Vivendo o Druidismo hoje

Um dos mais belos elementos das práticas druídicas modernas é sua amplitude de ação. Quando realmente conhecemos os princípios do druidismo, sua essência e seu significado, eles se mostram mais `flexíveis’ e abarcam as muitas e várias interpretações individuais, reconhecendo em todas – quando harmonizadas com esses princípios – a validade e a beleza da pluralidade das manifestações druídicas.

Essa ‘flexibilidade’ vem do fato de que no druidismo não existem ‘dogmas’, ‘mandamentos’ ou ‘escrituras’. Isso, contudo, tende a ser mal compreendido, e muitas pessoas que se dispõem a trilhar o druidismo tropeçam naquilo que, em muitos casos, elas próprias chamam de “excesso de liberdade”. O resultado costuma dividir-se em dois extremos que - como sempre acontece com extremos - são igualmente indesejáveis:

- um deles é a rigidez, que sufoca a espontaneidade do druidismo. Esta postura é geralmente adotada por aqueles que não compreendem a fundo o espírito do druidismo, sua história, sua essência e seu potencial, preferindo criar ‘dogmas’ que lhes mostrem parâmetros de “certo” e “errado” - mas que acabam por `engessar’ sua própria vivência do druidismo;
- o outro extremo, igualmente nocivo, é a falta de compromisso.

Uma espiritualidade/religião como o druidismo, que tem em seus fundamentos a compreensão dos ciclos da natureza exterior e interior e seus efeitos sobre a paisagem e sobre nossas vidas não pode, por exemplo, abrir mão da experiência transformadora da observação das celebrações sazonais e das festas celtas. Os símbolos, os mitos e lendas, as práticas e os costumes de cada uma delas são poderosos catalizadores de nosso aprendizado e de nossa experiência druídica.

Assim, se por um lado a ausência de ditames e regras expressas faz com que os mais desavisados confundam essa suposta liberdade com ‘bagunça’, por outro é justamente essa liberdade que desperta, em quem realmente compreende o druidismo, aquele que é o mais poderoso e transformador elemento de sua prática: a Consciência.

Uma consciência individual alinhada com a ética e os princípios do druidismo é a mais poderosa forma de magia que há: a Consciência - o saber conjunto - é a ponte que liga cada um de nós às grandes forças do mundo em que vivemos, é o canal pelo qual os deuses e deusas se manifestam em nossas vidas: como bem expressa o poeta e mago da palavra irlandês William Butler Yeats, a Consciência é a ponte que nos conecta à mente e à memória da própria Natureza.

Assim, é possível a alguém interessado no druidismo vivenciá-lo no seio de um grupo ou organização druídica tanto quanto a alguém que, por quaisquer fatores, opte por - ou se veja levado a - viver o druidismo de forma individual.

Grupos E Individualidade

Até pela herança maçônica e hermética de muitas das modernas ordens druídicas, muitos praticantes crêem que só há druidismo dentro dessas ordens. Foi somente a partir dos trabalhos recentes da Order of Bards, Ovates and Druids (OBOD) e também da British Druid Order (BDO) que esse quadro começou a mudar, tornando o druidismo mais acessível e, convenhamos, mais coerente. Apesar de ainda existirem grupos fechados, o conhecimento druídico atualmente está ao alcance de qualquer um: seja nos cursos e workshops ministrados por instrutores, em métodos à distância oferecidos por grupos e indivíduos e, claro, em webistes - cabe ao buscador travar contato com os fundamentos de cada um, confrontando-os com aquilo que é sabidamente celta em origem para escolher o que melhor se adequa a sua busca.

A busca por uma vida melhor é – ou deveria ser – o cerne, a motivação e o objetivo de todas as espiritualidades do mundo. O druidismo propõe que essa vida melhor seja atingida através do conhecimento que gera ação – ou seja, a Consciência.

Espíritos conscientes não são dominados ou manipulados: ao contrário, eles agem. O druidismo é uma espiritualidade que devolve às nossas mãos o controle de nossas vidas - sem propostas de “salvação futura”, o druidismo age no Agora: “inspirados pelo Passado, atuamos no Presente para criar um Futuro Melhor”.

É preciso estar alerta, contudo, para não se deixar levar pela visão dominante de que 'só existe um caminho". Essa percepção equivocada, tão comum à tradições espirituais originadas no Oriente Médio, está por trás da intolerância, do fanatismo e do fundamentalismo. E o druidismo repudia totalmente isso, justamente porque tem como uma de suas bases o desenvolvimento individual.

Desenvolvimento Individual

Como deve (ou deveria) ocorrer com todos os caminhos espirituais, o druidismo propõe uma melhor qualidade de vida a partir da vivência plena de nossa existência - para isso, tudo de que se precisa é somente a disposição de conhecer-se plenamente, revendo conceitos num processo contínuo de auto-conhecimento e auto-desenvolvimento. O conceito de um paraíso no "pós-morte" existe entre os celtas, mas não é a razão de nossas existências - muito ao contrário, a percepção de que este mundo é tão sagrado quanto o paraíso faz deste mundo, desta vida, uma experiência imediata do Paraíso. "O Druida não vê o Outro Mundo: ele vê este mundo com outros olhos".

Ou seja: a partir da compreensão dos conceitos druídicos, aprendemos a ressacralizar nossas vidas, nosso trabalho, nossa alimentação, nossos prazeres... quando assim fazemos, toda nossa vida se torna divina, mágica - e ao nos tornarmos pessoas melhores, contribuímos para a criação de uma consciência coletiva melhor: ao curar a mim mesmo, promovo a cura da comunidade.

 

Comunidade Druídica

Os druidas já foram descritos como "o eixo ao redor do qual gravita a sociedade celta", o que vale dizer que o druida não busca o contato com o sagrado em mosteiros, ou no isolamento de um eremita que leve uma vida de "contemplação": por definição, o druida vive em contato direto com a comunidade da qual faz parte.

É fácil entender por quê: os celtas eram um povo tribal que prezava a união da comunidade. Essa característica gregária é facilmente identificada nos ensinamentos druídicos, nas lendas celtas, nos costumes sociais da cultura celta, no papel dos bardos, vates e druidas da Antigüidade e, naturalmente, no druidismo contemporâneo.

Não por acaso, druidas do mundo todo mantêm contato constante para trocar informações, experiências, práticas e costumes - um intercâmbio que preserva o dinamismo e a energia do druidismo como um todo.

Talvez o maior exemplo disso atualmente seja a Druid Network - literalmente, uma rede druídica que serve de ponto focal para conectar indivíduos e grupos que se interessem e/ou pratiquem o druidismo nos quatro cantos do mundo. Ao invés de tentar impor uma visão única e padronizada do que possa ser o druidismo moderno, a Druid Network prima pela pluralidade e pela tolerância, abrigando indivíduos e grupos de diversas orientações druídicas mas que, no fundo, comungam de uma mesma compreensão dos elementos que compõem a essência do druidismo.

Eis porque, em decisão ratificada pelo órgão do governo britânico competente, a Druid Network foi reconhecida como entidade filantrópica e, por conseqüência, o druidismo passou a ter status de religião reconhecida pelo governo britânico - um passo enorme dentro do paganismo internacional, que só foi possível após diligentes pesquisas governamentais acerca da seriedade e da idoneidade da Druid Network. Fosse a Druid Network um grupo sectário, fechado e intolerante, tal reconheceimento jamais teria sido alcançado.



