Os Celtas: Origens e Sobrevivência


Uma palavra de ressonância e ambiguidade incomuns, 'celta' pode ser a mais poética forma já legada pelos estudiosos. Sua raiz pode ser facilmente traçada ao grego Keltoí, significando 'oculto' - ou seja, o povo oculto da visão dos mais civilizados. Foi somente por volta de 1700 que os sábios começaram a aplicar o termo 'celta' à família de línguas então faladas na periferia do noroeste europeu: irlandês, gaélico escocês, manquês, galês, córnico e bretão. Esta origem no discurso acadêmico e não oral explica porque há sempre dúvidas sobre a forma correta de se pronunciar a palavra e, por razões etimológicas, os especialistas sempre preferem o c 'duro' (kelt) ao c 'suave' (celt) - como seria de se esperar de acordo com o padrão fonético inglês. Para complicar as coisas, os povos a que chamamos de celtas jamais usaram o termo até recentemente, nem possuíam alguma outra expressão que denotasse sua comunidade linguística.
- James MacKillop, Myths and Legends of the Celts

O Professor MacKillop, autor do parágrafo acima, figura entre os mais conceituados estudiosos da história e da mitologia celta de nossos tempos. Suas palavras foram escolhidas para abrir esta seção por sua clareza em atestar o quanto há de verdade sobre as origens da palavra ‘celta’ – ao mesmo tempo em que nos dá um lembrete precioso sobre a confusão que o termo pode gerar.

Foi com isso em mente que compilei, no texto abaixo, informações que nos ajudem a desmistificar os celtas, sua história e sua cultura. A idéia é que, ao final da leitura, sejamos capazes de responder às perguntas:

Afinal, quem são os celtas?
• Quais suas origens?
• Onde e quando desenvolveu-se sua cultura?

Vamos começar do começo...

Origens Indo-européias

Chamam-se povos indo-europeus os que utilizam uma das línguas indo-européias.
- Pierre Lévéque, As Primeiras Civilizações Vol. III

A princípio, a frase acima pode soar redundante, mas essa aparente redundância é justificada quando percebemos o que não está escrito. O conceito moderno pelo qual é brasileiro quem nasce no Brasil (ou irlandês quem nasce na Irlanda, ou italiano quem nasce na Itália) precisa ser deixado de lado se quisermos entender que os povos chamados indo-europeus não são assim identificados por conta do local de origem, mas sim pela língua que falavam. O idioma indo-europeu é um ancestral distante de praticamente todas as línguas ocidentais e também de idiomas nativos do subcontinente indiano - daí seu nome. Os celtas da Antigüidade falavam línguas de origem indo-européia, variações das quais ainda existem em nossos dias na forma do irlandês, do gaélico escocês, do córnico, do manquês (idioma falado na Ilha de Man), do galês e do bretão – portanto, é correto afirmar que os celtas pertenciam à grande família cultural indo-européia. Isso os põe em parentesco – ainda que em alguns casos bem distante - com outros importantes povos da Antigüidade, como os germânicos, os eslavos, os gregos, os romanos e os indianos.

Todas essas culturas têm as mesmas origens indo-européias, mas diferenciam-se pelo desenvolvimento de sua própria identidade sócio-cultural ao longo das eras e pelo contato e absorção das culturas com as quais se mesclam em seu longo e contínuo processo de desenvolvimento. Mais uma vez citando Lévéque, "cada um dos povos 'indo-europeus', na sua localização histórica, resulta de uma síntese étnica entre, pelo menos, populações pré-históricas locais cujas raízes remontam até os tempos paleolíticos e, por outro lado, imigrantes portadores de uma língua indo-européia cuja imposição à região e evolução local desembocam nas línguas historicamente atestadas."

Uma vez que as línguas são apenas um de vários aspectos que determinam a identidade cultural de um povo, podemos intuir que os celtas, além da língua, herdaram também costumes sociais e valores espirituais de seu passado indo-europeu.

 

Mapa indicando as possíveis rotas de migração dos idiomas indo-europeus através do tempo. A datação estimada coincide com o surgimento dos primeiros estágios das culturas celtas na Europa Central.

