Alma Celta, Druidismo & História

Costuma-se definir 'druidismo' como sendo a "religião dos celtas" - uma definição bastante óbvia, tendo em vista que os druidas eram os sacerdotes e filósofos das tribos celtas.

É conveniente lembrar, contudo, que o termo 'druidismo' é recente - o vocábulo "druidism" surge no idioma inglês oficialmente por volta de 1710 - numa época em que, veremos abaixo, especulava-se muito mas sabia-se muito pouco sobre as crenças e práticas dos celtas.

Esta observação é importante para compreendermos porque, como visto anteriormente, existem tantas definições diferentes - e conflitantes - para essa mesma palavra: em inglês, por exemplo, surgiu recentemente outro vocábulo, "Druidry", para designar as correntes religiosas modernas que têm por base o druidismo da Antigüidade. ("Druidism")

Confuso? Para esclarecer, vamos viajar ao longo da história para conhecer as diversas manifestações do druidismo como expressão da Alma Celta.

Origens da Espiritualidade Celta

Os druidas formavam a classe de sacerdotes-filósofos da sociedade celta da Europa Ocidental. Contudo, o druidismo não é um fenômeno pan-célitco, ou seja: não é encontrado em todas as regiões onde os celtas se instalaram.
Qual a razão? Para se compreender melhor o processo de formação do druidismo, vamos abaixo narrar, de forma bem sintética, a evolução dos celtas desde seu surgimento até sua expansão máxima (clique aqui para mais sobre os celtas).

Depois de seu surgimento na Europa Oriental por volta do segundo milênio a.e.a., os celtas se expandiram pelo continente europeu em sucessivas ondas migratórias, chegando à Europa Ocidental entre os séculos VII e VI a.e.a.

Quando as primeiras tribos celtas chegam às regiões hoje conhecidas como França, Ilhas Britânicas e Península Ibérica, aquelas áreas já eram ocupadas por culturas coletivamente conhecidas como povos neolíticos, dos quais sabemos muito pouco, dada a escassez de registros. O que sabemos por seus vestígios arqueológicos é que eram uma cultura de agricultores e astrônomos – seus conhecimentos precisos sobre a movimentação dos astros e corpos celestes lhes permitiu a construção de formidáveis estruturas megalíticas como Newgrange na Irlanda, Carnac na França, Avebury e Stonehenge na Inglaterra.

A chegada dos celtas àquela região aparentemente pôs em contato essas duas culturas e, do contato entre elas, surge uma espiritualidade que funde os elementos originais trazidos pelos celtas (de cunho notadamente indo-europeu) e as características dos povos autóctones da região. É ao resultado dessa fusão, portanto, que hoje damos o nome de druidismo. Numa figuração ilustrativa, é como se a religião dos povos que já habitavam o Oeste europeu fosse uma espiritualidade “amarela” que, mesclada à espiritualidade “azul” trazida pelos celtas, desse origem a uma espiritualidade “verde”: o druidismo.

Assim, elementos religiosos notadamente comuns a praticamente todos os povos de origem indo-européia – como os celtas – se fundem a outros elementos que dão ao druidismo suas características singulares. Como os celtas não utilizavam a escrita para registrar sua história, o desenvolvimento do druidismo desde suas origens permanece pouco conhecido até os primeiros contatos entre os celtas e a cultura clássica mediterrânea; é somente a partir dos registros de gregos e romanos que os celtas e sua espiritualidade finalmente entram para a história oficial. Esses primeiros registros nos fornecem um retrato um tanto quanto distorcido do que era o que hoje costumamos chamar de “Druidismo Clássico”.

O Druidismo Clássico

“Os filósofos, como nós os chamamos, e os homens versados em assuntos religiosos são especialmente honrados entre os gauleses, que os chamam de druidas. Os gauleses também se valem de adivinhos, tendo-os na mais alta estima; esses homens prevêm o futuro através do vôo ou do canto das aves e do sacrifício de animais sagrados, e toda a população lhes é obediente... É seu costume não praticar nenhum ritual sem um desses ‘filósofos’, pois as oferendas aos deuses devem ser feitas pelas mãos daqueles que conheçam a natureza do divino, e que falem, por assim dizer, a língua dos deuses. É também por intermédio desses homens que eles recebem suas bênçãos.”