Conheça a Druid Network
(somente em inglês)

 

Essa postura deve servir de exemplo para as incontáveis ordens e grupos druídicos espalhados pelo planeta atualmente - de pequenos groves intimistas a grandes ordens organizadas. Em comum, todos têm o desejo de vivenciar o druidismo não como uma espiritualidade de final de semana, mas como uma religião no sentido pleno da palavra - uma filosofia que se manifeste e seja percebida em todas as nossas ações: não há separação entre 'sagrado' e 'profano' porque no druidismo tudo é sagrado - e o convívio harmonioso de um grupo druídico é uma experiência transformadora.

 

Grupos Druídicos modernos

Grove

É comum um grupo druídico moderno adotar o termo 'grove' - bosque, em inglês. O termo é comum sobretudo dentro da Order of Bards, Ovates and Druids (OBOD), mas também foi adotado por outras ordens druídicas de matriz britânica.

É costume dos druidas reunir-se periodicamente, compartilhando suas experiências e descobertas.
Como colegas e amigos, nós nos reunimos para cerimônias e celebração dos festivais do ano.
Assim como wiccanos formam covens e cristãos congregações, os druidas formam Groves.
‘Grove’ é um nome escolhido para homenagear as árvores:
grandes seres da natureza, amigas, instrutoras e geradoras de vida.”
-- Ivan Macbeth, OBOD

Isso não é aleatório: já nos textos clássicos podemos ver que há uma íntima ligação entre as árvores e a essência do druidismo. O romano Tácito informa que "o ‘Bosque’ é o centro de toda a religião dos druidas", e outros autores contemporâneos confirmam essa informação. Mais tarde, no “Renascimento Druídico” do séc. XVIII, o influente John Aubrey afirmava manter contato com um grupo druídico chamado “Grove de Monte Haemus”. A existência ou não desse grove não está em questão: o que interessa aqui é a referência história ao uso da palavra grove para designar um grupo druídico.

Gorsedd

Outro termo usado para designar grupos druídicos modernos é a palavra galesa Gorsedd. Gorsedd, plural gorseddau, é primariamente uma comunidade de bardos. Por vezes é grafada gorseth (especialmente na Cornualha), ou Goursez na Bretanha Menor. Em 1792, ao reunir bardos nacionalistas galeses em Primrose Hill, Londres, Iolo Morgannwg usou o termo gorsedd como significando uma assembléia de Bardos da Ilha da Bretanha. A partir dali, a palavra gorsedd passou a designar a Gorsedd Beirdd Ynys Prydain ("Gorsedd dos Bardos da Ilha da Bretanha"), entidade que até nossos dias promove anualmente eventos para promover a produção literária e poética exclusivamente no idioma galês e fomentar a identidade cultural do País de Gales.

Mas a tradição de reunir bardos galeses não começou com Iolo Morgannwg - na verdade, ele inspirou-se no passado celta de sua nação: grandes assembléias de bardos começaram a ser realizadas desde, ao menos, 1176 (mais tarde, essa assembléia passou a ser conhecida como eisteddfod).

A origem da palavra gorsedd é esclarecedora: geralmente traduzida como 'trono' ou 'assento elevado', Gorsedd é formada a partir do radical galês -sedd, assento, que por sua vez deriva do Indo-Europeu *sed-, também encontrado no latim sedeo - ‘estar sentado, tomar assento’, no inglês sit (sentar-se) e seat (assento) e no português sede (local) e, por derivação, em sentar, assento, assentar. A partir das origens da palavra, amplia-se o significado para mais do que um simples assento: o conceito de sede está intrinsicamente ligado a um assento de onde se governa (sé, sede). Este é o significado de gorsedd como 'trono'; mas Gorsedd também é um ‘monte (de terra), colina, túmulo, um monte sepulcral (pré-histórico)’, também significando “trono” e “assembléia, corte”.

Trono, colina, assembléia, corte: aos mais familiarizados com as tradições celtas da Irlanda, essas palavras remetem imediatamente à Sagrada Colina de Tara: sede do Grande Rei de toda a Irlanda, centro sagrado da Irlanda celta, conhecida como Tara dos Reis. Somente o verdadeiro rei poderia habitar o palácio de Tara. Somente o verdadeiro rei pode governar a partir do centro: uma metáfora perfeita para a busca do "centro" individual que caracteriza o druidismo.

Voltando à origem galesa da palavra Gorsedd, encontramos, no Primeiro Ramo do Mabinogi, um trecho relevante:

"E certa feita ele (Pwyll) encontrava-se em Arberth, um de seus principais palácios, onde um banquete fora preparado para ele e para as grandes hostes que o acompanhavam. E após servido o primeiro prato, Pwyll deixou a mesa para uma caminhada, e dirigiu-se para o topo de uma colina que se erguia acima do palácio, conhecida como Gorsedd Arberth. 'Senhor,' disse-lhe um cortesão, 'é peculiaridade desta colina que qualquer nobre que nela tome assento dela não partirá sem que lhe ocorra uma de duas coisas: ou receberá ferimento ou golpes, ou ele avistará uma maravilha.' 'Não temo receber ferimento nem golpes em meio a tal hoste. A maravilha, contudo... Adoraria avistá-la. Irei,' disse ele, 'à colina tomar assento'."

Palácio, colina, assento, banquete, corte, hoste: quando os mitos do passado dão suporte às práticas modernas, elas se tornam verdadeiramente significativas e plenas de força.

Em meados dos anos 1970, o moderno celtismo britânico tinha no grupo conhecido como "Golden Section" um importante think-tank. Esse grupo contava, entre outros, com nomes influentes no celtismo moderno como o casal John e Caitlín Matthews. Foi Colin Murray, outro de seus integrantes, que sugeriu que, possivelmente por compreender o significado mais profundo da palavra, o termo gorsedd fosse adotado por todos os grupos druídicos e não apenas pela Gorsedd dos Bardos Galeses.

Druidas no Brasil

O Brasil hoje tem diversos grupos druídicos - alguns fechados e praticamente anônimos, outros abertos em suas celebrações e na orientação aos interessados; alguns de linhagem britânica, outros de matriz francesa, outros mais criados a partir daqui mesmo, sem ligação com grupos ou ordens européias. Evidentemente, existem também indivíduos ou grupos que usam o rótulo "druida" sem, no entanto, propor nenhum resgate da espiritualidade celta ancestral. Sobre esses nada há a dizer, como também não merecem muita atenção aqueles que, a despeito de possuírem conteúdo e seriedade em suas pesquisas sobre a espiritualidade celta, adotam posturas exclusivistas e idiossincráticas. Todos esses formam - para o bem ou para o mal - o cenário druídico no Brasil.

Tenho orgulho de ter visto surgir, a partir das turmas de meus cursos, pelo menos três grupos druídicos atuantes, verdadeiras Gorseddau que receberam e honram a linhagem tradicional através de seu trabalho como grupos fechados e como divulgadores do druidismo e da espiritualidade celta. A linhagem que receberam é um vínculo, ainda que indireto, com o druidismo histórico - e deve ser honrado com a gratidão que um presente merece - assim me foi transmitido, assim transmiti.

Obviamente menciono estes três grupos por terem recebido de mim a tradição britânica a partir dos ensinamentos da velha British Druid Order, mas obviamente existem muitas outras correntes druídicas no mundo e no Brasil - a comunidade cresce.