 

Língua e Cultura

Entre os indo-europeus, toda noção tende a tomar forma, todo princípio é personificado. Grande parte do panteão dos deuses provém desta tendência de considerar a idéia viva e o pensamento vívido.
-Jean Haudry, Os Indo-europeus

Essa afirmação corrobora com a visão clássica que retrata os celtas como sendo, até por sua origem indo-européia, animistas por natureza – visão atestada pelos incontáveis exemplos de deuses e deusas celtas como personificações das forças da natureza. Na terminologia usada por Haudry, a "noção" e o "princípio" dos rios, por exemplo, "toma forma" e é "personificada" por deusas – Síonann e Bóann na Irlanda (rios Shannon e Boyne), Clótha na Escócia (rio Clyde), Sequana na Gália (rio Sena), apenas para citar algumas. (link para animismo)

Outros elementos irrefutavelmente indo-europeus da cultura celta são a valorização da vida e da busca dos prazeres e confortos, o enaltecer da glória pessoal e, especialmente, da honra (o caráter) como sendo a principal qualidade de um indivíduo. Assim, não basta ao herói ou heroína a busca pela glória no sentido de "conquista": a verdadeira glória é aquela que é obtida dentro de rigorosos princípios de honra, ética e caráter.

Um dos maiores desafios dos pesquisadores – historiadores, paleontólogos, lingüistas – foi determinar qual território teria sido o ponto inicial da cultura indo-européia. Apesar de ainda existirem pontos discutíveis acerca desta ou daquela afirmação, parece seguro dizer que os indo-europeus surgem no que hoje é o Irã, e dali se expandem em duas vagas – uma para leste, outra para oeste. A que nos leva ao Ocidente é justamente a que vai originar a cultura celta.


Chefes tribais dos celtas da fase Hallstatt (ilustração de Angus McBride)
Note-se a riqueza e sofisticação de suas vestes, armas e ornamentos.

O Nascimento dos Celtas

Quando os celtas surgem pela primeira vez nos registros históricos, por volta de 500 a.e.a., aparentemente eles já haviam ocupado grande parte da região dos Alpes e as áreas imediatamente ao norte, na França central, e em partes da Península Ibérica. Tradicionalmente, esses primeiros celtas costumam ser amplamente associados à cultura Hallstatt da Idade do Ferro européia. As escavações revelam tumbas ricamente adornadas, tidas como pertencentes aos chefes tribais ou às classes reais, e associadas a uma série de centros de defesa. Esses ‘principados’ nos fornecem evidências de comércio com o Mediterrâneo clássico, especialmente com a colônia grega de Massalia (Marselha). A partir do quinto século a.e.a., num território que se estende do leste da França até a Boêmia, surgiu uma nova cultura celta, que recebe o nome do sítio arqueológico de La Téne na Suíça, onde foi identificada pela primeira vez. Também esta fase se caracteriza por sepultamentos esplendidamente decorados, contendo evidências de contato com o mundo clássico (cidades etruscas, através dos Alpes). Pouco depois de 400 a.e.a., estes celtas La Téne irromperam através dos Alpes, invadindo e estabelecendo-se no vale do Rio Pó e saqueando Roma por volta de 390 a.e.a. Os romanos os conheciam como Galli, gauleses – um termo posteriormente aplicado especificamente aos celtas da França. Outros migraram através dos Bálcãs, atacando a Grécia e saqueando Delfos ,possivelmente em 279 a.e.a. Conhecidos pelos gregos como Keltoi ou Galatae, alguns deles cruzaram o Helesponto e instalaram um reino na Turquia Central (a Galácia).
-- Simon James, Exploring the World of the Celts

Uma cultura não nasce da noite para o dia: o processo é longo e envolve, como vimos anteriormente, a mescla de diversas culturas originais diferentes entre si, mas que contribuem para a geração de uma nova identidade cultural. A primeira etapa do desenvolvimento da cultura celta, conhecida como Hallstatt, costuma ser identificada com o período que vai de 700 a 450 a.C., mas seguramente variações dos idiomas celtas já eram falados na Europa muitos séculos antes. A chegada do idioma indo-europeu à Europa costuma ser datada em torno de 4000 a.C., quando teria ocorrido uma invasão de povos indo-europeus, e a partir de então suas diversas ramificações se desenvolveram.

