Mitologia: Expressão Sagrada

Chamamos de Mitologia ao conjunto de crenças de outros povos.
- Joseph Campbell


A frase acima, da pena de um dos mais conceituados mitólogos de nossos tempos, pode ser traduzida como: “a minha crença é religião; a crença dos outros, apenas mito” - nada é mais falso e presunçoso. As mitologias dos mais diferentes povos devem ser sempre tratadas com respeito e dignidade, pois os mitos e lendas de uma cultura são os responsáveis pela preservação e transmissão dos valores sócio-culturais, éticos e morais daquele povo. As crenças de qualquer cultura, em qualquer era, figuram entre os bens mais preciosos dessa cultura – e, muitas vezes, também são válidos para povos distantes no espaço e no tempo.

Acima: Ceridwen, ilustração de J.E.C. Williams (1901)

Isso fica claro na origem lingüística da palavra mito: do grego mýthos, significando uma narrativa sagrada, cujo cerne é a compreensão das Forças da Natureza – tanto na paisagem quanto da própria natureza humana. É dentro dessa abordagem que trataremos dos mitos celtas – respeitando sua sacralidade e, mais do que isso, procurando entender o rico simbolismo que dá voz à Alma Celta que, atemporal, permanece eternamente válida.

 

Valores Celtas

Em diversos aspectos, os valores éticos e morais encontrados nos mitos celtas atendem às mais prementes carências de nossos dias – honra nas relações, valor pessoal, consciência tribal, igualdade entre sexos, irmandade com a Natureza. Nos mitos celtas, nada disso é retratado de forma piegas ou pedante: os celtas não eram hippies pacifistas nem militantes ecológicos: o que seus mitos nos mostram é um respeito pelo equilíbrio entre as polaridades do universo - masculino e feminino, vida e morte, indivíduo e coletividade, humano e natureza, mortal e divino – que pode contribuir muito para a formação de uma “nova velha consciência” para o mundo ocidental, tão carente que é de harmonia entre esses e outros pares de ‘opostos’. (À esquerda: Lago Lagan, Irlanda)

Em momento algum esse respeito pelas forças da natureza, tão marcante na mitologia celta, deve ser confundido com temor ou subserviência, ao contrário: esse respeito pelas forças da Natureza vem do entendimento dessas forças - que, por sua vez, gera amor pela natureza.

 

Mitos, Histórias da Alma

As lendas mitológicas fornecem o suporte para as crenças de um povo da mesma forma que
os evangelhos são o suporte da fé cristã.

- Jean Markale

Muitas vezes os relatos mitológicos de diversas culturas são desprezados como sendo somente ‘contos fantásticos’ ou histórias para entretenimento, ou ainda visões primitivas de sociedades que, de nosso ponto de vista, não compreendiam a “realidade” do universo. Nos estudos antropológicos, essa manifestação de soberba tem nome: etnocentrismo. Trata-se de uma armadilha implacável para quem deseja compreender os mitos de uma determinada cultura, turvando-nos a percepção quando, ao lê-los, aplicamos (consciente ou inconscientemente) os valores e princípios da cultura à qual pertencemos. Mesmo os mais bem dispostos estudiosos de uma mitologia podem – e costumam – incorrer nesse erro: diante de uma passagem mitológica, julgam-na, avaliam-na, ‘entendem-na’ sob a ótica de sua própria formação cultural, impedindo assim que o real significado dos mitos aflore através de seus símbolos intrínsecos. Assim como a poesia, os mitos não são compreendidos pela mente racional, mas pelo instinto, pelo subconsciente, pela Alma. Compreender os mitos é uma relação de Alma para Alma.

"Re-conhecer" os mitos celtas

Quando travamos contato com uma dada mitologia diferente daquela em que cremos, temos o direito de questionar se o universo foi criado a partir de um Oceano de Leite, ou se o Sol é o olho de um deus, se uma virgem é capaz de parir um filho, ou se um povo foi escolhido por um deus único? Certamente que não: todos os exemplos mitológicos acima são sagrados para as culturas em que florescem (respectivamente, hinduismo, religião egípcia, cristianismo, judaísmo). Da mesma forma, o que nos propomos ao estudar a mitologia celta é identificar e ‘re-conhecer’ o que há de profundo em seus símbolos e entrelinhas, e de que forma esses símbolos, atuando em nossos subconscientes e nossas almas, podem propor alternativas válidas de pensamento e de vida.