- Diodorus Siculus, v, xxxi

O parágrafo acima, retirado da obra do historiador Diodoro da Sicília, nos fornece um retrato bastante interessante do druidismo no séc. I a.e.a. Através dele, pecebemos que os druidas desempenhavam a função de sacerdotes, oficiando rituais, mas também tinham outras funções importantes, como mestres das artes oraculares. Muitas outras funções são atestadas por outros escritores clássicos. Julio César, em sua “De Bello Gallico”, informa-nos que “uma grande quantidade de jovens se reúne ao redor deles (os druidas) para receber instrução, e por isso são muito honrados”. Portanto, desempenhavam também a função de instrutores. Ainda Julio César: “Na verdade, são os druidas que resolvem quase todas as disputas, públicas e privadas. E se um crime tiver sido cometido, se tiver ocorrido um assassinato ou se houver uma disputa sobre sucessão ou fronteiras, são também os druidas a decidir sobre eles, determinando as penas e as compensações.”

Neste trecho, a descrição é dos druidas como juristas e magistrados. Recorrendo a outros autores clássicos que sobre eles escreveram, vemos que os druidas “são mestres em muitas artes” (Pomponius Mela) e “também costumam discutir os astros e seus movimentos, a grandiosidade do mundo e da terra e sobre a natureza das coisas” (César); eles “estudavam a ciência da Natureza” (Estrabão), as “ciências merecedoras de conhecimento” (Ammianus Marcelinnus), os “cálculos e a aritmética” (Hipólito) e “as leis da Natureza, que os gregos chamam de fisiologia” (Cícero). Os registros nos mostram ainda que os druidas eram mediadores em conflitos inter-tribais, atuando como verdadeiros diplomatas, e também eram os responsáveis pela preservação de sua história e suas tradições – o papel de historiador e mitógrafo.

A transmissão de todo esse conhecimento se dava através de versos, o que faz com que os druidas fossem, também, poetas. Muitas das lendas e mitos, bem como as linhagens sagradas de reis e divindades, eram preservadas e transmitidas por uma categoria especializada de druidas - os bardos - através de versos e músicas - portanto, entre os druidas havia também musicistas.

Sacerdotes, conselheiros, diplomatas, juristas, filósofos, historiadores, poetas, músicos, curandeiros, xamãs: dadas as múltiplas funções dos druidas, parece natural que, segundo Julio César, fosse necessário estudar de doze a vinte anos para se tornar um druida.

O aprendizado se dava em 'centros druídicos', como os registrados na região de Carnutes, no centro da Gália (atual França) e também na Ilha de Môn (atual Anglesey, no País de Gales). Para esses centros confluíam dezenas, talvez centenas de jovens aspirantes a druidas. Ao contrário do que se especula, os druidas não formavam uma casta fechada – segundo Jean Markale, um dos mais importantes autores sobre o tema, “qualquer indivíduo, independente de classe social, tinha acesso à ordem, desde que se submetesse ao longo, árduo e necessário ciclo de aprendizado. Resumindo: um indivíduo se tornava um druida tanto por vocação quanto por provação.

Florestas como a de Carnutes não eram somente locais de assembléia. Os druidas não construíam templos, pois criam que, para adorar os deuses da natureza, o melhor a fazer era integrar-se a essa natureza. Na Gália, um local de culto dos druidas recebia o nome de Nemeton (literalmente ‘bosque sagrado’). O próprio termo ‘druida’ está relacionado às árvores – uma tradução aproximada dos componentes originais da palavra é “aquele que tem a sabedoria do Carvalho”, árvore venerada pelos druidas gauleses. Vimos acima que eles também dedicavam-se ao estudo das leis da natureza. Some-se a isso o fato de celebrarem seus rituais em meio a bosques sagrados e temos no druidismo uma autêntica “espiritualidade verde” - como costumam ser todas as espiritualidades de povos nativos que preservam seus elementos originalmente xamânicos.

Mas é bom deixar claro que nem druidas, nem celtas eram “ecologistas”, hippies “paz e amor” ou tranqüilos “mestres zen”: a cultura celta, como todas as de origem indo-européia, era belicosa e a guerra era parte dessa sociedade. Muitas disputas, até mesmo entre druidas, eram decididas na ponta da espada. Estamos falando da Idade do Ferro européia.

