Em Busca da Alma Celta

Toda religião é, de alguma forma, válida. São verdadeiras quando compreendidas metaforicamente.
Mas quando elas empacam nas próprias metáforas, quando essas metáforas são interpretadas como fatos, então surgem os problemas.

- Joseph Campbell


Cada povo tem sua espiritualidade, cada época também. Como entidades vivas que são, as religiões evoluem e se transformam ao longo do tempo; adequam-se às mudanças sócio-culturais, absorvem elementos trazidos pelo contato (pacífico ou belicoso) com outras culturas, desenvolvem-se continuamente num processo orgânico e irresistível.

A espiritualidade celta não é exceção: desde suas origens remotas até nossos dias, ela mantém-se viva e vigorosa, manifestando-se de diversas formas através das eras: no estudo do druidismo histórico, no “reconstrucionismo” moderno, no folclore das terras outrora habitadas por tribos celtas, nos elementos absorvidos pelo cristianismo que por ali se desenvolveu, nas modernas re-interpretações, na música e na literatura produzida em idiomas celtas, nos movimentos nacionalistas das nações celtas.

Evidentemente, cada uma dessas múltiplas manifestações é incapaz de apresentar ou representar a Alma Celta por inteiro: quando muito, retratam uma de suas várias facetas. Até por isso, aos desejosos de compreender a herança celta e desfrutar de sua riqueza fica a certeza de que jamais podemos supervalorizar qualquer uma dessas manifestações em detrimento das demais, sob pena de terem uma visão muito simplista – para não dizer distorcida – do que é, de fato, a Alma Celta.

Celta??

Mas a palavra “celta” tem poder e é sedutora: o fato de uma montadora de automóveis brasileira dar esse nome a um de seus produtos num país sem herança celta direta é prova disso. Por conta desse poder, o termo “celta” acaba sendo empregue sem muito critério – e por vezes, sem muito escrúpulo – em contextos no mínimo contraditórios. Abaixo, alguns exemplos históricos:

• Ao se depararem com vestígios arqueológicos antigos – como Stonehenge e outras estruturas megalíticas – os primeiros arqueólogos não hesitaram em atribuir tais estruturas aos celtas - dólmens eram "mesas dos druidas", menires eram "pedras druídicas";
• Ansiosos por atrair a aura mágica que os celtas evocam, no século XIX lojas maçônicas inglesas afirmavam descender dos celtas que, milênios antes, povoaram a Grã-Bretanha;
• Para fomentar o sentimento de identidade cultural em seus conterrâneos durante os movimentos nacionalistas do século XIX, pensadores irlandeses e galeses apelaram para a mística celta;
• Ao desenvolver seu novo sistema mágico em meados do século XX, o inglês Gerald Gardner afirmou que a wicca era a "sobrevivência das tradições espirituais dos celtas";
• Esse mesmo discurso já havia sido utilizado poucas décadas antes pelo francês Hippolyte Léon Denizard Rivail ao compilar a “Doutrina Espírita” como sendo uma "herança dos druidas da Gália celta".

Mas não é só no passado que o termo celta é mal empregue: em tempos mais recentes, música new-age é rotulada como "celta"; desenhos tribais modernos são descritos como "celtas" e toda sorte de sandice e delírio espiritual pode ser, infelizmente, catalogado como "druidismo."

Diversidade

Mesmo entre os que se propõem a um resgate mais estruturado da espiritualidade celta e que levam a sério o que fazem, as divergências sobre "o que é e o que não é celta" surgem com freqüência. Um dos motivos é facilmente compreendido através das paalvras do Dr. Simon James: “As diferenças entre os povos da Antigüidade atualmente chamados de celtas eram no mínimo tão profundas e importantes quanto os elementos culturais ‘celtas’ que lhes eram comuns. Aquilo que é tido e havido como típico do “pacote cultural” celta – guerreiros, druidas, arte abstrata de linhas entrelaçadas, etc. etc. – pode muito bem não passar de uma criação moderna”.

Em outras palavras, até mesmo no estudo mais rígido e acadêmico sobre os celtas em nossos dias podemos encontrar concepções facilmente rotuladas como celtas mas que, no fundo, podem não ser mais do que uma simplificação conveniente de um universo sócio-cultural e espiritual muito mais complexo, diversificado e heterogêneo do que muitos gostariam que fosse.

