Mitos Celtas da Gália

É sabido que os celtas não faziam uso da escrita para registrar seus mitos, suas lendas e demais aspectos de sua cultura, tidos por eles como “sagrados demais para serem profanados pela escrita”. Assim, o pouco que sabemos acerca dos deuses e deusas celtas da Gália nos foi transmitido pelos relatos – muitas vezes tendenciosos e preconceituosos – de escritores clássicos como Julio César, Estrabão, Lucano, Plínio, Possidônio e tantos outros. Para complicar o trabalho de pesquisadores modernos, os autores romanos, no intuito de facilitar a compreensão de seus leitores, valiam-se de um recurso que Tácito chama de interpretatio romana – a ‘interpretação romana’ – dos deuses e deusas celtas, comparando-os aos seus próprios deuses e deusas. O resultado disso é que por vezes deparamo-nos com frases como “os celtas cultuavam Mercúrio acima de todos os deuses” – Mercúrio, neste caso, muito provavelmente refere-se ao deus celta Lugh e não ao próprio Mercúrio/Hermes do mundo clássico.

Seja como for, alguns importantes deuses celtas mencionados pelos escritores clássicos são identificados pelos seus nomes orinigais, como Taranis (esquerda) - cujos muitos altares espalhados da Grã-Bretanha aos Bálcãs atestam sua importância. Taranis é uma obscura deidade associada ao trovão (em galês e em bretão, ‘trovão’ é taran) e que, se dermos crédito aos textos de Julio César, exigia copiosos sacrifícios de sangue. Quando Lucano o descreve como um “mestre da guerra”, ele o compara ao romano Júpiter – um deus temperamental e um tanto violento da mitologia clássica. Ao lado de Esus e Teutatis, Taranis é listado como os três principais deuses da Gália.

Sobre Esus, podemos afirmar pouco: apesar do status importante a ele atribuído por Lucano, parece mais provável que Esus fosse um deus tutelar da tribo celta que levava seu nome: os Esuvii. Este parece ser também o caso de Teutates, cujo nome (Teuto-valos) significa literalmente “deus da tribo”. A visão de que cada tribo celta possui sua própria deidade tutelar ajuda a explicar o extraordinário número de deidades celtas reconhecidas. Mas Teutates possui uma distinção: um templo da Bretanha romana ostenta o nome Mars Teutates, o que o põe em ligação direta com a figura do Marte romano, deus das artes da guerra.

 

Outro importante deus da Gália continental é Belenos, deidade associada ás águas curativas e, por seu nome (Bel = brilhante), também ao sol - associação comprovada num templo na Escócia dedicado a Belenos com a inscrição “Apollini Granno” – Apolo é o deus solar greco-romano, e o epíteto Granno tem a mesma raiz lingüística de grian, irlandês para “sol”. A deusa Belisama é por vezes descrita como sendo esposa de Belenos, mas não há evidências mitológicas a comprovar tal tese. Belisama também era associada a águas curativas, o que pode fornecer pistas sobre seu culto – em sua Geografia, Claudius Ptolemaeus inclusive indica um rio na Grã-Bretanha com o nome de Belisama.

 

Os registros históricos também mencionam Sucellos (à direita), “aquele que golpeia bem”. Sucellos é uma figura bastante viril, porta um grande martelo e, como na imagem ao lado, costuma aparecer ao lado de Nantosuelta, deusa gaulesa associada ao corvo e à prosperidade e, portanto, facilmente identificável com a irlandesa Morríghan.