É importante, contudo, deixar claro um ponto: se alguém percebe no druidismo uma espiritualidade em busca de 'conversões' que aumentem suas fileiras, entendeu errado: da mesma forma que o druidismo não é excludente, também não é proselitista. Alguém que compreenda de fato o que é a vida em comunidade num sentido celta não necessariamente desejará isolar-se dos que pensem diferente, ao contrário: sem se importar com quais sejam as espiritualidades dos demais e respeitando-se mutuamente, aquele que segue o caminho druídico acabará por se envolver com as questões prementes de seu bairro, de sua cidade, de seu país. Este é o real sentido de comunidade para os celtas, e assim deve ser entre os que resgatam a Alma Celta através do druidismo.

Afinal, os valores do druidismo moderno estão em perfeita consonância com os valores cívicos de nossos tempos - não são, afinal, questões prementes de nossa sociedade a igualdade de direitos entre homens e mulheres, a relação harmoniosa entre humanos e a natureza, a reintegração de mente, corpo e espírito? E não é o druidismo uma espiritualidade que emana da compreensão dos ciclos da natureza? Não gozava a mulher celta de muito mais direitos do que suas contemporâneas gregas, romanas e até mesmo egípcias?

Eis a força do druidismo moderno: como manifestação da Alma Celta, resgata os valores, visões e sonhos daquele povo, daquela sociedade e os traduz para nossos dias.

 

Ritual e Vida

Seja em grupo ou individualmente, a vivência do druidismo está fortemente embasada na celebração dos rituais celtas hoje conhecidos como "A Roda do Ano". São celebrações no sentido literal da palavra: festas, encontros de pessoas que se reúnem com a intenção de compreender e vivenciar a sacralidade do tempo e seus ciclos, bem como os presentes que sua passagem nos traz através de ritos que, dependendo da ocasião, são alegres ou pungentes, festivos ou introspectivos, multicoloridos ou escuros, pondo-nos em contato direto com todas as nuances da existência para que possamos dela desfrutar de forma mais plena e positiva.

No druidismo moderno, a busca de cada ritual é a inspiração - que costuma se manifestar em música, dança e poesia e que, invariavelmente, é seguida de um banquete comunitário que aproxima as pessoas, fortalecendo os laços de amizade e o senso de comunidade - algo tão precioso e tão pouco disponível em nossos tempos de individualismo excerbado.

Em minha experiência druídica, testemunhei o início de relacionamentos afetivos - alguns dos quais até tive a honra de celebrar o casamento! - o que comprova que o druidismo moderno oferece não só uma chance de "desenvolvimento espiritual": o druidismo também acolhe as pessoas nos níveis emocional, físico e mental.

 

Druidismo: uma "Espiritualidade Verde"

Por ser o druidismo uma "Espiritualidade Verde", que enxerga a Natureza como sagrada e divina, é natural que os druidas modernos estejam profundamente envolvidos com questões ambientais - desde a ação ativista de grandes instituições como o Greenpeace, o WWF e a SOS Mata Atlântica até a ação individual - invisível, porém fundamental! - manifesta na reciclagem, no cuidado de uma praça ou canteiro, nas ações (institucionais ou voluntárias) em defesa dos direitos dos animais, no consumo responsável, na alimentação consciente. Tudo isso faz parte de uma vida druídica - eis porque o druidismo se encaixa com precisão nos conceitos de Eco-Espiritualidade (como proposto pelo Prof. Thomas Berry) assim como todos os princípios da Sociedade Ecozóica do Professor Berry encontram eco nos princípios do druidismo.

Como se vê, a vivência do druidismo não cabe em rótulos e cursos, não se limita a iniciações, nem a práticas rituais sazonais. Tampouco ela se limita a cuidar de nossa alma: é preciso cuidar de nosso corpo e de nossa mente também. Aliás, por tudo que vimos, fica claro que o druidismo não é cuidar somente de si mesmo: é cuidar da comunidade e do planeta com o mesmo carinho e consciência.

Topo

A seguir, um complemento ao quanto exposto acima na forma de quatro ensaios:

- "Um Druida Moderno", por Emma Restall Orr (originalmente publicado em "Rekindling the Sacred Fire", literatura interna da BDO)


- "O que é ser um druida hoje", por Claudio Quintino Crow

- "Druidismo e Hinduísmo: Muitas Semelhanças", por Claudio Quintino Crow (originalmente publicado na revista HISTÓRIA VIVA Série “Grandes Religiões” Vol. 05: “Hinduísmo” (2008)

- "O Espírito da Terra: uma linguagem comum a celtas e afro-brasileiros", por Claudio Quintino Crow

 

Um Druida Moderno

Artigo de Emma Restall Orr, ex líder adjunta da British Druid Order e criadora da Druid Network
© 1999 originalmente publicado em Druidry: Rekindling the Sacred Fire (literatura interna da British Druid Order)
- Tradução exclusiva autorizada © 2003 – Claudio Quintino Crow

A cada jornalista, repórter e apresentador de tevê que me entrevista, em algum momento me vejo respondendo a seguinte pergunta: “Mas como você sabe que o que pratica é o autêntico druidismo ancestral?”

Por vezes essa pergunta é feita por pura curiosidade; noutras ocasiões, é feita como uma alfinetada naquilo que chamamos de druidismo moderno e eu costumava hesitar diante dessa pergunta ali, sob os refletores, com a figura fálica do microfone próxima demais para me deixar à vontade, os olhos refletidos das câmeras uma verdadeira invasão de meu espaço íntimo. Hoje, porém, minha resposta imediata começa com uma risada e um sorriso que quebram qualquer tentativa de defesa. Pois seguramente, se praticássemos hoje o druidismo que era praticado dois ou três mil anos atrás, não demoraria muito para que a polícia nos descobrisse e nos encarcerasse. Isso não quer dizer que o druidismo de dois mil anos atrás fosse mais barbárico do que qualquer outra cultura da época; numa época em que os escritores clássicos descreviam a natureza sacrificial do druidismo, o Circo de Roma era o deleite dos cidadãos romanos com sangrentas lutas mortais entre animais e prisioneiros. A ética social, o sistema penal e o valor dado à vida eram totalmente diferentes se comparados aos de hoje. Se tivéssemos alguma chance de saber com exatidão o que nossos ancestrais druidas faziam em seus rituais, possivelmente a maior parte de suas práticas fosse hoje considerada ilegal, inaceitável e, principalmente, ineficiente.

Ainda assim, o valor e a vitalidade do druidismo foram preservados porque este era – e ainda é – uma tradição oral. Os druidas não eram iletrados: suas transações comerciais ocorriam em grego quando necessário. Contudo, seus ensinamentos e sua sabedoria jamais foram passados para a palavra escrita. Dessa forma, eles preservaram seus conhecimentos para uma elite intelectual, protegendo-o do mal uso, preservando sua própria força e estimulando o desenvolvimento da mente através de um treinamento extensivo em filosofia, matemática, ciências naturais, astronomia, história, poesia e muito mais, registrando tudo nos ‘arquivos’ de suas próprias memórias. Como resultado, apesar de podermos dizer que muito da moderna cultura britânica tem por base a filosofia druídica ancestral, pouco sabemos hoje das práticas rituais de nossos ancestrais druídicos, obtendo poucas informações a partir de registros arqueológicos, de textos clássicos e dos textos mais antigos, hoje com cerca de mil anos.