Nas palavras de Patrick Pearse (dir.), poeta e nacionalista irlandês,
Podemos especular o que aconteceria se, ao invés de desenterrar a literatura da Grécia e de Roma, os pesquisadores do século XV tivessem encontrado outra literatura - uma que ainda permaneceria oculta por mais quatro séculos. Então, ao invés do Renascimento Clássico, teríamos o Renascimento Céltico. Ou melhor, a cultura celta seria chamada de ‘clássica’, e teria transmitido seus fundamentos à Europa. Não afirmo que com isso a Literatura teria lucrado; contudo, não creio que saísse perdendo: perderíamos o ideal grego da busca pela forma perfeita, e a análise calma e sábia dos helênicos. Por outro lado, teríamos ganho uma visão mais direta, uma inspiração mais nobre – posto que humana – e, acima de tudo, uma espiritualidade mais profunda. (...) Reclamo então, para a literatura irlandesa, estas particularidades: uma visão mais clara do que a grega, uma humanidade mais generosa do que a grega, uma espiritualidade mais profunda do que a grega.

 

Mitos e Lendas Celtas: as mil faces de uma cultura

À primeira vista, a amplitude da mitologia celta assusta. São incontáveis (literalmente) deuses e deusas com nomes complicados, grafias estranhas, lendas desencontradas e atributos variáveis. Pudera: os relatos e lendas agrupados sob o título “Mitologia Celta” nos chegam de terras tão distantes quanto o sul da França e a Escócia, pertencentes a períodos tão diferentes quanto a Idade do Ferro e o Medievo. A confusão é imediata: como conceber uma mitologia que nos apresente seres poderosos como Taranis, Teutatis e Esus, o trio de poderosos deuses da Gália celta descritos pelos escritores clássicos, ao lado dos leprechauns do folclore irlandês? Como conciliar as grandiosas epopéias dos poderosos Tuatha de Danann no "Livro das Invasões da Irlanda" com os feitos de heróis mortais como Peredur no Mabinogi galês?

Acima, à esq.: bas-relief com três deidades gaulesas - período Romano, séc. II; à dir.: um leprechaun em gravura de 1858

A verdade é que, de fato, esses relatos e personagens não pertencem a uma mesma mitologia: as diferenças culturais das terras e épocas em que tais mitos se desenvolvem são tantas e tamanhas que só mesmo muita dedicação, bom senso e boa vontade podem proporcionar uma compreensão mais profunda dos símbolos desses seres divinos. Como bem diz o Dr. Simon James, “ao escrever meu primeiro livro sobre os celtas, eu me tornei cada vez mais consciente de que as diferenças entre os povos da Antigüidade atualmente chamados de celtas eram, no mínimo, tão profundas e importantes quanto os elementos culturais ‘celtas’ que lhes eram comuns.” Senti o mesmo durante minhas pesquisas, antes de escrever “O Livro da Mitologia Celta”.

 

Deidades Celtas: Espíritos do Local

A grande variedade de deidades celtas, portanto, é manifestação da diversidade da cultura celta. Outro fator a contribuir para essa pluralidade de deuses e deusas é a íntima relação estabelecida ente uma determinada deidade e uma região ou característica da paisagem – em seu estudo sobre a sacralidade da paisagem da Irlanda, os autores Walter e Mary Brenneman cunham o termo "loric spirit” – o “espírito do saber” que habita um determinado local e com quem o habitante ou visitante estabelece contato. Não se trata, obviamente, de um ‘espírito’ no sentido da alma de alguém morto, mas sim da própria energia que emana daquele e naquele local. Esse ‘espírito do saber’ está ligado àquele local e a nenhum outro, dotando-o de identidade própria e diferenciando-o de outros locais. É esse ‘espírito do saber’ identificado por Brenneman e Brenneman que está na origem de muitos deuses e deusas celtas (e, por extensão, também de deidades de outras culturas). De um ponto de vista celta, cada vale, rio, montanha, nascente ou bosque possui seu próprio deus/espírito, com o qual o visitante estabelece contato, de alma para alma. Ao descrever sua percepção da espiritualidade celta, autores clássicos como Julio César usam a expresão genius loci, o “espírito do local”, para descrever essas deidades. Dada a vasta extensão territorial ocupada pelos povos celtas na Antigüidade, não é de estranhar a grande quantidade de deuses e deusas mencionados pelos textos antigos e catalogados pelos estudiosos modernos. A conhecida associação entre deusas e rios, tão freqüente nas terras celtas, é apenas um exemplo da íntima relação entre deidades e paisagem.