O fato inquestionável, contudo, permanece que a cultura celta possuía – como costuma acontecer em sociedades não-urbanas – uma íntima e profunda ligação com a Natureza e seus ciclos; isso fica claro nos festivais sagrados celebrados pelos druidas em cada uma das estações do ano, honrando a transformação e as mudanças da paisagem e dos ciclos da vida. Quando as legiões romanas invadiram as terras celtas, trazendo consigo os conceitos da urbanização e da guerra de anexação, o druidismo sofreria um golpe fatal.

A última cena da resistência celta na Gália foi a deposição de armas do grande líder gaulês Vercingetorix, que havia unido diversas tribos celtas sob seu comando para resistir aos invasores de Roma – feito que confirma o fato de ser o próprio Vercingetorix um druida. A cena se repetiria na Grã-Bretanha, onde o movimento de resistência mais famoso foi a revolta da Rainha Boudicca, também ela uma druidesa. Mas tais movimentos se mostraram insuficientes ante o poderio das legiões romanas. Em pouco tempo, o mundo celta – e especialmente o druidismo – sucumbiria.

Irlanda

As sandálias dos legionários romanos jamais puseram os pés na Irlanda, e é por isso que aquela bela ilha continua a ser uma das mais importantes fontes para a recuperação de informações sobre os celtas e os druidas. Por pelo menos mais três séculos após a conquista romana das terras celtas da Gália e da Grã-Bretanha, o druidismo continuou a florescer em terras irlandesas, só vindo a ser ameaçado com a chegada do cristianismo, já por volta do séc. V, primeiro através do missionário Palladius e depois por S. Patrício, padroeiro da Irlanda. O isolamento geográfico e a distância da Sé em Roma, porém, deu ao cristianismo irlandês características peculiares, como o não-proselitismo, a admissão de mulheres como episcopisas, a permissão do casamento entre os membros do clero e, principalmente, uma busca pelo Divino através de meditações em eremitérios e pequenos mosteiros espalhados por todas as regiões da Irlanda. Muitos dos textos dos monges cristãos irlandeses são verdadeiras odes às forças da Natureza – uma evidente sobrevivência dos princípios druídicos. Se aquilo que chamamos de druidismo histórico deixa de existir com a expansão romana na Gália e na Bretanha - e com a chegada do cristianismo à Irlanda - há uma inegável continuidade na transição pacífica da espiritualidade celta (o "druidismo") para o cristianismo na Irlanda. Foram os primeiros monges cristãos irlandeses, aliás, que preservaram em belíssimos manuscritos medievais muito do que conhecemos hoje dos mitos e lendas dos deuses celtas da Irlanda. Séculos mais tarde, tais textos seriam fundamentais para as novas manifestações da Alma Celta e as reinterpretações do druidismo.

(Conheça muito mais sobre a importância da Irlanda para a sobrevivência da Alma Celta visitando a seção especial 'Irlanda')

Renascimento Druídico

Em 1717, o irlandês John Toland e o inglês John Aubrey fundaram a Druid Order, a 22 de setembro – o Equinócio de Outono. Toland era um católico, mas tinha grande interesse em temas ocultos – como ocorria com grande parte da sociedade inglesa de então. Aubrey escrevera um livro sobre Stonehenge e outros círculos de pedras, atribuindo-os aos druidas. Outro nome importante nessa época é o de William Stuckeley, um reverendo inglês que em 1720 funda a Sociedade dos Antiquários (os precursores da arqueologia). Stukeley, que em seu círculo de amizades tinha Sir Isaac Newton, também escreveu um livro sobre Stonehenge, chamado “Stonehenge Restored to the British Druids” (“Stonehenge devolvida aos Druidas”). Era um ávido pesquisador da alquimia e de outras ciências ocultas, e via no druidismo uma oportunidade de conciliar sua verve cristã com seus interesses ocultos. Mas foi o poeta e ilustrador William Blake quem contribuiu de forma definitiva para a consolidação deste período do druidismo. Ele cria uma estrutura para a Druid Order, afirma que “os druidas e bardos eram monoteístas e patriarcais” e que descendiam de Abrahão. Para ele, a Grã-Bretanha era a bíblica Terra Prometida e Cristo havia sido crucificado num carvalho. Como se pode perceber, nesta fase o rigor histórico era substituído por uma desesperada tentativa de se conciliar o cristianismo com uma pseudo-história fantástica - e com tradições ocultas, como a alquimia. Em 1781, surge a Ancient Order of Druids, outra ordem que apostava na mesma fórmula cristianismo / druidismo / ocultismo. Seu fundador, Henry Hurle, inspirou-se claramente na Maçonaria escocesa para desenvolver a AOD. Ela ainda existe como entidade filantrópica e conta atualmente com cerca de 3000 membros na Grã-Bretanha.

