Druidismo: Alma Celta em Ação

Os celtas possuem mestres de sabedoria a quem chamam de druidas.
Eles ensinam muitas artes à nobreza da Gália, em segredo, por vinte anos, em florestas remotas.
- Pomponius Mela


Como visto nas páginas anteriores, o Legado da Alma Celta é rico e multifacetado, e suas manifestações assumem várias formas: os costumes da Irlanda medieval, a Literatura irlandesa do início do século XX, os esforços de reconstrucionistas e estudiosos em recriar a espiritualidade celta, a poesia das canções populares irlandesas – todas são formas válidas de se resgatar a Alma Celta.

Em nossos dias, talvez a mais visível forma desse resgate seja o druidismo moderno: recentemente reconhecido oficialmente pelas autoridades britânicas como uma religião válida, o moderno druidismo britânico conseguiu atingir um nível de coerência e significado que o põe em pé de igualdade com muitas outras correntes espirituais alternativas.

Mas o que é, de fato, o druidismo moderno?

Quando essa pergunta foi dirigida a Philip Shallcrass, fundador e líder da British Druid Order (BDO), sua resposta foi clara:

Druidismo é aquilo que os druidas fazem. Isso, obviamente, gera outra pergunta: o que é um druida?

Ele então pô-se a narrar os esforços de pesquisas feitas por diversos membros da comunidade druídica britânica no sentido de se oferecer uma percepção comum do que fosse um druida e, portanto, do que seja o druidismo. Diante da diversidade das respostas, o resultado da pesquisa concluiu que existem três elementos compartilhados por todos os grupos druídicos: “Todos usam túnicas brancas... com exceção de alguns; todos usam alguma versão da Prece Druídica Universal de Iolo Morganwg... com exceção de alguns; todos celebram seus rituais à luz do dia... com exceção de alguns. No fim das contas, a pesquisa revelou que a única coisa que esses druidas realmente têm em comum é o fato de se designarem druidas”.

Por trás da resposta bem humorada está a certeza de que não há como se tentar padronizar o druidismo moderno: ele é multi-facetado, pois sua natureza histórica é multi-facetada; ele varia de local para local porque já na Antiguidade ele era regional. O druidismo moderno não permite uma uniformização porque na verdade ele celebra a localidade, individualidade, a sazonalidade.

É como já dito: se a Alma Celta é multifacetada o druidismo, por sua própria natureza, também o é. O que vale dizer que qualquer tentativa de se catalogar o druidismo corre o risco de ser injusta com as suas muitas vertentes e, acima de tudo, de desrespeitar sua natureza plural. Como as águas de um rio caudaloso, pode-se até tentar represar o espírito do druidismo, mas basta uma cheia para que os limites que se tenta impor cedam e ele volte a correr livre.

Eis, justamente, o segredo do sucesso do druidismo britânico: cientes de sua multiplicidade, as lideranças druídicas da Inglaterra, ao invés de tentarem criar uma entidade que “normatizasse” o druidismo, permitiram que suas múltiplas manifestações coexistissem em respeito e liberdade, a partir da identificação de uma essência comum a todas as suas vertentes.

Mas qual é essa essência comum? No texto a seguir (escrito para a formação de minha primeira turma do curso de druidismo e utilizado desde então), exploraremos alguns pontos cruciais para definir o druidismo.

O Mundo do Druidismo

Imagine viver em um mundo onde as grandes forças da natureza não são temidas, mas compreendidas; onde cada pessoa é responsável por seu destino; onde, ao invés de desrespeitar e manipular as energias da natureza, os seres humanos se inspirem em sua beleza, seu poder oculto e sua inesgotável energia.

Gostou? Pois esse mundo existe.

Para muitas pessoas, a figura do druida é, geralmente, a de um velho senhor de longas barbas brancas trajando vestes igualmente brancas, com um cajado à mão e capaz de controlar os elementos e operar magia. A imagem acima se aplica perfeitamente a Panoramix, o famoso druida da tribo de celtas gauleses de Asterix, personagem eternizado pelos quadrinhos e agora no cinema; também corresponde com precisão ao mago Gandalf de "O Senhor dos Anéis", bem como a Albus Dumbledore, das aventuras de Harry Potter. Apesar dessa visão clássica ainda persistir, ela está longe de ser a única imagem dos druidas.