O Rio Boyne, na Irlanda, deriva seu nome de
Boann, deusa celta associada a esse curso d'água.

 

A Alma Celta: Eterna por Natureza

A Alma Celta manifesta-se, primordialmente, na paisagem – algo que sobrevive mesmo na visão monoteística trazida pelo cristianismo: na Irlanda, as nascentes outrora associadas a deidades celtas agora são dedicadas a santos católicos. Afinal, a força do “espírito do saber” é a força ctônica da própria paisagem, e qualquer religião que ai se estabeleça vai – de uma forma ou de outra – desfrutar dessa força, permitindo que essa força sobreviva, ainda que com outra forma ou nome.

Há uma percepção equivocada de que o cristianismo “apropriou-se dos mitos celtas”. Não é verdade: o que de fato ocorreu é que esses mitos são por demais poderosos para serem suprimidos pelo cristianismo ou qualquer outra força cultural. A fonte do poder desses mitos é a paisagem – que já era sagrada antes dos celtas. Assim, cada nova onda cultural que entra em contato com o “espírito do saber” de um determinado local gera novas versões desse mesmo espírito – sua essência, contudo, permanece a mesma. E dessa essência jorra o simbolismo de cada mito.

Santa Brigida de Kildare é, ao lado de São Patrício e São Columba, padroeira da Irlanda e dos irlandeses. Sua fonte sagrada (à esq.) é um local sagrado para todo católico irlandês. Por seus atributos, pelos detalhes de sua hagiografia e, especialmente, pelo carinho que os irlandeses nutrem por Santa Brígida, não há dúvidas de que há uma linha de continuidade ininterrupta entre o culto à deusa pagã Brighid e a moderna devoção a Santa Brígida. A forma desse culto pode mudar de acordo com as eras, mas sua essência - a alma que nos toca e nos inspira - permanece a mesma.

 

Na busca pela 'essência' da Alma Celta, muitos pesquisadores contemporâneos tendem a ignorar as interferências cristãs sobre os mitos celtas, como se essa essência existisse somente no passado pagão. Buscam no passado mais remoto algo que, a seu ver, seria a "mais pura" manifestação da espiritualidade celta - esquecendo-se que mesmo nos tempos mais remotos, essa espiritualidade já possuía variações e absorvia elementos de outras espiritualidades com as quais fazia contato. Mais ainda, essa busca por uma suposta "pureza" da espiritualidade celta pode se mostrar um perigoso eco do discurso intolerante - e até racista - que tantos conflitos motivou ao longo da história humana. Quem opta por ignorar a influência cristã sobre a espiritualidade que se desenvolve nas terras celtas não só despreza fontes importantes de resgate - os textos dos monges cristãos e o folclore local, por exemplo; ao não enxergar a Alma Celta nas modernas manifestações espirituais irlandesas, britânicas, galegas e bretãs, simplesmente nega à Alma Celta sua própria força e eternidade.

 

O Simbolismo dos Mitos

Mitos são sonhos coletivos, e os sonhos são mitos individuais.
-- Joseph Campbell

Símbolos, mensagens, significados: todo mito traz em seu bojo uma mensagem transformadora, captada não pela mente racional, mas pelo subconsciente, pela alma de quem lê ou ouve o relato. Citando o grande poeta português Fernando Pessoa, “Primeiro sentir os símbolos, sentir que os símbolos têm vida e alma, que os símbolos são gente. Mais tarde virá a interpretação, mas, sem esse sentir, a interpretação não vem.