Mas a principal personagem do Renascimento Druídico do séc. XVIII ainda estava por aparecer. Um autodidata nascido em Glamorgan (País de Gales) dotado de grande interesse pela cultura celta e um profundo senso patriótico, Edward Williams faria de tudo para dar ao povo galês uma identidade que contrastasse com a cultura imposta pelos ingleses. Tudo mesmo – até forjar textos e tradições. Williams ganhou notoriedade quando, no dia 21 de junho de 1792 – o solstício de verão – realizou um ritual de inauguração de sua Gorsedd (assembléia de druidas) em plena Londres, em Primrose Hill. Com esse rito em praça pública, Williams queria chamar a atenção dos ingleses para seu passado celta. E a partir dali, Williams seria mais conhecido por sua alcunha: Iolo Morganwg. Criava-se a Gorsedd dos Bardos Britânicos, que existe até hoje na forma da Fraternity of Druids, Bards and Ovates of Britain. Anualmente, ainda são celebradas competições poéticas entre os bardos, que declamam exclusivamente em galês, preservando assim sua cultura.

O elemento comum a todos os nomes acima citados era um legítimo interesse na história ancestral da Grã-Bretanha, um nacionalismo exacerbado e uma enorme dose de criatividade. Iolo Morganwg publicou um livro chamado Barddas, cujo conteúdo seriam as antigas tradições dos Bardos do País de Gales. Sabe-se que ele realmente pesquisou a fundo os mitos e lendas de sua terra, mas quando não encontrava a informação que desejava, ele não hesitava em “criar” a verdade.

Farsante ou não, o fato é que Iolo Morganwg foi fundamental para o renascimento do druidismo. Seria difícil alguém sucedê-lo. E de fato, as figuras que se seguiram eram todos ocultistas de pequena monta, que introduziram elementos do cristianismo gnóstico, do hinduísmo e até das tradições egípcias ao que eles chamavam de druidismo. O mundo do ocultismo fervilhava com ordens iniciáticas, sociedades secretas e irmandades.

Por toda a Grã-Bretanha, ordens druídicas pipocavam aos montes, sempre alardeando sua "grande ancestralidade", sempre misturando tradições ocultas diferentes, sempre reservadas a um grupo fechado de homens – somente homens. A idéia de que Stonehenge e outros megálitos eram obra dos druidas ainda perduraria muitos anos, pois não se dispunha de métodos mais seguros (como a datação carbônica) para determinar a época de construção dos monumentos megalíticos.

Século XIX: As Vozes Modernas do Druidismo

Durante o século XIX, a cidade de Londres, capital do mais formidável Império de todos os tempos, é também o centro cultural mundial. Os britânicos que retornavam à Inglaterra após anos nos mais exóticos lugares do planeta traziam consigo suas experiências e testemunhos pessoais de crenças e práticas religiosas observadas em suas viagens pela África, Extremo Oriente e Américas.

Por tudo isso, Londres nesse período é também o centro do ocultismo mundial. Figuras como Aleister Crowley, Helena Blavatky e tantos outros nomes importantes povoam as suas ruas, no agitadíssimo fin-de-siécle londrino, e correntes místico-filosóficas como a Ordo Templo Orientis (O.T.O.), a Golden Dawn, a Maçonaria, a Teosofia e o Rosicrucianismo atraem centenas de simpatizantes.

O apelo dos druidas - sábios, filósofos e sacerdotes da Antigüidade britânica - é irresistível para esses místicos, e as correntes druídicas que viscejam nesse período seguem a tendência e se apresentam como tradições iniciáticas e sociedades secretas fortemente influenciadas pela Maçonaria - em muitos casos, com pouco ou nada a ver com o druidismo da Antigüidade (até porque os estudos acadêmicos sobre a cultura celta ainda engatinhavam nessa fase). Para os místicos de então, os druidas eram como os profetas ou patriarcas bíblicos, ou então poderosos sacerdotes de cultos obscuros. Invariavelmente, as representações imagéticas dos druidas deste período mostram senhores de longas barbas e trajando branco, seguindo a descrição de Plínio e mesclando-a à figura arquetípica do Sábio/Ancião.