Essa busca por evidências começa do pressuposto de que o druidismo só existiu num período relativamente curto de tempo, que os druidas eram os sacerdotes dos celtas da Idade do Ferro, praticando uma religião que surge do nada e desaparece com os romanos ou com a igreja católica. Isso não está certo: a evolução de culturas e espiritualidades não funciona dessa forma rígida.

Ao contrário de religiões que têm por base escrituras sagradas ou as palavras de profetas, o druidismo não possui nenhum artifício que o restrinja a uma certa cultura ou era: o druidismo sempre existiu no aqui e no agora. O livro sagrado dos druidas de dois mil anos atrás ainda nos está disponível: é a intrincada simplicidade das rochas e dos ventos, da lua a se por sobre o oceano; as flores de nossa paisagem, as árvores que brotam e perdem suas folhas, o vôo das aves e a dança das abelhas. O livro sagrado dos druidas é a história de nossos povos, as histórias de amor, poder e dor, as canções dos invasores cujo sangue e respiração lutaram e se misturaram aos dos habitantes locais através de guerras e casamentos, e também são as lendas dos exploradores que retornavam de jornadas a terras desconhecidas. O livro sagrado dos druidas é nossa própria história contínua. Esse livro não tem começo identificável e jamais saberemos como ele terminará para além dos véus do futuro.

Se por um lado isto nos traz a liberdade da presença em nossa tradição, por outro lado esta presença é abençoada e colorida por nossa compreensão do passado e de nosso entendimento da paisagem em que vivemos. Como cada indivíduo que estuda e pratica o druidismo desenvolve sua própria compreensão e experiência da história de nossa terra, de suas próprias vidas e realidades, o que resulta é uma diversidade na tradição druídica a um só tempo fascinante e frustrante.

Atualmente, os druidas destilam seus entendimentos do que é druidismo a partir de fontes bastante diferentes, as quais refletem diferentes locais e ambientes. Alguém que estude os textos medievais galeses, encontrando sua inspiração nas escuras montanhas do norte do País de Gales, certamente será um druida diferente de outro do sul da Inglaterra, com suas florestas e rios, inspirado por visões de um sacerdote da terra selvagem, vestido em peles e penas; ou de outro mais, que se conecte com o período romano-britânico quando essas duas culturas se fundiram, ou com o período da chegada do cristianismo, ou mais tarde, com o paganismo saxão, ou com o monoteísmo solar do Renascimento Druídico do século XVIII. Cada parte da história destas terras, seu clima e seus povos, desde o começo de sua povoação na Idade do Gelo, é uma fonte válida de informação na busca dos elementos que compõem o druidismo moderno.

A exploração do espectro da diversidade druídica pode ser altamente confusa. Existem correntes no druidismo moderno que possuem poucos elementos em comum com as demais. Contudo, existem certas crenças básicas que formam a base de toda a tradição druídica: a mais importante delas é a compreensão de que o druidismo é (ou tem por base) a espiritualidade nativa das ilhas britânicas. Se podemos chamar os primeiros sacerdotes destas ilhas de ‘druidas’ é em grande parte uma questão puramente semântica; Júlio César afirmou que o druidismo originou-se na Grã-Bretanha e, apesar de a palavra ‘druida’ possuir raízes que se perdem nas brumas do tempo, não sabemos se os sacerdotes usavam essa palavra para se designar 500 anos antes da chegada dos romanos ou até mesmo antes disso.

É questionável afirmar que existia uma tradição religiosa por toda a Europa da Idade do Ferro. Sabemos, contudo, que o foco da religião pagã nativa eram as forças da natureza; as evidências mais antigas apontam para a morte como a fonte principal de poder. É fácil imaginar o medo que nossos ancestrais nutriam pela morte, cercados que estavam pela sua proximidade constante num ambiente gélido, dependendo da caça, à mercê das doenças. Entretanto, apesar de seu foco na morte ser inspirado pelo medo dela, podemos facilmente vislumbrar seu respeito, sua honra e seu maravilhamento diante do poder da morte. Eles certamente sentiam ou visualizavam a energia do espírito daqueles que haviam morrido. Atualmente, todos nós ainda temos os mesmos sentimentos diante da morte: ela é uma parte significativa da cultura e da psique humana.

Ainda atribuímos a mesma importância à morte, assim como outros aspectos da natureza também moldam nossas vidas como moldaram a de nossos ancestrais através dos milênios; entre estes um dos mais importantes é a fertilidade, que surge da consciência dos ciclos menstruais e de nascimento dos animais caçados e criados, bem como da dependência da agricultura. A busca pelos poderes que controlam esses ciclos e que preservavam a fertilidade da terra, bem como a compreensão dessas mesmas forças dentro do corpo feminino deu origem a um enfoque religioso que também perdura até nossos dias como parte fundamental da mente humana e é uma força determinante em nossa sociedade.

A morte, a fertilidade e a força dos ancestrais e da terra formam a essência de qualquer espiritualidade da terra. Ao redor desses pilares agregam-se os elementos do clima e da história de um povo, dando a essa tradição a sua linguagem, suas cores e suas prioridades. A mudança de nosso clima ocasionou o “milênio chuvoso” antes da chegada dos romanos; a influência da cultura romana antropomorfizou as deidades e alterou as estruturas sociais; a chegada da deidade e da ética cristã; o retorno do paganismo através dos germânicos e vikings; o intercâmbio de culturas e idéias através do comércio e das imigrações; a Reforma; o Renascimento; a Idade da Razão, da ciência e da indústria – todos nos confrontaram com a ameaça da mudança, com benefícios e desvantagens. Seja como for, todos esses momentos estão entremeados pelas forças da natureza, as forças de nossos ambientes – tanto interno quanto externo – as forças do mundo natural e da mente humana, as forças da terra, do mar e dos céus, bem como dos ancestrais.

É nossa busca por essas forças que cria uma religião da natureza – e a busca nestas ilhas formou e continua formando a filosofia e as práticas do druidismo. Contudo, compreender as forças não basta: como druidas nós procuramos uma conexão, uma relação, percebendo a consciência e o propósito dessas forças na forma de espíritos e/ou deidades. A essência do relacionamento é o reconhecimento, a interação e a troca; quando vamos além da troca física e mental, através do corpo e das idéias, quando percebemos as forças envolvidas, reconhecendo o espírito, então a relação assume outra natureza.

Isto se aplica quando a relação é entre um humano e a lua, com sua luz refletida numa lagoa no escuro de uma floresta, ou entre uma criança e um seixo polido pelas marés numa praia, ou entre uma árvore e o vento que brinca por entre seus ramos, ou entre o sol poente e o oceano que o devora, ou entre um homem e uma mulher na nudez do amor. Quando percebemos o espírito, percebemos a força da invulnerabilidade na natureza. É nesses momentos que temos a oportunidade de trocar energia pura, de entrar em comunhão, de espírito para espírito, com as forças da natureza. No druidismo, isso é Awen, a essência fluida do espírito. Numa relação de espírito para espírito, quando permitimos que a força da Awen flua através de nós, inundando e inspirando nossa criatividade, nós honramos o dom da vida, usando-o bem e plenamente.

Ainda que diferentes druidas percebam a deidade de diferentes formas, honrando deuses diversos (dos celtas ao cristão, dos greco-romanos aos saxões, dos animistas aos conceituais), a Awen é vista como originária das forças da natureza que são as deidades – os deuses do trovão, da guerra e da morte, do amor e da fertilidade, os deuses que são simplesmente energia vital pura. Assim, quando um druida honra o fluxo de Awen como inspiração divina, usando-a como fonte de sua criatividade e oferecendo os produtos de sua inspiração como presentes aos deuses, essa é a forma de sua reverência.