Vindos de diferentes segmentos sociais, pertencendo a ambos os sexos e a diversas faixas etárias, os druidas modernos buscam no passado a inspiração para criar um futuro melhor. Mas que passado é esse?

 

OS DRUIDAS NOS TEMPOS DOS CELTAS

Entre os celtas – um dos mais influentes povos da Europa pré-clássica -, os druidas eram conhecidos como grandes sacerdotes e filósofos, e os historiadores gregos e romanos descrevem seus rituais e a importância atribuída a eles pelas tribos celtas.

As funções dos druidas, porém, ultrapassavam em muito as de um mero sacerdote: conhecedores dos mistérios da natureza, estudavam as propriedades mágicas e curativas de plantas, ervas e árvores. Eram também os responsáveis pela preservação da cultura, pois eram os guardiões da história e das lendas da tribo, eternizando os feitos dos reis e rainhas em versos de rara beleza. Poetas por excelência, cantavam seus conhecimentos em poemas que deviam ser memorizados, e também atuavam como legisladores nas disputas pessoais e inter-tribais. Por fim, eram também conselheiros dos reis e rainhas celtas, em muitas vezes exercendo sobre eles a autoridade que advém não do poder, mas do respeito. Por tudo isso, podemos dizer que os druidas eram, como bem diz o Dr. Simon James, “o pilar ao redor do qual toda a sociedade celta se estruturava”.

TRÊS CAMINHOS, UM SÓ DRUIDISMO


Há entre os celtas três grupos tidos na mais alta estima: os bardos, os vates e os druidas.
Os bardos são poetas e cantores, enquanto que os vates supervisionam os sacrifícios e estudam a natureza. Os druidas também estudam a natureza, mas dedicam-se também à moralidade.
Os gauleses consideram os druidas os mais justos dentre os homens, conferindo-lhes portanto o papel de juízes em todas as disputas públicas e privadas.

- Possidônio

Segundo os textos dos escritores gregos e romanos que viveram na mesma época dos druidas, essa multiplicidade de funções originava três categorias distintas: os Bardos, os Vates e os Druidas propriamente ditos. Essas categorias não formam hierarquias nem são independentes uma das outras: ao contrário, elas se complementam para formar o todo do druidismo, assim simplificadas:

Os Bardos são os poetas e contadores de histórias, responsáveis pela preservação e transmissão da identidade cultural da tribo, através das lendas e mitos, das canções e sagas, das odes e linhagens que relatam as origens, os feitos e conquistas da tribo.
Os Vates (também chamados de Ovates) são os adivinhos e curandeiros – aqueles que conhecem as propriedades das ervas, a magia das árvores e, através desse conhecimento, promovem a cura e apontam para as tendências do futuro.
Os Druidas são os conselheiros dos reis, sacerdotes que oficiam os ritos sagrados, juristas e legisladores.

Essas três categorias dos druidas da Antigüidade também são encontradas séculos mais tarde, nos textos medievais irlandeses (a Irlanda é hoje a principal fonte de conhecimento celta) sendo, portanto, adotadas por diversas ordens e grupos druídicos modernos.

Você encontra mais informações sobre os druidas na sociedade celta aqui: LINK

 

DIVERSIDADE DE AÇÃO E SABER

As múltiplas funções dos druidas – sacerdotes, filósofos, juristas, poetas, historiadores, conselheiros, diplomatas – geram a diversidade do druidismo moderno: um indivíduo que se identifique mais com a função sacerdotal, por exemplo, encaixa-se mais com o aspecto do druida, ao passo que alguém que tenha uma abordagem mais histórica ou que se interesse pelos mitos e lendas identifica-se com o caminho do bardo, uma pessoa que se interesse por oráculos segue o caminho do uate e assim por diante. Essa diversidade no druidismo gera também uma certa dificuldade em se definir o druidismo: há quem veja no druidismo uma religião, enquanto que para outros é uma filosofia e, para outros mais, um modo de vida.