Essa imagem romantizada do druida infiltra-se também nas Artes: já em 1827, a Universidade de Cambridge cria um concurso de poesia entre seus alunos de Literatura tendo os druidas como tema. Eis um trecho do poema vencedor - uma ode aos druidas que enfrentaram os romanos no histórico massacre da Ilha de Anglesey, por Thomas E. Hankinson:

"Vossas filhas druídicas, cabelos a esvoaçar,
Insanas se lançaram sobre o inimigo, e alto
Ergueram o arrepiante brado - e atiraram a tocha ao ar:"

Outro poema do período, de temática semelhante, é publicado por uma dama anônima em 1838:

"Um assassino ordinário ateia o fogo,
Os Bardos se foram, morreram os Druidas,
Jamais novamente nesta ilha sagrada
A clara religião erguerá sua fronte."

Entre um poema e outro, no ano de 1833, o compositor Vincenzo Bellini leva sua ópera Norma a Londres. A protagonista título é uma sacerdotisa druídica que encara os preconceitos dos invasores romanos e paga com a vida.

Como se vê, o druidismo do final do século XIX encontra duas vozes, cada qual ecoando um aspecto diferente de sua essência: a místico-mágica, das ordens iniciáticas e sociedades secretas; e a artístico-poética, inspirando versos e obras musicais.

É em meio àquelas ordens místicas e essas percepções um tanto distorcidas dos druidas que um jovem poeta irlandês radicado em Londres sente-se compelido a livrar a figura do druida dessa pecha 'esotérica' (no mau sentido) e resgatar a verdadeira magia bárdica do druidismo através dos versos: um jovem irlandês que, além de talentoso poeta, era também um devotado nacionalista que desejava ver sua Irlanda livre dos grilhões do Império Britânico e que, ocultista que era, acreditava que a magia poderia ser muito útil nesse processo.

William Butler Yeats: Poesia, Magia e Mitologia Celta

Radicado no agradável subúrbio londrino de Bedford Park, o jovem William Butler Yeats (à esq. em retrato de Henry M. Paget) cresceu tendo como vizinhos os típicos moradores desse distrito boêmio: pintores, poetas, atores, místicos, homeopatas e escritores faziam de Bedford um centro de cultura (e contra-cultura). Afiliado à Loja Teosófica do Distrito de Chiswick (do qual faz parte Bedford Park), Yeats conhece os mais influentes nomes do ocultismo da época, como Helena Blavatsky, William Wynn Wescott, Anne Besant e muitos outros. Com a maioria, Yeats compartilha interesses e desenvolve laços de amizade: por um deles em especial - Aleister Crowley - Yeats nutria verdadeira repulsa. Foi o bom contato com os intelectuais da época que garantiu a Yeats um desenvolvimento íntegro e positivo nas artes mágicas dos grupos a que pertencia - além da Sociedade Teosófica, Yeats integrava também a elite da Golden Dawn, dedicando especial atenção aos aspectos mágicos daquela sociedade. É neste período que Yeats escreve:

"Creio na prática e na filosofia daquilo que convencionamos chamar de magia; creio no que devemos chamar de evocação dos espíritos - ainda que eu não saiba qual a sua natureza; creio no poder de gerar ilusões; nas visões da verdade no mais profundo da mente quando os olhos estão fechados. E creio em três doutrinas que foram, penso eu, transmitidas desde tempos remotos, e que constituem os alicerces de quase todas as práticas mágicas.
Tais doutrinas são:
1) que as fronteiras de nossas mentes estão sempre em movimento, e que muitas mentes podem mesclar-se umas às outras, por assim dizer, para criar ou revelar uma única mente, uma única energia;
2) Que as fronteiras de nossas memórias também estão em movimento, e que nossas memórias são parte de uma memória maior - a memória da própria Natureza;
3) Que essa grande mente e essa grande memória podem ser evocadas através de símbolos."

Poucos autores dados a escrever sobre a magia e a espiritualidade foram tão suscintos e claros em descrever os fundamentos da espiritualidade, da magia e, por que não dizer, da psicologia. Os olhares mais educados identificam com facilidade nesse breve texto de Yeats princípios xamânicos, taoístas e jungianos - dentre outras correntes de pensamento.