Os rituais druídicos são uma dança de interação. Ao criar o espaço sagrado – um santuário de beleza e confiança – os druidas (sozinhos ou em grupo) buscam pela sua fonte de inspiração – a força da natureza – convidando os espíritos ou deidades dessa força para estarem presentes no local enquanto simultaneamente formam um ‘recipiente’ mágico no interior do qual eles podem se abrir para receber a Awen. Para alguns na tradição druídica, este processo é uma jornada meditativa no silêncio de um quarto à luz de velas e sem distrações; para outros, é no transe no interior de uma floresta, ao redor de uma fogueira e ao som de tambores. A Awen pode ser recebida em momentos de perfeita comunhão na forma de iluminação ou de visões, como conexão através do coração enamorado e da sensação de pertencer, como êxtase físico, Eros ou ágape. Não é definida pela forma em que é sentida, mas sim como inspiração divina – e essa inspiração deve ser usada criativamente para honrar sua fonte.

Como sacerdotisa da tradição druídica, como alguém que coordena uma Ordem, não finjo ser uma grande historiadora ou mitóloga. Existem outras pessoas muito mais capacitadas do que eu para essas tarefas. Também não sou uma política. O que eu faço é honrar a terra e a ancestralidade – a minha e a dos demais. Eu ouço e procuro aprender com os outros, com sua compreensão dos poderes da natureza, através das velhas lendas, através de nossas histórias, através da filosofia das leis naturais. Mas acima de tudo, sou uma ritualista: eu honro os poderes como eu os percebo, criando minha via de interação com os deuses nos preciosos momentos em que sentimos Presença. Eu honro o poder do aqui e do agora – este espaço entre o passado e o futuro, o momento intangível no qual vivemos. Assim fazendo, minha jornada abarca a essência do druidismo – o poder da terra e dos ancestrais – e se torna uma espiritualidade moderna e, portanto, relevante.

Numa época em que a humanidade está começando a compreender a extensão dos danos que vem causando ao planeta e o poder das forças da terra e do universo (previsível e imprevisível), sentimos uma grande urgência em nossa psique humana que nos impulsiona a nos reconectarmos com as forças da natureza que podem ser determinantes para nossa sobrevivência. Não sou daqueles que pregam a eminência de algum grande cataclisma, mas a visão cotidiana que é parte da filosofia e da prática druídica obedece aos princípios da sacralidade dos ecossistemas e habitantes de nosso planeta. O Druidismo é, definitivamente, uma espiritualidade verde, pois promove o cuidado com o ambiente através da responsabilidade pessoal, do aumento da consciência e do pensamento positivo que surge do relacionamento de espírito para espírito.

Outra razão pela qual o druidismo se desenvolve com tanta rapidez em todo o mundo é por seu enfoque no equilíbrio. Ainda que não seja necessariamente uma espiritualidade que procure seguir sempre o caminho do meio, a compreensão do todo é fundamental para o druidismo. Assim como o ciclo do ano no clima temperado das ilhas britânicas se move do verão para o inverno – do crescimento para a decadência – também no druidismo a escuridão é tão sagrada quanto a luz, a noite tão vital quanto o dia. Nossos rituais podem ser celebrados nos campos banhados de sol diante de centenas de pessoas, ou ainda na escuridão de uma floresta, na reclusão da noite. A escuridão é vista como o ventre do potencial: é o solo escuro da terra que nos alimenta e no qual se enraizam as árvores. No druidismo não existe o conceito de bem ou mal: o que existe é a compreensão de que o apodrecimento é necessário para preparar o crescimento e que na escuridão encontramos o medo do desconhecido, mas também a liberdade.

É a interação ente as forças da luz e da escuridão que nos traz a força regeneradora da criação, manifesta através da união entre masculino e feminino, através dos ancestrais símbolos sagrados da Adaga e do Caldeirão, a espada Excalibur e o Santo Graal. Ao honrarmos os fluxos da natureza como sagrados, ao trabalharmos dentro de uma tradição que tem por foco as forças naturais da regeneração, da morte e do renascimento através do ciclo de ser, percebemos também a sexualidade como sagrada. Em nenhum momento existe a noção de que tal união precise ser entre um homem e uma mulher, pois o importante é a comunhão ente duas forças, dois espíritos. A união de mentes e de corações também, e qualquer relação que inspire criatividade e traga regeneração constitui a prática viva do druidismo.

Assim, honrando o masculino e o feminino, temos tanto homens quanto mulheres na tradição – ambos desempenhando igualmente os papéis de sacerdotes e instrutores, conduzindo grupos e groves, compartilhando de suas próprias fontes individuais de inspiração e beleza.

O druidismo, enquanto espiritualidade moderna, é um reflexo do druidismo ancestral que muitos dão como há muito perdido. Contudo, o druidismo é a canção de nossos ancestrais – aqueles que há muito se foram e os recém partidos; o druidismo é a sensação de maravilhamento que sentimos ao perceber o poder da natureza, a magnificência das montanhas, a beleza dos rios, as cores silvestres nos campos, a energia do trovão. Nascido na Grã-Bretanha, o druidismo é uma filosofia espiritual carregada em nossos corações, em nossos genes, nas memórias de todos aqueles que viveram nas terras européias e dali seguiram para praias distantes. O poder do druidismo está em cada um de nós, e surge através de nossa relação direta e individual com a Natureza, suas leis e sua beleza, no processo contínuo de criação.

Que assim seja, para sempre.

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Então, o que é ser um druida hoje?

Depois de tomar contato com a história do druidismo e a essência das crenças druídicas; depois de conhecer os pilares que dão estrutura e força ao druidismo; depois de entender o que é a ação druídica hoje; e depois de se inspirar com o belo texto "Um Druida Moderno" de Emma Restall Orr, resta-nos descrever como vivem os druidas nos dias de hoje.

Em primeiro lugar, levar uma vida druídica não faz de alguém melhor ou pior do que as demais pessoas - pertencer a um grove ou Gorsedd, receber a tradição bárdica ou mesmo simplesmente compreender e vivenciar os princípios do druidismo no dia-a-dia não torna ninguém especial - a não ser pelo fato de que, através da vivência druídica, nós compreendemos melhor os processos que fazem parte de nossas vidas - escolhas, ciclicidades, ritmos, conexões.

O druidismo também nos mostra que de nada adianta buscar o desenvolvimento espiritual - seja qual for o caminho que escolhamos - se negligenciarmos o desenvolvimento de nosso corpo e de nossa mente.

Todos nós somos feitos dessas três 'esferas': a física, a mental e a espiritual, e é do equilíbrio, da integração e da harmonia entre elas que vem a vivência plena de nossos potenciais e forças - e essa é uma das mais belas heranças do druidismo. Dessa compreensão nos vem uma maior capacidade de desfrutar dos diversos momentos que a vida nos apresenta - e isso é pura magia.

Vida Mágica

Ao contrário da visão comum de que magia é "a capacidade de controlar as forças ocultas da natureza para se obter um benefício", para um druida, Magia é a arte de compreender os ciclos, perceber as oportunidades que eles trazem e desfrutar delas - ao invés de 'manipular' as forças da natureza, 'desfrutar'. Sábio - como as aves são sábias ao desfrutar das termais em seus vôos, como é sábio as sementes desfrutarem das chuvas para germinar, assim como as frutas desfrutam da luz solar para amadurecer.

