Mitos Celtas da Grã-Bretanha

Ao pesquisar os mitos celtas de Branwen, Taliesin, Arthur ou Pwyll, a maioria das fontes cita esses personagesn como pertencendo à mitolgia do País de Gales. De fato, os textos contendo essas narrativas foram redigidos no idioma galês, ainda hoje falado no País de Gales. Contudo, é sabido que a cultura celta que sobreviveu no País de Gales era muito semelhante à cultura de outras regiões da Grã-Bretanha, de forma que optei nestas páginas por identificar as narrativas daquela região como britânicas, sugerindo que seu alcance seguramente era mais extenso do que as atuais fronteiras do País de Gales. Não fosse pela romanização e, posteriormente, anglicização das tribos britônicas em outras áreas da Grã-Bretanha, mitos idênticos ou semelhantes seriam encontrados em outras áreas da ilha.

Assim, quando os romanos travaram contato com as tribos celtas do norte da Grã-Bretanha, notaram seu hábito de pintar seus corpos com tatuagens, de onde o termo picti – literalmente, “homens pintados”. Essa palavra passou a designar os pictos, como ficou conhecido o povo da região, e também está na raiz do nome Bretanha, como mostram as palavras usadas para designar esse povo nos idiomas gaélico – cruithne – e britônico – pretani. (É muito importante, para quem estuda a história das ilhas, diferenciar os termos ‘britânico’, ‘britônico’ e ‘bretão’ – para não mencionar a costumeira confusão entre britânico e inglês.)

Os celtas que os romanos encontraram nas terras britânicas eram aparentados dos gauleses, como comprovam nomes de diversas tribos encontradas em ambos os territórios (caso dos Parisi e dos Belgae, por exemplo). Como conseqüência óbvia, a mitologia celta britânica apresenta algumas semelhanças, e muitas das deidades mencionadas na página anterior também eram cultuadas na Grã-Bretanha. Com as invasões e posterior conquista da Bretanha pelos romanos a partir do século I a.e.a. a cultura celta entrou em declínio em grande parte da ilha. Entretanto, o isolamento cultural de algumas regiões - notadamente das terras que hoje formam o País de Gales - preservaram melhor alguns mitos e lendas dos celtas insulares mesmo após a romanização, a subsequente cristianização e mesmo a posterior chegada dos invasores germânicos. Um conjunto de lendas coletivamente conhecidas como “Os Quatro Ramos das Histórias da Juventude” forma a principal fonte da literatura celta da Grã-Bretanha: Pedair Cainc y Mabinogi ou, simplesmente, o ‘Mabinogion’.

Os manuscritos foram compilados por volta do séc. XII, mas seguramente o conteúdo das lendas remete a eras anteriores, em que tais lendas eram transmitidas exclusivamente pela tradição oral pelos bardos bretões. Compõem o Mabinogion os quatro ramos a que se refere o nome completo – “Pwyll, Príncipe de Dyfed”, “Branwen, Filha de Llyr”, “Manawydan, Filho de Llyr” e “Math, Filho de Mathonwy” – bem como outros textos: “A Aventura de Llud e Llefelys”, “Culhwch & Olwen” (dir.), “O Sonho de Macsen Wledig”, “O Sonho de Rhonabwy” e outras lendas envolvendo figuras importantes da mitologia britânica como Peredur, Owain e Taliesin. A seguir, uma breve introdução aos temas de cada ramo de Pedair Cainc y Mabinogi.