 

RELIGIÃO, FILOSOFIA, MODO DE VIDA?

O druidismo é todos esses e nenhum. Para quem, como dito acima, enfatiza o aspecto sacerdotal do druidismo, é claro que ele tem uma coloração sacerdotal, ritualística; para alguém que aprecie o pensar e os valores sociais dos celtas, o druidismo é uma filosofia.
Para todos, porém, deve ser um modo de vida – seus valores e princípios devem ser incorporados a ponto de todas as nossas ações – não só em rituais e celebrações, mas também no supermercado, no trabalho, em família, com os amigos - todas nossas ações devem ser coerentes com os princípios fundamentais que dão forma e coesão ao druidismo moderno.
Afinal, não podemos esquecer que a separação entre o sagrado e o profano - entre o “mundo espiritual” e o cotidiano - é algo muito recente: para muitos povos do passado – e isto inclui os celtas – o divino e o humano se entrelaçam continuamente, o mundo espiritual e o material são um só.

SACRALIDADE DA VIDA

Para os druidas de ontem e de hoje, o universo é todo feito de energia – e energia é, no fim das contas, a melhor definição para a Vida, para a alma. Logo, tudo no universo tem alma, merecendo assim ser respeitado e compreendido. Se tudo tem alma, tudo é vivo. Se tudo é vivo, tudo é sagrado.


"Sadbh", a mulher-corça, pela artista Hester Cox

A espiritualidade celta é rica em exemplos de árvores vivas, animais que se comunicam com humanos, rios que na verdade são o corpo de uma deusa, assim como bosques são o corpo de diversos deuses. Quando se adota uma visão dessas, fica difícil - impossível, eu diria - poluir um rio: afinal, seria o mesmo que tentar matar uma deusa. Quanta devastação teria sido evitada se esses princípios ainda estivessem arraigados em nossa forma de ver o mundo...

 

UMA ESPIRITUALIDADE VERDE

Uma das questões fundamentais de nossos tempos é a necessidade de reestruturar os valores e formas de agir e pensar de nossa sociedade com relação ao ambiente em que vivemos. O resgate de uma percepção como a druídica, segundo a qual toda a paisagem – rios, lagos, florestas, animais, bosques, humanos – é sagrada é um dos pontos-chave para o futuro de nosso planeta: o geólogo e filósofo norte-americano Thomas Berry menciona a necessidade de se desenvolver uma “Eco-Espiritualidade”, ou “Espiritualidade Verde”, que devolva ao ser humano a percepção da sacralidade da vida. O druidismo se encaixa perfeitamente nas teorias do Prof. Berry.
(Para mais sobre Eco-Espiritualidade clique aqui.)

O QUE O DRUIDISMO OFERECE?

Transformação: essa é a essência do druidismo - e é o mais precioso bem que ele oferece. O passar do tempo é uma energia irresistível e que traz transformação – a nossos corpos, à paisagem, a nossas idéias. Ao longo dos séculos, desde suas origens até nossos dias, também o druidismo sofreu grandes transformações, adequando-se aos valores de cada época e às necessidades de cada período.

Essa capacidade de se adequar e de se adaptar é que está por traz da força do druidismo: ele sempre se mantém válido e coerente. O contato com outras culturas - a exposição a outros valores que alteram e moldam os valores originais - também promovem grandes transformações, e isso vale tanto para uma pessoa quanto para um povo.

Muitas práticas do druidismo da Antigüidade se perderam – e mente quem disser diferente – mas seus princípios fundamentais, a sua busca por uma vida melhor pautada em honra e inspiração nos continuam acessíveis através das lendas e mitos das terras celtas.

É justamente isso que faz do druidismo moderno um caminho espiritual válido. Em lugar de prometer uma vida eterna de paz ou tormentos; ao invés de prometer a evolução numa "outra vida", o druidismo põe nosso destino próprio em nossas mãos - através da consciência, da reflexão e da experiência.
Os druidas e druidesas modernos, em seus jeans e camisetas, ternos e gravatas, minissaias e tailleurs – ou até mesmo em suas túnicas rituais – lutam pela criação de um mundo mais justo, com as armas que têm em mãos: a ação. A consciência. A poesia. O trabalho.