Por ver a vida como sagrada, o druida desfruta dela em todos os momentos - não só durante uma celebração ou ritual, mas no trabalho, à sua mesa, com os amigos, com a família. Por ser animista, o druida percebe a presença de espírito em todos esses momentos, em todas essas companhias. Ao perceber o espírito de cada um, um druida se relaciona melhor com todos - inclusive consigo mesmo.

Um dos maiores desafios que encaro em meus cursos é justamente a dificuldade que todos temos (alguns mais, outros menos) em reconhecer a presença de um espírito - no sentido de presença energética - existente numa idéia, num pensamento, numa sala, numa aula, numa árvore, numa deidade. Em nosso mundo moderno e "coisificado", não nos é dado perceber as diferentes formas de energia que transitam à nossa volta, num eterno e dinâmico baile que nos envolve por completo - estejamos ou não conscientes disso.

Por vezes realmente é difícil lembrar que a todos os momentos de nossas vidas estamos em contato com outras formas de energia - e não me refiro aqui somente a "espíritos desencarnados", mas também - e principalmente - à energia que anima (portanto, a alma) de outro animal, de um prato de alimento, de uma divindade, de uma tarefa, de uma data. Não por acaso, esse tema exige muito trabalho e muitos exercícios práticos, para que nós possamos redescobrir essa percepção de um Sagrado que é próximo, informal, amistoso, corriqueiro, familiar. Em minha posição de instrutor, é muito satisfatório receber depoimentos de alunos dizendo que, após a compreensão do conceito do animismo, a percepção de suas vidas muda, pois passam a se relacionar melhor com familiares, amigos, colegas, com o trabalho, com seus próprios corpos, consigo mesmos.

A partir desse ponto, a vivência druídica, por assim dizer, deslancha. Resgata-se a sacralidade da Vida - desde os conceitos mais profundos e filosóficos até suas manifestações mais simples e cotidianas. Passamos a compreender o real significado dos rituais e celebrações, passamos a identificar a influência dos ciclos em nossas vidas, a importância do espaço em que vivemos, a sacralidade das relações que estabelecemos - passamos, em resumo, a viver melhor.

Um druida hoje passa desapercebido na multidão: nada de amuletos, pingentes ou vestes especiais; nada de posturas de superioridade, comuns aos que se dizem "iniciados" (mas que sequer compreendem o real significado dessa palavra); nada de olhares assoberbados; nada de "cultura de gueto". Um druida moderno é uma pessoa como outra qualquer, que vive sua vida em honra e equilíbrio, de forma inspirada - e inspiradora.

Um druida moderno honra seu trabalho - mesmo que não seja o ofício de seus sonhos; honra suas origens - ainda que não se identifique com ela como um todo; honra suas experiências - mesmo que não sejam exatamente o que ele ou ela havia planejado.

Um druida moderno compreende melhor seu papel dentro da comunidade, dentro do planeta e dentro de sua própria vida. Consciente de que os pequenos atos fazem a diferença, um druida moderno consome com consciência, recicla, pré-cicla, norteia suas ações pelo bem estar - seu, da comunidade e do planeta; aprendendo, como diz Emma Restall Orr, a "pisar mais suavemente sobre a Terra" - a viver com menos impacto, com mais plenitude, com menos resistência aos ciclos de vida, morte e renascimento presentes em todos os momentos de nossa existência.

Como se percebe, as coisas que um druida faz - reciclar, buscar uma vida equilibrada, tentar compreender os ritmos da vida, vivenciar o sagrado - tudo isso é feito por indivíduos de outras espiritualidades, algumas até por gente que não se identifica necessariamente com esta ou aquela religião. Isto ocorre porque, como já vimos, no druidismo não há separação entre o sagrado e o mundano - entre o religioso e o dia-a-dia, entre a ação (físico), a filosofia (mental) e a crença (espiritual). E, é bom que se diga, desse reconhecimento de que o druidismo não é o único caminho (filosófico ou espiritual) a propor essas ações brota a abertura ao diálogo entre o druidismo e outras correntes filosófico-espirituais.

Essa abertura ao diálogo, essa busca pelo entendimento tão característica do druidismo é que gera o reconhecimento de outras correntes filosófico-religiosas. Na Grã-Bretanha, sua terra de origem, o druidismo é reconhecido como uma espiritualidade consistente e sólida. Muitos grupos druídicos costumam ser consultados por arqueólogos e órgãos governamentais, para que se posicionem quando uma determinada escavação vai ocorrer num local sagrado (respeito à Ancestralidade), ou quando há um plano de obra pública que envolva a derrubada de árvores, por exemplo (integração ao espaço sagrado). De modo geral, na Grã-Bretanha os druidas não são vistos como "fanáticos" de alguma "seita" estranha: são respeitados porque se fazem respeitar - e a melhor forma de se fazer respeitar é respeitando os demais.

Eis o desafio do druidismo em qualquer lugar: interagir respeitosaente com outras religiões e espiritualidades. Após muitos anos de vivência e prática do druidismo, percebi que a 'rivalidade', a ressitência e o preconceito com outras religiões sempre - sempre! - partem de quem, por medo, ignorância ou falta de oportunidade, não conhece sua própria religião. É próprio do ser humano resistir ao novo, ao diferente: mas essa resistência deve ser temperada com a curiosidade que caracteriza a criança, o filhote de qualquer espécie. Pois a curiosidade quebra regras, rompe padrões, renova tradições, oxigena o corpo, a mente e a alma.

Quem realmente compreende sua religião - qualquer que seja - abre as portas do diálogo com outras religiões.

Porque enxerga que todas as religiões - todas! - são meio e não fim: em sua esência, todas elas levam ao mesmo ponto, ainda que por caminhos diferentes. Ainda que com sotaques diferentes, todas as religiões falam o mesmo idioma - o idioma da alma humana. Se isso vale entre diferentes religiões, certamente vale para ramificações diferentes de uma mesma religião.

Quem briga por uma religião não compreendeu sua essência. As disputas entre religiões diferentes brotam da ignorância e do apego aos detalhes. E o apego aos detalhes turva a compreensão do todo.

A seguir, dois artigos que me foram encomendados exploram mais a fundo essa questão: o primeiro, redigido para a revista REVISTA HISTÓRIA VIVA - Série “Grandes Religiões” Vol. 05: “Hinduísmo” (2008), entitulado "Druidismo e Hinduismo: Muitas Semelhanças"; e o segundo, "O Espírito da Terra: uma linguagem comum a celtas e afro-brasileiros", encomendado pelo site francês Nature et Culture.

 

Druidismo e Hinduísmo - “Muitas Semelhanças”


Artigo originalmente publicado na REVISTA HISTÓRIA VIVA
Série “Grandes Religiões” Vol. 05: “Hinduísmo” (2008)

Por Claudio Quintino Crow

 

 

Conhecer de fato sua própria espiritualidade abre as portas do diálogo com qualquer outra religião. Essa frase vale para qualquer caminho espiritual, institucionalizado ou não, e é especialmente válida em relação ao hinduísmo quando este é abordado do ponto de vista do druidismo.

Apesar de separados por um abismo físico e cronológico e a despeito de não haver registros históricos que indiquem contato ou intercâmbio entre essas religiões, o druidismo e o hinduísmo compartilham de muitos elementos comuns. A explicação para essas semelhanças é simples: a descendência tanto de um quanto de outro de uma espiritualidade ainda mais remota, pertencente à cultura comumente conhecida como indo-européia.