O pedigree literário de WB Yeats é inquestionável: vencedor do Prêmio Nobel de Literatura (1923), sua poesia e sua obra teatral é de um requinte e uma densidade ímpares. A faceta ocultista e mágica de seu trabalho, compreensivelmente, permanece menos conhecida do grande público.

Pois vivendo na Londres do início do Século XX, Yeats é um dos poucos a fundir as duas vozes do druidismo daquele momento, naquele local: a mística e a poética. O folclore de sua Irlanda natal é o ingrediente que faltava para fazer dele um dos nomes mais importantes para o renascimento da Alma Celta através dos mitos e lendas das terras irlandesas.

Crepúsculo Celta

Ao lado de autores como Lady Augusta Gregory, J.M. Synge e Sean O'Casey, Yeats integra o movimento conhecido como Celtic Revival ou Celtic Twilight (O Crepúsculo Celta) - um movimento literário que visava, através do resgate das lendas e mitos do passado celta da Irlanda, resgatar a identidade cultural daquela nação após tantos séculos de dominação pelo Império Britânico.

Uma das mais pungentes obras desse movimento é a peça teatral "The Countess Kathleen". Originalmente um drama poético, o texto foi adaptado por Yeats para o palco em 1912, e é um resgate de temas mitológicos celtas adaptados à Irlanda de então e sua necessidade de lutar contra o invasor britânico. Numa carta a um amigo, Yeats afirma que, não fosse seus estudos sobre magia, ele simplesmente não teria sido capaz de escrever "The Countess Kathleen", pois "a vida mística está no centro de tudo que eu faço e penso e escrevo."

Seu envolvimento profundo com as lendas irlandesas levou-o a publicar uma série de livros preciosos nos quais relata as tradições folclóricas do interior rural da Irlanda - sobretudo do Condado de Sligo, no oeste, que a alma de Yeats fez de refúgio e fonte de inspiração.

A grande quantidade de irlandeses vivendo em Bedford Park - muitos deles diretamente ligados à Loja Teosófica de Chiswick e também à Golden Dawn - levou Yeats a conceber, junto a esses conterrâneos, a criação de uma ordem mágico-espiritual totalmente voltada para as tradições celtas - as quais ele, como autor e pesquisador, conhecia como poucos. Neste período, os temas "celtas" (tanto os legítimos quando os supostamente celtas) já exerciam grande fascínio entre os oculstistas (isso explica o fato de os líderes da Golden Dawn da época adotarem nomes "celtas").

Celtic Mystical Order

Entre os vizinhos e amigos de Yeats envolvidos com magia estavam Dorothea Hunter e seu esposo Edmund, além das atrizes Florence Farr (ao lado, encenando Countess Kathleen) e sua eterna musa Maud Gonne. Sob a liderança de Yeats, juntos eles conceberam a Celtic Mystical Order - Ordem Mística Celta -, um projeto que tinha por objetivo fazer germinar uma "nova espiritualidade celta" adequada para o novo século que se aproximava - um objetivo instigado em Yeats por seu amigo George Russell (conhecido nos círculos ocultistas como "Æ").

Os objetivos da Celtic Mystical Order disitinguiam-na das demais ordens mágicas da época :mais que uma somente outra aventura místico-mágica esotérica, a Celtic Order era parte de um grande e ambicioso plano para resgatar o glorioso passado celta da Irlanda para que ela conquistasse sua independência e prosperasse como a "Terra de Santos e Sábios" de outros tempos.

Em seus escritos, a atriz Maud Gonne relata uma dentre muitas práticas visionárias conduzidas por ele com vistas a resgatar os deuses e deusas celtas ancestrais: através de visões induzidas, ela entra em contato com Lugh e Brighid, recebe inspiração para rituais e práticas a serem adotados pela nova Ordem Mística Celta. MacGregor Mather e a já mencionada Florence Farr desenvolvem liturgias para as cerimônias da Ordem, e a coisa toda ganha vulto. Mas as experiências da Celtic Mystical Order duram pouco - logo a ideia é abandonada, e veremos a razão a seguir.

Injustiça Histórica

Autor de livros sobre lendas e mitos celtas; poeta e dramaturgo que, como os bardos celtas, trazia esses mitos para o presente; ocultista, estudioso da ritualística e praticante de magia; idealizador de uma ordem espiritual celta: isso tudo deixa evidente que Yeats é um dos mais capacitados - talvez o mais capacitado dentre todos os nomes que, no início do século XX, encontraram na Alma Celta a inspiração para seu trabalho.