 

O INDIVÍDUO E A TRIBO

A instituição druídica era simultaneamente estruturada no seio da tribo e do povo, na própria estrutura da Gália e de toda a comunidade celta original. Isto confirma nossa convicção de que o druidismo era a religião de todos os celtas, e também ajuda a esclarecer que o druidismo era absolutamente inseparável da sociedade celta, com a qual formava um organismo único, do qual era o esqueleto espiritual.
- Jean Markale


O druidismo é uma espiritualidade para aqueles que não se conformam em esperar por um líder ou em seguir cegamente o que lhes é ditado; é um caminho de crescimento espiritual pessoal, individual, íntimo. É um caminho transformador, que dá a todos nós a possibilidade de fazer a diferença.

Eis porque nunca poderá haver um druidismo ‘padronizado’, centralizado: a vivência do druidismo é uma experiência pessoal, cada indivíduo vivencia o druidismo à sua forma.

Ao mesmo tempo, o druidismo é um caminho coletivo: nas palavras do celtista francês Jean Markale, “não existe druida sem comunidade”. Isto porque, como vimos acima, o druida era a figura central da sociedade celta da Idade do Ferro, atuando como mediador, sacerdote, conselheiro, curandeiro, historiador, jurista. Todas essas funções só se desenvolvem plenamente dentro de uma comunidade. É por isso que existem tantos grupos, associações, colégios, ordens, groves, Gorseddau e outras formas de reunir druidas em coletividades. Druidas são criaturas sociais, com uma tendência natural a formar tribos, compartilhando com os demais suas visões, seu conhecimento, sua inspiração. Mais uma vez citando Markale, "a ação individual não tinha significado a não ser que estivesse integrada à atividade do grupo".

 

INSPIRAÇÃO

No mundo do druidismo, aprendemos a nos relacionar de forma honrosa - com as pessoas, com nosso trabalho, com nosso alimento, com o ambiente em que vivemos. Aprendemos a nos maravilhar com as coisas mais simples do dia-a-dia, tirando delas a inspiração que nos permite viver de forma mais digna, mais íntegra.

No mundo do druidismo, cada dia é uma bênção, cada gesto é uma transformação, cada alvorada é uma nova promessa, cada palavra uma fonte de inspiração.

O druidismo é um mundo em que aprendemos a conhecer melhor os segredos do universo e, por conseqüência, aprendemos a conhecer melhor a mais complexa e importante fonte de magia que existe: nós mesmos.

Bem vindo ao mundo do Druidismo.

© 2003, 2009 - Claudio Quintino Crow – Registrado na Biblioteca Nacional – Lei Federal 9.610/98.
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Esta seção do webiste foi criada para apresentar o druidismo de forma clara e sem mistificações, com informação pautada em fontes históricas e no trabalho de conceituados historiadores modernos. Seu objetivo é levar informação responsável àqueles que, por diversas razões, não podem participar dos cursos, workshops e palestras que apresento - é minha contribuição para que o druidismo possa levar seus presentes a um número cada vez maior de pessoas, sementes que lanço ao vento para que possam encontrar seu solo fértil e ali se desenvolver.

Como todo bom jardineiro deve saber, contudo, antes de plantar a semente é preciso limpar o terreno - e existe muita desinformação sobre o que é de fato o druidismo. Nosso próximo passo, então, é esclarecer os fatos e dirimir as dúvidas mais comuns. Vamos lá?

 

LIMPANDO O TERRENO

 

Os druidas: anciãos em vestes brancas e longas barbas, descendentes dos atlantes, sacerdotes sanguinários, precursores do cristianismo, membros de uma sociedade secreta exclusivamente masculina, povo sem ligação cultural com os celtas – ao longo dos anos, muitas afirmações como essas já foram ditas sobre os druidas.

 

Esqueça-as – nestas páginas, uma visão clara e responsável do que seja a história do druidismo: suas origens, suas transformações e de que forma ela se apresenta nos dias de hoje.