Os paleo-lingüistas apontam para o vale do rio Danúbio, na Europa Central, como o berço onde surge o idioma celta. Os vestígios arqueológicos da região mostram que, nessa área, desenvolveu-se a cultura Hallstatt, caracterizada por fortificações em colinas, sepultamentos ricamente elaborados (alguns com carruagens inteiras) e uma arte singular. Nessa área fica a vila austríaca de Hallstatt onde, em 1846, Georg Ramsauer descobriu um cemitério da Idade do Ferro. As escavações revelaram mais de mil sepulturas com objetos – espadas, escudos, lanças, cerâmica – de formas características, identificadas com a cultura celta. Anos depois, em 1857, uma seca no lago Neuchatel, na Suíça, revelaria uma nova fase da evolução da cultura celta, que receberia o nome da vila às margens do lago: La Tène.

As traduções dos textos de autores clássicos – gregos e romanos – localizavam os celtas precisamente naquela área. Assim, conhecemos hoje o berço da cultura celta.

Ilustração de túmulos da cultura Hallstatt, do próprio punho de Georg Hamsauer

 

Expansão

Conforme nos ilustra Simon James no tópico anterior, os celtas promoveram incursões regulares às terras circunvizinhas, culminando com a expansão dos territórios por eles povoados. Partindo de suas terras na Europa Central, os celtas estabeleceram-se nas Ilhas Britânicas (700 a.e.a.), na Península Ibérica (600 a.e.a.), no norte da Itália (400 a.e.a.), saquearam Roma (390 a.e.a.), cruzaram os Cárpatos (310 a.e.a.), saquearam Delfos na Grécia (279 a.e.a.), fundaram os reinos celtas da Galácia na Ásia Menor e de Tylis nas margens do Mar Negro e quase certamente se estabeleceram ao longo do Rio Don, na Ucrânia – a região é ainda hoje conhecida como Galícia. Essas diferentes ondas migratórias não fazem parte de um processo articulado visando a criação e expansão de um império centralizado como o dos romanos: são a ação natural de tribos independentes, em busca de subsistência pela ocupação de terras férteis, e para quem a guerra e a conquista era um modo de vida.

 

Expansões célticas na Europa:
Amarelo: área de influência da cultura Hallstatt (até o séc. V a.e.a.)
Verde Claro: expansão máxima das tribos celtas por volta de 270 a.e.a.
Verde Bandeira: as "Seis Nações Celtas" que preservaram idiomas celtas (Escócia, Irlanda, País de Gales, Cornualha, Ilha de Man e Bretanha);
Verde Musgo: áreas onde ainda se falamlínguas celtas.

 

 

 

Guerra e Comércio

Durante muito tempo, a noção dominante entre historiadores e arqueólogos era de que tudo que não fosse greco-romano era 'primitivo' e 'inferior'. Com o tempo, à medida que esse preconceito foi sendo abandonado, os estudos e achados revelaram um povo altamente organizado, com uma rica cultura e uma arte incomparável.

Em comum com outras culturas de origem indo-européia, as tribos celtas sempre mostraram uma grande pré-disposição para a guerra – seja entre elas, seja contra outros povos. A adoção da metalurgia em ferro, por volta de 750 a.e.a., fez deles guerreiros ainda mais temíveis. Mas os celtas não eram, ao contrário do que algumas fontes fazem supor, um bando desordenado de bárbaros sanguinários. Os primeiros contatos entre celtas e gregos ocorreram de forma pacífica, na colônia comercial de Massalia (atual Marselha), fundada em 600 a.e.a. Ali, os celtas (chamados pelos gregos de keltoi) forneciam os bens que os gregos desejavam – metais, peles, escravos, mel e âmbar - em troca de cerâmica e, principalmente, vinho. (Esta, aliás, é a origem de alguns dos mais cobiçados vinhos modernos: as vinícolas às margens do Ródano – literalmente, Côte du Rhône – foram criadas para saciar a sede dos nobres celtas pelo néctar fermentado das vinhas. Desde então, o vinho que lá se produz é um dos melhores do mundo – graças às ancestrais videiras celtas!). O comércio, aliás, foi o responsável pela chegada da cultura Hallstatt às Ilhas Britânicas, por volta de 550 a.e.a. – mercadores costumavam navegar até aquelas terras em busca de matérias primas como o cobre, o estanho e o ouro.