Em seus estudos sobre a espiritualidade da Irlanda ao longo das eras, a autora Patricia Monaghan afirma que "a espiritualidade irlandesa não é puramente celta, mas uma mescla da religião celta com a misteriosa espiritualidade nativa que precedeu os celtas - a cultura dos círculos de pedra e da própria terra da Irlanda". Se isso se aplica à Irlanda, hoje a principal fonte de conhecimento para quem deseja compreender a história e a espiritualidade dos celtas, certamente se aplica também a outras regiões em que os celtas se instalaram.

Por tudo isso, aos que desejam conhecer a fundo a Alma Celta os desafios são muitos: o primeiro deles é identificar o quanto há de fato e o quanto há de fantasia na afirmação “isto é celta”. Outro ponto crucial é diferenciar (ou seria melhor combinar?) os termos “religião celta” e “espiritualidade celta”.

 

Religião & Espiritualidade

No ocidente, por força de muitos séculos de rigidez hierárquica, distanciamento impessoal e dogmatismo, para muitas pessoas a palavra “religião” evoca sentimentos de rejeição. Acabamos por esquecer que na origem da palavra “religião” está a mesma raiz de “religar”, no sentido de reconectar. A compreensão desse fato devolve leveza à palavra e faz dela praticamente um sinônimo de outro termo: “espiritualidade”. Livre do peso atribuído por alguns ao vocábulo religião, o termo espiritualidade define a manifestação espiritual, o conjunto de crenças e as práticas voltadas para a inter-relação de alma para alma entre um indivíduo e o mundo em que vive. Por conta disso, nestas páginas e em meus cursos e palestras utilizo ambos os termos - religião e espiritualidade - com esse único e mesmo significado.

Os mitos fundamentais do cristianismo e do islamismo não são mais críveis do que
os mitos hindus, a religião dos antigos gregos ou o druidismo.
N
enhuma religião tem o direito de afirmar ser a única detentora da verdade.
- Jean Markale

Druidismos

Em escala menor, mas seguindo os mesmos princípios usados acima para tratar dos termos religião e espiritualidade, o termo “druidismo” acaba sendo muitas vezes usado como sinônimo para “espiritualidade celta”, mesmo que para muitos a Alma Celta se manifeste sem esse rótulo. Afinal, se por um lado o druidismo pré-cristão era politeísta e bastante xamânico, por outro há muitos elementos tradicionalmente associados à espiritualidade celta incorporados ao cristianismo da Irlanda, por exemplo.


Da mesma forma, certamente há hoje quem diga que o druidismo moderno é a “religião celta” – no sentido de promover uma hierarquia, uma rigidez e um dogmatismo que, de fato, tornam o druidismo apresentado por essas correntes semelhante a muitas das modernas religiões institucionalizadas monoteístas. Segundo essas correntes, o druidismo possui um conjunto de crenças fixo, bem como práticas rígidas e uma estrutura hierárquica à qual o praticante deve se enquadrar para desfrutar de uma vivência plena. Mas essa não é a única percepção do druidismo.

Para outros grupos, o druidismo é uma “Espiritualidade Verde”, uma forma de eco-espiritualidade que promove a natureza e restaura a conexão com suas forças e energias. Em outras palavras, o druidismo seria, segundo este grupo de praticantes, uma forma de “xamanismo celta”. Para outros mais, o druidismo é um meio de fomentar a identidade cultural de seu povo e sua cultura, incentivando a produção poética e musical em idiomas celtas e sem nenhuma conotação espiritual.

Doutrina iniciática, xamanismo, nacionalismo: qual dessas percepções do druidismo está certa? Como vimos acima, todas essas vertentes são válidas quando emanam do druidismo histórico, mas nenhuma é “mais pura” do que as demais.

Isto porque, simplesmente, não existe druidismo “puro”: em sua própria origem, a espiritualidade celta é a soma de percepções espirituais distintas oriundas de diferentes culturas que travaram contato entre si ao longo da história (ver mais em “História”) – e o mesmo processo de fusão sincrética continuou a ocorrer mesmo depois que o “druidismo histórico” foi identificado como tal pelo mundo clássico. Ademais, dada a vasta extensão territorial ocupada por tribos celtas, sua autonomia e a ausência de um poder centralizador na cultura celta, é seguro afirmar que a espiritualidade dos celtas diferia muito de tribo para tribo, de região para região.