Imagem romântica de um druida britânico
a partir da percepção da Inglaterra vitoriana

 

Para começar, vamos retificar o quanto de desinformação há na introdução acima:

Anciãos em vestes brancas e longas barbas?” - É bem provável que realmente existissem druidas velhos e com longas barbas brancas, como os das imagens estereotipadas do século XIX (acima), que mais atendiam à visão clássica dos profetas cristãos do que propriamente à realidade dos druidas celtas. Mas é sabido – e amplamente divulgado por incontáveis autores acadêmicos – que existiam também mulheres druidas – portanto, sem as longas barbas (espera-se).
Também é bem provável, quase certo, aliás, que existissem druidas mais jovens, mas nem por isso menos respeitados. Afinal, o respeito devido pela sociedade celta aos druidas vinha não necessariamente de sua idade, mas principalmente de seu vasto conhecimento acerca de temas como as leis naturais, a movimentação dos astros, as tradições da comunidade, as propriedades de plantas e substâncias, as leis e tradições da tribo, os augúrios e oráculos, o senso de justiça.

Descendentes dos atlantes?” – Pouco provável que uma instituição tão celta quanto o druidismo tivesse origem num continente imaginário da mitologia grega – a não ser que tenha algum fundamento a argumentação do Dr. Ulf Erlingsson (por ele mesmo posteriormente descartada) de que a “Atlântida” seja a ilha da Irlanda.

Sacerdotes sanguinários?” – Autores clássicos como Diodorus Siculus e Julio César certamente pintam um retrato um tanto sombrio das práticas rituais de druidas, descrevendo sacrifícios humanos de natureza barbárica aos olhos de gregos e romanos. Contudo, o prof. Barry Cunlliffe, talvez a maior autoridade na área atualmente, afirma que “evidências conclusivas de sacrifícios humanos são surpreendentemente raras nos registros históricos”. E de fato, quando lemos Possidônio, talvez a mais confiável fonte clássica a relatar os hábitos e costumes dos celtas, vemos que "os gauleses mantinham um criminoso aprisionado por cinco anos, após o que ele era empalado em honra aos deuses. Eles então queimavam seu corpo numa enorme pira, com os primeiros frutos da colheita." Uma prática que, se verdadeira, não difere muito da pena de morte ainda existente em diversos estados norte-americanos, por exemplo.

Precursores do cristianismo?” – Quando no século XVIII o mundo celta passou a ser alvo de pesquisas por parte dos “antiquários” (os precursores da arqueologia), os druidas eram por vezes descritos como “filósofos que preparavam os celtas para a chegada do cristianismo”.
Evidentemente esse tipo de afirmação não tem nenhum respaldo histórico, especialmente porque a espiritualidade druídica – animista, politeísta e autóctone – nada tem a ver com o cristianismo – monoteísta e originário do Oriente Médio.
Para que não restem dúvidas, basta pensarmos que, no suposto ano da crucificação, os druidas da Grã-Bretanha estavam totalmente alheios ao que pudesse estar ocorrendo na longínqua Galiléia e se concentravam em tentar deter a invasão romana comandada pelo Imperador Claudius. Na Irlanda, então, afastada da esfera de dominação do Império Romano, os druidas só viriam a ouvir falar do cristianismo no mínimo quatro séculos mais tarde. Portanto, a chegada do cristianismo às terras celtas insulares só se daria séculos depois, quando o druidismo já se via oprimido pela administração do Império Romano.

Membros de uma sociedade secreta exclusivamente masculina?” – antes de mais nada, o druidismo jamais foi uma sociedade secreta. Por suas funções de sacerdote, jurista, poeta, historiador e conselheiro, um druida era forçosamente uma figura pública. Ademais, como já dito, existem diversos relatos que dão conta da existência de druidesas – mulheres que desempenhavam as mesmas funções dos druidas. O conceito de que o druidismo é um caminho destinado somente a homens vem da influência das lojas maçônicas britânicas do século XIX que, mesmo mantendo a rigidez hierárquica e a exclusividade de associação a homens, tão tipicamente maçônicas, se auto-proclamaram “lojas druídicas” - gerando, assim, a confusão.