Pedair Cainc y Mabinogi ("O Mabinogion")

Primeiro Ramo: Pwyll, Príncipe de Dyfed

Pwyll é o príncipe da região de Dyfed. Durante uma caçada, ao se separar de seus companheiros, Pwyll vê um gamo sendo perseguido por uma matilha de cães brancos de orelhas vermelhas – as cores dos animais divinos nas lendas celtas. Ao afugentar a matilha, surge a figura do proprietário dos cães: Arawn, Senhor do Outro Mundo, que lhe repreende por sua falta de cortesia. Para remediar a situação, Arawn propõe que ele e Pwyll troquem de lugar por um ano, um assumindo a forma do outro. Sem saber das implicações que tal troca acarretaria, Pwyll aceita o acordo, e se vê envolvido numa disputa entre literalmente do Outro Mundo, tendo de derrotar Hafgan – um rival de Arawn – em combate individual. Ao término do período de um ano, Pwyll e Arawn voltam a suas formas reais e reassumem seus reinos, satisfeitos com o desempenho um do outro.

Em recompensa por seu bom desempenho como rei do Outro Mundo, o mortal Pwyll agora recebe o título de Pwyll Pen Annwfn – Pwyll, "Regente do Outro Mundo". Não muito tempo depois, Pwyll novamente se vê às voltas com seres divinos – desta vez uma linda mulher que lhe surge trajando vestes douradas e montando um corcel branco, dizendo-se por ele apaixonada: seu nome é Rhiannon, uma deusa associada a eqüinos (no simbolismo da Alma Celta, cavalos e éguas são representações da soberania). Apesar de ela estar prometida a outro homem, Gwawl, eles iniciam seu romance e, graças ao uso de uma bolsa mágica por ela ofertada a Pwyll, conseguem se livrar de Gwawl. Da união de Pwyll e Rhiannon nasce o garoto Gwri, que some misteriosamente do castelo e só se reúne a seus pais tempos depois, recebendo então o nome de Pryderi. Pryderi viria a ser o único personagem a estar presente em todos os quatro ramos do Mabinogi e séculos mais tarde seus mitos formariam a base do personagem arthuriano Perceval.

Rhiannon em ilustração de Alan Lee

 

Segundo Ramo: Branwen, Filha de Llyr

Bendigeid Bran (Bran, o Abençoado) é o gigantesco e poderoso rei da "Ilha dos Poderosos" (Grã-Bretanha). Para fortalecer uma aliança com Matholwch, rei da Irlanda, fica decidido que a irmã de Bran, Branwen, se casaria com o rei irlandês. Logo de início, as traquinagens de Efnisien, o maligno meio-irmão de Bran e Branwen, quase geram um confronto: às escondidas ele mutilara os cavalos do rei irlandês obrigando Bran a repor os cavalos e a ceder ouro e prata a Matholwch como reparação pelo delito de Efnisien; é também parte dessa reparação um caldeirão mágico capaz de restaurar a vida de guerreiros mortos – tema recorrente nos mitos celtas.

Com o passar do tempo, Branwen passa a ser hostilizada e humilhada pelos irlandeses, e é rebaixada de rainha a cozinheira. Para livrar-se de sua condição, ela treina uma pequena ave (um estorninho) para que leve notícias suas a seu irmão Bran, na Bretanha. Ao saber do tratamento a que sua irmã vinha sendo submetida, Bran parte enfurecido com suas hostes através do Mar da Irlanda, numa expedição punitiva que, após mais traições de Efnisien, acaba num massacre em que perecem todos os irlandeses e somente sete galeses sobrevivem – dentre eles, Pryderi, Bran e seu irmão, Manawydan. Por se sentir responsável por tamanha destruição, Branwen morre com o coração partido. Bran, mortalmente ferido, pede a seus companheiros que separem sua cabeça do corpo para que ela ganhe uma sobrevida e, assim, Bran possa oferecer companhia e orientação por algum tempo mais. A cabeça de Bran seria enterrada posteriormente, de acordo com suas próprias instruções, sob uma colina para que dali pudesse proteger as terras da Grã-Bretanha pela eternidade. Tal colina é a mítica colina branca em Londres, e tamanha é a força desse mito que até hoje, um turista que visite a Torre de Londres verá lá que Bran de fato continua vivo e, até o momento, protegendo sua amada ilha.