Espada celta do séc. I a.e.a. com o característico cabo antropomórfico.

 

O comércio entre os celtas e o mundo clássico parece ter surtido um efeito nefasto: os vestígios tumulares indicam a formação de uma elite dominante e altamente dada à ostentação, possivelmente motivados pela competição entre os chefes tribais que disputavam o comércio. Mas mudanças nas rotas comerciais de então trouxeram um fim abrupto para a cultura Hallstatt – e talvez a concentração de renda e poder nas mãos de poucos tenha contribuído para a revolução cultural que se seguiu, dando origem ao período La Tène da cultura celta, que surge na região da Boêmia, por volta de 450 a.e.a., e que chega à Grã-Bretanha poucas décadas depois.

Este período foi marcado por grandes ondas migratórias, como a que levou tribos celtas para o norte da Itália em 400 a.e.a., com o subseqüente saque de Roma por celtas liderados por Brenno. Ao sitiar a cidade e invadi-la, Brenno cobrou aos romanos um pesado tributo em ouro para poupar-lhes a vida e a cidade. Consta que, ao ver o ouro que era pesado pelos celtas, um romano teria se lamentado, ao que Brenno respondeu com a célebre frase: Vae Victis, “Ai dos vencidos!”

Mas o que teria cuasado as migrações? Ao que tudo indica, um desenfreado crescimento populacional, que teria gerado graves tensões sociais - especialmente diante de uma elite que concentrava cada vez mais riqueza e poder. A busca pelas terras ao sul – Itália e Grécia – soa natural, visto que eram terras férteis e promissoras. As invasões celtas são retratadas por Tito Lívio, que relata como Bellovesus e Segovesus lideram as hordas celtas que cruzam os Bálcãs em 280 a.e.a. Outro grupo de celtas, coincidentemente liderados por um outro Brenno, chegaria a invadir Delfos, o coração espiritual – e sede dos tesouros – das cidades gregas. Reza a lenda que uma tempestade trouxe loucura e caos às hostes invasoras e o celtas, ensandecidos, mataram-se uns aos outros. Ainda que alguns relatos mitológicos posteriores nos informem que os celtas possuíam um furor de batalha semelhante aos ‘berserkers’ nórdicos, é pouco provável que essa loucura tenha acarretado a derrota dos bem preparados guerreiros celtas. Os gregos dizem que foram seus deuses que salvaram Delfos. Historiadores modernos dizem que talvez Lívio tenha criado essa história para mascarar um tributo humilhante imposto pelos invasores, nos moldes do que o Brenno anterior fizera ao invadir Roma.

Brenno saqueando Delfos (Ilustração de Angus McBride)

Mas nem sempre os gregos viram nos celtas inimigos: há registros de mercenários celtas (gaesatae, "lanceiros") que teriam lutado ao lado de gregos. E mesmo um dos maiores personagens da História Antiga, Alexandre Magno, teria recebido respeitosamente uma embaixada de celtas – segundo alguns autores, druidas – que o visitaram em Babilônia por volta de 323 a.e.a.

Já pelos romanos, os celtas sempre foram vistos como um povo temível - e a invasão e povoação das terras ao norte da Península Itálica por tribos celtas como os boii, os insubres e os senones mostram que Roma tinha razão mesmo em temê-los. A expansão dos senones só é interrompida quando, em 295, os romanos lhes impõem uma crucial derrota em Sentinum: Roma começava a se livrar de seus inconvenientes vizinhos do norte. Longe dali, na Trácia, os celtas conhecidos como gálatas fundam os reinos de Tylis e da Galácia, e guerreiros celtas são recrutados no Egito pelo Faraó Ptolomeu I.

