A Alma Celta e as Relações com o Sagrado


Em todas as formas de religião/espiritualidade (aqui esses termos SEMPRE possuem o mesmo significado) encontramos diferentes tipos de relação com o sagrado, que variam entre si de acordo com fatores diversos, como o conceito de sagrado numa dada religião, a percepção individual do sagrado e a vocação desse indivíduo para o contato com o Sagrado. Vocação aqui não significa "ser apto ou não" a contatar os Sagrado - até porque para a espiritualidade celta o sagrado está em todos e, portanto, ao alcance de todos. Na verdade, a vocação determina que tipo de vivência do sagrado cada um de nós pode desenvolver, de acordo com as características individuais de cada um.


A partir do quanto visto na seção anterior ("Legado Espiritual"), a seguir vamos explorar as múltiplas possibilidades de experiência do sagrado dentro de uma ótica celta - e para isso vamos recordar como essa mesma ótica celta percebe o sagrado.


Uma visão celta do Sagrado

Ao lado dos textos de autores gregos e romanos, os registros literários medievais da Irlanda e do País de Gales são a principal fonte de informação para conhecermos a espiritualidade celta, seus pontos de vista e suas práticas. Por definição, e levando-se em conta essas fontes, a espiritualidade celta é uma espiritualidade politeísta, animista e xamânica de origem européia – mais especificamente, segundo fontes clássicas como Julio Cesar, originária das Ilhas da Grã-Bretanha e Irlanda. Esta definição é importante para que possamos ter maior segurança na busca dessa percepção druídica do sagrado, e também para eliminarmos as distorções geradas em séculos mais recentes.


DEUSES E DEUSAS - Manifestações do Divino

Quando dizemos que a espiritualidade celta é politeísta, temos de ter em mente a multiplicidade de deuses e deusas cultuados na Antiguidade pelos celtas. Sempre de acordo com as fontes mencionadas, esses deuses e deusas não estão num paraíso remoto e distante (apesar de poderem ser encontrados também em terras mágicas), mas sim na própria paisagem – rios, o mar, montanhas, bosques, árvores individuais: cada uma dessas características da natureza é a ‘encarnação’, a manifestação física das deidades celtas. Da mesma forma que, reciprocamente, as deidades celtas dão vida e alma às forças da natureza.


O Sagrado na Paisagem

O Sagrado celta, portanto, é algo próximo, acessível, tangível. Isso por si só torna mais simples a vivência desse Sagrado, pois não há necessidade de ‘atravessadores’ ou intermediários. Quem se banha num rio na Irlanda, por exemplo, não mergulha somente num corpo d’água, mas sim no ventre de uma deusa (Sionann no Rio Shannon, Bóann no Rio Boyne e assim por diante). O mesmo vale para outras características da paisagem irlandesa, como prova o Dindshenchas, ou “o conhecimento dos lugares notáveis” – uma série de versos maravilhosos que relatam a origem mágica dos nomes dos locais sagrados da Irlanda – ou seja, toda ela. Por paralelismo, e tendo por base os registros da etnografia e da arqueologia (para não mencionar a toponímia), podemos expandir essa visão dos celtas da Irlanda para outras terras outrora habitadas por povos celtas.


Sobrevivência da Paisagem Sagrada: Ben Bulben, impresionante formação rochosa em Sligo, Iralnda.
Morada mítica do herói Fionn MacCumhaill e seus nobres guerreiros, era também admirada pelo poeta WB Yeats.


Contato Direto

Não há sequer uma lenda irlandesa que faça menção a templos - algo por si só notável.
- Jean Markale


A ausência de templos no universo celta é outra prova dessa proximidade e intimidade com o sagrado – é sabido que os celtas da Gália só passaram a erguer templos após o contato e influência com as culturas helênica e romana (é sempre pertinente esclarecer o equívoco histórico - e hoje inaceitável - de se creditar locais como Stonehenge como ‘druídicos’ – sua construção nada tem a ver com os druidas celtas, a despeito das práticas de diversas ordens modernas).

