, Myths and Legends of he Celts, Penguin, 2005


Observação: em nenhum momento o texto acima tem a pretensão de esgotar o assunto, objetivando apenas oferecer uma visão global de elementos importantes da história dos povos celtas. Todo autor (acadêmico ou não) que escreve sobre o tema sabe (ou deveria saber) que a história dos celtas possui diversos pontos controversos – especialmente no que tange a cronologia de eventos e também alguns elementos sócio-culturais. É, no mínimo, de bom tom esclarecer que as percepções aqui apresentadas foram compiladas a partir de diversas fontes acadêmicas, notadamente a obra de historiadores como James MacKillop, Simon James, Barry Cunliffe e Miranda J. Green, entre outros. Entre eles próprios, há muitas divergências – e algumas teses controversas. Como o objetivo destas páginas é somente o de apresentar um quadro geral de elementos relevantes da sociedade celta, evito deliberadamente o uso de datas e optei por interpretações históricas menos controversas.

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