Por que, então, o nome de Yeats não é mencionado em praticamente nenhum livro sobre o druidismo moderno? Por que sua inestimável contribuição e seus esforços para a restauração de uma espiritualidade verdadeiramente celta são assim negligenciados? A resposta é simples: porque ele próprio, ao ver o rumo que as coisas tomavam, abandonou a ideia.

Ao ver os egos inflados de algumas "lideranças" ocultistas, ao testemunhar as batalhas de ofensas, calúnias e mentiras a que alguns de seus companheiros mais próximos se dedicavam nos anos seguintes, Yeats desiludiu-se com o "metier" ocultista - tão preocupado com posições, nomenclaturas, hierarquias - e se afastou. Afastou-se desse universo, mas jamais de sua causa.

Afinal, a obra de William Butler Yeats foi fundamental para a recuperação de mitos e lendas da Irlanda que estavam ameaçados de desaparecer, fornecendo uma base sólida sobre a qual as gerações seguintes de pesquisadores e mitólogos pôde prosseguir no árduo trabalho de resgatar a memória celta de sua amada Irlanda - Irlanda que ele ajudou a tornar de fato independente, sendo eleito para a primeira sessão legislativa da história do Dáil, o Senado do Estado Livre Irlandês. Como poeta de visão, Yeats via além dos rótulos, títulos e indumentárias que seus colegas de ocultismo tanto apreciavam: como poeta, Yeats sabe que o que "conta não é a extensão, mas a profundidade", e despido de títulos ou pompa, seguiu seu caminho par se tornar, por sua arte e na política, um dos mais influentes irlandeses de todos os tempos.

Como faziam os Fíli (bardos irlandeses) de outros tempos, Yeats fez da palavra sua mais poderosa arma. Em um de seus poemas, ele execra - ao melhor estilo das sátiras dos antigos poetas - aqueles que, por pequenês de espírito, tentaram usurpar suas ideias e ideais:

"Fiz para minha Canção um manto
Coberto com ricos brocados
A partir de velhos mitos trançados
Cobrindo dos pés à garganta.

Mas esse manto foi por tolos tomado
Eles o vestiram aos olhos do mundo
Como se eles o tivessem lavrado.

Canção, deixa que o levem de vez
Pois há muito mais ousadia
Em andar em total nudez."

Sem a sensibilidade poética e o brilho da mente de Yeats, ao druidismo do início do século XX restavam os velhos místicos com suas ordens secretas e seus obsessivos rituais. Exceção feita à Celtic Mystical Order, poucos grupos ditos druídicos tinham grande preocupação com a historicidade e a coerência mitológica.

 

O Nascimento do Druidismo Moderno

Esse quadro só começa a mudar na década de 40, quando um estudioso escocês chamado Robert MacGregor-Reid, influenciado pela literatura da época, decide introduzir na sua ordem druídica elementos voltados ao paganismo apresentado por autores como Sir James Frazer e Margaret Murray. O druidismo começava a voltar para casa.

Nessa época, a visão distorcida dos druidas apresentada pelos autores do século XIX já não era mais aceita. Ninguém em sã consciência poderia continuar propagando noções de que os druidas eram canibais, por exemplo, ou que fossem descendentes de Noé... os avanços na antropologia e na arqueologia começavam a fornecer um quadro mais claro de quem haviam sido os verdadeiros druidas. Mais consistente, o druidismo agora atraía pessoas sérias e influentes, como o futuro-primeiro ministro britânico Sir Winston Churchill e a futura Rainha Elizabeth II.

Nessa época, Ross Nichols, membro da Ancient Order of Druids (AOD), desenvolvia extensivas pesquisas sobre o quanto se sabia então sobre o calendário celta, e apresentou à liderança da ordem textos que descreviam os festivais celtas. Sempre tradicionalistas (no mau sentido da palavra), os líderes da AOD recusaram-se a aceitar a sugestão de introduzir esses festivais no calendário das suas celebrações druídicas, pois “desde sempre a AOD celebra os solstícios e equinócios e nada mais.” Desolado, Nichols apresenta suas descobertas a outro membro da AOD, um folclorista e místico que, poucos anos depois, incluiria essa informação em sua maior criação: uma “antiga tradição celta” que teria sido preservada no interior da Inglaterra, por grupos fechados de bruxas. O nome desse folclorista era Gerald Gardner, e a tradição por ele criada é a wicca. Quanto a Nichols, em 1964 ele rompe com a AOD, muito fechada e elitista para seu gosto, e funda a Order of Bards, Ovates and Druids (OBOD). Finalmente, Nichols pôde reintroduzir os elementos celtas originais ao calendário druídico.