O contato com as deidades celtas, como se pode ver, era feito diretamente, num nível pessoal – e mesmo após a cristianização, a relação dos irlandeses com o Sagrado preserva essa característica individual e direta: o folclore da Irlanda é rico em registros de encontros pessoais com os espíritos de santos ou de ancestrais mortos – e até mesmo com a Virgem Maria e o Cristo. A rica tradição literária irlandesa das lendas de viagem ao Outro Mundo - as imramma - são outro exemplo dessa proximidade, assim como a imagem da Avalon arthuriana e da cidade de Ys do folclore bretão. E o folclore recente das terras irlandesas é riquíssimo em exemplos de contato entre mortais e visitantes do mundo espiritual. O intercâmbio é constante, e tanto os espíritos e deuses vêm a este mundo quanto nós podemos ir ao Outro Mundo.


Na Irlanda, este mundo e o mundo dos espíritos não estão distantes. Já ouvi falar de um espírito que viveu muitos anos numa árvore e outros mais no arco de uma ponte.
- WB Yeats, The Celtic Twilight

A percepção do mundo espiritual como sendo próximo enfatiza um ponto crucial: para a Alma Celta, a experiência do sagrado não depende da figura do sacerdote. Em momento nenhum isso quer dizer que não existisse essa figura na sociedade celta. Ao contrário, ela existia – e em diversas modalidades.


Druidas: muito mais do que meros sacerdotes

É comum atribuirmos ao druida a função sacerdotal, e esta é uma verdade – mas não toda a verdade sobre os druidas. Mais do que apenas sacerdotes, as múltiplas funções associadas aos druidas celtas dão conta de sua importância para a sociedade celta como um todo: filósofos, conselheiros de reis, juristas, profetas, curandeiros, historiadores – não é à toa que o Dr. Simon James, uma das maiores autoridades modernas em cultura celta, afirma que “os druidas eram o eixo ao redor do qual gravitava toda a sociedade celta.”

Rei Divino

Muitos estudiosos contemporâneos afirmam que, nas tradições celtas, várias das funções cerimoniais tradicionalmente atribuídas a sacerdotes eram desempenhadas pelo Rei tribal, cabendo ao druida um papel mais profundo. O próprio Daniel Anthony Binchy, pioneiro nos estudos da legislação da Irlanda celta, afirma que na Irlanda celta, o rei deveria ser, além de líder guerreiro, um juiz e um sacerdote. Temos então dois candidatos - igualmente válidos - ao papel de sacerdote arquetípico na sociedade celta: o próprio druida e o rei.


É fato que a figura do rei celta é muito diferente da nossa percepção atual – a começar pelo fato de que os reis eram eleitos pelo povo dentro de preceitos rigorosíssimos de conduta e capacitação. Afinal, o rei era o representante de toda a comunidade, aquele que intermediava a relação do povo com a terra – sagrada e viva – em que habitavam. No texto Audacht Morainn ("O Testamento de Morann"), a descrição do rei ideal exige que ele seja um governante bom e justo, possuidor da fir flathemon (“a verdade do governante”). Essa verdade é aqui sinônimo de correção e justiça, características compatíveis com a função de juiz elencada por Binchy. Era também dever do rei “assegurar a paz e a justiça, a segurança das fronteiras de sua tuath (tribo) e a prosperidade de fartas colheitas e rios altamente piscosos.” (James MacKillop)

Imagem romântica de Brian Boru,
último Rei de toda a Irlanda

 

Por outro lado, a função sacerdotal do druida é evidenciada em frases como a de Julio César, que afirma que os gauleses não celebravam nenhum ritual sem a presença de um druida.

Isso tudo está em perfeita consonância com a definição primordial da palavra ‘sacerdote’ – aquele que é treinado para desempenhar a função de ‘contato’, intermediando a relação entre os mortais e a divindade, o Sagrado.

Tendo isso mente, sabemos que, por definição, o sacerdote intermedia o contato entre o Sagrado e a Comunidade – e aqui, a ênfase na palavra ‘comunidade’ é a chave. O sacerdote celebra ritos públicos - ato facilmente encontrado nas lendas celtas sendo praticado tanto por druidas quanto por reis.

No mundo da espiritualidade celta, temos muitos exemplos de druidas presidindo os festivais sazonais de Samhain, Imbolc, Beltaine e Lughnasadh; por outro lado, em diversas lendas, quem desempenha essa mesma função sacerdotal nesses mesmos eventos é o rei tribal. Não está em questão aqui se essa função era mais desempenhada pelo rei ou pelo druida, o que é de se ressaltar é que tanto o rei quanto o druida são representantes de uma comunidade: a ênfase recai na importância da comunidade nesses ritos sagrados coletivos.