Os celtas da Gália Cisalpina – a Gália “deste lado dos Alpes”, como os romanos chamavam o norte da Itália – sofreriam uma humilhante derrota para as legiões de Roma na Batalha de Telamon, mas dariam o troco anos depois, ao apoiar a invasão da Itália pelos cartagineses liderados por Aníbal. Mas Roma, então, já era uma grande força militar, e resistiria ao ataque para, em seguida, originar um dos mais formidáveis impérios da História.

 

Declínio

Séculos de contato com as culturas grega e romana levaram os celtas da Gália a absorver naturalmente muitos costumes mediterrâneos. Além da visível influência nas artes, os celtas adotaram o uso de moedas e começaram a desenvolver estruturas proto-urbanas chamadas de oppida (singular, oppidum), encontradas numa vasta área que se estende do Danúbio até a Península Ibérica e o sul da Grã-Bretanha.

Stradonice, opiddum (cidade celta) na atual República Checa.

 

A despeito disso, porém, o grosso da população celta ainda vivia em pequenas vilas e estabelecimentos rurais.No extremo oeste da Europa, nas terras hoje portuguesas, vivia a tribo celta dos Lusitani – assim descritas pelos romanos: “nos confins da Europa, onde as terras beijam o mar, vive um povo selvagem que não se governa e não se deixa governar”. Em 139 a.e.a., cansados de tamanha indisciplina, os romanos assassinam Viriato, líder dos Lusitani – a expansão de Roma não podia parar.

Anos depois, a anexação do sul da Gália por Roma dá origem a uma nova província romana – até hoje conhecida como Provence. É mais ou menos neste período que são redigidos alguns dos mais preciosos registros da cultura celta da Gália, graças às viagens do grego-sírio Poseidonius. Os textos de Poseidonius são surpreendentemente neutros para um grego, e seus relatos recolhidos in loco mostram o dia-a-dia, os valores e os costumes dos celtas. O texto integral da Historia de Poseidonius infelizmente se perdeu, restando apenas trechos citados por autores posteriores, como Diodoro da Sicília, Estrabão, Ateneu e outros. Seja como for, a ele devemos muito do que hoje se sabe sobre os celtas continentais.

No ano de 58 tem início a conquista da Gália. Os relatos de Julio César em De Bello Gallico constituem outra importante fonte de referência sobre os celtas (se bem que devam ser filtrados pela natureza panfletária de seus textos, cuja intenção fundamental era justificar suas campanhas contra os celtas junto ao senado). Em 55, Julio César finaliza a conquista da Gália após a Batalha de Alésia, quando o líder gaulês Vercingetorix depõe suas armas (à direita). Vercingetorix é até hoje comemorado pelos franceses como um herói, e realmente ele se destaca por ter conseguido um feito inédito: unir tribos celtas diferentes sob seu comando – a autoridade intertribal era uma característica que só os druidas possuíam, e há outros indícios que o próprio Vercingetorix fosse um druida.

Vercingetorix depõe armas diante de Julio Cesar: Roma conquista a Gália

Os druidas gozavam de ampla ascendência na sociedade celta, e parece óbvio que as conquistas das terras celtas da Gália e da Bretanha só seriam possíveis aos romanos quando estes se livrassem dos druidas. Julio César é taxativo ao afirmar que os druidas da Gália dirigiam-se à Bretanha para lá serem instruídos, e é por isso que, após a conquista da Gália, os romanos lançam-se com força sobre as terras britânicas. A invasão de 43 e.a. é comandada pelo Imperador Claudius – ele próprio nascido em território gaulês, na cidade de Lugdunum (moderna Lyon). Na Bretanha, Claudius depara-se com uma feroz resistência liderada por Cunobelinus (líder histórico que, séculos mais tarde, inspiraria a personagem Cymbeline de Shakespeare). A resistência dos celtas britânicos cai por terra quando, em 51, o líder Caratacus é capturado. Menos de dez anos depois, os romanos promovem o terrível massacre da Ilha de Môn (Anglesey, País de Gales) – um centro druídico onde a barbárie dos legionários romanos é reprovada até pelo seu compatriota, o historiador Tácito. Em Anglesey, mulheres, crianças e idosos são massacrados pelas legiões de Roma. Até pela proximidade das datas, a destruição do centro druídico de Anglesey parece estar diretamente relacionada à revolta liderada pela rainha Boudicca no ano 60.