 

Diversidade Ancestral

Consciente ou inconscientemente, essa diversidade original permanece visível na vasta miríade de correntes druídicas de nossos tempos: nas palavras de Philip Shalcrass, fundador da British Druid Order, "muitas das correntes druídicas britânicas modernas não têm nada em comum, salvo o fato de se auto-entitularem “druidas”..."

Diversidade na origem, diversidade no desenvolvimento, diversidade em nossos tempos: liberdade e autonomia parecem ser características intrínsecas da Alma Celta ao longo das eras, o que naturalmente impede qualquer tentativa de padronizá-la, unificá-la ou institucionalizá-la.

Evidentemente que isso pode gerar confusão em quem se interessa pela espiritualidade celta: então todos os que afirmam ser druidas têm direito a tal afirmativa? A resposta quem deve dar, claro, é o próprio interessado: mas é conveniente lembrar que é possível estar mais de acordo com o chamado 'druidismo histórico', bastando para isso mergulhar mais a fundo nas origens e crenças dos primeiros druidas. Um grupo de buscadores da Alma Celta dedica-se com especial afinco a essa missão: interessados no resgate mais realista e responsável possível da espiritualidade celta ancestral, eles se auto-denominam ‘reconstrucionistas’.

 

Reconstrucionismo Celta

Para os celtas, não havia separação entre corpo, mente e alma: a soma de todos cria o Todo. Assim, não pode haver separação entre ‘espiritualidade” (no que cremos), “vida cotidiana” (o que fazemos), e “filosofia” (no que pensamos). A partir do resgate dessa percepção, a partir de fontes historicamente coerentes, os chamados reconstrucionistas celtas” pesquisam as crenças, os valores e as práticas (tanto religiosas quanto de conduta social) dos antigos celtas com o objetivo de resgatá-las para nossos dias.

 

Em muitos aspectos, pode-se dizer que os limites entre um druida moderno e um reconstrucionista celta se misturam e se confundem saudavelmente, pois a ambos interessa sobremaneira a compreensão de quem foram os celtas, no que criam e o que faziam. Nas palavras de um autor reconstrucionista, “o título ‘druida’ nada mais é do que um termo moderno auto-aplicado. Tem o mesmo peso que ‘cristão’, ou ‘judeu’, ou ‘budista’. Assim, não reclamo para mim essa designação, mas admito buscar seu sentido original.”

Parece que a questão da utlização ou não do termo ‘druida’ para designar alguém que procure o resgate da Alma Celta é meramente semântica. Seja como for, o druidismo moderno e o reconstrucionismo celta não são as únicas manifestações atuais da busca por essa Alma Celta.

 

Cristãos Celtas

A escrita era praticada pelos clérigos que hoje chamamos de 'monges irlandeses' para diferenciá-los das grandes ordens monáquicas continentais - beneditinos, agostinianos e cistercienses. Ao cristianismo que praticavam damos o nome de 'cristianismo celta', pois era muito diferente tanto em disciplina quanto em expressão artística da igreja de Roma. A tradição religiosa nativa chegou ao fim em 1169-70, quando Henry II da Inglaterra, com o beneplácito do Papa Adriano IV, submeteu a Irlanda ao controle de Roma.
- James MacKillop

Historicamente, há uma “Igreja Celta”, também conhecida como Igreja Culdee (a partir do irlandês Céli Dé, “companheiros de Deus”), que teria surgido na Irlanda Medieval e se mantido ativa até nossos dias. Da mesma forma que rejeitam as reformas introduzidas ao cristianismo pelo Concílio de Nicéia, os Culdees também repudiam aquilo a que chamam de “revisionismo neopagão” – ou seja, a Igreja Culdee é uma corrente espiritual estritamente cristã, que tem como fundamentos de suas práticas e crenças as práticas e crenças dos primeiros séculos do cristianismo na Irlanda.

Sabemos que o cristianismo que se desenvolveu na Irlanda possuía características bastante individuais – muito em função da influência do pensamento e da espiritualidade celta pré-cristã preservada pelos primeiros monges irlandeses. Para muitos estudiosos, como James MacKillop, autor da frase acima, esses primeiros monges cristãos haviam sido eles próprios druidas e bardos que, ao aceitarem o cristianismo, trazem para o seio deste diversos elementos de suas crenças ancestrais e dão origem na Irlanda a uma vertente cristã única, tipicamente irlandesa. Esse cristianismo desenvolve-se por séculos livre do jugo do Vaticano e preservam, ainda que adequados à mentalidade cristã, muitos elementos da espiritualidade celta pré-cristã. Resgatar esses elementos primitivos do cristianismo irlandês é a proposta dos Culdees modernos.