Eis porque é impossível para quem quer que seja dizer-se sacerdote sem haver uma comunidade para que ele a represente junto ao Sagrado.

Se por um lado na sociedade celta o rei é a personificação física da comunidade, devendo zelar por seu bem estar, sua defesa e sua prosperidade, por outro o druida é o representante espiritual – e também intelectual - dessa comunidade, estando sob sua responsabilidade a educação, a preservação da história, a distribuição da justiça para todos. E assim como não há rei sem reino, não há druida sem comunidade.

Ou seja: entre os celtas, a função sacerdotal é exercida pelo druida num contexto coletivo. Não existe sacerdócio sem coletividade. Essa relação Rei-Druida-Comunidade é tão profundamente arraigada na filosofia celta que se preserva por séculos até nossos dias, com a sobrevivência das Lendas Arthurianas em que Arthur é o Rei, Merlin o Druida e Camelot a Comunidade - o Reino. Em consonância com os estudos de Georges Dumézil, esa relação Rei-Druida-Comunidade encontrada nas endas arturianas eca também a união dos três pilares das sociedades indo-européias.


Aprendendo com as Lendas

Merlin é o exemplo do ser que cruza a ponte entre os mundos por si mesmo e que auxilia outros em suas travessias. (...) O rei conduz o exército, mas quem torna possível a travessia dos guerreiros é o druida.
No segundo ramo do Mabinogi, o herói Bran serve ele próprio de ponte para seu exército - provando, assim, que não é somente um rei, mas um druida, um xamã.
- Jean Markale

Esta brilhante associação de Markale estabelece uma preciosa ponte de comparação entre a função sacerdotal do druida-xamã - personificado no exemplo acima por Merlin e Bran - e o sumo-sacerdote da mais difundida religião de nossos tempos: o Papa, também conhecido pelo termo Pontífice. A origem desta palavra é o vocábulo latim Pontifex, “o fazedor de pontes”, um termo usado primeiro pelos romanos para identificar o líder do Colégio Sacerdotal de Roma e, posteriormente, adotado também pelos cristãos para designar o governante da Igreja. Em todos os exemplos, o simbolismo da ponte é evidente: quem constrói uma ponte liga duas margens – dois mundos –para que a comunidade possa livremente atravessar. Eis o papel desempenhado pelo rei gigante Bran - Bendigeidfran, ou "Bendito Corvo" - no Mabinogi. As figuras do rei e do sacerdote, neste caso, sempre se misturam – porque, como já dito, não há rei sem reino, nem druida sem comunidade.

"Senhor", disseram seus comandantes, "conheces a natureza deste rio, que impede qualquer coisa de atravessá-lo e que não possui pontes a cruzá-lo? Qual é vosso aconselhamento quanto a pontes?"
"Não há nenhum conselho", respondeu Brán, "salvo que aquele que é um líder que ele seja uma ponte. Assim farei".
(Mabinogi)

 

 

Múltiplas funções, diferentes formas de contato com o Divino


Cesar faz pouca distinção entre bardos, ovates e druidas, agrupando-os todos numa única categoria de profissionais respeitados. O treinamento desses três grupos deveria ter muitos pontos comuns, com a especialização vindo somente nos estágios finais do aprendizado. Assim, quando Cesar fala dos druidas, ele pode estar se referindo também aos ovates e bardos.

- Philip Freeman


A frase do autor norte-americano Philip Freeman é um precioso lembrete para aqueles que, equivocadamente, enxergam hierarquia entre as figuras do bardo, do ovate e do druida. Essa percepção enganosa surge nas primeiras ordens druídicas modernas, ainda no final do século XIX, mas infelizmente persistem até hoje. O caminho da Espiritualidade Celta, como se sabe, é vasto e diversificado - para cada uma das três ‘ramificações’ - Bardo, Ovate e Druida - correspondem incontáveis subdivisões e especializações. Assim, podemos afirmar que, com base no quanto já visto, o sacerdócio jamais pode ser definido como a única função do druida. Da mesma forma, e pelos mesmos motivos, em tempos modernos o sacerdócio jamais pode ser visto como a única forma de Relação com o Sagrado entre aqueles que buscam resgatar a Alma Celta.
Isso se deve justamente ao fato já mencionado que, do ponto de vista celta, o Sagrado está em toda a parte: nas paisagens externa e interna, no coletivo e no individual, em tudo que é e que há.