 

Terceiro Ramo: Manawydan, Filho de Llyr

Depois de suas desventuras na Irlanda no Segundo Ramo, Manawydan e Pryderi casam-se – Manawydan com Rhiannon, que conhecemos no Primeiro Ramo, e Pryderi, filho de Rhianonn, com uma jovem chamada Cigfa. Os casais vivem em paz durante algum tempo, até que uma bruma misteriosa traz seca e desolação a suas terras. Eles partem para o reino vizinho de Lloegyr (Inglaterra), onde prosperam na confecção de artesanato em couro e calçados. Os comerciantes locais se enfurecem e, para não causarem problemas, Pryderi e Manawydan, acompanhados de suas esposas, optam por retornar para suas terras no País de Gales e viver da caça. Numa caçada, eles seguem um javali de resplandecente pelagem branca (ao lado, ilustração de Charlotte Guest). A perseguição os conduz a um palácio, onde Pryderi e sua mãe desaparecem. Manawydan assegura a Cigfa que vai cuidar dela e que resgatarão seus esposos. Isso, contudo, só viria a ocorrer muito tempo depois, quando surge Llwyd, o amigo do Gwawl que fora humilhado por Pwyll no Primeiro Ramo.

Llwyd lhes revela que tanto o desaparecimento de Pryderi e Rhiannon quanto as pragas que afetavam as terras deles eram formas de vingança pelo ocorrido anterioremente. Após seu reencontro, os casais Manawydan e Rhiannon e Pryderi e Cigfa vivem novamente em felicidade.

 

Quarto Ramo: Math, Filho de Mathonwy

Gwydion, um mago, é sobrinho de Math, rei do norte do País de Gales. Para satisfazer os desejos de seu irmão Gilfaethwy, que ama a bela Goewin, ele provoca a guerra entre o reino de Math e o reino ao sul, governado por Pryderi – afinal, a jovem Goewin tinha a função real de segurar os pés do rei durante todo o tempo, salvo quando ele estivesse em batalha. Gilfaethwy se aproveita da ausência do rei para apresentar-se a Goewin mas, infelizmente para ele, todo esse ardil foi em vão: a bela Goewin não se interessa por Gilfaethwy, o qual acaba por tomá-la à força. Em paralelo, a guerra seguia seu curso, e só acaba quando Gwydion mata Pryderi em combate individual (de fato, o combate individual entre grandes guerreiros de tribos rivais é uma prática mencionada com frequência nas fontes históricas tanto da Gália quanto da Irlanda, o que nos permite afirmar ser esta uma prática bastante comum entre os celtas). Para salvar a honra de Goewin, Math casa-se com ela e lança sobre os irmãos Gwydion e Gilfaethwy um encantamento que os transforma sucessivamente em casais de gamos, porcos e lobos que, a cada período, se acasalam e geram filhotes. Após os três anos de encantamento, Gwydion e Gilfaethwy voltam às formas humanas e retornam à corte de Math. Gwydion então sugere que sua irmã Arianhrod substitua Goewin como a virgem que segura os pés do rei. Arianhrod é submetida a um curioso (e rico em simbolismo) teste de virgindade que desmente a virgindade da donzela: com efeito, Arianhrod dá à luz dois filhos: Dylan – o mar – e um outro garoto.Contra a vontade da mãe, este é criado por seu tio Gwydion; Arianhrod amaldiçoa aquele filho indesejável dizendo que ele jamais receberia um nome, nunca seria armado cavaleiro nem jamais teria uma esposa humana - a não ser que esses três dons fossem concedidos por ela própria. Graças às artimanhas de Gwydion, o garoto viria a receber um nome de sua mãe: Lleu Llaw Gyffes, “O Belo com a Mão Certeira”. Pouco tempo depois, num momento de crise, é a própria Arianrhod que lhe dá armas para defender seu palácio.