Druidismo Hoje

Nichols foi um prolífico escritor, e deixou um legado inestimável sobre druidismo. Seu sucessor, o atual líder Phillip Carr-Gomm, cristalizou os elementos pagãos da OBOD, ainda que a ordem mantenha um certo formalismo. Uma divisão da OBOD é a British Druid Order, ou BDO, fundada por Philip Shallcrass na virada dos anos 70. Pouco depois, Shallcrass conheceria uma jovem druidesa de cabelos negros e de grandeza de espírito proporcionalmente inversa à sua baixa estatura, uma jovem que mudaria o cenário do druidismo e se transformaria na maior figura do druidismo atual: Emma Restall Orr. Originalmente ligada à OBOD, Emma não se conformava com alguns anacronismos e posturas rígidas daquela ordem. Procurou Shallcrass, interessada em ingressar na BDO e, tão logo foi aceite, assumiu a co-liderança da Ordem. O que se seguiu foi uma revolução. Introduzindo as mais recentes descobertas da arqueologia e da história, a BDO apresenta um druidismo sólido, com fortes bases teóricas, mas livre do hermetismo e do ocultismo das outras tradições. Some-se a isso a sensibilidade de Emma Restall Orr, os fortes elementos xamânicos redescobertos pelos historiadores e temos um pacote completo. Para que se possa avaliar melhor, o eminente estudioso do paganismo Ronald Hutton, Professor Titular de História da Universidade de Bristol, é ele próprio um membro da Druid Network, e contribui assiduamente com suas pesquisas e conhecimentos.

É graças a essa filosofia de se desenvolver um druidismo responsável e historicamente embasado que logo a BDO se torna uma das mais fortes organizações druídicas da Inglaterra – e logo atrai associados em outros países. Esse processo de internacionalização do druidismo promovido pela BDO levou Emma Restall Orr a reformar a Ordem, deixando seu aspecto regional e tornando-a uma organização mais ampla, que visa a congregar grupos e indivíduos praticando o druidismo no mundo todo. Nascia a DRUID NETWORK.

Espalhada em praticamente todos os continentes, a Druid Network possui membros no Reino Unido, na Irlanda, nos Estados Unidos, no Canadá, na Alemanha, na França, na Austrália, na Nova Zelândia, Portugal e Brasil. Nem mesmo o afastamento de sua idealizadora tira o vigor dessa organização, pois desde sempre a Druid Netowrk estruturou-se para não depender dos esforços, carisma ou liderança de um único indivíduo.

Chegamos assim aos dias atuais. Através de mais de três milênios de história, a longa e sinuosa estrada do druidismo desemboca à nossa frente. Uma estrada por vezes clara, por vezes não mais do que uma trilha, por vezes duplicada, por vezes impossível de trilhar. Acima de tudo, porém, o druidismo atual é uma tradição espiritual válida, pois soube evoluir e se adaptar às necessidades de seu tempo. Como diz Jean Markale em Les Druides, “o que sobreviveu foram os princípios do druidismo, pois estes jamais poderiam desaparecer. E a partir deles surge a busca apaixonada do neo-druidismo”. E como diz Emma Restall Orr em Ritual: um guia para a vida, o amor e a inspiração,

"o druidismo é uma espiritualidade profundamente arraigada na terra, mas que se renova a cada novo amanhecer. É uma tradição que honra nossa terra, os mundos interno e externo, os espíritos da terra, do mar e dos céus, os espíritos de nossos ancestrais; é uma filosofia que possui em sua essência a exploração da relação sagrada, de espírito para espírito."

Uma definição viva, pulsante de energia, que mostra a alma do druidismo moderno.

© 2002, 2005, 2007, 2011- Claudio Quintino Crow – Trechos do texto retirados da Apostila “Druidismo – História do Druidismo”
Registrado na Biblioteca Nacional – Lei Federal 9.610/98.
Proibida a reprodução total ou parcial da obra sem a prévia e expressa autorização por escrito do autor.

Segue para: Viver o Druidismo Hoje

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