Para a Alma Celta, o contato com o Sagrado não precisa de um templo - todo lugar é sagrado - nem de intermediários, podendo acontecer em qualquer lugar, a qualquer momento. Evidentemente, os quatro festivais celtas são momentos especiais que, hoje como ontem, envolvem toda a comunidade. E, nesses eventos, a figura do sacerdote - fosse ele o rei ou o druida - era importante por seu preparo e treinamento para mediar esse contato em momentos tão ricos e densos, nos quais a comunidade - e não o indivíduo - era o foco.


O Sagrado para além do Ritual

As celebrações sazonais celtas eram momentos importantes para a comunidade, celebrando sua diversidade, promovendo o contato com o Sagrado e, através desse contato, propiciando justiça, fartura, alegria e unidade a toda a coletividade. Por tudo isso, é impossível dissociar as figuras do druida e do rei dessas celebrações. Nos outros momentos, contudo, o Sagrado poderia ser igualmente acessado por qualquer indivíduo - na prece, no oráculo, na oferenda votiva, no contato íntimo com esta ou aquela a divindade.


Treinamento, Experiência e…

Se ainda pairam dúvidas sobre a questão sacerdotal, recordemos que os celtas viveram na Idade do Ferro e que sua sociedade guerreira era pautada na Honra e no respeito obtidos através da batalha. Nesse cenário, imaginemos uma comunidade formada exclusivamente por sacerdotes. Por mais que saibamos pelos registros históricos que druidas participavam de combates, é difícil imaginar qualquer nível de sucesso numa luta armada entre um druida arquetípico - de idade avançada, com longas barbas e túnicas - contra guerreiros que faziam do combate seu ofício, com anos de treinamento e experiência em técnicas de luta.

Pois esses mesmos fatores que fazem de alguém um grande guerreiro - treinamento e experiência - são capazes de tornar alguém um grande sacerdote. Um grande ferreiro. Uma grande curandeira. Um grande poeta. Uma grande escritora. Um grande professor. Uma grande comerciante. E assim por diante.

Treinamento e experiência: o que faz, então, que alguém seja um grande sacerdote mas não um grande guerreiro, ou vice-versa? Eis que surge o terceiro ingrediente do sucesso: a Vocação.


Vocação

A vocação, como a própria palavra nos diz, é a voz (interior ou divina, pouco importa - no fundo são o mesmo) que nos diz o que somos, para que servimos. É o chamado para a nossa aptidão, para a função que desempenhamos sem grande esforço, quase que naturalmente. Nada tem a ver com os desejos de nossos pais ou mesmo com aquilo que cremos ser mais interessante para nós: por vezes, nossa vocação é algo surpreendentemente “diferente” de nós, com o qual temos de fazer as pazes.

Encontrar a própria vocação é algo fundamental para o desempenho de qualquer função - em especial aquelas que envolvem as sagradas tarefas de contato e intermediação com o universo divino. Descobrir a vocação pessoal - artista, atleta, bardo, guerreiro… - é um processo íntimo e pessoal que exige honestidade.

Parece claro agora que, para a Alma Celta, uma verdade é inquestionável: nem todos nasceram para ser sacerdotes. Mas todos nasceram para viver o Sagrado em suas vidas.

A percepção tipicamente celta que vê o Sagrado em tudo ajuda a devolver a sacralidade a todos os ofícios - médicos, juristas, músicos, historiadores, professores – e até sacerdotes.

Uma das mais belas coisas da mente celta é seu senso de espontaneidade, um dos maiores dons espirituais. Ser espontâneo é libertar-se da jaula do ego, crendo naquilo que está além do self.
- John O'Donohue

Eliminando Riscos

Assim, antes de prosseguir recapitularemos alguns pontos importantes para nosso progresso:

a) o Sagrado não se encontra num “plano superior” ou num paraíso remoto, mas na própria paisagem que nos rodeia;
b) por essa proximidade, a experiência do sagrado de um ponto de vista celta mostra-se acessível a quem quer que seja, onde quer que seja, quando quer que seja;
c) Em determinados momentos especiais (celebrações e rituais), nos quais a experiência do sagrado não é somente individual mas envolve toda a comunidade, o contato com o sagrado é facilitado por indivíduos que desempenham a função sacerdotal – o druida e/ou o rei;
d) A partir dessas observações, percebemos que o desempenho da função sacerdotal está intimamente ligado à existência de uma comunidade, da qual o sacerdote - no caso, o druida e/ou o rei - é o digno representante espiritual, designado por sua sensibilidade, seu treinamento e sua capacidade.