Boudicca (à dir., estátua de Boudicca em Londres) escreve uma das mais dramáticas páginas da história dos celtas, ao unir sob seu comando tribos diferentes na tentativa de expulsar os romanos da ilha da Grã-Bretanha – e quase consegue, impondo pesadas derrotas aos romanos. Mas sua resistência também se mostra insuficiente para deter as legiões, e diante da derrota iminente, Boudicca comete suicídio, preferindo tirar a própria vida a ser capturada e novamente humilhada pelos romanos.

 

 

As terras da Gália, da Grã-Bretanha, da Galácia e da Ibéria, não eram mais celtas, mas romanas; as tribos dos Boii, dos Sequani, dos Belgae e dos Parisi não eram mais livres, pois haviam sido romanizadas e subjugadas. Os celtas deixavam o mundo real e passavam para as páginas da história. E esta página, ao menos no continente europeu, estava virada.

 

Sobrevivência

A história dos druidas não termina com a conquista romana da Gália e da Bretanha: para além do mar, na Irlanda, os druidas continuaram a prosperar por séculos.
As lendas medievais irlandesas devem sempre ser tomadas com cautela no que diz respeito à historicidade, mas as muitas referências a druidas e seu papel de destaque na mitologia irlandesa são indicativos de seu poder na ilha - um poder que desapareceu gradativamente com a chegada de Patrício e o cristianismo.
As lendas irlandesas frequentemente mencionam os druidas como conselheiros dos reis, profetas respeitados e celebrantes de importantes rituais religiosos.

- Philip Freeman, The Philosopher and the Druids

A oeste da Grã-Bretanha, a ilha a que os romanos chamavamde Hibernia permaneceu durante muito tempo envolta em mistério. Habitada por tribos celtas que se desenvolveriam longe dos olhos de gregos e romanos, a Irlanda seria o último bastião da cultura celta, e continua até hoje sendo uma fonte riquíssima para a compreensão do legado dos celtas. Livre da influência ‘civilizadora’ do Império Romano, os irlandeses preservaram por diversos séculos os valores sócio-culturais celtas. Nem mesmo a chegada do cristianismo – em outras áreas um fator de destruição das culturas nativas – impediu que a cultura celta da Irlanda sobrevivesse e, de certa forma, florescesse. Fontes literárias mostram a importância dos druidas e bardos na sociedade da Irlanda e Escócia ainda durante a Idade Média: abaixo, uma Iluminura medieval retrata a coroação do Rei Alexander III na Escócia; em primeiro plano, um Ollamh Rí ("Poeta Real") proclama, "Deus abençoe o Rei da Escócia" para, em seguida, recitar a linhagem do monarca - entre os celtas, bênçãos e linhagens reais eram mister de druidas e bardos desde as mais remotas eras. Alexander III foi coroado em 1248, o que comprova a sobrevivência de costumes celtas até, no mínimo, o Séc. XIII.


Eis porque nessas terras – especialmente na Irlanda – muito da cultura, da espiritualidade e da mitologia celta sobreviveu graças aos primeiros monges cristãos que, por diversos motivos, preservaram para as gerações futuras as lendas, mitos e costumes celtas pré-cristãos – anteriormente transmitidos apenas pela tradição oral - em magníficos manuscritos produzidos nos mosteiros e ermidas cristãs por toda a Irlanda.

O resultado foi que o cristianismo irlandês absorveu natural e pacificamente muitos elementos da espiritualidade celta - como atestam os textos místicos atribuídos aos santos cristãos da Irlanda. Nada do imperialismo e da massificação impostos pelo cristianismo de Roma: na Irlanda, os cristãos ordenavam mulheres, seus sacerdotes casavam e tinham filhos, e seus ensinamentos ensinavam a ver o Deus cristão em toda a Natureza – daí o hábito das peregrinações, tão originalmente celta, e dos retiros em locais ermos – em que tão facilmente se percebe a força e a magia da Natureza. Eis porque os monges irlandeses fundam seus mosteiros em locais mágicos – muitos deles outrora sagrados aos celtas – como Glendalough, (ao lado) Skellig Michael, Armagh e tantos outros.