Quando em seu monumental estudo Georges Dumézil identificou elementos comuns presentes em diversos aspectos das sociedades primitivas da Europa e também da Índia, lançou a base para o desenvolvimento de uma melhor compreensão do hinduísmo em suas muitas vertentes, ao mesmo tempo em que possibilitou o resgate de importantes elementos das espiritualidades originais da Europa – dentre elas, o druidismo dos celtas.

Para a visão geral do Ocidente, acostumado ao conceito de uma deidade masculina, única e distante da criação, os conceitos do hinduísmo podem se mostrar de difícil assimilação num primeiro instante. Quando os ocidentais travaram contato com o hinduísmo, depararam-se com uma religião milenar com múltiplos deuses e deusas próximos dos mortais e intimamente ligados à natureza - e, principalmente, livre de conceitos como ‘pecado’ e ‘culpa’. O impacto foi forte, mas logo assimilado – a ponto de o hinduísmo logo passar a ser contemplado por olhos ocidentais como válido, fascinante e coerente – ou, no mínimo, digno de respeito.

A explicação para tal pode estar justamente no fato de, num passado não tão remoto, uma religião semelhante ter sido dominante na própria Europa: o druidismo, espiritualidade dos celtas da Idade do Ferro e que hoje ganha cada vez mais corpo e força por oferecer atrativos semelhantes aos do hinduísmo.

- A percepção de que a natureza é viva e, portanto, sagrada;
- o equilíbrio entre os princípios masculino e feminino;
- a valorização da autonomia individual dentro de um contexto coletivo;
- a importância dada ao conhecimento como forma de desenvolvimento pessoal e comunitário;
- e, acima de tudo, a proximidade dos universos divino e humano são elementos comuns tanto ao druidismo quanto ao hinduísmo.

Tempo Sagrado

Para o druidismo, não existe força superior ao Tempo. Seu irresistível poder transforma vidas, paisagens, o clima e o universo. Compartilhamos com o hinduísmo a beleza da compreensão desse poderoso mistério e, a partir dessa compreensão, o Tempo - para muitos um vilão – se transforma em aliado.

Entender as ciclicidades da vida e da morte em suas múltiplas facetas é um dos mais desafiantes temas propostos pelo hinduísmo, e as ricas metáforas de seus mitos e lendas milenares ainda hoje fornecem instumentos eficientes para a mente ocidental livrar-se do negativo e limitador receio do Tempo. Numa sociedade como a nossa, obcecada pela vã tentativa de preservar a juventude eternamente, os ensinamentos tanto do hinduísmo quanto do druidismo oferecem a chave que possibilita desfrutar plenamente de todos os ciclos de nossas vidas – incluive do amadurecimento.

Espaço Sagrado

Parece ser uma característica comum a todas as religiões ditas ‘primitivas’ perceber a paisagem como sagrada: das planícies norte-americanas à floresta Amazônia, do ‘Outback’ australiano à Sibéria, os Primeiros Povos que nesses lugares se instalaram viam em cada característica da natureza a presença de um espírito, uma manifestação do divino. Isso é especialmente verdadeiro no hinduísmo, onde montanhas, rios e florestas, animais, árvores e nascentes são dotados de espíritos divinos – uma característica que se encontra igualmente nos mitos da Irlanda celta, por exemplo.

Vida Sagrada

Livre da opressiva visão segundo a qual o corpo é “a prisão da alma”, o hinduísmo parece oferecer uma ressacralização da matéria (não esqueçamos que a palavra ‘matéria’ tem origem no vocábulo latino ‘mater’, literalmente “mãe”, aquilo que nos gera).
Os trabalhos propostos por práticas milenares como o Yoga e o Tantra livram a pecha negativa atribuída pela mente ocidental ao corpo físico, restaurando a dignidade de ações fundamentais de nossas vidas como a alimentação, os exercícios e, claro, a sexualidade.

É preciso coragem por parte daquele que, formado em meio a valores que negam a sacralidade do corpo, opta por equilibrar o desenvolvimento interligado de corpo, mente e alma: as belas lendas e ensinamentos do hinduísmo oferecem um respaldo inspirador e de fácil compreensão. Afinal, tudo no universo – tanto para o hindu quanto para o druida – é sagrado, vivo e manifesto nos níveis físico, mental e espiritual.

Renascimento Sagrado

Durante séculos, a riqueza das tradições espirituais hindus permaneceu oculta, inexplorada até mesmo pelos próprios indianos. Séculos de opressão cultural por povos invasores - sobretudo o Islão e a dominação britânica - deixaram uma ferida profunda, que só voltaria a ser tratada com carinho no século XIX.
Desde então, o hinduísmo vem se fortalecendo como espiritualidade de alcance mundial, quebrando paradigmas e propondo formas alternativas de desenvolvimento espiritual também para pessoas sem ligação direta com a Índia.
Curiosamente, nesse mesmo período também a Europa voltava sua atenção para as suas origens, recuperando a glória e a importância de seu passado ao redescobrir importantes culturas ancestrais como os germânicos, os helênicos e, em especial, os celtas. Analogicamente, a redescoberta da espiritualidade dos celtas – o druidismo – ocorre num período racionalista e materialista que, por força da dessacralização da natureza e da vida como um todo gera a necessidade de se (re)encontrar um equilíbrio ente as necessidades de uma vida cada vez mais automatizada e um desenvolvimento espiritual que, para muitos, não era mais satisfeito pelas religiões organizadas monoteístas.

Irmandade Sagrada

Pelo quanto avaliado, parece seguro afirmar que o crescimento do hinduísmo no ocidente ocorre de mãos dadas com o do druidismo, a espiritualidade ancestral da Europa. Afinal, ambas oferecem respostas para questões primordiais de nossos tempos e que não costumam ser bem trabalhadas pelas religiões dominantes: a questão do feminino, a proximidade do divino em nosso mundo e a autonomia espiritual do indivíduo – sempre aliada a a um senso de irmandade com o todo da criação.

Pertencer ao universo, tanto para um druida quanto para um hindu, não é um fardo, mas um dom, uma dádiva.

Não por acaso, o intercâmbio entre as duas sendas se mostra cada vez mais intenso e frutífico. Por conta disso, podemos especular que, caso o druidismo não tivesse sofrido as influências históricas da romanização e da cristianização da Europa, hoje talvez se assemelhasse muito com o hinduísmo.

Futuro Sagrado

Seguramente, a popularização do druidismo e do hinduísmo, com origens comuns e tantas e tamanhas semelhanças em sua filosofia, seja uma nota alvissareira para nosso futuro.

Após séculos de devastação e poluição, de desrespeito e distanciamento entre humanos e o resto da criação, compreender os princípios espirituais de uma religião que torne novamente sagrados os rios e as florestas pode não só trazer paz espiritual ao indivíduo, mas também um futuro melhor para as gerações vindouras.

Através dos séculos, geração após geração banha-se nas águas do Ganges, sagradas a todo hindu como o corpo físico da deusa Ganga. O principal rio da Irlanda celta, o Shannon, era visto como sagrado e igualmente a encarnação de uma deusa: Siónann.

Que o druidismo e o hinduísmo nos devolvam também a percepção da sacralidade das nossas paisagens para que, assim, salvemos os espíritos maltratados de nossos rios urbanos, de nossas florestas, nossas próprias vidas.