Povo sem ligação cultural com os celtas?” – De todas as inverdades já divulgadas sobre o druidismo, talvez esta seja a mais inverossímil. Afirmar que os druidas não são celtas é o mesmo que dizer que um brâmane não é hindu, ou mesmo que um católico não é cristão.
Os druidas eram os filósofos, juristas, sacerdotes e magos da sociedade celta. Por extensão, a espiritualidade celta é chamada de druidismo. Uma coisa está intimamente ligada à outra. Ao contrário dos brâmanes da Índia, contudo, os druidas não formavam uma casta fechada. Nas palavras do celtista Jean Markale, “qualquer indivíduo pode se tornar um druida, por vocação ou esforço”.

 

Muitos dos temas abordados acima serão mais profundamente estudados na próxima seção, História do Druidismo. Antes de prosseguirmos, porém, vamos procurar saber um pouco mais sobre a pórpria palavra 'druida' - suas origens e significados são fundamentais para termos uma visão mais clara do que é, de fato, um druida e o que é, na verdade, o druidismo.

Origens da Palavra Druida

As mais antigas referências aos druidas surgem em textos clássicos, sempre na forma plural (Gr. druidai, lat. druidae, druides). Estas pressupõem uma forma gaulesa druvis, a partir de druvids – se bem que nenhuma delas surja em inscrições romano-célticas. A palavra em irlandês arcaico druí é por vezes traduzida como ‘druida’, mas também pode significar mago, adivinho ou, em poesia moderna, ‘poeta’, ‘erudito’.
O galês
dryw, vidente, pode ter a mesma origem.

- James MacKillop


Através destas sucintas frases, o Professor MacKillop nos oferece uma enorme gama de informações preciosas acerca da palavra ‘druida’: em primeiro lugar, fica claro que a origem da palavra nos é desconhecida por sua antiguidade: as formas grega e latina apresentadas levam os estudiosos a supor um vocábulo original em idioma celta absorvido tanto por gregos e romanos.
Ademais, os significados associados às formas irlandesa e galesa da palavra confirmam a multiplicidade de funções dos druidas dentro do contexto social celta original: ‘mago’, ‘adivinho’, ‘poeta’, ‘erudito’, ‘vidente’: todos os termos mencionados por MacKillop refletem a multiplicidade de funções dos druidas.


O influente linguista britânico Kenneth H. Jackson, uma das mais conceituadas autoridades no estudo dos idiomas celtas, levanta a possibilidade de que o termo ‘druida’ deriva de uma suposta palavra gaulesa: druwids, significando ‘o sábio dos bosques’. De fato, por suas origens indo-européias, as línguas celtas primitivas permitem estabelecer uma ancestralidade lingüística a partir dos radicais indo-europeus *deru- (firme, duro, estável como uma árvore) e *wid-, (sabedoria, conhecimento). Do primeiro deriva a moderna palavra inglesa para ‘porta’ (door) e também o vocábulo português ‘duro’; do segundo, derivam as palavras inglesas ‘wit’ (sagacidade) e ‘wisdom’ (sabedoria).


Em seus escritos sobre os celtas, os autores clássicos Estrabão e Plínio, o Velho mencionam a reverência prestada pelos druidas às árvores, sobretudo ao carvalho. Pela semelhança, os nomes para ‘carvalho’ nas línguas celtas podem de fato estar associados à palavra ‘druida’: irlandês dair, galês dâr, gaélico escocês darach, manquês daragh, bretão dervenn.


O mito fundamental da Árvore do Conhecimento está presente nas tradições de diversos povos (Cabala, Druidas, Odin/runas, totem). Se os druidas eram os grandes sábios, eram também os "homens da árvore" - indivíduos responsáveis por celebrar e ensinar nas clareiras sagradas das florestas.
- Jean Markale

 

Com esses esclarecimentos, limpamos o terreno, enterramos as inverdades e podemos, então, passar adiante, para compreender o que o druidismo é de fato.
Para tanto, convido-lhe a embarcar numa viagem no tempo, em que retornaremos às origens do druidismo milênios atrás; a partir dali, prosseguiremos através dos séculos para compreender todas as mudanças, influências e transformações que nos trazem aos dias de hoje, para compreender o que é o druidismo e o quanto ele tem a nos oferecer na atualidade.

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