É aqui que surge o risco de perceber o sacerdócio como a única forma de contato com o Sagrado: não é. Mas qual é o risco? É o de se limitar a experiência do sagrado à prática e celebração de rituais em detrimento de muitas outras formas – as quais serão abordadas a seguir.

Culto aos Deuses

Por distorção do sentido original, muitas pessoas associam o termo ‘culto’ a uma ritualística carregada, confundindo culto com rito. Strictu sensu, para o dicionário Houaiss a palavra culto denota uma ‘reverência respeitosa a uma divindade (Deus, deuses, santos ou qualquer ente ou elemento da natureza divinizado)”. Esta definição em momento algum implica em uma estrutura formal para o contato com o sagrado, que envolva gestos, posturas, momentos, locais ou palavras específicas – em outras palavras, rituais.

O que vale dizer que, em que pese a confusão entre os termos, a experiência sagrada do culto se diferencia do sacerdócio porque o culto a uma divindade pode ocorrer de forma individual e mais ‘informal’, mais íntima.

Para todos os efeitos, o culto uma forma válida de contato com o Sagrado, que parece dispensar a ritualística e, como a própria palavra implica, precisa ser cultivado – culto, cultura e cultivo têm a mesma raiz lingüística. Cultuar uma divindade, portanto, é uma ação que pode ser individual, mas que exige o contato constante – o cultivo – que fortalece e torna significativo esse contato com o Sagrado – tanto quanto o sacerdócio.
O culto é semelhante – mas não tão intenso – quanto outra forma de relação com o sagrado: a devoção

Devoção

Na raiz do termo devoção está a palavra ‘voto’ – o devoto é aquele que faz um voto à deidade, aquele que a ela se dedica. É uma relação íntima e pessoal, mais profunda do que o culto – pois este último pode ser grupal. A ligação ente o devoto e o Sagrado é geralmente tocante e profunda, e pode até envolver alguma prática ritual, mas não necessita de liturgias.

Uma das mais freqüentes críticas ao moderno mundo ocidental, com sua forte herança judaico-cristã, é a de que o Sagrado foi retirado da paisagem e da natureza, foi afastado do nosso dia-a-dia. De fato, o conceito de um deus distante em seu inacessível Paraíso torna difícil para muitos aceitar a idéia de que o Sagrado pode estar perto de nós. Muitos dentre os que buscam a Alma Celta ainda não conseguem se livrar dessa percepção e crêem que, para contatar o Sagrado, precisam necessariamente de uma formalização que lhes dê a condição de ‘sacerdote’. Afinal, desde a formação da igreja ocidental, “Deus está onde o bispo está, e quando o bispo se ausenta, Deus se ausenta.”

Na Espiritualidade Celta não é assim. Ao menos, não necessariamente. Afinal, a proximidade dos deuses e deusas celtas pode ser comprovada pela já mencionada sacralidade da paisagem, e também pelos muitos registros de mitos e lendas nos quais os deuses e deusas interagem diretamente com mortais. Essa interação, aliás, é tão intensa que ocorre das mais variadas formas: deuses que vêm ao mundo dos mortais, mortais que vão ao reino dos deuses – pelos mais variados motivos: lutar contra os deuses, ajudá-los a desempenhar tarefas, relacionar-se afetiva e/ou sexualmente…

Essa forma tão celta de compreender o sagrado preservou-se na Irlanda até mesmo nos primeiros séculos aos a chegada da fé cristã àquelas terras, com o desenvolvimento de um cristianismo independente do cristianismo de Roma. Em muitas ocasiões, esse cristianismo irlandês, chamado por suas diferenças de “cristianismo celta”, opunha-se abertamente aos preceitos e princípios da igreja de Roma, lutando durante séculos para manter-se independente dos dogmas impostos pelo Vaticano, enfatizando a importância da experiência individual do sagrado e, de certa forma, preservando noções perfeitamente pagãs no que tange à proximidade do divino e à sacralidade da natureza, de seus ciclos e forças.