Tão diferente era o cristianismo irlandês em sua independência que era chamado de ‘cristianismo celta’, causando divergências irreconciliáveis com a cada vez mais imperialista Santa Sé em Roma. O resultado foi que, no século XII o Papa Adriano IV (não por acaso, o único papa inglês da história) patrocinou a invasão militar da Irlanda pelas mãos do rei Henry II da Inglaterra, com o objetivo de suprimir as práticas e conceitos da igreja celta da Irlanda – por demais “pagãs” aos olhos do Vaticano – e inaugurando, assim, a grande série de conflitos entre irlandeses e ingleses.

Seja como for, se hoje conhecemos as lendas e mitos dos deuses celtas irlandeses, se hoje podemos pesquisar os princípios éticos e morais que regiam a sociedade celta, devemos isso aos primeiros cristãos irlandeses e seus maravilhosos manuscritos. Abaixo, detalhe de uma página do conhecido Leabhar Bhaile an Mhóta, ou "Livro de Ballymote" (Séc. XIV).

 

Outra importante fonte para a sobrevivência da Alma Celta na Irlanda pode ser encontrada em sua etnografia. Muito do que hoje é tido como folclore campesino da Irlanda esconde, em sua essência, elementos preciosos da mitologia e da espiritualidade celta da Irlanda pré-cristã. Ainda que revestidos por um verniz cristão, os feitos dos santos, as lendas de locais sagrados, as peregrinações e as superstições dos irlandeses revelam facetas preciosas das práticas e crenças da Irlanda celta, em muitos casos confirmando (e noutros, desmentindo) as afirmações contidas nos textos clássicos de gregos e romanos.

À esquerda, Santa Brígida de Kildare, herdeira direta do culto à deusa pré-cristã Brighid.

 

 

Á direita, imagem de São Brandão, o Navegador - sua jornada mítica ecoa comprecisão as imramma, "remações" - mitos celtas pré-cristãos de viagens ao Outro Mundo.

 

Por tudo isso, é através da soma das informações de todas essas fontes – evidências arqueológicas, textos de fontes clássicas, tradição literária e tradição oral - que se chega a uma compreensão mais ampla da essência da Alma Celta. Enaltecer somente uma dessas fontes em detrimento das demais mostra-se, no mais das vezes, um equívoco.

(para saber mais sobre a História da Irlanda, visite a seção especial)

Uma nota sobre os estudos acerca dos celtas:

Estudar um povo da Antigüidade - sua história, sua espiritualidade, seus valores e costumes – é sempre um grande desafio. No caso dos celtas, a ausência de registros escritos próprios anteriores à chegada do cristianismo torna ainda maior esse desafio.

Durante muito tempo, a principal fonte de pesquisa sobre os celtas e sua cultura foram as chamadas “Fontes Clássicas” – os textos de escritores gregos e romanos que descreviam os celtas. Muito da imagem estereotipada que o grande público faz dos celtas como sendo “bárbaros sanguinários e incivilizados obcecados por sacrifícios” tem origem nos exageros e distorções desses autores clássicos. O avanço das pesquisas a partir do século XX vem reduzindo drasticamente a importância das fontes clássicas à medida que algumas crenças são desmentidas pelos achados em sítios arqueológicos – as chamadas “Evidências Físicas”. Anualmente, novos achados são literalmente descobertos em escavações, fornecendo elementos importantes acerca da vida cotidiana dos celtas e ajudando também a lançar luz sobre os aspectos imateriais de sua cultura, como suas crenças, valores sociais e culturais. Somam-se a estes as referências feitas aos celtas em textos posteriores à chegada do cristianismo às terras celtas - a “Evidência Vernacular” – e os códices e manuscritos medievais – a “Tradição Literária.” Mas talvez o mais enriquecedor componente dos estudos sobre os celtas seja mesmo a “Tradição Oral”: o conjunto de lendas, contos e fábulas que descrevem os feitos de muitas personagens importantes da Tradição Literária sem, contudo, a rigidez do texto escrito – provando, assim, que de fato a Alma Celta mantém-se viva através da palavra falada, nas bocas dos seanachaí (contadores de histórias) e poetas da Irlanda e seus equivalentes em outras regiões celtas.

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