Por fim, a questão da esposa é resolvida quando, através de sua magia, Gwydion e Math produzem uma esposa para Lleu a partir da combinação de flores de propriedades mágicas: o nome dessa donzela, Blodeuwedd, significa literalmente ‘rosto de flores’. Após um começo de casamento apaixonado, Blodeuwedd trai Lleu com Gronw Pebyr. O casal adúltero planeja matar Lleu, mas este é praticamente invulnerável e só perderia a vida se golpeado por uma lança em condições absolutamente bizarras. Usando de seus encantos, Blodeuwedd convence Lleu a mostrar-lhe quais são essas condições, momento em que Gronw Pebyr atira-lhe a lança que pode tirar-lhe a vida. Entretanto, quando a lança lhe perfura o corpo, ao invés de morrer Lleu assume a forma de uma águia e desaparece a voar. Math e Gwydion se dispõem a retificar a situação e, novamente através da magia – desta vez usando uma vara mágica -, Gwydion restaura Lleu a sua forma humana. O processo inverso é feito com Blodeuwedd que, como punição por seu adultério, é transformada numa coruja para que nunca mais seu rosto seja visto à luz do dia. A Lleu também é consentido o direito de vingar-se de Gronw, o que ocorre quando Lleu atira-lhe uma lança com tamanha força que esta atravessa a pedra atrás da qual Gronw se ocultara, matando-o instantaneamente. Após isso, Lleu volta a prosperar em suas terras.

 

As demais lendas presentes em Pedair Cainc y Mabinogi nos apresentam diversos personagens importantes que viriam a sobreviver em outras formas nas muitas lendas medievais que narram os feitos de Arthur, Rei dos Bretões, e seus nobres cavaleiros.

‘Arthuriana’
Descrito por estudiosos como “o principal mito do Ocidente”, as lendas do Rei Arthur (coletivamente conhecidas como Arthuriana) são extensas e complexas versões de diversas fontes originais, especialmente as lendas celtas da Grã-Bretanha – e alguns elementos podem ser encontrados também na mitologia da Irlanda. Para compreender o mito de Arthur, é preciso lembrar que muitas personagens lendárias das mais diferentes mitologias têm origens em fatos reais realizados por pessoas mortais que, com o tempo, são revestidos por uma aura mítica – nas palavras de J.R.R. Tolkien, há, sempre houve e sempre haverá um ‘caldeirão mitológico’ no qual fervem os mitos e lendas de todas as culturas do mundo. De tempos em tempos, personagens mortais são nele mergulhados e recebem uma carga divina.


Arthur e Lancelot - vitral de William Morris

“Parece claro que Arthur, a um tempo histórico (e talvez dessa forma sem grande importância) também foi mergulhado no Caldeirão, onde cozinhou por um longo tempo, juntamente a muitas outras figuras e temas, mitológicos e divinos, e até mesmo outros pedaços perdidos da história (como a defesa do rei Alfredo contra os dinamarqueses) até que surgisse como Rei Divino.”
- JRR Tolkien

Assim, aos feitos reais do líder guerreiro (dux bellorum) descrito por Gildas no início do século VI somaram-se diversas outras lendas e histórias que terminaram por formar o mito arthuriano como o conhecemos. O sucesso das histórias do Rei Arthur e a posterior agregação de outros temas originalmente não relacionados deve-se, em grande parte, à imagem arquetípica do ‘Rei Sacerdote’ - o monarca salvador que representa e encarna seu povo trazendo sucesso para seus súditos, fertilidade para sua terra e prosperidade para seu reino. Uma das possíveis origens do nome Arthur propõe que ele vem da fusão dos vocábulos galeses arth, ‘urso’, e gwr, ‘herói’. Portanto, Arthur é o “Herói Urso” – como dito anteriormente, um exemplo clássico do totemismo entre os celtas.
Muitos elementos que compõem o ‘caldo’ mitológico de Arthur podem ser encontrados nas lendas da ilha vizinha à Grã-Bretanha: a Irlanda. Atravessemos, pis, o Mar da Irlanda para conhecer um pouco mais dos mitos e lendas dos celtas irlandeses.

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