 

O Espírito da Terra: uma linguagem comum a celtas e afro-brasileiros

Estabelecer paralelos entre as culturas afro-brasileiras e a celta é uma questão de compreender o significado da palavra ‘paralelo’ - elas nunca se tocam, mas caminham juntas, e o mesmo vale para as culturas pré-cabralinas do Brasil.

Paisagem Sagrada

Os povos nativos das terras brasileiras, assim como as culturas africanas que aqui aportaram, possuem uma compreensão bem diferente do que seja paisagem e, mais ainda, do que seja sagrado. Ao contrário da moderna visão ocidental, com sua obsessão pela “coisificação” do mundo e a depreciação filosófica do que seja material - percepção que nos leva a ver a paisagem como uma sucessão de ‘coisas’ que nós, humanos, podemos usar e abusar a nosso bel prazer -, tanto as culturas africanas emigradas quanto os povos indígenas autóctones do Brasil percebem na paisagem a existência de uma ‘presença espiritual’ que anima (dá alma a) cada característica de um determinado local. Assim, para essas culturas, um rio não é somente um curso d’água, mas uma entidade espiritual, divina, sagrada, viva. O mesmo vale para árvores, montes, fenômenos meteorológicos e tudo aquilo que compõe a natureza de uma localidade. Entre os cultos afro-brasileiros, os orixás são esses espíritos da paisagem sagrada que interagem diretamente com cada um de nós.

‘Índios’ da Europa

Os celtas são um dos povos nativos da Europa Ocidental, e sua percepção da sacralidade da natureza é bastante semelhante. Entre os povos celtas, toda a paisagem é sagrada, pois dela emana a energia que mantém vivas as comunidades humanas e de outras criaturas que nela habitam. Essa percepção ainda se preserva em terras celtas como a Irlanda, onde é fácil sentir a presença do “espírito lórico” de cada local. Nascentes e rios, por sua capacidade de fornecer as bases da existência da vida - a água - eram especialmente honrados, sendo retratados como espíritos femininos geradores e mantenedores de vida: em outras palavras, deusas. Os rios irlandeses Shannon e Boyne, por exemplo, receberam seus nomes modernos a partir do nome celta de deusas - Síonann e Bóann, respectivamente. O mesmo ocorreu com o Clyde (Clotha) na Escócia, o Severn (Sabrina) no País de Gales, o Sena (Sequana) na França e até mesmo o Danúbio (Danu) da Europa Central - para citar apenas alguns exemplos. A toponímia dessas regiões é riquíssima em elementos que comprovam a percepção da sacralidade da paisagem entre os celtas, e a rica tradição irlandesa do Dindshenchas (literalmente, o “Conhecimento dos Lugares Sagrados”) revela através de seus verbetes que praticamente todas as características do relevo irlandês estão associados a uma ou mais deidades.

Numa análise superficial, isso pode ser visto como uma manifestação ’supersticiosa’ de um povo ‘primitivo’ - notar as aspas. Mas revela, na realidade, uma compreensão de integração entre o ser humano e o resto da comunidade viva de uma região - algo facilmente observável entre os povos africanos e também entre os ameríndios do Brasil.

Mesma Linguagem

Essa integração fornece as bases para uma reforma de pensamento e de filosofia, que tem por objetivo religar - em latim, ‘religare‘, a raiz da palavra religião - o ser humano com o mundo em que ele vive de forma sagrada e harmoniosa. O desenvolvimento dessa “nova” filosofia - que em realidade é um resgate de consciências passadas, tanto celta quanto africana bem como dos demais Primeiros Povos - promove uma nova compreensão do papel de cada um de nós no mundo, e tem o condão de curar as relações visivelmente adoentadas entre humanos e Paisagem.

Essa é a linguagem comum de druidas e sacerdotes afro-brasileiros. Não por acaso, em meu trabalho de divulgação do druidismo em terras brasileiras, sempre que há contato entre druidas e seguidores das diversas ramificações dos cultos afro-brasileiros a identificação é imediata. Falamos línguas diferentes, mas a mensagem é a mesma. Ou melhor, falamos o mesmo idioma - o que varia é tão somente o sotaque…

Afinal, tanto entre os druidas quanto entre os praticantes do candomblé e da umbanda, do catimbó e da pajelança, parte-se do pressuposto de que o ser humano é apenas MAIS UM SER dentro de uma sagrada comunidade mais ampla que envolve os outros animais, as árvores, os rios, as montanhas, cada rocha e seixo, cada vento e gota de orvalho - todos unidos e igualados pela sacralidade da existência, todos em busca de uma coexistência harmoniosa e produtiva, todos divinos por serem manifestações individuais de uma sacralidade coletiva.

O resultado disso é justamente o surgimento de uma consciência de que a Cura em seus diversos níveis - físico, mental e espiritual - só ocorre plenamente em cada um de nós quando essa cura se opera não só no indivíduo em questão, mas também na comunidade e na Paisagem como um todo.

Historicamente, não há vínculo direto que possa justificar os elementos comuns entre culturas tão afastadas étnica, cronológica, geográfica e culturalmente quanto a celta e as afro-brasileiras. Num nível mais profundo, porém, essas semelhanças são explicadas pelo fato de que, em última análise, tanto uma quanto a outra - e inclua-se também as nações nativo-americanas, os Maori, os incas, os berberes e tantos outros - todas elas pertencem a uma mesma grande tribo: a tribo humana. Esta, por sua vez, pertence a uma grande “federação” de tribos: a Vida deste planeta.

 

Quando levamos em conta tudo que foi exposto acima, fica evidente que a matriz comum a todas essas religiões é a natureza, seus ciclos e suas forças.

Druidismo, Ecologia e o Futuro de Todos

Quando travei contato com as idéias e conceitos do Prof. Thomas Berry, idealizador da "Sociedade Ecozóica", percebi que aquilo era "druidismo puro" - especialmente quando percebemos que a busca de um futuro melhor para o planeta e a humanidade está pautada em três pilares fundamentais: 1.) A Nova História; 2.) o Bio-regionalismo; e principalmente, 3.) a Espiritualidade Ecológica. Quando comprendemos de fato os papéis do bardo, do ovate e do druida na sociedade celta da Antigüidade, prontamente identificamos essas três funções sagradas nessa proposta: o conceito da Nova História implica numa abordagem mais fluida e orgânica dos eventos que nos trouxeram até onde estamos hoje - tanto individual quanto coletivamente; o bio-Regionalismo pressupõe uma compreensão profunda da diversidade dos espíritos - animais, plantas, árvores, intempéries - que compõem uma determinada paisagem, posibilitando assim uma melhor interação entre essas diversas comunidades, inclusive - e principalmente - a comunidade humana, numa nova relação de equilíbrio, consciência, responsabilidade, carinho; e a Espiritualidade Ecológica é justamente a definição mais adequada para o druidismo de ontem, hoje e sempre.

Ao compreender o quanto estamos falando a mesma linguagem, pus-me em contato direto com os idealizadores da Sociedade Ecozóica, que me autorizaram a traduzir e divulgar seus textos (os mais importantes disponíveis neste site, na área Eco-Espiritualidade).

O ciclo então se fecha, voltamos ao ponto original, estabelecemos a ciclicidade da vida: ser druida, hoje, é viver melhor física, mental e espiritualmente. Mas, acima de tudo, ser druida hoje é viver a vida de forma plena, inspirada. E, definitivamente, inspiradora.

 

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