Por falar em associações com a Irlanda, um dos casos clássicos de deidades pan-célticas é Lugos, conhecido na Irlanda como Lugh e cuja importância é atestada pelas muitas cidades que levam seu nome: Lugo na Galiza, Lyon na França (Lugdunum), Leyden na Holanda, Leon na Espanha, Liengnitz na Áustria, Dinlleu no País de Gales, Luguvalium - atual Carslile - na Inglaterra. Lugos é o deus gaulês cujo nome a interpretatio romana omite ao compará-lo a Mercúrio. Já Sequana, deusa tributária do rio Sena, era imensamente popular na Gália, e até mesmo os conquistadores romanos absorveram seu culto e dedicaram-lhe dois grandes templos. Sequana era uma deusa da cura, como atestam as oferendas votivas de partes de corpo que os seus suplicantes desejavam ver curadas – exatamente a mesma prática que ainda hoje ocorre em diversos santuários cristãos como o de Lourdes.

 

Outra deusa de natureza bastante benéfica é Rosmerta, cujo nome pode ser traduzido como “A Grande Provedora”. As imagens do período galo-romano mostram-na com atributos clássicos da fertilidade: cornucópia, cestos de frutas e o caduceu de Mercúrio – deus que, por vezes, surge ao lado dela em estatuária.

 

Epona (esq.), cujo nome pode ser traduzido como “Égua Sagrada”, é a deusa gaulesa que mais possui inscrições e estátuas encontradas. Costuma ser representada montando um cavalo, na companhia de outros animais, notadamente um potro, um cão e uma ave. Sua característica proteção dos eqüinos fez dela uma das principais deidades da cavalaria romana, que prontamente a adotou, a ponto de ela passar a fazer parte do panteão romano e tendo, inclusive, um dia determinado para ser celebrada: 18 de dezembro. Entre os celtas insulares, ela foi associada à britânica Rhiannon e possui evidentes ligações com a irlandesa Macha. Uma tribo celta da Escócia, os epidii, podem a ela estar associados.

 

 

 

 

Taruos Trigaranos (à direita), o “Touro com Três Garças”, é outra deidade bastante intrigante da Gália celta: seu culto parece estar associado aos mistérios do outro mundo, como implica a figura das garças, bem como à fertilidade da terra, associada ao touro. A catedral de Notre Dame de Paris foi construída exatamente sobre um local outrora dedicado a seu culto, como comprova a estátua encontrada em 1711 sob a catedral.

 

 

Foi também em Paris que foi encontrada a imagem da talvez mais conhecida deidade celta continental: Cernunnos (abaixo), o “Deus com Chifres”. Senhor das forças da natureza, das florestas, dos animais, da fertilidade e da prosperidade, seu culto é comprovado por achados arqueológicos que vão das ilhas britânicas ao leste europeu. Sua imagem mais conhecida é a que estampa o caldeirão de Gundestrup.

Naquele artefato, encontrado na Dinamarca e confeccionado por volta do século 1 a.e.a., Cernunnos possui chifres de gamo e senta-se em meio a diversos animais numa posição semelhante à ‘posição de lótus’ das práticas meditativas orientais. Isso não é coincidência. Um selo da milenar cultura de Mohenjo-daro (Índia) traz uma representação de uma deidade chamada Pashupati (abaixo), sentado em posição idêntica, também ostentando chifres (bovinos) e, assim como o Cernunnos do Caldeirão de Gundestrup, rodeado de animais. O nome Pashupati significa “pai dos rebanhos” e este deus hindu é também conhecido como proto-Shiva e “Senhor dos Animais”. Entre uma imagem e a outra, cerca de mil e oitocentos anos - e mais de seis mil quilômetros.

As semelhanças parecem comprovar a origem indo-européia comum tanto a celtas quanto a indianos. Com base nisso, é possível estabelecer muitos outros paralelos entre vários elementos das espiritualidades celta e hindu - e não é difícil intuir que, se a espiritualidade celta não tivesse sucumbido à influência de Roma e do cristianismo, possivelmente ela teria se desenvolvido como hinduísmo, obviamente diferenciando-se desse pelo colorido cultural de paisagens e sociedades diferentes, mas preservando em sua essência a mesma profundidade filosófica e comunhão com o universo do hinduísmo que hoje tanto inspira e atrai os ocidentais.

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