Guerreiros celtas depositam oferendas votivas numa nascente sagrada
(ilustração de Angus McBride)

Como se vê, o contato com o sagrado é uma constante na mentalidade celta - há um belo ditado irlandês que exemplifica bem isso: Tá Tír na nÓg ar chúl an tí, Tír álainn trína chéile, ou “Tír na nÓg (um dos nomes para o Outro Mundo) fica nos fundos de casa, um belo reino a este mesclado.” Ou seja: este mundo – a realidade dos mortais – e o Outro Mundo – o domínio dos deuses – são, na verdade, um só. A compreensão desta verdade é fundamental para quem deseja de fato vivenciar a espiritualidade celta.

O que nos traz, por fim, ao último ponto deste ensaio, a última forma de experiência do sagrado contemplada neste estudo.


Vivência

Não é raro os praticantes do druidismo e de outras espiritualidades pagãs proporem em celebrações, cursos e eventos, atividades descritas como ‘vivências’. De forma corrente, o termo ‘vivência’ é usado para definir atividades nas quais o participante não apenas recebe informação e/ou assiste a um ritual, mas experimenta algo, através da prática e/ou da reflexão proposta.
Por definição, ‘experiência’ é tudo aquilo que vivemos. Aquilo que vivenciamos. Se trouxermos essa percepção para nosso estudo, o termo ‘vivência’ designa toda e qualquer forma de experiência do Sagrado, seja em rituais coletivos, no culto individual e na devoção pessoal. Nenhuma dessas formas – sacerdócio, culto, devoção - é superior ou inferior às demais, pois todas oferecem ao indivíduo o contato com o sagrado e a vivência plena desse contato.
A etimologia da palavra ‘sagrado’ remete ao particípio passado do verbo sacráre, ou seja: ‘consagrar, sagrar, dar caráter sagrado a; votar, dedicar’.


Resgatando o Sagrado Celta

Falando especificamente da espiritualidade celta, vimos na primeira parte deste ensaio que o Sagrado está na paisagem, nas forças da Natureza (tanto exterior quanto interior). Portanto, para a Alma Celta as forças da natureza externa – o clima, o tempo, a paisagem – bem como as da natureza interna - emoções, idéias, inspirações e conceitos – são sagradas. Em seus mitos, os deuses e deusas celtas que incorporam essas forças nos mostram a importância de se compreender as relações que estabelecemos com cada uma delas e conosco mesmos.

São muitos os níveis de relações que as lendas e mitos contidos nos antigos manuscritos da Irlanda e do País de Gales nos deixaram: um mito que nos fale de um deus soberano e doador da vida que se une a uma deusa associada à batalha, à morte e à profecia é muito mais do que um relato sobre o encontro de dois seres divinos. Se soubermos apreciá-lo, esse mito nos fornece um retrato preciso do encontro das forças criativas e destrutivas dentro de cada um de nós individualmente - e também nas relações que cada um estabelece com a família, a comunidade, o trabalho, os valores coletivos da sociedade.

Antes que os mais incautos afirmem que esta abordagem reduz os deuses a meros ‘arquétipos’ psicológicos, cabe lembrar que o termo arquétipo foi cunhado por Carl Gustav Jung, ele próprio profundo conhecedor da força dos mitos como um poderoso manancial para compreender as relações humanas. Os mitos que tratam das deidades e figuras heróicas clássicas – Afrodite, Édipo, Gaia - costumam ser mais amplamente utilizados para esse fim somente pelo fato de que, por razões históricas, os mitos gregos possuem maior alcance no mundo ocidental; mas a mesma abordagem é perfeitamente aplicável e válida – desde que respeitosa – quando tratamos de mitos celtas. Isso só comprova a proximidade dos deuses e a valia de um contato mais íntimo e direto com eles.


Derrubando Pilares

Por influência da mitologia judaico-cristã e seu deus único e distante – mas também pela percepção clássica de deuses em retiro no alto do Monte Olimpo – muitos druidas modernos inconscientemente preservam esse distanciamento ao tratar dos deuses celtas, insistindo em uma relação desequilibrada pela qual os deuses e deusas são inacessíveis à todos, salvo uma minoria de ‘eleitos’ – os sacerdotes. Ao longo deste ensaio, passeamos por diversos conceitos que derrubam essa percepção estereotipada e, importante dizer, totalmente não-celta.