Ao identificarmos acima a importância da paisagem na formação dos mitos e lendas celtas, percebemos que a relação com o sagrado dependia de uma boa relação com a natureza – uma visão que nos seria muito útil em tempos de degradação do meio-ambiente. Essa característica ctônica das deidades celtas dá a suas práticas e seus fundamentos filosóficos uma característica notadamente xamânica. Nem havia como ser diferente: até por suas origens indo-européias, a mitologia celta apresenta diversos relatos em que surgem elementos identificados como xamânicos:


• a visão animista do mundo, em que cada característica da paisagem, cada local, cada ofício, cada força da natureza é dotada de um espírito;
• a presença de totemismo em nomes tribais ligados a animais e a nomes de indivíduos como Oisin (“pequena corça”), Cuchulainn (“Cão de Cullan”), Arthur (“Herói Urso”) e também em deidades/heróis que se metamorfoseiam constantemente em animais (Cerridwen, Gwion, Morríghan, Sadbh, para citar apenas alguns);
• a existência de técnicas de ‘transe ritual’ em que o praticante atinge a ‘iluminação’ ou um estado alterado de consciência – as técnicas druídicas do imbas forosnai e dichetal do chenaib, por exemplo, ou ainda os feitos dos Aweniddion, místicos do País de Gales que, em arrebatamentos rituais, faziam profecias e oráculos;
• a honra aos Ancestrais como fonte de identitade, saber e inspiração;
• a profunda compreensão dos processos da natureza.

Definir a espiritualidade celta como ‘xamânica’ é uma das chaves para a sua real compreensão. Qualquer outra abordagem fica incompleta por não compreender os elementos fundamentais que ligam a espiritualidade celta a muitas outras espiritualidades de outras culturas e épocas, todas centradas no reconhecimento da natureza como fonte de todas as forças e da vida como um todo.

Múltiplos Níveis

Mas outro passo é preciso antes de prosseguir: definir ‘Natureza’ do ponto de vista mitológico. Os deuses e deusas, heróis e heroínas cujos feitos são narrados nos mitos e lendas celtas são, num nível de leitura, personagens de uma linha narrativa. Seus feitos, nomes, atributos e adereços, por sua vez, são símbolos que aprendemos a reconhecer e identificar depois de um período de instrução que nos permita aprofundar o nível de leitura. E as ‘forças da natureza’ que eles encarnam não são, necessariamente, manifestações da “natureza paisagem”: em diversas ocasiões, os deuses e heróis também representam as forças da “natureza humana” – a paixão, a fúria, o amor, a tristeza, o ciúme, a coragem, a sabedoria. Assim, de acordo com a abordagem, uma mesma entidade mitológica pode ser: a) um valoroso guerreiro; b) a personificação do brilho pessoal; c) o símbolo da conquista e da vitória - no universo mitológico, nada é “uma coisa OU outra”: tudo pode ser uma “coisa E outra”: uma percepção não invalida ou anula a outra, todas são níveis diferentes de compreensão, e a magia reside na identificação desses símbolos e o entendimento de seu múltiplo simbolismo.

Evidentemente a melhor forma de se compreender os mitos e lendas celtas vem de sua leitura o mais próximo do original. O fato de terem sido pela primeira vez redigidos em idiomas celtas (irlandês, galês, britônico, etc) torna essa tarefa possível a um número pequeno de pessoas que dominem esses idiomas. Mesmo as traduções para o inglês restringem o público e é por conta disso que, ao escrever “O Livro da Mitologia Celta” me dispus não a meramente traduzir as narrativas, mas a avaliar alguns dos muitos símbolos nelas presentes. (Eis porque recomendo uma visita ao link Bellovesos, onde uma breve pesquisa desencadeará a descoberta de traduções para o português a partir dos textos em idioma original, bem como interpretações interessantes e informações relevantes sobre a mitologia e espiritualidade celtas.)

A seguir, uma breve e despretensiosa apresentação da mitologia celta, agrupada em suas principais fontes: Gália, Grã-Bretanha e Irlanda.

1. Mitos Celtas da Gália >>> 2. Mitos Celtas Britânicos >>> 3. Mitos Celtas da Irlanda

 

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