Há atualmente outras denominações cristãs que utilizam o nome “igreja celta” para se identificar e que afirmam resgatar algo do cristianismo original da Irlanda: a Celtic Christian Chruch (igreja cristã celta), a Chruch of the Ninth Wave (Igreja da Nona Onda), a Church of the Culdees, (Igreja dos Culdees) e a Celtic Epischopal Church (Igreja Episcopal Celta), para citar algumas. O quanto há de ‘originalmente celta’ em suas crenças e práticas, contudo, é matéria para uma pesquisa profunda e cuidadosa.


Alma Celta na Irlanda – Poesia e Folclore

Não há uma única canção ou lenda transmitida nas vilas da Irlanda que não tenha letras e pensamentos capazes de nos conduzir para longe, pois apesar de conhecermos pouco de suas origens, sabemos que são como genealogias medievais que remetem, com a mais pura integridade, ao início dos tempos.
- WB Yeats, The Celtic Twilight


Ainda dentro do universo do “cristianismo celta”, vamos encontrar uma das mais ricas manifestações da Alma Celta: o rico folclore e as manifestações populares do catolicismo irlandês.

A pesquisa e, em especial, a visita à Irlanda revelam que muitas crenças originais da espiritualidade celta (o animismo, a percepção da sacralidade da paisagem, a proximidade do divino) e mesmo suas práticas (adoração de nascentes, bosques e árvores, peregrinações, preces e bênçãos) podem ser identificadas no dia-a-dia dos irlandeses, sobretudo nas áreas mais rurais. Eis porque a Irlanda é e sempre será a mais rica fonte para o resgate da Alma Celta (razão pela qual criei a seção “Irlanda” deste website, com a intenção de oferecer uma percepção mais clara dos processos históricos da Alma Celta naquelas terras). E o que dizer da presença da Alma Celta na moderna literatura irlandesa? As palavras inspiradas de escritores como John Millington Synge, Lady Augusta Gregory e, sobretudo, William Butler Yeats foram instrumentais para o resgate e a preservação dos mitos e lendas que tão prontamente nos mostram o rosto da Alma Celta.

Contudo, da mesma forma que o catolicismo e o folclore da Irlanda ecoam traços tênues mas inconfundíveis desse mesmo rosto, também na obra de outros autores irlandeses - James Joyce, Seamus Heaney, Francis Ledwidge, Patrick Kavanagh, Flann O'Brien e tantos outros - olhos que sabem buscar são capazes de encontrar a força e a essência da Alma Celta. Estes escritores são os herdeiros diretos dos bardos e Fíli (poetas do sagrado) da Irlanda celta – afinal, usam da mesma magia – a Palavra – para entender e explicar o mundo, nossas emoções e nós mesmos.


Flann O'Brien e, ao fundo, os personagens de seu mágico "At Swim-Tweo-Brids":
No alto da árvore, Suibhne Geilt sai das lendas do passado para interagir com
cowboys na Dublin do século XX - os mitos não morrem jamais.

Mais adiante, veremos que o druida não era um mero sacerdote dos povos celtas, pois também desempenhava muitas outras funções; veremos também que druida” é um termo abrangente, sob o qual se agrupam também o ‘bardo’ e o ‘ovate’. Na sociedade celta, cada um desses indivíduos – bardos, ovates e druidas - possuía sua área de atuação, que ia do sacerdócio à medicina, da justiça à diplomacia, da administração pública ao xamanismo.

Cada uma era complementada pelas outras duas de forma orgânica e natural, pois tanto bardos quanto ovates e druidas operavam, cada um a seu modo, com a Alma Celta. De modo análogo, tanto o druidismo moderno quanto o reconstrucionismo celta, assim como o folclore cristão das terras celtas e também a moderna literatura dessas terras nos trazem vislumbres – incompletos, mas complementares - da Alma Celta.

Alheia a limites e livre para se manifestar em toda a sua multiplicidade, a Alma Celta transcende os rótulos: druidismo, reconstrucionismo celta, culdee, cristianismo celta, folclore irlandês, literatura e poesia: quer conhecer a Alma Celta? Aqui ela está - em todos esses simultaneamente, em nenhum somente.


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