Após séculos de afastamento do mundo espiritual – primeiro pelo distanciamento do Sagrado pela ótica judaico-cristã e depois pelo materialismo do mundo moderno – a espiritualidade celta como resgatada em nossos dias propõe a RESTAURAÇÃO de uma percepção do sagrado mais próximo, que divinize nossas vidas, o mundo em que vivemos e as relações que estabelecemos de forma equilibrada, ou seja: horizontal e em duas mãos.

Pela ótica celta, não somos meros “joguetes dos deuses”, nem seus “servos”; tampouco somos seus “mestres” ou “senhores”. De forma simplista, somos parceiros dos deuses na eterna e contínua dança da criação do universo, pois eles agem através de cada um de nós e nós vivemos através deles, em perfeita simbiose – tanto na relação coletiva do ritual celebrado por um sacerdote, quanto em nosso culto e devoção individual. O tempo todo, em toda parte.

 

À sua inspiração

A Alma Celta se manifesta de muitas formas, daí a multiplicidade de abordagens que resultam de seu contato.

Não poderia ser diferente - basta lembrarmos de algumas verdades históricas que emanam do estudo da espiritualidade celta: a partir da compreensão de seus elementos fundamentais (sacralidade da natureza, valorização da individualidade, ausência de dogmas, busca íntima da inspiração) é possível entender que cada um de nós é tocado pela Alma Celta de uma forma peculiar e individual.

Parece seguro afirmar que, ao tentar ignorar a presença do sagrado nas demais esferas de nossas vidas, a mente moderna é incapaz de compreender que não há como vivermos uma vida honestamente satisfeita apenas através do conforto material ou mesmo da realização de ideais intelectuais: presente em todas as religiosidades ancestrais, a integração corpo-mente-espírito não aceita a valorização de qualquer uma desssas esferas de nossas vidas em detrimento das demais.

Como costumo exemplificar em meu trabalho como instrutor, todos temos uma identidade física (nosso corpo, nosso rosto, nossos desejos físicos), uma identidade intelecutal (nossas ideias, conceitos e aprendizados) e uma identidade espiritual (aquilo em que cremos nos níveis mais profundos, nossos valores e princípios). Todos eles formam um circuito que deve fluir livremente: ideias que influenciam crenças, emoções que disparam reações físicas, estímulos físicos que desencadeiam respostas emocionais e assim por diante. Tal percepção não é exclusividade da Alma Celta - este é um fato compreendido pela psicologia, pela medicina, pelas filosofias orientais e por praticamente todas as espiritualidades verdes.

Este "solo comum", esta área de convergência entre religiões e filosofias é que fortalece a validade da espiritualidade celta como uma opção coerente com nossa realidade - quando a ela adequada.

Uma espiritualidade que reconhece a importância da Transformação (ciclos da natureza) e que vê na Inspiração (awen/imbas) a mola motriz dos processos transformadores simplesmente não pode limitar a fonte dessa Inspiração (o sagrado) a um único e exclusivo canal (sacerdócio): nascentes não podem ser bloqueadas, sob pena de aflorarem destrutivamente noutro lugar.

O mesmo se aplica à forma de exprimir e expressar os frutos trazidos pelo contato com a Alma Celta: não é somente através de ritos que se retribui à Inspiração: da mesma forma que na Irlanda celta um juiz Brehon honrava a Alma Celta através da promoção da justiça ou que um bardo manifestava a inspiração recebida pela Alma Celta através de seus versos e melodias, hoje mais e mais pessoas expressam sua inspiração das mais variadas formas - seja na literatura e na poesia, seja no resgate dos direitos da Natureza, seja no estudo, resgate e difusão dos conceitos sócio-culturais celtas para nossos dias.

Esta é a importância da Vocação: energética e cheia de vida, a voz da Alma Celta nos fala hoje de diversas formas: igualmente diversas são, por consequência, as formas de expressão dos que recebem sua inspiração. É assim que ela se mantém viva: através dos rituais de druidas modernos e também dos textos que resgatam os velhos mitos; dos versos que preservam sua essência mais profunda e das músicas que fazem ecoar a sacralidade das terras celtas. Em todas essas manifestações, a Alma Celta preserva sua vitalidade, mantém sua integridade e assume novas formas, no eterno e contínuo ciclo de transformação.

Bardos modernos:
Expressões da Alma Celta na Poesia e Música
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